A fome

Hoje, por volta de onze e meia da noite, eu voltava de um passeio com a minha cachorra pelo Largo do Arouche quando, a poucos metros de casa, um senhor barbado, negro, mancando de uma perna, me chamou.

– Ei, amigo, por favor.

Parei pra escutar.

Ele queria comida.

Pedia arroz e feijão, estava “com muita vontade” de comer arroz e feijão.

Andava a duas horas, mancando, pedindo comida, e nada.

O homem chorava.

Não, não foi a primeira vez que me aconteceu isso.

Nem a primeira vez que neguei por estar de bolsos vazios – passear a cachorra não demanda dinheiro.

Mas fazia tempo que alguém não olhava nos meus olhos implorando comida.

Que eu não pude dar.

Cheguei em casa e, num impulso, enchi um recipiente com arroz e feijão, esquentei no micro-ondas, peguei um garfo e desci correndo pra ver se o homem ainda andava pela minha rua.

Procurei pelo entorno do Largo do Arouche por cerca de 15 minutos.

Não o encontrei.

Haviam muitas outras pessoas procurando comida pelos lixos.

Mas eu não procurava alguém pra expiar um sentimento de culpa.

Procurava eu mesmo.

Poucas sensações neste mundo podem ser piores do que não poder ajudar uma pessoa com fome.

Não importa se aquele prato nem salvaria o mundo, nem resolveria o problema da fome daquele senhor pra todo o sempre.

O fato é que, por mais assistencialista, excuso de consciência ou altruísmo burguês que possa parecer, me senti impelido a ajudar um homem que olhou nos meus olhos e implorou por comida.

E eu não pude dar.

E se o fato de isso me incomodar tanto a ponto de marejar os olhos não deve ser tomado como motivo de orgulho, também não deve passar despercebido.

Há mais entre duas pessoas que se cruzam numa rua deserta do centro à noite do que qualquer discurso ideológico sobre a fome pode dizer.

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5 Respostas para “A fome

  1. Bom texto Mandz. Me emocionou também.

    Eu brinco com você mas eu sempre entro aqui pra ler seus textos. Gosto mais daqueles que você faz um tracejado em algumas palavras. É engraçado.

    Beijos,
    Favela.

  2. Caro, muito bom, parabéns pelo texto.

    Essa situação é fudida realmente.

    Abraço

  3. Textaço!

    Bela cacetada em todos nós.

    Abraço!

  4. Algo parecido me sucedio ayer.. con un perro que fue cruelmente maltratado por su “dueño”
    nada mas que una discusion con ese señor puede hacer… quien sabe cuantas veces es maltratado al dia… o cuanto hambre puede tener esa persona que miro a tus ojos.
    algunas preguntas no tienen respuesta, y desespera…

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