Trinta

“Ao recordar, não existe ninguém que não se encontre consigo mesmo.”
(Jorge Luis Borges)

Quando completei trinta anos, ganhei flores de aniversário. De um amigo. E foi o presente mais bonito, mesmo que oficialmente dois dias antes.

Esse amigo é novo, relativamente. Relativamente aos trinta anos. Há outros mais velhos, amigos, e anos. Esses trinta chegam novos, mas nunca sozinhos ou em branco. Carregam os outros vinte e nove, mesmo que muitos desses não se lembrem.

Os trinta carregam também muitos outros trinta, felizes como os de Elivélton, ou tristes como os de Evair. Os trinta de Viola, que foram menos de trinta, daquela vez na América frente aos italianos. Trinta mil histórias e anotações que foram, e vieram, e voltam e voltaram, e voltarão ainda trinta mil vezes mais.

Na minha trigésima festa, apareceram cerca de umas trinta pessoas. Como que para martelar, trinta, trinta, trinta. Uma nova década, já que completo trinta e já inicio os trinta e um, par de um lado e ímpar do outro, eu que sempre gostei mais do ímpar mas nunca consegui ser de verdade sem o par. E houve pavê, e música, e abraços e risadas, e me senti leve como das outras trinta vezes – ou vinte e nove.

Há quem diga que a vida começa aos trinta. Há quem diga que os trinta iniciam a decadência. Não sei. Sei que estão todos aqui, os trinta, e com eles muita gente que não esteve mas estava lá, e um outro monte que faz uma falta inenarrável, ou uma falta do caralho pra ser um pouco mais direto.

E passam as coisas de volta, de trás, e na ponta dos pés tentei olhar por cima do muro as coisas que vem e vêem pela frente.

Meu aniversário de trinta anos, mesmo, passei como um dia normal. Passeei com os cachorros, comi com a mãe, fui a uma reunião, andei pela cidade a qual me acostumei, “como quem se acostuma ao próprio corpo ou a uma velha doença”. E abracei meu pai na infinitude da sua memória, e beijei minha mãe na plenitude de seu companheirismo. E sorri.

Porque, sabe, trinta anos é muita coisa.

Então vou ali, dançar com as palavras. Que meu nome tem trinta letras: um ano pra cada.

Me encontrem no próximo artigo indefinido.

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4 Respostas para “Trinta

  1. Que lindo Mandz…

  2. Mandi, arrasou, cara…tudo bem se eu postar no fb e dizer que fui que escrevi?haha…..Brincando, mas me identifiquei….30 vezes!Felicidades…bjos

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