Da ausência

(dedicado a Isabella Targas; Isa, a ausência fica, mas a dor um dia se transforma naquele peso necessário pra gente poder medir direito o tamanho das coisas)

É na ausência, de fato, que de fato sentimos. Sentimos vazios, sentimos o vazio.

Zazá era uma cachorrinha alegre, uma poodle toy que não parava quieta. Daquelas que tremem no colo quando carregadas e afagadas. Era tocar o interfone da casa e, já no elevador, ouvir os latidos vindos do 6º andar, tão possante eram suas cordas vocais.

Zazá carregava a alma daquela casa. Tinha vindo parar ali pra fazer parte da história enorme de uma mulher de, naquele então, 80 anos de idade. E muitas coisas, causos, pessoas e sentimentos pra contar. Zazá fazia a ponte entre a História daquela mulher e a Geografia de uma cidade que cada vez mais lhe permitia menos participação. E assim supriam mutuamente as carências uma da outra. E ambas do resto da família.

Mas, envelhecemos. É lei. É fato. É natural. Tão natural quanto não é viver numa sociedade isoladora. Desoladora.

Cachorros não sabem viver sozinhos. São incapazes. Cachorros precisam de convívio, contato e troca. Humanos, bem, fingem saber como ser sós, mas em última instância, aquela que importa mesmo, são bem piores do que cachorros.
Então viviam ali naquele apartamento, a mulher de 80 e poucos anos e a cachorra de 180 batimentos cardíacos por minuto.

Acontece que as coisas naturais nem sempre querem saber de apegos e sentimentos. E é natural que cachorros vivam menos que humanos, em média. Assim como acontece de pessoas, humanas ou não, morrerem inesperadamente.

Dormiam, a mulher, já com 90 anos, a cachorra, com seus quase 10, e a Cris. A Cris era uma daquelas milhões de pessoas que o mundo insiste em tratar como paisagem, mas que no fundo são o coração de tudo. Era já de madrugada quando ouviram a cachorra ganir. De dor, mesmo. E tentaram acudir, como podiam, o desespero final daquele ser tão pequenino que carregava consigo uma alma tão gigante. A alma da casa. O rompante de vida dentro daquela caixa de concreto inanimado.

Do alto do abismo existente entre o que é possível e o que desejamos, fizeram toda a força do mundo para que Zazá se sentisse confortável. Fizeram por ela o que cada olhar carente, cada lambida no rosto e cada rabo abanado haviam feito pelas duas naquele tempo todo. Mas Zazá partiu.

Fora de casa, é mais difícil percebermos com tanto tato mudanças espaciais significativas. Dentro, cada cadeira fora do lugar chama a atenção. Nossa casa, assim como os espaços que vivenciamos, se transformam aos poucos em lugar. Lugar seguro, confortável. Assim era aquela casa: um lugar seguro e confortável. Como toda casa de vó deve(ria) ser.

No dia seguinte, então, foi muito difícil visitar minha vó. Foi difícil entrar no corredor daquele prédio e não ouvir latidos, abrir a porta e não ter unhas a arranhar, nem barulho, nem lambidas, nem aquele desespero natural de cachorro que faz expandir qualquer coração que tenha minimamente a capacidade de cuidar e querer cuidar da carência alheia. Foi difícil ver aquela senhora tão enorme chorar por Zazá, por não poder ter feito mais.

Ninguém poderia, vó.

O apartamento continua, você ainda está de pé. A cada latido ausente, sei que o coração bate um pouco menos. O meu também. O silêncio do elevador traz lembranças indeléveis, é verdade. O mundo como está é feito para perdermos mais do que ganharmos. “A gente parece que fica mais duro, mas na verdade não é isso, é só menos desesperado”. A ausência pesa, e faz lembrar do título do livro famoso: a insustentável leveza do ser. Zazá era insustentavelmente leve. Assim como o mundo como está é insustentavelmente pesado.

Nada mais justo, então, do que chorar a cada perda, pra depois poder sorrir por toda a lembrança.

Vó, na sua casa, todos somos Zazá. Todos latimos de felicidade a cada pedacinho de colo que você nos dá. Desde, e para, sempre.

Mesmo que insustentavelmente.

“na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.”

(José Luís Peixoto)

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