O homem que se perdeu

Atravessou a rua, adentrou o bar e pediu, rápido e rasteiro, sem olhar nos olhos do bartender, como um centroavante que aproveita o bom posicionamento pra pegar o rebote e fazer o gol: uma cerveja. Não obteve resposta, repetiu o pedido, uma cerveja, por favor. Notou que as conversas em torno de si pararam. Levantou os olhos e percebeu que todos o observavam com uma certa estranheza no olhar. Seu sorriso foi dando lugar a uma expressão de incerteza, o que estava acontecendo, o que há de mais em pedir uma cerveja. Viu então que não havia mesas ao seu redor. O bartender dirigiu-lhe a palavra.

– Senhor, está tudo bem?

– Sim, que há de anormal em pedir uma cerveja?

– Bem – respondeu o jovem, novo ainda, uns vinte e poucos anos -, não haveria nada de errado nisso, se aqui não fosse um açougue.

– Açougue?

– Sim, senhor, um açougue. Não vê as carnes penduradas?

– Mas o açougue tinha sido demolido, tenho certeza que…

– Senhor – estranho aquilo de chamá-lo de senhor, estavam na mesma faixa etária -, não há bar algum nesta rua.

– Mas como…

– Tem certeza que está no lugar certo, senhor?

– Tenho, quer dizer… tenho, tenho sim. Obrigado.

Atordoado frente aos vários olhos que o acompanhavam, uns com sorrisos contidos, outros com cochichos maldosos, saiu do bar-açougue. A rua não parecia mais ser a mesma. Na esquina, o posto de gasolina tinha mudado de cores, parecia ser agora de outro fornecedor de combustíveis. Andou até lá. O ponto de ônibus havia sumido. Resolveu virar a esquina em direção ao supermercado, que ele conhecia desde que era pequenino, quando seu avô ainda era vivo – fora ele, inclusive, quem o ensinara a contar o troco e a manejar o carrinho por entre as prateleiras. Estava lá. Aliviado, mas ainda bastante confuso, sentou-se no banco ali em frente, e notou que o supermercado estava fechado. Eram onze horas da manhã e o supermercado estava fechado. Como era possível? Havia falido? Estaria ficando maluco? Deve ser o sol, esse sol forte mexe com a cabeça das pessoas, vai ver estou enxergando coisas. Baixou a cabeça, esfregou os olhos, não entendia o que estava acontecendo. Andara por ali havia poucos minutos e tudo já estava diferente, as flores do asfalto, a calçada rachada, o semáforo. Só a merda de cachorro continuava, embora agora parecesse haver muito mais. Sentindo-se zonzo, recostou-se no banco, olhos fechados; ficou assim por alguns instantes, o suficiente pra se acalmar, tentando não pensar em nada. Ao abri-los – não sabia ao certo se havia ou não cochilado – pensou que tudo tinha sido um sonho, um delírio de seu subconsciente, isso que dava pensar demais nas coisas.

Não era.

Estava no mesmo banco, em frente ao supermercado, mas o supermercado tinha sumido. Mas como? Levantou-se, espantado. Seus sapatos estavam diferentes, sua camisa agora não tinha mangas. Olhou para os lados, como quem procura uma referência qualquer, e saiu correndo, um aperto no peito, não sabia onde estava, nem para onde ia. Percebeu que fazia o caminho da antiga casa que não mais existia, havia sido demolida junto com os sonhos da juventude de ser jogador de futebol e, rico, se aposentar por ali e abrir um clube no bairro, um clube com o nome daquele lugar, que marcasse sua existência na cidade através da única coisa que fazia a cidade conversar entre si, o futebol; não, no lugar da antiga casa, mais um condomínio. Perdeu o fôlego e parou em frente a uma parede espelhada, onde antes era o barbeiro em que, pela primeira vez na vida, tinha feito a barba, homenzinho que já era. É verdade que depois disso nunca mais havia entrado ali, ou mesmo em qualquer barbeiro, para fazer a barba. Apenas aparava os pêlos maiores em casa, gostava de ter o rosto peludo, sentia-se mais seguro, como se os pêlos escondessem os seus defeitos, os físicos e os invisíveis mesmo. Virou-se contra a parede, ofegante, e se olhou naquele espelho embaçado típico desses vidros modernos dos chamados prédios inteligentes de hoje em dia. Sua barba havia sumido. Não só a barba, como o nariz tipicamente italiano e os olhos verdes, da família do pai, e o cabelo enrolado, herança africana dos avós maternos. Até a cor da pele estava diferente, ligeiramente mais clara que o normal. Aquele não era ele, aquele não era seu reflexo, tinha certeza disso. Desesperado, gritou, estranhamente sem chamar a atenção de ninguém; jogou-se no chão e, sem querer, ao lado da parede espelhada, encontrou uma pequena porta aberta, com uma escadaria em frente. Acima dela, uma placa com os dizeres livraria e antiquário, preta, letras vermelhas. Instintivamente, como um cão que foge do banho, deu uma última olhada ao seu redor, levantou-se, e subiu todos os dezessete degraus que levavam a uma sala pequena onde uma lâmpada também pequena piscava, tal qual um vaga-lume moribundo dando seus últimos suspiros. E desapareceu no escuro daquele sebo empoeirado, em meio a inúmeros livros sobre os mais variados assuntos.

Havia se perdido.

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