Grécia 14

Manifestações seguem na Grécia; 14º dia de protestos 

[Nesta sexta-feira (19), novas atividades aconteceram ao redor da Grécia, marcando o 14º dia de protestos, após a morte do jovem Alexandros Grigoropulos.]

Pela manhã, centenas de estudantes das escolas de Peristeri, na região oeste de Atenas, segurando faixas onde se lia “O terrorismo deles não funcionará”, marcharam pelas ruas da cidade para protestar contra o tiro na mão que um garoto de 16 anos recebeu na quarta-feira por um homem não identificado. Os estudantes também organizaram uma manifestação em Piraeus.

Durante boa parte do dia aconteceu uma grande exposição de apoio e solidariedade a céu aberto em Propylea. Mais de 30 artistas participaram e cerca de mil de pessoas prestigiaram o evento.

Algumas fotos da exposição: http://athens.indymedia.org/front.php3?lang=el&article_id=950727#951302  

Cerca de 20-40 pessoas atacaram com bombas incendiárias o Instituto Francês de Atenas -instituição educacional e cultural dependente do Ministério de Relações Exteriores da França-, nesta sexta-feira. Um dos explosivos lançados chegou a atingir o interior do edifício, mas não explodiu. As bombas queimaram a fachada e quebraram janelas no pátio interno. Na fachada, picharam os seguintes dizeres: “Faíscas em Atenas. Incêndio em Paris. Insurreição se aproxima.” Este ato foi, também, em solidariedade com os presos acusados de atos de solidariedade e sabotagens em ferrovias francesas, e os estudantes daquele país que estão nas ruas.

À noite, em Aigaleo, 100 anarquistas realizaram uma manifestação. Quebraram muitas janelas de instituições bancárias e câmeras de vigilância, e picharam lemas nas paredes, ainda atacaram duas delegacias locais.

Além disso, durante uma fala do primeiro ministro num evento teatral no centro de Atenas, por volta de 40 pessoas subiram no palco e desvelaram uma bandeira onde podia se ler: “Todo mundo nas ruas” e “Liberdade para todos os detidos já!”. Muitas pessoas aplaudiram.

Mai uma manifestação de rua aconteceu em Lamia e uma outra em em Larissa.

Em Chania, um grupo de 50 pessoas ocupou uma estação de TV local e botou no ar um vídeo de 20 minutos explicando sobre a violência policial e os acontecimentos na Grécia desde a morte do jovem Alexis pela polícia.

Em Giannena aconteceu uma exposição artística de solidariedade. Na mesma cidade, durante as primeiras horas da manhã, bancos foram atacados, um que funcionava dentro da universidade.

Também aconteceram ataques incendiários em Kavala e Aigio. Dois carros foram postos em chamas em Tessalônica e dois em Patras.

De acordo com o Sindicato dos Professores, 800 escolas no país estão ocupadas pelos estudantes. E mais de 200 faculdades.

Durante a manifestação de ontem, fotógrafos registraram a polícia de choque pulverizando com gás uma senhora idosa transeunte: http://katalipsisxolistheatrou.blogspot.com/2008/12/blog-post_19.html

Fotos do concerto com milhares de pessoas que aconteceu em Tessalônica na quinta-feira(18):http://katalipsisxolistheatrou.blogspot.com/2008/12/blog-post_952.html

Relato de um anarquista em Atenas no dia 18, quinta-feira 

Báchi, Gurúña, Dolofóni – Maderos, Porcos, Assassinos

A concentração estava convocada para às 12h em Propilea por associações estudantis, as assembléias dos departamentos ocupados, esquerdistas e coletivos anarquistas. Mais e mais gente ia chegando, ainda que os bancos e grandes comércios ao redor da rua Panepistimiu fechassem suas portas.

A manifestação começou lá pelas 14h, e era verdadeiramente enorme. Muitos diziam que era inclusive maior que as manifestações da semana passada. Não sei quantos milhares de pessoas havia… mas isso têm pouca importância.

As pessoas saíram da rua Panepistimiu, se dirigindo ao  Parlamento (Praça de Sintagma) através das ruas Pesmasoglu e Stadiu. Gritos, lemas… as ruas são nossas e isto é algo que se via claramente. É algo que se notava, que depois de tantos dias saindo às ruas os jovens, os maiores… todos… ficava patente que a rua lhes pertencia. É algo que não sou capaz de explicar-lhes. Reapropriação total do espaço público, do espaço urbano.

Até chegar na Praça de Sintgma, não foi notada a presença policial. É algo indiscutível o fato de quem provoca o ódio, quem provoca os distúrbios, quem provoca… já que era uma manifestação totalmente pacifica e os únicos ataques que se realizaram era a destruição de câmaras de vigilância.

Na praça de Sintagma nos encontramos com uma multidão de policiais antidistúrbios (MAT). Ali começaram os primeiros incidentes. Um grupo de pessoas encapuzadas tentou tocar fogo na nova árvore de natal (que se encontra no mesmo local da outra anteriormente incendiada), já que a Prefeitura instalou uma outra. Inicialmente pareceu que eles tiveram sucesso já que começou a sair fumaça. Sem dúvida, entre a forte chuva da manhã (ou seja, estava molhada) e a intervenção dos MAT conseguiram apagá-la.

Um grupo de esquerdistas realizou um ataque corpo a corpo com os MAT, com bastões de madeira. Aí começaram a atirar os primeiros gases lacrimogêneos. O povo respondeu com uma onda de pedras e bombas de tinta. Os blocos dos manifestantes se reorganizaram e começaram a dirigir-se de novo a Propilea. E os policiais antidistúrbios nos seguiam pelas calçadas e os becos ao redor da Panepistimiu. Outro ataque com pedras e coquetéis molotov e de novo gases lacrimogêneos.

Entre barricadas muito bem construídas e ataques muito bem organizados, e somente a bancos e a ministérios, ao largo da rua Panepistimiu e Akadimias, nos dirigimos todos a faculdade ocupada de Direito, já que havia assembléia geral.

Dentro da faculdade…

Uma assembléia enorme, com a participação de mais de 700 pessoas. Ali estavam os “representantes” de todos os departamentos ocupados transmitindo as decisões de suas assembléias. Viam-se claramente a intenção e a vontade de seguir adiante, tanto durante as férias do natal como depois.  Havia pessoas no último andar do edifício atirando pedras nos antidistúrbios, vigiando a área e avisando aos que se enfrentavam na rua.

No pátio fogos, para poder proteger-nos dos gases lacrimogêneos que atiravam os antidistúrbios, inclusive dentro…

Uma verdadeira fortaleza.

Fora da faculdade…

Os enfrentamentos duraram umas 5 horas. Barricadas, pedras, coquetéis molotov. Muitíssima gente participando nos enfrentamentos com os MAT. Apoio mútuo, solidariedade…

É algo incrível ver que o povo já não tem nenhum medo (ou pelo menos, muito menos que antes) da polícia. É incrível ver jovens de 15 ou 16 anos enfrentando-se nas ruas, não cagarem-se de medo dos gases e das porras dos MAT, que os blocos dos manifestantes não se dispersam depois de um ataque por parte da polícia. A capacidade de reorganizarem-se na rua, em momentos muito tensos e sob condições que requerem reflexões muito rápidas, é algo que me chamou muito a atenção.

É o que se diz na Grécia. Na rua que nasce a consciência política. Aqui é onde tudo se põe em prática.

E já nem sequer seus gases podem nos parar…

Pela noite fomos ao edifício ocupado da Confederação Geral dos Trabalhadores. Um sindicato burocrata, a mão esquerda do governo. O edifício está tomado por trabalhadores libertários, anarquistas, esquerdistas. Outra assembléia com mais de 400 pessoas, onde se falaram muitos assuntos ao redor do mundo do trabalho, a precariedade e formas de intervenção nos centros de trabalho. Já é hora de que se organizem as pessoas fora dos sindicatos pelegos de maneira horizontal e auto-organizada. Na assembléia se decidiu, entre outras coisas, a realização de várias jornadas durante este fim de semana.

Dirigimos-nos a universidade ocupada de ASSOE. É a ocupação, desde meu ponto de vista, maior que existe. E a que tem muita gente participando, além disso, há um monte de grupos de trabalho desde o funcionamento do refeitório ocupado (havia jantar grátis) até os comunicados, grupos de limpeza etc. A assembléia começou muito tarde, pelas 22h com a participação de umas 500 pessoas. Ali nos comunicaram que detiveram 5 pessoas durante os enfrentamentos da manhã, nos informaram sobre as concentrações do fim de semana e temas de gestão da ocupa. Depois de tantos dias de ocupação e de presença durante todo o dia no edifício, as pessoas estão muito cansadas e se falou muito sobre o que se tem conseguido e sob que condições vão seguir mantendo a ocupação.

Algo que merece a pena mencionar, quanto a capital Atenas, é que aparte do que ocorre no centro (já que é o único lugar que se mostra pelos meios de comunicação), há um montão de iniciativas e muito movimento nos bairros periféricos. Somente para este fim de semana há mais de 10 concentrações-manifestações em distintos bairros atenienses.

Somos a imagem do futuro

Tradução > Juvei

agência de notícias anarquistas-ana

19greece550

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Uma resposta para “Grécia 14

  1. É, esse protesto não tem data para acabar.

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