Cinco

Devo ter perguntado milhões de vezes pros meus pais como eles se conheceram. Nunca lembro a história completa, que já ouvi deles e dos amigos. Mas lembro que meu pai sempre falava que se apaixonou pelos pés da minha mãe, “tão pequenos”.

Uma relação que dura tanto tempo obviamente vai ter altos e baixos. Muitas vezes acaba só com baixos. Mas quem está vendo de fora consegue perceber que ainda há respeito e carinho. Meu pai tinha um respeito enorme pela minha mãe. E carinho também. Eu sei disso, eu via nos olhos dele. Não só nos olhos, nos atos também. Muitos dos quais ele praticava em silêncio, ou só com os filhos, mas que tinham como alvo principal a minha mãe.

Fico imaginando os dois jovens. Os tenho nessa época, talvez pouco antes de se conhecer, tatuados no braço. Meu pai sempre tocou violão. Aprendeu sozinho quando era moleque e teve hepatite. A obrigação de ficar em casa o levou a comprar aquelas revistinhas que ensinam a tocar. Talvez por não ter tido professor nunca soube ser um. Queria me ensinar mas não tinha paciência alguma. Virei baterista. Hoje toco guitarra sem saber fazer um único acorde. Não propositalmente. Não tenho orgulho disso. Mas em compensação consigo “inventar” um acorde e saber se ele soa bem ou não. Que coisa mais simiesca.

Com certeza a música ajudou meu pai com a minha mãe. Ele tocava bem, cantava legal. Tinha conhecimento e bom gosto pras coisas. As festas dos amigos de militância lá em casa, ou na praia, ou na casa dos outros, sempre o tinham como DJ. E como músico ao vivo, dependendo da quantidade de álcool. Era uma autoridade conquistada com o tempo. Às vezes um pouco imposta demais. Ainda temos em casa centenas de discos de vinil, sobreviventes de uma das enchentes por que passamos em Pirituba.

Apesar disso, meu pai sempre foi um faminto por novas tecnologias. Não era um saudosista do vinil. Quando eu tinha 12 anos comprou um XT. Provavelmente os gênios que hoje trabalham com informática nem saibam direito o que é um XT, ou nunca tenham visto um. Daí pra frente foram vários computadores. O resultado é que no fim da vida meu pai gravava CD’s e DVD’s mil. Os DVD’s eram de filmes que ele considerava excepcionais, e de séries de comédia. Muita coisa boa. Os CD’s eram de música. Meu pai adorava gravar música para os outros. Era uma forma de dizer coisas. Música é linguagem universal. Quase todo mundo que era mais próximo tinha um CD do meu pai com o nome “Procês”.

Meu pai tinha uma música para cada pessoa da família, até pro cachorro. Ele mesmo compunha. Cantarolava pela casa. Pra minha mãe, ele tinha várias. Nunca me disse isso, mas eu sei. Era pra ela.

“Se você vier
Pro que der e vier comigo
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco

Se branco ele for
Esse tanto esse canto de amor
Se você quiser e vier
Por que der e vier comigo”

***

Sempre tive a mania de olhar, e julgar, as pessoas pelo tênis. Pelo tênis porque moro em São Paulo, fosse no Rio e seria pelos pés. Quer dizer, não é um julgamento moral, bom ou ruim, certo ou errado, maniqueísta assim. É um julgamento de se a pessoa me interessa, me passa através da escolha do que colocar nos pés algo interessante. Claro que isso não define nada. Mas faço, e por isso tem esse nome, mania. Um estudante chato de psicologia iria me dizer que faço isso por causa da história dos pés da minha mãe. Que estou buscando os pés dela. Repito: ninguém precisa de um psicólogo.

Eu nunca fui muito bom com as mulheres. Quer dizer, isso é relativo. Provavelmente eu tenho mais amigas com quem consigo conversar e ir além do superficial do que amigos. Provavelmente. Mas às vezes eu queria ter menos amigas. Ou amigas mais coloridas. Ao menos uma.

Uma vez eu tive uma namorada. Uma vez. Durou bastante, acho, 3 anos e meio. Meu pai a conheceu. Quando ele morreu, ainda estávamos juntos. Ele adorava ela. Era outra das receptoras das mensagens de texto. Sempre lembro de uma: “Faço  saber a todas que à mulher que acompanha e aquece o meu filho querido, eu me curvo, pois é para mim uma rainha”. Não sei se é alguma citação, pra mim é uma mensagem de texto. Das mais bonitas que eu já enviei para uma mulher. Mesmo que tenha sido ele.

Quando namoros terminam, as pessoas costumam dizer que perderam umas às outras. Eu não perdi nada. Se há beijos e sexo ou não, pouco importa.

***

No velório de meu pai, um CD “Procês” tocava ao fundo no rádio velho da minha irmã. Tinha músicas calmas, mas de repente entrava uma marchinha de carnaval que constrangia os presentes. Aquilo me divertia. Tinha certeza que meu pai daria risada também.

Fechamos o velório à noite. Em casa, tive que escolher três músicas pra tocar durante a cremação. Escolhi quatro. Não sozinho.

O último ato de comunicação de meu pai com o mundo passou pela minha mãe. Que nunca soube tocar violão.

Não precisava.

“Eu venho das dunas brancas
Onde eu queria ficar
Deitando os olhos cansados
Por onde a vida alcançar
Meu céu é pleno de paz
Sem chaminés ou fumaça
No peito enganos mil
Na Terra é pleno abril
Eu tenho a mão que aperreia, eu tenho o sol e areia
Eu sou da América, sul da América, South America
Eu sou a nata do lixo, eu sou o luxo da aldeia, eu sou do Ceará

Aldeia, Aldeota, estou batendo na porta prá lhe aperriá
Prá lhe aperriá, prá lhe aperriá
Eu sou a nata do lixo, eu sou o luxo da aldeia, eu sou do Ceará
A Praia do Futuro, o farol velho e o novo são os olhos do mar
São os olhos do mar, são os olhos do mar
O velho que apagado, o novo que espantado, vento a vida espalhou
Luzindo na madrugada, braços, corpos suados, na praia falando amor”

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8 Respostas para “Cinco

  1. não tem como não se emocionar com as palavras de quem escreve como ninguém.

    e essa é uma verdadeira segunda família pra mim. inesquecível.

  2. E foi assim, através da música, do carinho, da gentileza e disponibilidade que ele sempre se manifestou com todos, ensinando a amar.

    Cinco pessoas na mais um sem fim de amigos, de aqui e de lá, cinco o número da dinâmica, deste texto, dos sentidos e da família constituída por laços eternos, Cleber, Célia, Dan, Lú, Abú tudo multiplicado por cinco para cabermos todos nós também na ciranda dos que estão e permanecerão sempre com vocês.

    ***

    Quando eu ficar rica eu vou comprar uma montanha de discos de vinil…..

    ****

    Márcia Saudade Vilarinho

  3. Fio de uma égua que me emociona em pleno escritório. Acho que nunca te disse, mas amo-te. Da amiga nada colorida e 100% alvinegra!

    • Pô, eu também já chorei lendo os seus textos, estamos quites. E a menina da capa verde ontem nunca tinha ido num jogo, eu não a conheço. Mas foi legal que ao invés de ser agressivo um cara foi e comprou uma capa transparente e deu pra ela. Achei fofo.

  4. não sei porque, mas por algum momento eu achei que fosse uma…

  5. a segunda vez que choro com você hoje…rs. Deixasse eu morar aí pra você ver se eu não seria sua amiga colorida…rs. As suas amigas daí estão perdendo muito tempo…beijo queridão.

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