Todos os times são do povo

por Maurício Noznica*

Se “time do povo” for o título dado à equipe que tem tocerdores que fazem mais sacifícios, então somos todos torcedores do time do povo.

Cada um que conte a sua história, a minha é essa:

O jogo é fora de casa.

A torcida adversária estará não duas, ou 10, mas 100 vezes maior que a nossa.

Mesmo assim, dois ônibus irão pro estádio na outra cidade, sem escolta da polícia.

Pra variar, se perdem. Por azar passamos em frente da sede de duas organizadas, das grandes. Seus integrantes nos olham com um misto de raiva e sarcasmo. “Que ridículos”, pensam.

Os dois ônibus seguem.

Será um jogo difícil, contra o líder disparado, que conta os jogos pra alcançar o acesso à Série A, de onde caíra no ano anterior.

Chegamos ao estádio. As ruas tomadas da torcida rival. Ameaçam nos jogar alguns objetos, mesmo assim não fechamos os vidros, seguimos cantando, como um último grito.

A entrada? Portão 23 do Pacaembu. É… é esse mesmo, onde uma fila de cerca de 500 corinthianos se empurra para entrar. Quatro policiais aparecem e nos fazem descer no meio da multidão. Não houve maldade, não fizeram nada, olhavam admirados como se dissessem “por que vieram?”, mesma pergunta da polícia, que nos vê apenas como um trabalho a mais.

Por alguns minutos somos o centro das atenções, a mistura de desafio, medo e alegria se transforma em euforia ao entrarmos no lugar destinado a nossa torcida.

Minutos de êxtase depois inicia-se o jogo. O time joga afinado com o desejo dos torcedores, com raça e vontade falando mais alto que a técnica. Nossa torcida sequer depende disso e segue cantando desde o primeiro minuto de jogo.

Santo André 1 x 0. As lágrimas são tantas quanto os gritos. Acaba o primeiro tempo. Jogamos bem, cantamos bonito.

Nossa gente, nossos cidadãos e cidadãs, senhoras, crianças, adolescenes, boleiros, trabalhadores, desempregados… todos ali… orgulhosos do nosso brasão, que simplesmente é usado como escudo de união.

Começa o 2º tempo. Chove. Santo André 2 x 0. Mais lágrimas.

O Corinthians acorda e vai pra cima, mas ainda desconcertado, e após um erro do ataque, é possível escutar as primeiras vaias e reclamações.

Se segura Santo André… se aguentarmos mais alguns minutos…

Uma massa de ar quente se desloca na minha cara. O gol vem gritado por quase 30 mil torcedores. Machuca, deixa triste, mas não paramos de cantar.

Eu já sabia o fim. Era impossível ser diferente, o estádio vinha abaixo. A policia avisa, se quisermos escolta para a volta, temos que sair agora. Então não queremos escolta, eu nunca vou te abandonar, Santo André.

Gol. O policial ri enquanto vai embora.

Corinthians 2 x 2 Santo André. O pior aconteceu.

E dá-lhe mais sufoco. Mas acaba-se o jogo e o sonho.

Acordo do transe e me sinto bem, fizemos nossa parte, continuamos cantando.

Mas temos que esperar mais um tempo de 45 minutos pra irmos embora.

Esperamos, xingados por todos que deixam o estádio. Não nos importamos.

Chegam nossos ônibus (que estão incrivelmente mais lotados agora).

Não temos escolta, as ruas estão paradas e cheias de torcedores rivais. Assim que a última pessoa entra no ônibus vem a primeira pedra.

Primeira e última, é o que parecia, a torcida adversária não parece nos perceber no meio do trânsito e da chuva.

O motorista, pra variar, se perde e contorna o Pacaembu. Seguimos apreensivos, até que um torcedor alvinegro vem até a nossa porta e nos convida: “desce aê, cuzão”. As 45 pessoas, entre as quais idosas e crianças que estavam no ônibus, rejeitam a idéia.

Inconformado com a negativa, o amigo do lado de fora estoura o vidro da porta do ônibus com uma pedra, ou garrafa que tinha em mãos. Os vidros chegam a machucar algumas pessoas.

Não há uma viatura, um policial, estamos por nossa própria conta, sem deus, sem leis.

E por obra do destino o trânsito anda, e saímos dali. Simples assim.

A viagem ainda demora, e chegamos em Santo André por volta das 20h30, a ponto de saber que o time B havia vencido o Linense por 4×3 pela Copa FPF. Pudemos saudar os jogadores que saíam pelo portão do Brunão.

E chega por hoje, semana que vem jogamos em casa.

Não somos muitos, mas também somos povo, e pra nós o Ramalhão é que é o time do povo…

*Maurício Noznica é publicitário, andreense, punk, colecionador de camisas (que podem ser vistas em seu blog, http://asmilcamisas.wordpress.com) e estava entre os que invadiram o gramado do Maracanã quando o Ramalhão venceu o Flamengo por 2 x 0 e sagrou-se campeão da Copa do Brasil de 2004. Me mandou esse texto por email em resposta ao meu texto “Time do Povo” e eu tomei a liberdade de criar um título e publicá-lo aqui.

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3 Respostas para “Todos os times são do povo

  1. É interessante ver como é do outro lado da arquibancada, principalmente no pacaembú.
    Parabéns pro maurício pela coragem e pra toda a torcida do Santo André, que está semrpe presente contra o Coringão. Já vi pessoalmente… comendo um pernil ali na charles miler e a torcida do Santo André chegando, cantando e vibrando de vidros abertos… São poucas no Brasil que tem coragem de fazer isso…

  2. Mau é um quase amigo de infância.

    É uma pena que ele me odeie.

  3. Vc faz geografia a onde?

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