Olhos de cão – IV

Hoje o Lumpen foi castrado. Estranho.

Acordei antes do despertador. Não sabia como ele reagiria. Na hora da coleira, eu sabia, era o Lumpen, o cachorro-lumpen, o caos. Liguei pra carona que consegui, sem resposta. Me preocupei um pouco. Resolvi sair com ele, dar uma volta. A carona ligou, iria atrasar um pouco. Sem problemas. Liguei no veterinário e sem problemas.

Andamos pelo quarteirão de casa, aproveitei e passei no banco. Lumpen entrou comigo, quis latir pro vidro. Nem oito da manhã direito. Fui rápido, e saímos. Mais uma volta e a carona chegou. Enfiei ele no carro, era a primeira vez dele num carro. Achei que ia vomitar, não vomitou.

Chegamos na clínica, na zona norte. Perto da avenida Imirim. Lembrei do Lipe e da minha adolescência, estudante, depois punk, primeiro jogando bola, depois também ensaiando e tocando, andando por aqueles lados. Há um certo charme na zona norte, me agrada, moraria lá, sim.

A clínica tinha uma fila em direção à recepção, todos com o papel da prefeitura do programa de castração gratuita e cães e gatos a tira colo. Tentando controlá-los, que bicho nem sabe o que é fila. Bicho não faz fila, fila é coisa de gente. Gente burra.

Descobri como era o esquema e vi que demoraria. Dispensei a carona, entrei na fila. Lumpen puxava, puxava, puxava. Difícil fazer ele ficar quieto, mas depois de um tempo deitou. Levantava a cada bicho novo que entrava aquela salinha de 7m x 5m, mas puxava cada vez menos. Enquanto esperava, eu percebia o protocolo: primeiro a ficha, um barbante com número. Lumpen deixou de ser Lumpen, agora era 18. Dezoito.

Quando chamado, foi pesado, e recebeu uma pré-anestesia. Saímos e em pouco tempo seus olhos ficaram pequenos, como o de outros cães. Os gatos não via, todos dentro de caixas, que gato foge de gente e de agulha mais que cachorro. Muita gente não gosta de gato, diz que é traiçoeiro, que foge; entretanto nós humanos fazemos fila pra que bichos virem números e tenham tolhidas sua libido, seus órgãos reprodutivos, impedindo definitivamente a razão principal de sua existência: reproduzir.

É pro bem deles, o discurso é esse. Na verdade não. É pra nossa conveniência. Pra que deixem de ser tão ariscos, tão dominadores, marcar território. Pra que não entrem no cio, não busquem o cio. Castrando evita-se a piometra e o câncer de mama nas fêmeas; doenças proliferadas porque insistimos em ter bichos. Ter, possuir. E castrar.

Não tenho vergonha nenhuma em dizer que gosto mais de cães do que de gente. Nem acho que isso é sintoma de depressão, fase da adolescência, solidão ou carência. Cães são animais simples e paradoxais na sua relação conosco. Gosto de cães porque entendo o que fazem, porque fazem, quando fazem. Gosto de cães porque não tenho que me explicar pra eles. Gosto porque é simples, é afeto, afeto puro. Achar isso brega, ridículo ou depressivo é que deveria ser considerado um problema.

Lumpen desabou aos meus pés. Sua hiperatividade desapareceu por uma meia hora, enquanto voltava a ser Dezoito a espera de sua vez pra deixar de vez de ser Lumpen. Aquilo me incomodava, dava um nó na garganta. Todos aqueles bichos, e pensar que naquela clínica era assim todo dia. Castra-se pra evitar novos bichos; entretanto, cada um daqueles donos de animais domésticos – houve um tempo, não faz muito, que tínhamos escravos domésticos; aliás, família deriva de famulus, grego ou romano ou latim, foda-se, pra escravo doméstico – amava seus bichos, tinha outros bichos e provavelmente ainda terá mais alguns. Um garoto de seus seis ou sete anos passeava com um filhote de seus vinte ou trinta dias no colo. Chegaria sua vez de ser castrado. Chegaria a dele de ser seu dono. Não hoje.

Dezoito foi chamado outra vez. Levantei seus dezenove quilos e meio no colo pra colocar sobre a mesa de metal. Segurei sua cabeça contra o meu peito pra que a anestesia fosse aplicada na veia da pata direita dianteira, e em segundos ele estava desacordado. Outras duas injeções lhe foram aplicadas, sua cabeça tombou, a língua de fora, como morto. Eu nunca, nunca, nunca nessa vida serei capaz de sacrificar um animal. Saí da sala ofegando, lágrimas contidas. Saí da clínica pra respirar. A fila tinha aumentado.

Atravessei a rua e entrei num boteco. Pedi um pão e um café, tentei tirar a mente dali. Sabia que a castração era segura (pra mim), mas a imagem de Lumpen desacordado e de língua de fora me incomodava. Voltei pra clínica, passeava aflito entre outros donos e donas que roíam as unhas. Uma mulher se referia a nós como pais, e aos bichos como filhos; não pude deixar de pensar na idéia de castrar um filho. Lumpen não é filho, nunca será, nem meu nem de ninguém, porque bicho não tem esse tipo de relação com ninguém. Mania idiota de ser humano inseguro, transformar todo tipo de relação no tipo mais comum que conhece, a família, e ao mesmo tempo o mais escravizador e opressor possível. A base de tudo, dos ataques aéreos à Gaza, dos estupros diários pelo mundo, da domesticação de outras espécies, da castração alheia pra evitar problemas. Que espécie, somos.

Alguns minutos depois Dezoito voltou a ser chamado. Agora não era mais Lumpen, era eu. Recebi instruções de cuidados pós-operatórios, comprei remédios. Entrei na sala onde os cães e gatos adormecidos aguardavam a vez pra voltar a ter nome. Quer dizer, nós é que temos seus nomes, eles irão morrer sem saber o que é isso. Falo dos outros e humanizo as relações igual. Patético.

Na gaiola, Lumpen está de olhos abertos, mas sem forças. Lembro de mim mesmo quando tirei baço e vesícula aos nove anos, acordando na sala de pós-operação sozinho, sem forças pra levantar ou gritar que estava acordado, vivo, sozinho. Me viu e balançou o rabo com toda a pouca força que tinha. Impossível, desculpem-me, impossível mesmo não lembrar de meu pai.

Pedi à enfermeira um colar pra que ele não tentasse mais tarde arrancar os pontos. Peguei-o com todo o cuidado do mundo, pesado, e saí desnorteado daquela sala como quem sai de uma trincheira carregando um amigo ferido pela guerra. Atordoado mesmo, a mulher do “pais e filhos” me disse que estava segurando ele errado, poderia abrir o ponto. Me desesperei um tanto, um rapaz me ajudou a segurá-lo direito. Fui pra fora da clínica, Lumpen no colo, e a carona não tinha chego ainda. Entrei de volta, sentei no chão com Lumpen no colo. Tinha vontade de chorar. Já gritei muito com Lumpen, dei esporro, briguei, e toda vez que tenho que fazer isso (tenho?) me sinto mal. O que ele estaria fazendo de errado? Punimos os cães por simplesmente serem cães. Castramos pra que não produzam outros cães que irão querer ser cães, e pra que parem de mijar no pé da importantíssima mesa da sala, ou do sofá. Que espécie, que espécie.

Voltei e pedi pra deixá-lo mais um pouco lá dentro, “dez minutos pro carro chegar”, mas a máquina de castrações não pára, a fila anda e seu lugar já foi tomado. O rapaz da ajuda anterior me olha e oferece lugar no banco. Coloco Lumpen deitado e me agacho de cócoras pra que ele se assegure de que estou ali. Que crime cometemos todos os dias ao fazer outras espécies acreditarem que somos seus guardiões, sua segurança, seu porto seguro. Não sabemos nem o que fazer com a nossa.

A carona chegou e no carro Lumpen já tentava voltar a estar de pé. Ainda nada. De princípio tentei contê-lo, depois pensei que tinha dor como eu tinha tido tantas vezes e deixei que ficasse como quisesse. O corpo é dele, o conforto é dele. Comentei com o carona que tinham instalado um microchip nele, ele me disse que leu em algum canto que nos Estados Unidos há gente se auto-instalando microchip por medo de sequestro. Não gosto de me repetir, mas porra, que merda de espécie somos? Que merda?

Cheguei em casa e subi com Lumpen pra lavanderia. Limpei, trouxe sua casinha, comida e água. Não pode descer escadas nem subir sofás. Aos poucos ele voltou da anestesia. Quieto, olhar triste, adormecido, dolorido. Parece não entender o dia de hoje, o que aconteceu. Parece não, não entende: entendesse, e ao invés de buscar asilo no meu olhar fugiria dele pra todo o sempre.

Quando operei, e foram várias vezes, tive companhia no quarto do hospital. Já fui companhia algumas vezes igual. Então desci pro meu quarto, peguei colchão e travesseiro e me instalei ao lado da casinha de Lumpen.

Dizem que cachorros não choram como humanos, porque seus olhos não lacrimejam.

Mentira, Lumpen. Quando você me olha, são suas as lágrimas que vê correr.

Que idiota. Que espécie.

Mutilei um cachorro. Um cachorro que ouso chamar de meu. Que me obedece e responde aos meus comandos, e enquanto escrevo se aninha junto às minhas pernas trocando calor.

No fundo, no fundo, entendo tanto quanto ele o porquê.

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8 Respostas para “Olhos de cão – IV

  1. Gosto da crítica ao “termos cachorro”, chegará o dia em que eles poderão ser eles mesmos, como já assim o foram… mas não concordo quando diz que se castra para evitar que mijem no tapete ou nos pés da mesa… acabou fugindo do real motivo argumentado por quem defende a castração que vai bem além do que apenas isso

  2. Oi Oman, recebi seu texto através do grupo svb Curitiba. Me senti da mesma forma em relação à Moccha… Também me arrependi várias vezes mas também pensei que se eu resolvi possuir um animal de estimação, possuir, que terrível… nesses nossos cárceres amorosos. Então acho que tomamos a melhor decisão, não gostaria de ter que entregar filhotes a adoção para pessoas que talvez não cuidassem bem dessas vidas. Então acho que essa é mesmo a melhor solução dentre as piores soluções… Abraços Shanti

  3. Acompanho seus textos a muito tempo, e não esperava nada a menos do que isto. Pena que a vida nos impede de nos dedicarmos mais à escrever e a ler.
    Abraços

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