Italiano na Grécia

Carta de um italiano em Atenas

[A seguir excerto de uma mensagem enviada originalmente a um companheiro português, que reproduzimos em “português brasileiro”.]

Atenas, 15 de dezembro de 2008

Não te preocupes: estou bem. A falta de notícias é devida à impossibilidade de encontrar o lugar e o tempo para escrever-te, mas como se preocupam comigo, eis as news:

[…]

A situação vai-se normalizando (logo te explico o que isso quer dizer). Já não há as grandes batalhas, as destruições e os saques dos primeiros dias. A cidade começa a se reconstruir. Ela lembra-me um bosque dos nossos vales (do norte da Itália) antes da primavera, quando todas as árvores estão ainda completamente desfolhadas e só as cerejeiras já florescidas se distinguem, destacam-se por suas flores brancas.

Atenas é igual pelos prédios queimados. Não são muitos, mas dão nas vistas; de vez em quando um aparece à esquina… uma loja de carros, um banco, um supermercado. Um amigo meu disse-me que acha graça perguntar-se quantos destes esqueletos não estivessem assim antes da revolta; até descobrir que nem anteriormente a situação era cor-de-rosa… E isto explica muitas coisas.

Os últimos confrontos espalhados aconteceram sábado na ocasião da primeira semana depois do assassinato. Uma manifestação logo atrás da outra, confrontos no bairro Gazi e Exarchia com a utilização abundante de fogos de artifício pelos manifestantes, muitas concentrações pacíficas e manifestações espontâneas durante todo o dia e toda a noite.

Eu andei aos montes como um pião até me juntar a uma marcha espontânea de pessoas que voltavam para o centro. É desaconselhável circular sozinho enquanto ocorrem ações… Não há do que ter medo, mas a polícia secreta e os fascistas são uma realidade e podes vê-los perambulando à volta das marchas e das faculdades. A marcha em que estava invadiu a rua, mas, embora se mantivesse quase totalmente pacífica, foi parada pela polícia que cortou a passagem à frente e atrás. Consegui fugir com outro menino até a Universidade de ASSOE, um covil anárquico.

Lá soubemos que 37 pessoas foram bloqueadas pela manobra da polícia e presas. Os anarquistas decidiram então responder queimando um banco. Prontos e armados saíram da ASSOE, mas voltaram logo depois quando um coquetel Molotov entrou por engano numa casa. Quase acabaram por bater-se.

Então fui para casa: do meu ponto de vista a coisa está a perder-se. Concretamente as manifestações estão nas mãos dos anarquistas da ASSOE e do Politécnico, mas são ações escolhidas, pilhagem a bombas de gasolina e rápidos raids incendiários contra bancos ou objetivos governamentais como ministérios ou distritos da polícia. A resistência já não é difundida e de todas as maneiras segue pacífica, contudo as manifestações continuam sem parar.

Além da crônica

A situação está “normalizada”, como já te disse, numa completa anormalidade. O fato de não haver saques em todo lado não significa que tudo esteja como dantes. O clima que se respira, o ar é diferente. Vê-se em muitas pequenas coisas. Realmente pode-se ir trabalhar de manhã, mas os semáforos foram quase todos totalmente destruídos. Consegues imaginar uma metrópole do tamanho de Atenas, com 5 ou 6 milhões de habitantes, caótica e desordenada, sem placas de trânsito? Isto significa que deslocar-se do ponto A até o ponto B da cidade pode demorar um tempo indeterminado que pode mudar de várias horas segundo o dia ou o momento… E nem falo sequer das passeatas contínuas.

Ninguém se atreve a intervir em nada. Adolescentes que destroem cabines telefônicas ou queimam multi-bancos… e ninguém diz nada… nem sequer a polícia. Os polícias andam sós em grupos, todos juntos, mas nunca intervêm. Têm medo, só esperam para o turno acabar e as pessoas sabem, todos o sentem. Cada um faz o que quer, desde atravessar onde é proibido até atirar-lhes lixo em cima.

Só para te dar um exemplo. Ontem pelo centro passou um Porsche. Um homem que estava a atravessar (um homem normal – nos seus 40 anos – de fato e com mala) parou, pegou uma pedra e… atirou-lha!

Nada de transcendente, percebes? Mas a gente está a acostumar-se ao absurdo.

A ASSOE, quase todos os dias, faz incursão num supermercado e leva tudo para abastecer a cantina auto-gerida e gratuita… Isto poderia continuar durante muito tempo.

O custo de vida é altíssimo, os salários dos mais baixos na Europa. Já ninguém acredita no conto de fadas para crianças da democracia.

Costuma-se considerar a Grécia como algo “fora” da Europa, como choques no Líbano ou sei lá… Pode-se pensar o que se quiser, mas a Grécia está na Europa. Eu vivo aqui, fogo! Talvez seja um nervo destapado, mas faz parte do nosso sistema democrático. O que está a acontecer aqui leva a reflexões que deveriam envolver-nos a todos sobre o nosso sistema de governo a colapsar, até os EUA sentiram a necessidade estética de limpar-se a cara através da eleição de Obama.

A separação entre Estado e cidadãos aqui é concreta… podemos respirá-la no ar. A hostilidade das pessoas contra os policiais (deveriam ser os nossos anjos de guarda, mas aqui obviamente ninguém acredita)… O que se diz na Itália – os polícias são servos dos servos, o poder replica-se a si mesmo, o objetivo da política é obter votos, etc. – aqui se vê em concreto, devido a problemas estruturais gravíssimos que primeiramente a Grécia já não consegue esconder.

O mesmo que, de maneira mais sutil, se perpetua em cada país ocidental; e deveria fazer refletir que o incêndio esperava, há anos, por baixo das cinzas assim como em cada subúrbio da Europa. Mas a fagulha explodiu de repente, em poucas horas e sem nenhum aviso prévio.

Como se costuma dizer… O rei está nu…

E agora?

P.

agência de notícias anarquistas-ana

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