O título da perda

Entrei no Pacaembu com a camisa 8 da Democracia. E uma faixa na cabeça. Homenagem, ainda que pequena, ao que poderia vir a ser o título da perda. Nunca a perda do título, que ontem não poderia ser. Nem que tivéssemos que invadir o campo.

Foi difícil ver aquele “derby” num estádio tão fascistamente controlado, onde nem a festa pós-jogo teve espaço sem bombas e cassetetes. O futebol em São Paulo definha, e prova disso é que subi as arquibancadas e demorei uns 15 minutos pra lembrar que era jogo contra o Palmeiras, tão pequena, distante e alheia do resto do estádio estava a torcida alviverde.

O jogo foi um lixo, o futebol esteve de luto. Nada mais digno para o dia de ontem. Sócrates vale mais que 30 brasileiros, 50 Libertadores e 300000 Copas do Mundo. Se tivéssemos na história mais 2 Sócrates que fossem, poderia ser que o futebol de hoje não caminhasse cada vez mais pra onde caminha. Poderia ser, mas não foi e não será.

Curiosamente ou não, Sócrates morreu com 57 anos. Meu pai com 59. Ambos entubados e fazendo diálise. Ambos em dias em que o Corinthians foi campeão. Ambos enormes em minha mente, sempre.

Não cheguei a vê-lo jogar ao vivo, com ou sem a camisa do Corinthians. Mas ontem foi impossível, em meio a um jogo tão ruim, não olhar pro gramado em alguns momentos e viajar imaginando as tabelas com Casão, os calcanhares, o punho levantado.

Foi tocante ver todo o estádio, menos os jogadores do Palmeiras (provando o quanto jogadores como Sócrates fazem falta) com os punhos levantados. Não chorei. Mas doeu, e ainda dói.

Foi sim como perder um segundo pai.

O mais perto de Sócrates que cheguei fisicamente foi ao telefone, convidando-o em agosto para um debate. Foi gentil, embora duro e desconfiado, em dizer que não poderia comparecer. Não disse porquê. Depois, quando entrevistei o zagueiro Paulo André, amigo pessoal de sua esposa, descobri: era a saúde. Dias depois e estava internado por conta da cirrose. Superou, e foi morrer por conta de uma infecção alimentar…

Perdê-lo tão cedo, e num momento em que tão poucas vozes se ouvem contra os absurdos da Copa de 2014, foi um golpe duro.

Uma vez um amigo me chamou de “Mandiócrates”, pela magreza e cabelo parecidos. E pela admiração que tenho por ele. Agora, carregar esse apelido será uma forma de manter a memória dele. Porque, como disse um outro amigo, se depender da diretoria do Corinthians, ele terá menos importância do que qualquer coisa que Ronaldo fizer, basta ver as condolências ridículas do patético Andrés Sanchez.

Não vou desejar que o Doutor descanse em paz. Ele sempre foi de luta. Paz num mundo desigual é para os fracos, os covardes e os mau caráteres. Fique conosco, Magrão, por quanto tempo for possível. Precisamos de ti cada dia mais. Pode ter certeza que, por aqui, faremos sempre o possível pra não esquecer nem desmerecer a tua luta.

E vamos Corinthians, que, como nos ensinou o time capitaneado por você no ano em que nasci, São Jorge é um santo coletivo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s