Quatro

Uns dois anos atrás, corri uma prova dessas de rua, 5 km. Não tinha feito preparação nenhuma, nunca. Só jogo bola aos fins de semana mesmo. Mas sempre quis correr uma merda dessas. Meu pai e eu sempre combinávamos de correr a São Silvestre um dia. Nunca fizemos.

No dia da prova, que começava de manhã, cheguei meio em cima da hora. Com uma guitarra na mão, ainda. Tinha ensaio depois. Sorte que tinha guarda volume pros atletas. Pra mim também.

A São Silvestre tem 21 km. Uma maratona, 42. Cinco devia ser moleza. Não foi. Lá pelo segundo meu corpo já pedia arrego. Os pulmões ainda não, mas os músculos sim. Terminei a prova querendo me deitar imediatamente. Me deitar e não me mexer nas próximas horas. Um 40 minutos depois, já estava melhor. E com o corpo todo relaxado. Os músculos soltos. Uma sensação foda.

Isso foi o mais perto que consegui chegar da agonia de não respirar direito. Meu pai não respirava direito. Foram seis anos nessa. Com a diferença de que nos últimos anos a sensação de querer se deitar era constante. E nada boa.

***

Meu pai foi internado três vezes. Duas delas, chegou a ir pra UTI. Na UTI conheci o Bipap. O Bipap é um aparelho que ajuda a respirar. Fiz uma letra de música sobre o Bipap. Nunca usei. Era aterradora demais.

No quarto do hospital tinha televisão e internet. Víamos bastante TV. De vez em quando eu pegava no sono e acordava com algum barulho. A teimosia e o orgulho faziam meu pai não me acordar se precisava de algo. Tentava se virar sozinho. Sempre foi assim. Eu ficava meio puto, mas entendia. Não dá pra tirar de alguém a vontade de ser livre. De se virar sozinho. Ir ao banheiro. Qualquer doença que restringe as atividades motoras é como uma prisão sem paredes. Eu não queria ser uma parede.

Da primeira vez que ele teve uma apnéia, foi assustador. Minha mãe tinha saído do quarto. Estávamos conversando. Meu pai começou a ficar azul, mas ainda ria. Tentava controlar a falta de ar. Percebi que algo não ia bem. Não queria ser parede, mas também não podia ser janela. Levantei pra chamar a enfermeira. Ele não queria. Ele nunca queria. Puta que pariu, o desgraçado estava morrendo e não queria incomodar as enfermeiras. Como se aquilo fosse incomodar. Era o trabalho delas, caralho!

Acabou se rendendo, e depois da enfermeira veio minha mãe, e depois o médico e a UTI. A maca entrou pela porta e ficamos, minha mãe e eu. Minha mãe sempre se proibiu de ficar doente. Não podia. O resto da família sempre estava. Ela tinha que cuidar de todos. Nosso anjo da guarda. E anjos da guarda tem que ser fortes. Naquela hora, ela passou a tarefa adiante. Virou pra mim e disse, chorando, que “agora não saberíamos que tipo de sobrevida ele vai ter”. Meus olhos apertaram, mas consegui segurar. Abracei-a e fingi ser homem. Nunca fui. Agora era preciso. Queria mandar ela à merda, sobrevida porra nenhuma, eu ainda ia correr a São Silvestre com meu pai. Ela saiu pra telefonar pra alguém. Pude chorar um pouco. Bem pouco, que mãe percebe fácil essas coisas.

A UTI é uma coisa estranha. Não tem janelas, não tem conexão alguma com o mundo lá fora. Como um shopping. Puta merda, que analogia bizarra. UTI e shopping. Mas faz sentido. O shopping também abriga pacientes terminais. A diferença é que o shopping te quer lá o tempo todo, se possível com toda a família. Na UTI a família só entra duas vezes por dia. Compreensível, mas ainda assim detestável. Seu parente está morrendo lá dentro e ainda tem que ficar sozinho. A sorte é que meu pai sempre foi muito bem humorado. Conquistava as enfermeiras. Os médicos também. Alguns. Porque a maioria faz questão de se sentir supra-humano. Acima. Vão à merda.

Sempre que eu ia dormir com meu pai no hospital, ele repetia a mesma ladainha. Que não precisava, que eu trabalhava cedo, que era desnecessário, que já tinha enfermeiras lá pra isso. Porra, ele não chamava as enfermeiras! E como se trabalhar fosse importante. Fosse melhor que estar lá com ele. Mas fazia parte de tentar manter seu orgulho, sua dignidade. A teimosia do meu pai era foda. Transformava a fantasia em realidade. Fazia ele acreditar que um dia tudo ia voltar ao normal. Não cumpria as etapas do tratamento direito. Apostava em uma cirurgia que revertesse o quadro. Nem dava pra culpar ele pela ingenuidade forçada. O tratamento era uma merda. Quase uma tortura. Agoniava só de olhar. Em um determinado ponto, ele parou. Parou de acreditar, de se enganar. Voltou a fumar. A cena era insólita: 24 horas por dia no oxigênio, e fumando. Mentia para os médicos, ainda querendo a cirurgia. Precisava estar bem pra cirurgia. Sabia que não estaria.

Dizem que alguns animais sentem quando estão prestes a morrer e se afastam do grupo. Sabem que chegou a hora. Vão pra bem longe. Meu pai era um desses animais. Mas não se foi, ficou com a gente. Fazia alguma fisioterapia, pra confortar a gente. Tenho certeza. Ele gostava da fisioterapeuta. A gente também. E ela da gente. Até hoje nos falamos. É como se fosse da família.

Da última vez que esteve na UTI, meu pai me pediu pra anotar alguns nomes num caderninho. Eram os nomes das enfermeiras e médicos que o atendiam. Nunca me disse pra quê. Sempre achei que era pra agradecer por tudo. Da vez anterior, ele reclamara com a gente de que estava sendo mal-tratado. Dizia que reclamava de dores e ninguém lhe atendia. Ficamos preocupados, o hospital era muito bom, sempre tinha sido. Conversamos com alguns médicos e enfermeiras. Era possível que as drogas estivessem alterando seu estado psíquico. Eram fortes demais. Mais do que aquilo seria perigoso. Quando saiu, achei que se sentiu um pouco culpado das acusações. Em dúvida sobre o que tinha acontecido. Era o limite, para ele: já não tinha controle físico sobre o corpo, perder o controle mental era demais.

Da última vez, meu pai sabia que se ia.

E eu perdi a merda do caderninho.

***

Quando eu penso na UTI, o que eu mais lembro são cheiros.

No final, meu pai tinha as veias do corpo todas arrebentando. Estavam fracas. Não seguravam mais.

Nunca vou esquecer o cheiro do sangue do meu pai.

***

Era raro, muito raro mesmo, ver meu pai chorar. Quando minha avó morreu, eu estava na rua. Ele me ligou. Disse que ela tinha morrido. Minha reação foi parar imediatamente. Não acreditava. Perguntei se estava brincando. Ele respondeu, meio puto, que não brincaria com isso. Voltei pra casa correndo. O encontrei no computador, como sempre. Perguntei se estava bem. Disse que sim. Entendi que ele precisava de espaço. Fui para a sala.

Uma meia hora depois, voltei ao quarto. Meu pai chorava um choro contido. Tinha perdido a mãe, que não via havia alguns anos. Ela morava no Rio, ele em São Paulo. Ambos doentes, sem poder viajar.

No dia seguinte, pela manhã, fomos de ônibus pro Rio. Mesmo sabendo do risco. Ele precisava.

No enterro da minha avó, chorei mais pelo meu pai do que por ela.

***

Sempre ouvi, e ainda ouço, muita gente reclamar dos pais. Da relação com eles. Diriam os psicólogos que é normal, faz parte dos estágios que eles gostam de traçar pra nossa vida. A psicologia é divertida.

Claro que eu já reclamei também. Porra, eu já fui adolescente. Eu disse que a infância foi a pior merda que a humanidade já inventou, mas foi só porque eu esqueci da adolescência.

Me disseram esses dias que esses textos fazem chorar ao ler. Também fazem ao escrever, se isso serve de consolo. A grande coisa é que meu pai não era só meu pai, era um amigo. O mais antigo de todos. O mais sábio. O mais acolhedor. A humanidade define e redefine alguns papéis sociais, faz isso o tempo todo. Meu pai pegou o de ser pai e o fez do jeito dele. Fez mais do que pediam. Muitas vezes, mais do que podia.

Um desses clichezinhos babacas que as pessoas gostam de repetir diz que amigos são a família que você escolhe.

Que merda.

Eu não escolhi meu pai.

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3 Respostas para “Quatro

  1. Eu costumo agradecer pelo fato de não ser possível escolher família, não teria sabedoria o suficiente para escolher uma tão boa quanto a minha.

  2. Parece que aquele que quase se vai, sabe, e aquele que quase fica, também sabe. A UTI é o pedágio para um caminho de mão dupla, em disparidade, pois há uma pista num sentido, e mil, pelo menos, do outro. Quem está lá está tão ligado aos seus quanto os seus ligados a ele. Tudo aquilo que vcs viveram chegou a ele por certo e chega ainda, pois o canal de comunicação se chama AMOR.
    ***
    Quando eu estive na UTI da primeira vez, após o acidente, ele escreveu um texto descrevendo o que ele imaginava eu havia sentido. Quando fui para o quarto lá estava o tgexto pendurado na parede onde eu podia ler. Nesse dia eu soube que ele havia ido muito mais longe que qualquer visita formal.

    ***

    Hoje quem escreve o texto é vocêw e diz: “A grande coisa é que meu pai não era só meu pai, era um amigo. O mais antigo de todos. O mais sábio. O mais acolhedor. A humanidade define e redefine alguns papéis sociais, faz isso o tempo todo. Meu pai pegou o de ser pai e o fez do jeito dele. Fez mais do que pediam. Muitas vezes, mais do que podia.

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  3. Amigo, só para constar, a São Silvestre são 15 km. 21 km é o percurso de uma meia maratona. E só para lembrar: Correr é algo maravilhoso, mas para se correr qualquer distância é preciso um treino progressivo, do contrário você pode acabar na UTI.

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