Companheiro Cleber

Meu pai teve um amigo chamado Júlio quando jovem.

Mais tarde, teve outro amigo, o Astrogildo.

Ambos ligados à militância política.

Eis a mensagem que um deixou ao outro ao saber da morte do “companheiro Cleber”:

“Amigo Astro,

Naturalmente, mais um que se vai. É chegada a hora e nada mais podemos fazer a não ser celebrar a sua passagem com as lembranças mais vivas que nos afloram.  Vou falar sobre elas e enaltercer aquele afetivo e emocional cara que conheci: Cleber.

É isso aí que, daqui para frente e pelo resto de nossas vidas saberemos e, portanto, deveremos estar prontos, cada vez mais, para saber e conviver. Mas também acompanharemos muitos outros nascimentos, batizados, casamentos, e assim vai. Eis o ciclo mecânico e ininterrupto da vida, quer ou não queiramos. Pura engrenagem, convenhamos, de uma repetição infinita.

Somos apenas peças requintadamente vaidosas deste mecanismo que independe de – e, por isso, atropela de modo impiedoso – qualquer tipo de subjetividade, consciência e cognição.  Apenas, acontece.  Pronto.

Há décadas não via o Cleber.  Fomos durante nossa juventude amigos-irmãos. Sempre fumava muito e tinha por hábito deixar o cigarro aceso no violão quando o tocava.  Também por isso, na casa de minha tia Penha, em Ramos, onde nos conhecemos e sempre nos encontrávamos – já que Cleber me fora apresentado por minha prima por considerar a grande familiaridade de nossas idéias políticas – o lugar preferido de Cleber era a varanda, onde podia fumar tranquilo e, segundo ele, não enevoar a sala.  Era o grande menestrel dos acampamentos e por diversas vezes nos embalava a varar noites em Bambuí, litorial do Rio de janeiro, perto de Maricá ao som de seu violão magistral. Neles juntávamos 50, até 60 pessoas acampadas em ato celebratório à liberdade, a vida e a revolução que acreditávamos evangelicamente.  Todos éramos suburbanos.  Eu morava em Manguinhos, Cleber na Penha, outros, a maioria, em Inhaúma.  Mas tinha gente da Baixada e de muitos lugares que começavam a se agregar ao nosso grupo por conta da alegria que emanávamos.

Eram esses os nossos finais de semanas e férias, sempre nutridos pelo encontro prazeirosos, o culto à liberdade e árte.  Esta era a nossa militância a atividade de propaganda na disseminação da prática ‘revolucionária’ da liberdade. Tinhamos aí, 17, 18, 19, 20 anos tinha eu. Cleber mais velho, um pouco mais.  Por isso, o mais generoso de todos nós, sempre pronto para ajudar, cooperar, compartilhar com o grupo. Nas vaquinhas das cervejas as mais polpudas contribuições eram dele – também o cara já trabalhava, e muito bem, acho que era na Petrobrás da ditadura.

Não movíamos montanhas mas nutriamos de modo orgânico a fé e a esperança em um Brasil melhor, até porque víamos e vivíamos muito próximo do lado pior do Brasil, na cidade maravilhosa.

Era o violeiro inesgotável de “Caminhando e Cantando…”, de Geraldo Vandré, o nosso quase hino cantado da travessia de barca para Niterói quando nos amochilávamos para os acampamentos, quase sempre nas praias oceânicas e ainda desérticas, naqueles finais dos anos sessenta e início dos anos setenta, do lado de lá do Rio.

Eu o chamava de Chaminé, às vezes Palito para variar ou, para alguns, simplesmente Magro. Como eu não fumava quando o convidei para a Liga Operária, antes mesmo de se tornar estudante de Administracão e Contabilidade da UFF,  brincando perguntou: “eu não terei que parar de fumar para ingressar no partido, não, né?” Foi, certamente, um dos primeiros da segunda dezena de pioneiros que povoaram aquele sonho grande, o grande sonho de nossas vidas, completamente plasmado em nossas ingênuas, nem por isso vãs utopias.

Depois de sua ida para São Paulo, nunca mais nos vimos. Soube que casara novamente mas ai a tarefa de construção de instituições politicas para o combate no mercado das ideologias já havia amadurecido.  Perdemos a ingenuidade e a virgindade ativista. Nos perderíamos também em outros tantos afetos, momentos, situações, contextos, projetos, etc…  E a vida, como um rio, naturalmente nos aproximou, nos colocou no mesmo carro de combate, nos levou e nos separou.

Vai-se o amigo e o convívio juvenil suburbano-carioca.  Ficam as lembranças, as boas lembranças dos bons momentos, das boas ações, das experiências engrandecedoras (ordinárias e extra-ordinárias) e das intenções que justificam a vida, o bem e o útil.

As únicas coisas que realmente importam.

Naturalmente…!!!

julio/”

mvc-006f

Meu pai, seu amigo Fernando com seu filho e mais dois colegas de trabalho. Valeu, Fernando, pela foto.

Anúncios

3 Respostas para “Companheiro Cleber

  1. “…Eis o ciclo mecânico e ininterrupto da vida, quer ou não queiramos. Pura engrenagem, convenhamos, de uma repetição infinita.

    Somos apenas peças requintadamente vaidosas deste mecanismo que independe de – e, por isso, atropela de modo impiedoso – qualquer tipo de subjetividade, consciência e cognição. Apenas, acontece. Pronto…. ”

    Muito bem dito.

    É importante que tenhamos essa consciência. Assim a dor não abala só na hora em que acontece.

    Faz parte do mecanismo.

    É uma linha de pensamento totalmente racional, mas nem por isso fria ou mesmo dura.

    O importante é não perder a linha, não perder a calma.

    Chorar faz parte. Saudades também.

    Força mano!

  2. Texto lindo.
    Uma aula de humanidade.
    “Ficam as lembranças, as boas lembranças dos bons momentos, das boas ações, das experiências engrandecedoras (ordinárias e extra-ordinárias) e das intenções que justificam a vida, o bem e o útil”…
    Eis aí a força.
    Teu pai te fez um grande cara, mano.

  3. Meu pai tb se foi há pouco tempo…
    seus últimos posts me deixaram com olhos lacrimejantes.
    Forçaê e continue transformando tais emoções em posts interessantes como vc faz!
    Grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s