O sequestro de Alice*

Alice havia sumido.

Fora deixada no ponto pra pegar o transporte coletivo, e desapareceu. Ninguém sabia de seu paradeiro, até porque ninguém sabia pra onde ela estava indo – suspeitavam que ia pra casa. Está certo que fazia apenas duas horas, mas a casa dela era a trinta minutos dali, ora essa! Já estavam imaginando o sequestro, sabe como é, cidade é espaço de poder masculino, uma menina sozinha, já de noite, ainda mais ela, toda bonitinha, sempre usando aquele shortinho curto… tá, diziam às vezes que parecia um menino, mas a verdade é que Alice era encantadora. Tão encantadora que tinha um monte de coelhos tentando levar ela pra toca, cada um com seus relógios e atrasos, e gatos que sumiam e sorriam. Vai ver era isso, Alice tinha arranjado um coelho, desses bem gatos, mesmo que cheirando a cachorro – porque pra dar em cima de mulher em ponto de ônibus tem que ser cachorro. Ai, que remorso, porque tinham largado ela lá sozinha? Tudo bem que já faz tempo que ela é crescidinha, mas mesmo assim, nessa cidade não dá pra saber, está tudo errado. O fato é que agora só restava esperar, e ninguém aguenta mais esperar, paciência não é coisa dos nossos tempos, ainda mais quando alguém está desaparecido.

Um dos amigos resolve pegar o carro e procurar por ela, a mãe quer ir junto, o pai não deixa, daqui a pouco ela aparece, deve ter ido comer alguma coisa. O amigo vai do mesmo jeito, a mãe resolve cozinhar pra ocupar as mãos e a cabeça, e disfarçar o choro pondo a culpa na cebola. A notícia do sumiço vai se espalhando pelos conhecidos, a internet ajuda ela a chegar até mesmo a outros estados, e cada vez mais gente se sente impotente frente à situação, e povoa a mente com o discurso pronto do não vai acontecer nada, aquele que sempre empurra as possibilidades desfavoráveis pro fundo. Alice é bem grandinha, olhaí, de novo o argumento da maioridade, como se ser adulto impedisse qualquer coisa ruim de acontecer. O amigo volta desconsolado, começa a falar sem parar, antigamente não era assim, o que aconteceu com essa cidade, ninguém pode mais sair sem se preocupar, sem saber se vai voltar ou não, é um absurdo tudo isso. E toca o telefone, é ela, e não é, é só mais alguém que ficou sabendo agora querendo entender o que há, se já apareceu, se é verdade. Melhor chamar a polícia, mas eles não fazem nada antes de vinte e quatro horas de desaparecimento, ou quarenta e oito, sei lá, tanto faz, com todo esse tempo ela já foi parar no necrotério. Passei por lá hoje, lembra alguém, é estranho, você pensar que quem está ali está por um motivo desses, dali não tem mais volta, é o fim. A atmosfera em volta do necrótério é uma coisa estranha, parece que o tempo pára, meio que outra dimensão, até os carros se esforçam pra não fazer barulho. Fizemos de tudo pra tirar a morte de dentro de casa, porque antes cada um era velado em seu quarto, e olha só no que deu, criamos um pedaço de morbidez estática no meio da paisagem da cidade que não pára, só corre. E mais telefone, e ninguém mais atende com esperanças, todo mundo tão desesperado e falando tão alto que nem percebe a chave girar na fechadura e Alice entrar, dizendo oi gente, porque tá todo mundo aqui?

Acontece que o ônibus havia demorado e Alice resolvera ir a pé, pra tentar lembrar como eram as coisas no caminho até sua casa, não tinha nada pra fazer mesmo, e como pode menina, não avisar ninguém, isso não se faz, olha o estado da sua mãe. O alívio toma várias formas, às vezes é choro e às vezes é bronca, abraços e beijos e suspiros. E toca cada um pra sua casa, não sem antes avisar os pais, já estou chegando, ela apareceu.

O que ninguém sabia, só a câmera de vigilância do condomínio, é que ela tinha ido a pé, mesmo, mas não sozinha. As imagens mostravam em detalhe, tal qual tira-teima de jogo de futebol, o último beijo que ela deu na garota que tinha conhecido no caminho, uma dessas cachorras que cantam mulher em ponto de ônibus e que, vez ou outra, acabam conseguindo o que querem – um número de telefone com letra feminina pra mostrar pras amigas.

O sequestro de Alice tinha como resgate a sua própria autonomia.

*conto escrito pelos idos de 2007 baseado em fatos quase reais e reescrito agora.

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