Presente de aniversário

Completo hoje meu primeiro aniversário órfão. Mas não, esse não será um texto lamentando isso.

Ao contrário.

Será um texto tentando aprender a lidar com isso.

Pra ajudar, como sempre, há o Corinthians.

Que completou 99 anos dois dias antes de mim e que, fazendo escadinha, teve jogo ontem em casa, contra o Santos.

Um Corinthians que não é mais o mesmo de três meses atrás, é verdade. Mas que continua tendo a mesma raça e espírito de Corinthians que o Mano Menezes recuperou desde que chegou por estes lados.

E como aniversário a gente comemora em casa e com quem se gosta, fui ao Pacaembu mais uma vez encontrar a “família”.

Dadas as circunstâncias, era um jogo diferente, pra mim. Mais inflexivo, reflexivo, contemplativo. De tal forma que não me importou muito o gol do Santos aos 5 minutos do segundo tempo. Alguma coisa me dizia que aquele jogo era meu – nosso, pai.

Aos 13, perdemos Mano, expulso por reclamação. Olhei para o banco do time mandante no Pacaembu e percebi o vazio que tomava conta daquele espaço. Em campo, o time refletia a perda, e relembrava 2007, com bicos para o alto para um desesperador Souza, jogando com seu pai internado em estado grave, tentar fazer o que até hoje não fez: resolver.

Mirei mais uma vez o banco de reservas do Corinthians e percebi uma movimentação diferente. Talvez fosse o álcool das duas latinhas de cerveja consumidas de estômago quase vazio antes do jogo, não sei. Mas o fato é que eu via subir do pequeno jardim atrás do banco uma estranha nuvem, que formava uma imagem, ainda indecifrável. Súbito, passei também a escutar uma voz familiar, gritando, esbravejando com o time. E então tudo fez sentido:

meu pai assumira o comando.

Das cinzas ali esparzidas meses atrás, erguia-se a memória de um gigante em minha vida.

Alguém que me ensinou a torcer apaixonadamente, a pular e gritar nas vitórias, mas também a aprender com o sofrimento nas derrotas.

Que me ensinou que um estádio de futebol comporta muito mais que partidas. Celebra festas, encontros, desencontros. Comemora a vida.

O Corinthians percebeu que o comando, agora, não vinha mais do banco, vinha das arquibancadas. Da história. Da mística. E a fez valer.

De virada, no finalzinho, com um gol chorado e outro improvisado – mas de uma improvisação perfeita.

Daquelas que fazia meu pai correr à janela e soltar um raro “goool!”, numa alegria meio contida, de quem sabe que festa, mesmo, só depois do apito final.

A nação alvinegra, em êxtase, explodia em mais um “parabéns pra você”.

Mas eu não conseguia me mexer.

Abraçado à bandeira, olhava para o banco. Para a história. A minha história.

Que corria alegre à minha frente, em preto e branco, desde o primeiro bolo de aniversário, com a velinha que eu quis apagar com a cabeça.

O jogo acabou, e tomei o rumo de casa. Por mais que casa, desde 25 de janeiro, nunca mais tenha significado o mesmo.

Nos arredores do Pacaembu, ao som do buzinaço alegre da família que comemorava, a voz que tantas vezes tive ao meu lado quando era difícil até mesmo respirar me dizia, tranquila:

“Parabéns”.

E me fazia adentrar meu 28º ano de vida com aquela sensação de quem sabe algo que ninguém mais pode saber, algo só seu: meu pai ganhou esse jogo pra gente.

Meu melhor presente de aniversário.

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17 Respostas para “Presente de aniversário

  1. Pingback: Um velho sábio « ESCÓRIA

  2. Muito bom.

    Apesar de corintiano.

  3. Parabéns, Mandioca.

    Muito foda seu texto…

    Tudo de bom.

  4. Já ganhamos o Paulista e a Copa do Brasil com seu pai ali no banco, Mands. E ontem, uma nação inteira comemorou seu presente!

    Feliz aniversário!

  5. Mano, VIVA TEU PAI!
    VIVA O CORINTHIANS!!!

    E parabéns!

    Abraços

  6. Parabéns para todos nós e muito mais para vocês.

    Abraço(s)!

  7. Conheci teu blog há pouquíssimo tempo e nunca comentei por aqui. Este post foi sensacional, maravilhoso! Bom saber que através de ti, teu velho estará conosco em todas as nossas batalhas!

    “… à sombra desta bandeira preta e branca habitam os fantasmas imortais”

    Parabéns pelo teu aniversário!

  8. Parabéns, cara. Pelo texto, pelo aniversário, pela lição.
    Abraços

  9. MANDZZZZZZZZ BROUUUUUU IEEEEI ÉNÓI!
    parabéns!

  10. Caro Mandioca,
    Chego ao seu site por recomendação da Carolina Mendes, que sempre me fala de vc. Por causa da nossa paixão em comum pelo Corinthians.
    Seu texto é emocionante.
    Perdi meu pai, corinthiano roxo, há 11 (quase 12) anos . Sei como é o vazio. E sei como é essa paixão pela camisa que parece unir quem está aqui e quem já foi embora.
    Meu velho, um abraço fraterno bem apertado para vc.
    Vai, timão!
    Fabio

  11. ae mands, feliz aniversario. imagino que vc ja conheca, mas de qquer forma ta ai -> http://www.papodequadrinho.com/2009/08/historia-do-corinthians-em-quadrinhos.html
    abracao !

  12. Parabens!!! Como sempre mandando muito bem nos textos!!! Abrç…

  13. oi…que bom, e que saudade…de nós todos juntos, da presença dele, das ranzinzices, das mensagens no celula: COMIDA! te amo muito, e vou estar sempre do seu lado…beijos, parabéns… mãe

  14. Eu sabia. Essa noite, quando eu fui dormir, eu sabia que aquele jogo tinha alguma coisa de especial. Que eu não sabia. Agora eu sei. Obrigado.

  15. É com muita tristeza que soube da morte de seu pai. Foi há dois dias atrás, justamente pesquisando por onde ele andava. Sou prima de seu pai e nunca mais o vi. Estou com 56 anos e quando o vi pela última vez tinha 21.Achei esse blog e fui vendo as coincidências e pela foto vi que era realmente o Cléber. Foi uma tristeza tão grande. Ainda não tive coragem de falar para a minha mãe. Soube que a Neuza havia morrido também tem pouco tempo. Ela andou vindo aqui em casa e sempre dizia que o Cléber quando viesse ao Rio passaria aqui. Lembro que ela havia deixado um telefone aqui, mas fiquei sem graça de ligar. Passados anos, quando resolvi ligar, recebi a informação que não havia ninguém com esse nome. O corre corre da vida faz a gente se afastar sem querer das pessoas. A Neuza parou de vir aqui e eu sabia mais ou menos o seu endereço, pois já havia ido na casa dela em Piedade. Mas o tempo ia passando e a grande verdade é que ele não espera por ninguém. Nós é que temos que acompanhá-lo. Orei pelo Cléber. Que ele possa estar bem agora. Era um primo querido. Era o mais velho. Ainda não falei com ninguém da família.

  16. Deixei um email para você.

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