Os bastidores contra o futebol

– Vale tudo, né? A partida tem que ser feita a qualquer preço. Isso é um desrespeito com o torcedor que pagou ingresso e foi embora.

Este texto poderia se resumir à frase acima, de Mário Gobbi, cartola do Corinthians, ao saber que a partida entre seu time e a Portuguesa, ontem, no Pacaembu, deveria continuar mesmo depois de 1h26 de paralisação por conta de uma chuva intensa que deixou o gramado sem condições e que fez com que o árbitro determinasse a suspensão da partida, fato inclusive anunciado pelos alto-falantes do estádio, o que fez com que grande parte da torcida voltasse pra casa – ou tentasse, com tanta chuva.

Mas acontece que num esporte onde quem manda são os direitos comerciais, a autoridade do árbitro passou a ser mera questão de nomenclatura.

Porque já nos vestiários, com jogadores dos dois times de banho tomado, o juiz do jogo recebeu telefonema do comandande da arbitragem, Coronel Marcos Marinho, dando ordem para que o jogo continuasse.

E assim foi.

Contra os interesses dos jogadores, que temiam por sua integridade física. Mas que são coniventes.

Dos torcedores, que, como sempre, pagam caro pra serem mal-tratados. Mas que também são coniventes.

E até dos dirigentes, por incrível que pareça – embora estes sejam tão coniventes quanto convincentes atores de teatro, já que caso realmente tivessem compromisso com seus discursos maior do que com seus interesses, deveriam tirar seus times de campo em situações de absurdo como essa.

Coincidência ou não, na Folha de S. Paulo de sexta-feira o caderno de Esportes noticiava que os clássicos entre Corinthians e Palmeiras e Corinthians e São Paulo sofreriam mudanças por conta de brigas de bastidores.

O primeiro, que pode marcar a estréia de Ronaldo pelo Corinthians, foi transferido para Presidente Prudente, afastando assim o mesmo torcedor que sofre com um aumento absurdo no preço dos ingressos com a desculpa de estar ajudando o clube a bancar o Fenômeno da possibilidade de ver sua estréia.

O segundo, com a mudança da tradicional divisão do Morumbi ao meio entre as duas torcidas, seja o mando do jogo de qualquer um dos dois times, o que faz com que a multidão alvinegra fique reduzida a um espaço de 5.600 lugares, enquanto a torcida tricolor, que brada aos ventos preferir a Libertadores e não gostar do Paulistão, terá mais de 50.000 lugares – que, aposto e ganho, estarão em sua maioria vazios.

Isso sem falar na confusão que o número pequeno de ingressos irá causar nos dias anteriores ao jogo – os cambistas e falsificadores agradecem – e, principalmente, nos arredores do estádio no já tão próximo dia 15 de fevereiro.

Embora as duas mudanças envolvam o time de maior torcida e maior visibilidade atualmente na mídia esportiva, o Corinthians, nenhuma das duas acontece por conta do Alvinegro: ambas são retaliações entre Federação e São Paulo, que desde o caso Wagner “Madonna” Tardelli, ano passado, não se bicam.

De um lado, a FPF manda o mais tradicional dérbi da cidade para longe dela pra tirar a renda de uma possível estréia de Ronaldo do Morumbi.

De outro, o São Paulo confina a torcida corinthiana em um espaço minúsculo, mesmo sabendo que perderá dinheiro com isso, cobrando a conta do que acha ser um desrespeito da Federação e do Palmeiras para com o clube quando ambos se enfrentam no Parque Antárctica.

E de quebra, cria mais uma situação pra tumultuar um campeonato em que se coloca desde o início participando quase à contra-gosto – de novo, falta coragem política para tomar uma postura que à primeira vista se coloca como suicídio comercial, mas sem a qual nada realmente muda: deixar de jogar.

E, no ano da volta à elite do futebol brasileiro, a torcida corinthiana que lotou o Pacaembu durante a Série B fica alijada da recompensa.

Vale lembrar que Ribeirão Preto abrigou o jogo de estréia do campeonato, cujo mando era do Santo André, entre este e o Palmeiras, o que caracteriza descaradamente uma inversão de mando de campo por puros interesses comerciais.

Que passou batida pela mesma mídia que propagandeia o futebol mais organizado do país.

É como se comprássemos uma pizza de palmito e, no lugar, viesse uma de presunto, que temos que pagar do mesmo jeito, até mais caro.

Porque em São Paulo, no fundo, do mesmo jeito e sob o mesmo véu esburacado que cobre o resto do país, os bastidores, repletos de interesses, corrupção, jeitinho e tudo aquilo que, desafortunadamente, nos define e nos estereotipa enquanto nação, jogam contra o futebol.

E toda vez que a bola, alheia à tudo isso, insiste em balançar as redes do adversário, nossos olhos, cada vez mais umbiguistas, esquecem tudo, fingem não ver o absurdo e aplaudem, macunaímicos.

Por puro medo de ficar sem pizza.

***

Agradecimentos ao Raphael, do Cruz de Savóia, por ter postado o texto por lá.

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7 Respostas para “Os bastidores contra o futebol

  1. Orra, esse ficou bom mesmo!

  2. Santo André 0x1 Palmeiras foi no Santa Cruz em Ribeirão Preto.

  3. É Mandz, eu fui um dos que ouvi a voz do alto-falante e me retirei do estádio. Eu aguardo ansioso pelo fiasco de 2014!

  4. Cara,

    Bom texto. Parabéns . Vi ele no Cruz de Savóia ( sou Palmeirense ) . Mas respeitamos o RIVAL Corinthians e odiamos ( acho q isso em comum ) o INIMIGO BAMBI !!!
    Mas por favor cara: PALESTRA ITÁLIA – esse é o nome do estádio do PALMEIRAS …
    E o jogo contra o Santo André foi em Ribeirão Preto – Estadio Santa Cruz

    Abraços – PARABÉNS PELO texto e pelo blog.
    Saudações Alviverdes

  5. Pingback: Errata « kadj oman

  6. Perfeito, meu caro!

    E eu repito: maldita idéia de 1938!

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