Zero zero sete

Hoje fui votar, exercer tooodo esse grandicíssimo direito democrático que foi concedido conquistado com a luta de muitos e a gloriosa e benevolente vontade do Estado.

Obrigado, Estado, obrigado.

E como as mudanças que surgirão no mundo depois das 9 pressionadas de botão que me são permitidas acontecerem serão responsabilidade minha, fui lá e fiz a minha parte.

Meu voto, minha responsabilidade, minha parte.

Tudo meu.

Engraçado… e os outros?

“Ah, pára, cada um no seu quadrado, né, Mandioca!”

“Será que você não fica feliz com nada? Pô, você já tem a dádiva da escolha! Isto é democracia!”

Legal, então eu posso escolher quem vai me estuprar? Que fantástico!

Nos tempos de papai e mamãe (sem trocadalhos) não se podia isso não.

Em compensação, papai e mamãe foram de certa forma forçados impelidos a construir o que queriam, sem a cidadania politicamente correta da votação ou de pedir ao Estado “ei, tio, posso?”.

Eles lutaram. Juntos. Por algo em comum, algo melhor pra todos. Naquela época, existiam os outros. E não só na tela de cinema quando algum filho de banqueiro queria fazer filme pra mostrar pra Europa “oh, como sofremos”.

O que eu estou dizendo, que é melhor uma sociedade autoritária pra que as pessoas se vejam inclinadas a lutar?

“É isso Mandioca, você prefere a ditadura? Queria estar em Cuba ou China? Queria ser um bárbaro árabe morando no Irã?”

Não.

Porque isso seria determinista e matemático demais (ditadura + grupos radicais = revolução) e uma interpretação deveras simplista. Sem contar que seria tomar toda revolução como uma coisa intrínseca, necessária e totalitariamente boa – alô, Revolução Francesa? Tem alguém aí? Tô ligando pra agradecer pela nova ordem burguesa das coisas… brigado, viu? Égalite, Fraternité, Liberté… de mercado.

“Caramba, nem da Revolução Francesa você gosta? Pôxa, é graças a ela que hoje a gente pode escolher, mêo!”

Uau!

Isso parece bom quando comparado ao feudalismo, à Idade Média ou aos 4354325 anos de poder de Fidel Castro né?

Lá em Cuba ninguém pode escolher entre tênis da Nike e da Adidas, que absurdo!

Já a gente aqui pode escolher. Graças à democracia.

Só não tem é dinheiro pra todo mundo comprar.

Ou melhor, a imensa maioria não tem direito dinheiro pra comprar.

Que coisa não?

Na ilha do Fidel não tem quase ninguém descalço…

“Caralho Mandioca, você quer mesmo uma ditadura né…”

Não.

Só que nem todo o azul é marinho e nem todo o vermelho come criancinha.

A ditadura cubana é um lixo.

Mas isso não faz da “democracia” brasileira (e estadunidense, argentina, uruguaia etc) algo bom.

Simplesmente porque o mundo todo vive uma ditadura bem maior e mais ampla, irrestrita.

A ditadura da mercadoria, do capital.

Tudo se vende, tudo se compra.

Ah sim, se pode votar no que se compra – “quero o Corinthians de roxo ou de branco no próximo jogo de pay-per-view que eu vou comprar por R$ 55,00?”

Desde que se compre.

Neste totalitarismo de mercado, o direito sagrado do voto nada mais é do que uma farsa.

Te forçam a “deixam” escolher, mas não te dizem que é possível ir além do escolher, criar suas próprias opções.

Te dão a tinta amarela ou a verde pra pintar sua cara, mas não dizem que se você quiser pode  pintar ela de preto.

Ou então não pintar.

E que se um grupo grande de pessoas optasse por deixar de fazer papel de palhaço não pintar as caras e passasse a juntar seus interesses pra lutar e pra criar suas próprias opções, o tal do titio Estado estaria fodido.

(Lutar, como fizeram nossos pais pra que hoje possamos sentar a nossa bunda – sozinha – na cadeira em frente ao computador e fazer um blog engraçadalho.)

Mas não.

Agradecemos todos os dias por ter internet.

Porque, como diria o Rodrigo, seria demais dividir as coisas que você já tem: cerveja, um par de tênis e o caos.

E seguimos navegando no mar da sociedade de compra e venda de informação – que é na verdade a sociedade do totalitarismo informacional.

Um lugar onde se fundamenta argumentos com o velho e bom novo e péssimo “eu li na internet”.

Onde se renega a História e se nega o conhecimento – porque você leu na internet, só você, sozinho, e a partir daí passou a ser verdade, sem a busca pela origem da informação, sua construção, seu passado; e sem a necessária etapa de transformação da informação em conhecimento que consiste em colocar a informação para o mundo e a partir daí contextualizá-la e colocá-la à prova enquanto algo capaz de explicar e ser explicada por esse mesmo mundo.

E aí, a absoluta ausência do outro e do coletivo é tão grande que um dia de votação se torna cidadania, uma enquete eletrônica se transforma em “programação interativa”.

Numa verdadeira sociedade de jornalistas (onde estão os poetas, mortos?), que votam e fazem sua parte.

É o abstrato se tornando concreto.

O sertão que já virou mar.

E já que virou mar, compareci à minha seção eleitoral de fone de ouvido, essa espécie de escafandro social que te protege da falta de lucidez alheia e do tédio do cotidiano, escutando Isis – The Red Sea, e tal qual um bom agente secreto da subversão, usei a velha e boa tática do 007.

Zero zero zero zero zero, confirma.

Zero zero, confirma.

Os sete zeros da insubmissão simbólica.

E saí de lá cantando, junto com o Neurosis:

Where are they now?
They’re gone
I saw them run,
run to the sea…

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3 Respostas para “Zero zero sete

  1. noisera, hein

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