Um

Um ano.

Faz um ano.

Quem nunca quis morrer?

***

Quando se é novo, os problemas sempre aumentam. A juventude é como uma lupa ao contrário: quanto menos idade, maiores se tornam as coisas. Aquela pessoa sempre é o maior amor da sua vida. Aquela prova, a mais difícil. O melhor amigo. Os 2 pivetes que tentaram te roubar se tornam 10 brutamontes, e quando você conta a história você não correu. E eles não levaram nada.

De repente, então, o maior amor se vai. O melhor amigo trai. Você perde a prova, e os 2 pivetes tomam seu boné e ainda te deixam um olho roxo, que é pra não poder mentir. Nessas horas, você quer morrer. Todo mundo já quis.

O desejo pela saída fácil da situação difícil é comum. Mas ele sempre passa. Com o ano, vem as derrotas e as vitórias, e a lupa diminui. Você aprende que nada precisa ser tão grande. Quer dizer, uma parte aprende. E pra essa parte o desejo de morrer nunca passa de uma idéia boba que se teve.

A outra parte, bem, a outra parte ultrapassa uma linha que eu desconheço. E muitas vezes tenta morrer mesmo, e consegue. Mas eu não posso falar disso. Não posso falar do que não sei direito como é.

Eu nunca quis, mesmo, morrer.

Bem… quase nunca.

***

Há um ano, o time júnior do Corinthians chegava à final do mais famoso torneio de futebol júnior do país. O jogo começaria 11 da manhã. Exatamente o horário da visita à UTI. Naqueles já quase 20 dias de entubação, meu pai passara por altos e baixos. Algumas vezes chegamos a pensar que sairia do tubo, ao menos. Mas de repente a situação começou a piorar. O corpo humano não aguenta sempre o quanto a gente quer. Mesmo assim, mantínhamos na mente a idéia de que ainda dava.

2009 seria um ano novo mesmo. O Corinthians voltara da Série B. Contratara Ronaldo. Meu pai veria Ronaldo jogar. Nós veríamos. A torcida inteira esperava por redenção, depois de um ano no inferno. E naquele 25 de janeiro, a cidade aniversariava com a possibilidade do Corinthians já campeão.

Fui ao hospital, como quase sempre, com a camisa do time. Aquela, com a foto dele. A bandeira, já estava pendurada dentro do quarto. Diferente do meu costume, estava ansioso pra entrar na UTI. Ver aquele jogo. A UTI tinha TV também. Costumávamos pedir pra deixá-la ligada no canal de esportes, ou de documentários. Meu pai gostava de dormir com a TV ligada.

Minha irmã é são-paulina. Pra ela o jogo não significava muito. Mas significava pra mim, e ela sabia que pro meu pai também, então ela conseguia transmitir alguma solidariedade.

Quando a lista de parentes começou a ser chamada, entrei quase como uma flecha porta adentro. Eu, minha mãe e minha irmã.

Ao entrar no quarto, repeti o que sempre fazia: olhar os monitores. Já sabia lê-los. Eles diziam como ele estava, antes do médico responsável passar.

Naquele dia, meu pai tinha a pressão em 4 x 3 e os batimentos por volta de 30.

Minha mãe e eu nos olhamos. Já sabíamos o que aquilo significava. Minha irmã também.

Foi difícil conter o choro até o médico chegar. Tão difícil como está sendo agora.

Meu pai era uma pessoa comunicativa.

Pelo monitor, ele dizia adeus.

***

A visita do médico foi só pra confirmar o óbvio. Algumas horas. Meu pai tinha algumas horas.

Alguém já experimentou a sensação de ter uma parede desabando sobre?

Àquela altura, eu já tinha deixado a camisa sobre a bancada. Quase esquecido do jogo. Saí do quarto. Não queria chorar na frente da minha irmã. Precisava ligar pra namorada. Caí aos prantos no telefone. Ela voou até o hospital. Naquele meio tempo, lembrei do jogo.

A visita à UTI costuma durar uma hora. O jogo levaria duas. Pedi ao médico responsável para ficar ali até o fim do jogo. Seria nosso último jogo. Fui atendido.

Durante duas horas, pela primeira vez na minha vida, eu quis morrer.

O Corinthians jogava e meu pai ficava mais e mais gelado. Eu esfregava minhas mãos sobre seu corpo compulsivamente. O choro e o riso por estar de novo vendo um jogo com ele se intercalavam. Eu queria que ele falasse. Qualquer coisa. Que levantasse e gritasse com os jogadores. Que fingisse ser um zumbi e de repente nos desse um susto. Tentava passar meu calor para ele. Sentia o cheiro de seu sangue, as veias rompendo. Em silêncio, pedia, por favor. Que aquilo desse certo. Foda-se, queria que a minha energia vital passasse pra ele. Não me importava.

O Corinthians venceu aquele jogo. Fez dois gols. Nos dois gols, abracei meu pai.

Nos dois gols, meu pai me abraçou.

***

Na sala de espera, junto ao coffe shop, esperávamos. Os amigos chegavam, aos poucos. Esperávamos, e eu queria estar lá dentro. Odiava a medicina por não me deixar estar lá dentro. Meu pai ia morrer sozinho. Esperar sempre foi uma merda. Ainda mais quando se espera o que não se quer e quando não se quer esperar.

Quem, puta merda, quem gosta de esperar?

Eu sempre tive todos os meus documentos na carteira. Minha mãe ficava louca. Pra quê? Eu não sei pra quê. Mas eu nunca perdi uma carteira na vida. Ela ficava no bolso, atrapalhava na hora de sentar. Então nessas horas eu a carregava na mão. Ficava vulnerável. Sentado no sofá daquele coffe shop, olhando pra televisão, eu tinha a carteira nas mãos. Minha mãe me chamou. Fui até ela. Quando percebi, tinha perdido a carteira.

Obviamente, naqueles momentos, a razão tinha ido pro espaço. Não sabia mais nem se tinha trazido a carteira. Eu, minha mãe, minha irmã e minha namorada começamos a buscá-la. No carro, no coffe shop, no andar de baixo. Eu achei que tinha esquecido no quarto da UTI. Na verdade, eu sempre fui muito ansioso. Aquilo era pretexto pra talvez poder entrar no quarto para procurar e ver meu pai. Toquei a campainha. A enfermeira atendeu. Claro que eu não pude entrar. Merda de medicina. Ela foi olhar. Voltou. Disse que não estava. Dei mais uma volta e nada. Tinha certeza que estava lá. Na verdade, minha certeza era de que precisava entrar lá. Toquei de novo. Outra enfermeira veio. Repetiu o mesmo procedimento. Enquanto ela procurava, minha mãe ligou. Quase ao mesmo tempo, ela me dizia que achara a carteira e a enfermeira dizia que não achara nada mas que a médica precisava falar com a minha mãe.

A carteira, que minha mãe trouxe correndo, estava vazia. Com documentos, mas sem dinheiro. Não tinha muito, mas estava vazia.

A enfermeira, que voltou com a médica em pouco tempo, também estava vazia. Seu olhar era morto.

Meu pai era morto.

Minha mãe e minha irmã se abraçaram aos prantos. Eu abracei minha namorada, que chorava. Eu não. Ainda precisava fazer uma coisa.

Do corredor, liguei para meu tio, e dei a notícia. Seu irmão mais velho não tinha aguentado.

Foi exatamente essa a frase: ele não aguentou, tio.

Ele não aguentou.

***

Alguém tinha que ir até em casa buscar uma roupa para o velório. Fui eu. Acho que minha irmã também. Minha mãe ficou cuidando do corpo.

Antes de ir, fui ver meu pai. Não vi nada. Aquilo sobre a mesa do necrotério não era ele. Talvez seja um tabu falar disso, mas foda-se. Meu pai não existia mais. Não existe mais.

No caminho para casa, choveu muito. Como vem chovendo esse ano, também. Daquelas chuvas que parecem lavar. Eu queria ter tomado aquela chuva. Não tomei.

Esse ano, tomei todas as chuvas que pude até agora. Que merda é uma chuva? É água. Dizia uma banda de amigos, nada mais tranquilo que a água. Nunca entendi gente que foge de chuva. Como se fosse ferir.

Hoje, quase nada consegue me ferir. Às vezes, eu gostaria que conseguisse. Que conseguissem.

Em casa, escolhemos uma roupa que ele gostava de vestir. Meu pai tinha costumes pra se vestir. Quem não tem? Pra sair ou não, adorava roupa velha. Adorava se sentir confortável. Eu também. Ele ficava em casa sempre com um calção velho e rasgado. Demos alguns calções novos pra ele. Nunca usou. Hoje estão no meu armário.

Voltamos ao hospital, entregamos a roupa ao serviço que resolvemos contratar para desinchar ele e colocar formol. Cacete, formol. Aquilo era mesmo só um corpo. Um objeto. Cheio de formol, vestido como meu pai.

Quando terminaram o serviço, tinham exagerado um pouco. O corpo fazia biquinho. Puta que pariu. Meu pai ainda teve forças pra fazer a gente rir uma última vez.

***

Toda relação humana deixa algum rastro. Uns mais fortes, outros menos. Alguns quase imperceptíveis. Quando uma acaba, depende de como lidamos com esse rastro, do que ele nos deixou, pra que a relação seja lembrada ou esquecida.

Meu pai deixou muitas coisas. Uma, em especial, interminável: a paixão pelo Corinthians.

Na cremação de meu pai, dois hinos de futebol foram ouvidos.

O do Flu, num arranjo em violino, abriu a cerimônia.

O do Corinthians, tocado no saxofone, fechou.

Porque no coração do meu pai cabiam muitas paixões. Muitas pessoas. E muito poucas mágoas.

Pai: obrigado.

Você sempre será o meu timão.

“Salve o Corinthians
O campeão dos campeões
Eternamente
Dentro de nossos corações

Salve o Corinthians
De tradições e glórias mil
Tu és o orgulho
Dos desportistas do Brasil

Teu passado é uma bandeira
Teu presente, uma lição
Figuras entre os primeiros
Do nosso esporte bretão

Corinthians grande
Sempre altaneiro
És do Brasil
O clube mais brasileiro”

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4 Respostas para “Um

  1. Dan,

    Por tudo que representa, canto junto, em pé e a bandeira está molhada pela chuva de lágrimas até agora represadas:
    “Salve o Corinthians
    O campeão dos campeões
    Eternamente
    Dentro de nossos corações

    Salve o Corinthians
    De tradições e glórias mil
    Tu és o orgulho
    Dos desportistas do Brasil

    Teu passado é uma bandeira
    Teu presente, uma lição
    Figuras entre os primeiros
    Do nosso esporte bretão

    Corinthians grande
    Sempre altaneiro
    És do Brasil
    O clube mais brasileiro”

    ***

    E quando eu for rica de aprendizado, vou comprar uma bandeira igual a que ele sempre teve…no corãção, a da fraternidade, além da do Corintíans.

    ****

    Tô junto de você agora e sempre.

    Beijos

  2. não consigo comentar…beijo…mãe

  3. chorei muito ao ler este post. Eternamente dentro dos nossos corações…

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