Futebol anarquista nos EUA

A mais espetacular jogada pela esquerda desde George Best  


Por todo os EUA, hordas de comunistas e anarquistas estão começando a jogar futebol. Alguém aí pensou em “sem juízes e sem mestres”?

Quatro anos atrás eu troquei a quebrada, paroquial e entediantemente Blair-iluminada Bretanha pela super-reluzente América. E assim como milhares de refugiados ingleses antes de mim, fiquei chocado de encontrar os americanos não nos ranchos, mas em campos de futebol.  Campos que existem aos milhares, interligados, de oceano a oceano – tantos que alguém pode começar driblando em New York e terminar em Los Angeles sem ter tirado as chuteiras uma vez sequer. Ou quase.

E quem joga nesses campos? Milhares de machos sujos e bêbados de 200 quilos como na Inglaterra? Não muitos. Mulheres? Sim. Crianças? Sim. Comunistas – meu deus, sim. Incontáveis hordas deles.

Em Duluth, Minnesota, você encontra a Commie Soccer League, liga comunista de futebol (“todas as regras são democraticamente votadas”). Em Chicago um time anarquista chamado Arsenal organiza anualmente um torneio de futebol chamado “Matches and Mayhem” (algo como Confrontos e Desordem). Baltimore é abençoada por um “time de futebol punk-rock” chamado CCCP FC (uma vez que a sigla significa “Charm City Cunt Punchers”, algo como “Charmosos Socadores de Buceta da Cidade”, as credenciais políticas do clube podem ser consideradas um pouco suspeitas por aqueles que tiverem alguma inclinação feminista).

Em Portland, há um jogo organizado pelos auto-intitulados “hippies de esquerda preguiçosos e fedidos”, enquanto em Cape Cod a Socialist Saturday Morning Sandy Pond Soccer League (Liga Socialista de Sábado de Manhã de Futebol no Tanque de Areia) tem um website que toca o antigo hino nacional soviético. E eu pessoalmente joguei um futebol de salão “20 pra cada lado” entre os Philadelphia’s RASH (Red Action Skinheads, os skinheads comunistas) e os SPAR (Skins and Punks Against Racism, os punks e skins contra o racismo). 

Há jogos esquerdistas em Winnipeg (“sem juízes, sem mestres!”), Calgary (casa do Calgary Libre! FC), Wilmington e Austin. E em New Brunswick, Denver, Seattle, East Lansing, San Diego, Maine e Washington DC (onde há um jogo de Halloween com jogadores fantasiados todo outubro). E há um jogo anarco-comunista de domingo que acontece no New York’s Tompkins Square Park há anos.

Mas é San Francisco que o futebol anarco-comunista americano realmente tomou. Desde 2002, o comunista Left Wing Futbol Club tem regularmente tido suas bundas rosas servidas em um prato pelos anarquistas do todo-negro Krondstadt FC, e mais recentemente ambos participaram do anual BADASS (Bay Area Direct Action Soccer Series, ou Liga de Futebol de Ação Direta de Bay Area), parte integrante do BASTARD (Berkeley Anarchist Students of Theory And Research&Development, ou Estudantes Anarquistas de Teoria, Pesquisa e Desenvolvimento de Berkeley), uma conferência anarquista.

O primeiro jogo da história entre Left Wing e Krondstadt foi interrompido por um policial solitário quando um mascote anarquista correu pela linha de fundo carregando uma enorme bandeira negra e entoando “Agitate! Agitate! Score a goal and smash the state!” (algo como Agite! Agite! Marque um gol e esmague o estado!”). O tipo de coisa que faz parte do conteúdo do futebol esquerdista americano.

A competição anual então se transformou em um tipo de instituição esportiva bizarro-americana. Em um jogo, a banda de marchas Brass Liberation Orchestra tocou A Internacional enquanto jogadores que pogavam socavam o ar e anarco-cheerleaders todas de negro e com botas de ciclista agitavam pompons feitos de saco de lixo e gritavam “Me dê um A! A! A de Anarquia!”

E não, isto não é o entediante futebol patriarcal do seu avô. “Eu cresci na Argentina, onde o melhor jogador faz uma dancinha com a bola e só a passa se for para outro melhor jogador por perto”, disse para o West Bay Express a jogadora do Left Wing Marie Poblet. “Se nós queremos mudar o mundo, nós temos que mudar o jeito que jogamos”.

Há também por lá alguns cantos de torcida engraçados, sendo o melhor: “Você diz que se espelha no Mao para a salvação? E o que me diz sobre a situação dos trabalhadores de Xinjiang?!”. E substituições a todo tempo são permitidas, ao menos parcialmente, para assegurar que “mulheres, gays e pessoas de cor etc” estejam todos representados (embora essa afirmação possa ser uma brincadeira, é difícil dizer).

Porque futebol? “A natureza do jogo permite que pessoas com diferentes técnicas e habilidades joguem ao mesmo tempo”, diz Paul Royal, do anarquista Detroit Riot FC. “Isso é importante porque nós da esquerda tentamos sempre ser inclusivos e apaixonados por nossos princípios políticos. E também porque não há jeito melhor de bloquear uma rua durante uma manifestação do que com um jogo de futebol instantâneo, improvisado na hora”.

O curioso caso de amor entre os esquerdistas dos EUA e o futebol pode ter começado em 2000, quando a liga anarquista baseada em Washington intitulada Anarchist  Soccer League desafiou o Banco Mundial para um “contra”. Os cachorros fujões capitalistas não apareceram e perderam por W.O. Anti-desportivamente, eles também falharam em cancelar a dívida mundial. Desde então, jogos de futebol instantâneos passaram a pipocar em manifestações anti-capitalistas e anti-guerra por todo os EUA.

Mas você vai perceber que a maior parte deste artigo foi escrita no passado. Há uma razão para isso. Quando eu recomecei minha pesquisa sobre o futebol anarco-comunista americano (que vai fazer parte do livro A Revolução do Futebol: A Ameaça Futebolística Gay, Feminina e Comunista ao “American Way of Life” – editores e agentes, peguem o caminho da minha casa agora!), eu dei de cara com uma escura, desestimuladora, selvagem explosão de links quebrados, websites desativados e esvaziadas e antigas salas de bate-papo, comunidades virtuais e proto-blogs sobre futebol anarco-comunista. A maioria não era atualizada há meses (e em alguns casos, anos).

Tinha o futebol anarco-comunista americano sido uma mera moda-de-virada-do-século da ala radical-chique? Ou essa falta de atividade era algo mais sinistro? Tinha a cena sido destruída pelo vicioso aparato neocon dirigido pela opressão estatal? Tinha o futebol anarco-comunista caído nas garras dos esquadrões sujos da CIA, dos agentes infiltrados do FBI, dos patrulheiros reformistas e dos hackers do Departamento de Segurança Nacional?

Eu telefonei. Eu mandei emails. Eu colei panfletos nos postes de luz. Eu escondi mensagens criptografadas nos buracos das árvores. E então – tão vagarosamente quanto o primeiro floco de neve trilhando seu caminho e determinando o fim da primavera – as respostas começaram a chegar. De maoístas e trotskistas e anarquistas e feministas, ativistas anti-guerra, anti-racismo, anti-imperialismo e anarquistas de todas as tendências. E todos eles diziam a mesma coisa: “Estamos aqui, camarada! E prontos pra jogar! Mas assim que estver um pouquinho mais quente. Você saiu de casa ultimamente? O tempo lá fora ainda está congelante”.

O futebol anarco-comunista americano está vivo e bem. Esteve apenas hibernando. Nesta primavera eles estarão novamente a mudar a América – jogo democraticamente arbitrado (com substituições livres) a jogo. 

Steven Wells

Fonte: The Guardian (Inglaterra) – 14 de março de 2007
Tradução: Kadj Oman

Krondstadt 2 x 1 Left Wing (2008)

Krondstadt 2 x 1 Left Wing (2008)

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Torcida do Krondstadt

 

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Uma resposta para “Futebol anarquista nos EUA

  1. “Comunistas – meu deus, sim. Incontáveis hordas deles.”

    Animal essa frase…

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