De arrepiar

Inacreditável.

Eu sempre fui contra o futebol espetáculo no sentido de consumo.

Sempre achei absurdo o nível de controle que existe nos estádios ingleses.

Mas há cinco minutos acabei de presenciar pela televisão algo arrepiante.

Jogavam Tottenham e Liverpool, pela Copa da Liga Inglesa. O Liverpool com um time reserva, o Tottenham nem tanto.

O placar era de 4 a 2 para o Tottenham quando o goleiro brasileiro Gomes saiu corajosamente em uma bola rasteira aos pés de um atacante do Liverpool, que se chocou contra a cabeça do goleiro.

Goleiro que do jeito que caiu, ficou.

Um jogador do Tottenham, seu companheiro, se aproximou e imediatamente tentou segurar sua língua, num sinal claro de que ele estava tendo convulsões. Os médicos chegaram correndo.

E a TV, afeita ao ideal do espetáculo, de não mostrar nada que rompa sua continuidade semi-divina, passou a mostrar a torcida.

Apreensiva torcida, de ambas as equipes.

Alguns minutos depois, vemos Gomes cercado por 6 paramédicos, aparelhos de respiração ao seu lado. E ele sai numa maca, sem podermos ver seu rosto.

Afora a agonia que dá em não saber o que há com ele, tudo feito para que o espetáculo, ó grande deus espetáculo, não se manche, das arquibancadas, talvez o local mais atingido por esse controle ostensivo dentro do espaço do estádio, vem uma reação que eriça todos os pêlos do meu corpo.

As duas torcidas batem palmas para a saída do goleiro.

Não importava naquele momento o jogo, importava a vida.

Por mais que alguns dos aplausos, atravessados que são pelo sir espetáculo, possam ter cara de “tira logo esse cara daí e recomeça o jogo”.

Em um mundo com valores morais tão deteriorados, certamente um exemplo, ainda mais dentro de um esporte que já gerou tantas cenas lastimáveis nas arquibancadas.

Ver a torcida dos Reds aplaudindo efusivamente o goleiro do rival foi algo de belo em meio à tanta manipulação televisiva.

Espero realmente que Gomes esteja bem antes mesmo de terminar de escrever este texto.

Que sua família fique tranquila.

E que um dia não escutemos mais pelos estádios brasileiros coisas como este canto, entoado pela torcida do Santo André nos jogos contra o rival São Caetano:

“Ó São Caetano, porque estás tão triste?

Mas o que foi que te aconteceu?

Foi o Serginho que caiu no campo

Deu dois suspiros

E depois morreu?”

Porque entre o controle ostensivo e a liberdade permissiva, eu fico com os aplausos das arquibancadas.

E torço pra que eles sejam cada vez mais contra a imbecilidade – da violência e do controle ostensivo, casal que forma um par mais-que-(im)perfeito.

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2 Respostas para “De arrepiar

  1. “Segundo o site do jornal britânico “The Guardian”, Gomes recebeu atendimento no estádio e não foi levado ao hospital.”

    A desvalorização da vida é algo que me intriga e me irrita.
    Dias desses eu conversava com meu namorado, enquanto assistíamos o jornal, que informava: Devido a um acidente com 2 vítimas fatais o trânsito em na Maringal está horrível. O que fazer pra melhorar o trânsito?”
    As notícias hoje são assim: morreu mais um. O que isso atrapalha minha vida? Porque morrer virou normal, ainda mais se for uma morte violenta.
    Irrita e entristece.

  2. Caracas, a torcida do Sto André faz isso? Que maldade da porra… Nem eu que gosto de humor negro achei graça!

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