Da automedicina ou O gesso mais curto da minha vida

Acordei cedo para uma consulta indesejada. Um ortopedista especialista em mãos, cirurgião de mãos. Em fase final de campeonato, não era hora de correr o risco de ouvir algo que não queria.

Eram 6h45 quando levantei. 7h25 quando entrei no metrô. Às 8h retirava a tomografia. 8h20 entrava na sala do médico.

História contada, a bolada, o tombo, a irresponsabilidade de tocar bateria no mesmo dia, o erro do primeiro médico, a conduta do segundo, a teimosia em trabalhar tendo licença pra mais de 15 dias.

O especialista, daqueles que são especialistas em seguir protocolos, deu a sentença: injeção antiinflamatória e gesso. Mais 15 dias de gesso, depois dos 7 que já tinha passado há duas semanas e depois de estar com uma tala/órtese móvel desde o dia 10/11. Depois do gesso, dizia ele, fisioterapia. Retorno em 08/12. Dois dias antes de uma possível final.

Questionei se era mesmo necessário engessar novamente. Me disse que sim, porque a órtese móvel eu ficaria tirando toda hora e mexendo o que não devia, “tirar pra ir pra balada”. Quis mandá-lo à merda. Minha órtese fede de tanto que eu a utilizo. Só tiro pra tomar banho. E hoje nem banho tomei.

Saí do consultório e fiquei aguardando o gesso. Pensei em evadir, seguir o tratamento do médico não-especialista: 6 semanas de órtese e depois fisioterapia. Já tinham sido duas, mais quatro. Um tratamento mais humano e menos protocolar. Que leva em conta as vontades e necessidades do paciente. Menos duro.

Faltou coragem. Escrevi mensagem à mãe e à namorada, “engessado de novo, que merda”. O celular não quis enviá-las. Talvez prevendo algo.

Me chamou, o rapaz do gesso.

Resignei-me. “Futebol se joga com os pés”. Vai ver dá pra jogar de todo jeito.

Na sala de gesso, lembrei do gesso mal-feito da última vez. Da pontinha espremendo o dedão. Deixei o rapaz de sobreaviso. Pareceu ofendido. Foda-se, eu não preciso sentir desconforto porque um cara que treinou pra fazer aquilo faz de má vontade. Começou a engessar e me surpreendi: não era nem uma tala, era gesso inteiro, por completo. Impossibilitava tudo. Futebol, amarrar o cadarço, tomar banho dignamente. Almoçar. Não. Não, de novo não.

Saí da sala de gesso e fui para a de injeção. “Vai doer um pouquinho”, disse o enfermeiro. Sem saber das doses de benzetacyl que tomei de 21 em 21 dias quando criança. Doença congênita, tirei baço e vesícula com 9 anos. Precisei tomar.

A injeção simplesmente não doeu. Nada.

Saí do hospital já sabendo o que iria fazer. Só precisava do tempo do ônibus pra me convencer de que estava certo.

O próprio médico disse, seu caso não é grave. As duas semanas de órtese melhoraram muito a dor, mesmo com a teimosia de trabalhar e digitar esse tempo todo. Mesmo tendo jogado bola e caído.

Reta final de campeonato. Três jogos e talvez um título aguardado há 3 anos.

Ninguém pode saber mais do meu corpo do que eu. Autônomo.

Cheguei em casa e tirei a camiseta. Nem o tênis, nem a calça. Procurei que nem louco uma tesoura. Achei uma mais ou menos. Fui para o banheiro. Liguei o chuveiro e enfiei o gesso na água quente.

Não seria fácil, eu sabia. A tesoura era uma merda. Não cortava. O gesso vencia. Era pedra, e aquilo não era joquempô pra resolver com papel. O banheiro molhava, minha calça e tênis respingados de branco. Achei outra tesoura. Pior ainda. Quebrou.

O gesso amolecia. Eu cortava, puxava, tentava usar a força. A luva aos poucos cedia. Já não tinha volta. Veio a terceira tesoura, tesourinha de unha. Ajudou mas quase nada. A raiva subia à cabeça. Porque não me recusei a fazer aquela merda? Teria poupado esforço e estresse.

Peguei de novo a primeira tesoura. Arrumei um jeito melhor de cortar. Cortava e também puxava, tentava vencer o osso do dedão à força. Nada. Um corte numa extremidade, outro na outra. Precisavam se encontrar.

Concentrei esforços naquela linha imaginária. Ligue os pontos. Deixei a água mais quente. Cabelo molhado. Calça, tênis, chão do banheiro. Um pouco mais, só um pouco mais.

Eram 10h25 quando terminei de traçar meu Equador da liberdade.

Era oficial: eu estava novamente escalado para o jogo de sábado.

“Futebol se joga com os pés”. E com a mente.

Antes, durante e depois do jogo.

O departamento médico que me aguarde. Eu volto, sei que volto. Mas não haverá nesse mundo norma de conduta que consiga me convencer de que o especialista sabe mais do meu corpo do que eu.

Sou eu. O especialista do meu corpo, sou eu.

Futebol, ao sol e ao gesso.

Ó abre alas, que eu quero jogar.

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3 Respostas para “Da automedicina ou O gesso mais curto da minha vida

  1. … Mais louco é quem me diz… e não é FELIZ!!!

  2. É nóis, Mandz! Em busca do título! Não deixa essa rapaziada do avental atrasar a corrida não!

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