Dia de sábado

Passou a bola pro meia-direita e gritou, devolve. Recebeu, perto da linha de fundo. Vai cruzar, é o que todo mundo pensa, sempre. Não cruzou. Cortou pra dentro, conseguiu algum ângulo pra chutar, mesmo que de pé esquerdo. Foda-se. Desceu o cacete na bola e ela entrou no cantinho, raspando a trave. Um golaço, que todos os outros dez espectadores favoráveis ao seu time – o resto dele – aplaudiram com fervor. Uma pena que não tivesse sido num Maracanã lotado, com certeza entraria pros gols mais bonitos da rodada, quiçá do ano. Mas ele sabia que era assim, futebol de várzea, de verdade, não tem torcida quase nunca. Arquibancada menos ainda. Sem falar do uniforme, cada meião de uma cor, um azul, outro preto, o goleiro sem luvas. Nem precisava. Era tanta parafernália naqueles jogos do futebol profissional que ele não suportava nem pensar em uma câmera ali filmando, nem que fosse daquelas Super-8 antigas. Quem tinha visto o golaço tinha, quem não tinha, nunca mais.

Dia de sábado era assim. Quer dizer, ele não fazia gol sempre, muito menos golaço, que lateral-direito só de vez em quando tem uma chance de marcar. Mas todo sábado ele saía de casa carregando o jogo de camisas pra encontrar os outros dez, que quase nunca eram os mesmos, e ir pra algum campinho dos que ainda existiam na cidade. Na verdade, imaginava, essa coisa de dizer que os campos sumiram não é assim tão verdade, as pessoas que não procuram mais direito. Em dois meses eles já tinham conhecido cinco diferentes, só ali pelo bairro. Vai ver ninguém tem mais tempo pra jogar bola, pensou, e também todos esses prédios e carros, condomínios privados, a molecada vive agora é no cimento, futebol de salão. Isso quando não prefere gastar o tempo que tem vendo jogo pela TV, desses profissionais. Algo que ele não entendia. Os narradores eram ruins, cegos, burros. Os comentaristas mais pareciam gravadores, repetiam sempre a mesma coisa, tem que jogar pelas pontas, correr atrás do prejuízo, onde já se viu. Trabalhava tanto pra fugir do prejuízo e vinha uma anta daquelas dizer pra correr atrás. Se fosse um Desafio ao Galo, quem sabe, até ligaria a TV, aquilo sim era divertido. Futebol profissional não, era demais, preferia mil vezes voltar pra casa enlameado por causa da chuva no campo de terra batida do que assistir aquele monte de propaganda em tudo quanto é canto, camisa, meião, chuteira, até na luva do goleiro. É claro que quando criança sonhara em jogar nos grandes estádios do mundo, Maracanã, Pacaembu, quem sabe um San Siro ou um Camp Nou, Monumental de Nuñez. Mas imagina só, dar entrevista pra esses repórteres altamente idiotas, ia acabar passando por antipático. E aguentar jogador estrela então, nem pensar, marmanjo querendo dar uma de madame não era com ele, mesmo. Aquilo não era mais jogo, era um circo, futebol mesmo estava na várzea, tinha certeza.

É claro que, bem, dentro do time ali também existia uma relação de poder, ele sabia. Não era por acaso que o meia-direita habilidoso preferia às vezes não tocar pra ele, mesmo que estivesse livre. Sabia que era considerado inferior dentro do jogo, que cobravam mais dele do que confiavam. E aguentava quieto, porque estava feliz em jogar, apesar de incomodado às vezes, não era pra ser assim. Será que até aqui aquele bando de propaganda sobe na cabeça da meninada, pensava, devia ser isso, eram todos muito novos e muito enfiados em casa, assistindo aqueles comerciais. Mas não era por mal, eram bons meninos, companheiros, mesmo que na hora das faltas cada um deles se sentisse um Beckham. Beckham, vê se pode, olha quem eles tem como exemplo de batedor de faltas, nunca tinham visto um Zico, um Rivelino. É, ele também não tinha, mas seu pai sempre contava, e ele escutava, e via os videotapes da Copa de 70 como quem assiste a uma obra-prima da humanidade, uma das sete maravilhas do mundo. Era aquilo que ele tinha na memória, mesmo que fosse uma memória de algo que ele nunca viveu, pelo menos não presencialmente. Uma história que ele escutou e recriou como sendo sua, e quem pode dizer que não era? Conhecimento se faz assim, de pai pra filho, de história em história, a tal da sabedoria do povo, não com essa coisa de tira-teima, eu vi, pai, eu vi, dez centímetros impedido, nada disso. Imagina se um treco desses mostra que quando o meia-direita devolveu a bola ele estava sete centímetros na frente do último zagueiro? Não, aquele gol era dele, só dele e de quem tinha visto, nenhum aparelho eletrônico podia mais tirar, um a zero aos trinta e cinco do segundo tempo, e que golaço. Colocou a camisa pra dentro do calção de novo, enxugou o suor da testa, olhou pra arquibancada convencido de que qualquer um dos 150 mil espectadores ausentes teria dito que aquele gol tinha valido o ingresso.

E foi marcar o ponta-esquerda.

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