Do afago

Acordava e ele já não estava mais lá, todo dia era assim – em compensação, aquela cachorra espoleta não podia nem ver ela abrir os olhos que já vinha toda cheia de lambida e esfregação, subindo na cama logo pela manhã. Dava um safanão na coitada, que era pra espantar de uma vez as lambidas e a amargura, e voltava a dormir, ou pelo menos tentava. Entre outras coisas, não queria levantar porque sabia que no momento em que levantasse começaria a ser seguida pela casa toda, fizesse o que fizesse, por aqueles olhos pidões, o rabo abanando, as orelhas em pé. Incrível como esse bicho é carente, não podia nem ir ao banheiro, era fechar a porta e começar a escutar aquele chorinho doído, baixinho, que até fazia o xixi sair mais rápido, de culpa. Pior quando resolvia cozinhar, porque aí a cachorra era esperta, sentava em frente à pia e ficava esperando qualquer coisa que caísse, uma casca, um papelzinho, até mesmo cebola ela pegava, mesmo que depois ficasse espirrando enquanto mastigava, era até engraçado.

Passava a tarde sozinha, ela e a cachorra, ela vendo aqueles programas de baixaria e a cachorra pedindo, ora carinho, ora comida, ora atenção, brincalhona que era. Tirava os chinelos pra por os pés em cima do sofá e, quando olhava, lá estava ela, na casinha, roendo a borracha e abanando o rabo. Vinha a bronca, um tapinha que é pra ela aprender, e os olhos da bicha ficavam naquela tristeza, de quem não sabe porque está apanhando. Não se deixava comover, que cachorro é bicho safado, e voltava logo pra TV, pra não perder as notícias sobre aquela artista nova que estava de namorico com o astro da novela das oito, como pode, um cara tão mais velho que ela.

Lá pelas quatro da tarde a cachorra explodia. Não sabia mais se era ela que acostumara com a correria da danada, ou se era a cachorra que tinha se acostumado com aquele horário, esperta que era. Sabia que ela não aguentava a bagunça e logo pegava a coleira, e pronto, iam passear. Não gostava de passear com bicho, onde já se viu, se um ser de outro planeta visse aquilo ia achar que quem mandava era o bicho, que cagava onde queria e deixava pra ela a responsabilidade de recolher. Mas achava mil vezes melhor sair com a cachorra do que ter que limpar cocô de bicho dentro de casa, aquele cheiro ruim, também, essa cachorra come tudo que cai no chão, só pode. Davam uma volta no quarteirão e pronto, ela cansava, de tanto tentar pular nas pessoas e cheirar os outros cachorros, que também passeavam por aquele horário. Vai ver era uma coisa da espécie, um combinado genético feito pra que pudessem todos se livrar da prisão domiciliar e ter um lugar de encontro, na rua, àquele horário. Era forte, a danada, ela tinha que dar uns trancos na coleira a todo instante, que senão a bicha atravessava a rua no lugar errado, ou entrava na garagem semi-aberta de onde acabara de sair mais um carro.

Na volta pra casa, ao menos, sabia que a cachorra ia dormir, não sem antes correr todos os cômodos pra checar seu território, ver se ainda era o mesmo. Cheirava aqui e ali, bebia água, subia na cama, sai daí, bicho safado, descia, encostava no pé do sofá e dormia. Era o sinal, pra ela: estava na hora de fazer a janta, que logo ele ia chegar. Todo dia pensava em fazer algo especial, pra ver se ele se animava, que o trabalho cansa as pessoas. E cozinhava cantarolando uma música qualquer, a última que tivesse grudado na mente, tantas vezes que a ouvira na rádio, na TV, na lojinha de um-e-noventa-e-nove, no supermercado. As rádios pareciam reforçar a sensação de que os dias eram todos iguais, tocavam sempre a mesma música, num totalitarismo sonoro que conquistava palmo a palmo os lugares da mente que não estivessem ocupados com as musiquinhas de comercial. Ou vai ver as músicas que hoje em dia eram todas iguais, vai saber. Acabava que a janta saía quase sempre a mesma.

Perto das sete horas, a panela de pressão assobiava, como um sinal de fábrica: a janta estava pronta, e ele estava pra chegar. Tomava um banho, que era pra tirar o suor e o cheiro de alho, e arrumava a mesa, duas facas, dois garfos, dois copos, dois pratos, tudo era dobrado, um pra cada um, e a cachorra, a essa hora já acordada pelo cheiro que vinha da cozinha, tentando subir nas duas cadeiras, sai daí, bicho safado. Ficavam as duas a esperar, os olhos na mesa e os ouvidos na porta, condicionadas que eram pelo estalar da  fechadura. Às sete e quinze, quando ele entrava, era a cachorra a primeira a dizer oi, com as mesmas lambidas e chorinhos da manhã, que pra bicho as horas não fazem sentido, hora de dormir, de comer, de brincar. Ele recebia a danada com festa, nem sempre muita, mas o suficiente pra fazer com que ela largasse sua perna e subisse no sofá, com a bolinha entre os dentes. Ela, que era humana e sabia se controlar, esperava a festa acabar, sentada no sofá, olhos fixos na TV, disfarçando a esperança de que o beijo dessa vez fosse na boca, e não na testa.

Mas não era, e depois daquele oi gelado ele sempre ia pra frente do computador – era como se os cheiros, da janta, da cachorra e do perfume dela, de banho tomado, passassem em branco pelas suas narinas, cansadas que estavam pelo cigarro, não dele, mas dos outros, que ele era o único que não fumava no escritório. E ficava ali, em frente à tela, continuando o trabalho em casa, vendo as últimas notícias, sem nem perceber que ela, no sofá, enxugava disfarçadamente uma lágrima que, todo dia, insistia em cair, mesmo que a cachorra, àquela altura já no seu colo, se esforçasse em tentar lambê-las, em retribuição ao afago que finalmente recebia.

A festa, com vergonha de entrar, parava na porta, ao som de uma valsinha triste que vinha sabe-se lá de onde.

***

Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto
Convidou-a pra rodar
 
Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo
não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos
Como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

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