A batalha da curva

Bem, pra quem não sabe, além do MACD eu jogo no Autônomos FC, time autogestionário de futebol de várzea.

E sábado último, os mafaldinos (como somos conhecidos) conseguiram uma vitória épica fora de casa.

Segue o relato:

Diário Mafaldino – A batalha da curva 

Penha (Brasil) – Foi do jeito que ninguém esperava, em circunstâncias que sugeriam um potencial vexame e com um grupo de jogadores extenuado por ter emendado duas partidas em seqüência que o Autônomos voltou a se reencontrar com a vitória, e mais, a fazer as pazes com os triunfos na condição de visitante, fato ainda não muito corriqueiro na breve história do clube. O palco da façanha, que quase veio também na partida anterior, foi o já célebre campo da curva, delimitado em um de seus cantos pelo cruzamento da Radial Leste com a Avenida Aricanduva. Parece endereço de bar, mas é apenas o local de onde se pode cobrar escanteios. 

Entretanto, são as vitórias que vêm acompanhadas de dias de câimbras, canelas raladas e carrinhos na lama que se desfrutam mais intensamente. Com apenas 11 jogadores disponíveis e cerca de 15 minutos para descansar entre um e outro jogo, o Auto voltou ao ‘Campo da Curva’ para se defrontar com o Fanáticos, mais um time da casa. 

Temeroso com a possibilidade de não conseguir fazer uma apresentação digna, o Auto precisou usar algo além das pernas para vencer a partida. Consciente das limitações que as circunstâncias impunham, o rubro-negro calculou o jogo desde o início e mesmo com uma formação totalmente inédita, formada pelo acaso, executou seu plano praticamente à perfeição. Com Matusa iniciando no gol, a zaga foi formada por Jão, Feu e Renato. Zau e Sema foram os volantes, Gabriel e Boça os alas, com Flaco Ñeta na posição de enlace e a dupla de ataque Bruno e Mago, repeteco da preliminar. 

E quando menos se podia esperar, o Auto teve o começo de jogo mais fulminante do ano. Logo de cara, Ñeta desarmou o volante adversário, serviu Bruno, que disparou de longe, rasteiro e abriu o placar. Logo na seqüência, Zau rifou uma pelota em direção ao goleiro, que tal qual Shroiff da Tchecoslováquia, na final de 62, largou a bola que parecia garantida na pequena área, nos pés de Bruno, que foi o Vavá da vez e empurrou- a para as redes. 2-0 em um par de jogadas e sem que sua defesa precisasse ser acionada, para incredulidade dos próprios jogadores visitantes, que se entreolhavam e simplesmente gargalhavam. 

Com um começo de jogo de sonhos, o Auto contou com a eficiência de seu meio, que teve Zau como bandeira nos desarmes, e cortava as jogadas do time da casa logo em sua nascente, fazendo com que as bolas chegassem picadas ou já perdidas para a linha de zaga. Aproveitando ainda os espaços cedidos pelo time da casa – que se lançava ao ataque com muitos jogadores, porém sem muita profundidade -, o terceiro gol não demorou a sair, vindo após linda trama entre vários jogadores pelo meio, que terminou com Sema abrindo para Valdivia na ponta direita e com o cruzamento perfeito deste para a cabeça de Bruno, anotando o terceiro numa autêntica jogada de manual.  

Antes que viesse o intervalo, má notícia para o rubro-negro: Zau, após se engalfinhar seguidas vezes com o armador adversário, fez falta sobre o mesmo, que se irritou e atirou-lhe a bola. Confusão no gramado/terrão e o juiz, que já havia advertido os dois mais de uma vez, tirou o vermelho do bolso, deixando ambas as equipes com dez. A continuidade da partida mostraria que o Auto foi o maior prejudicado, pois sem opções de banco e com um time já repleto de improvisos, pareceu um time de vôlei no segundo tempo, tantas foram as trocas de posição entre os jogadores, que aconteciam conforme o cansaço e eventuais lesões se faziam sentir. 

De posse de uma valiosa vantagem, o Auto voltou ao complemento decidido a esperar atrás e lançar Bruno e Valdivia nos contra-ataques, que sempre apareciam em meio a vulnerável defesa local. Tendo trocado meio time no descanso, o Fanáticos também estava firme em seu propósito de buscar o resultado. Logo de cara, um chute de fora da área encobriu Feu, permitindo o desconto. Com juiz/jogador da casa no apito, não se podia esperar outra coisa a não ser o velho expediente das faltinhas perto da área. Em uma delas, Feu não alcançou batida bem colocada em seu canto e a vantagem autônoma se viu ainda mais encurtada. 

O cenário da derrocada parecia montado. No entanto, o Auto não havia esquecido de suas cartas na manga. Sempre procurando sua dupla de ataque através de lançamentos, raramente bloqueados, a equipe visitante chegaria ao quarto gol em jogada brigada e vencida por Bruno, que no meio de dois zagueiros conseguiu levar a bola para dentro da área e executar o arqueiro fanático. Tranqüilidade mais que bem-vinda fundamental, por ter dado uma maior margem ao time que se arrastava como podia em seu quarto tempo de jogo. Tudo isso após o quase-frangaço de Feu, que ao tentar agarrar cruzamento baixo, deixou a bola passar entre suas pernas para caprichosamente flertar com a linha fatal, sendo salva por Matusa, que a afastou para a puta que pariu e empatou a foda local, mas não o jogo. 

Voltando a ser sufocado por séries intermináveis de chutes de longa distância e cruzamentos na área, o Auto se segurava como podia. Em uma dessas investidas, Boça “fez” pênalti no ponteiro esquerdo da casa, que deve ter aprendido o truque nas escolas de teatro gaúchas, comandadas pelo professor Tinga. A justificativa do árbitro-meia-direita-no-primeiro-tempo foi risível: “ele se jogou porque se não seria levantado”. Entretanto, os deuses do futebol só queriam dar uma pitada extra (como se precisasse!) de heroísmo ao embate. Concentrado como nunca, mestre Feu voou alto à sua direita, espalmando espetacularmente a cobrança e desatando o delírio total entre os jogadores. Pouco depois, porém, novo chute de fora da área voltaria a encontrar morada nas redes rubro-negras e os Fanáticos estavam no encalço novamente. 

A partir de então, o que se viu foi uma verdadeira demonstração de garra e comprometimento com a causa autônoma. Foi extinto o esquema tático e agora todos defendiam ‘em uníssono’, rebatendo para o mais longe possível qualquer bola que respingasse perto do pagode rubro-negro, como diria outro mestre, Silvio Luiz no caso. E foram dezenas. Mas com Feu de volta a zaga e com Jão em nova tarde de gigante, o time encontrou segurança em sua defesa, complementada pela segura atuação de Boça no arco nos minutos derradeiros. Ñeta encostou pela esquerda em Renato (como desarmou!) e ajudou a bloquear essa via adversária. Pela direita, Gabriel e Matusa faziam o mesmo, com o segundo também auxiliando Sema na cabeça de área. Bruno e Valdivia, contundido, permaneciam na frente, segurando alguns defensores. 

Com a chuva fina caindo junto da cinzenta tarde-noite que cobria a cidade, o jogo foi se aproximando de seu final na base do ataque contra defesa. Porém, à medida que o time da casa não encontrava a igualdade, o jogo na verdade se afastava de seu término, pois aparentemente o relógio do juiz não era a prova d’água. 

Mas não, dessa vez não haveria quem estragasse a tarde de glória do Auto. Esgotados, os jogadores explodiram em festa ao ouvirem o último sopro da tarde e conquistar o fantástico triunfo, graças a uma tarde exuberante de Bruno e um conjunto de guerreiros conscientes de que essa não podia, e tampouco merecia, escapar, ainda que na marra fosse. 

Extasiada, a esquadra autônoma invadiu os vestiários entoando o tradicional coro de sua torcida e ali mesmo embalou a festa da suada e sofrida vitória. Já recompensados, os jogadores se cumprimentavam e saboreavam cada segundo daquela reunião de bravos caudilhos, que levariam para suas casas uma história cheia de contornos épicos e dramáticos, protagonizada por eles mesmos. Pequenas alegrias que só podem ser compreendidas por quem leva em sua própria alma o significado de jogar por simples devoção a uma camisa e a um grupo de amigos, reproduzindo um pouco em suas próprias carnes pedacinhos daquela magia que o futebol nos ensinou desde que nos entendemos por gente. Com muita cerveja e fumaça no balneário, os jogadores estenderam aquela gloriosa jornada até o último instante possível, deixando as dependências do Guaiauna somente ao anoitecer, ao lado da última testemunha do local. 

(Enviado especial, z/l).

***

Cabe dizer que eu não joguei esse segundo jogo, só o primeiro, quando perdemos por 4 x 3 com direito a um pênalti desperdiçado nos minutos finais.

Jogo em que protagonizei o melhor lateral do mundo: fui tomar impulso pra cobrar, escorreguei na grama molhada, a bola escapou da minha mão e eu fui de cara no chão.

O jogo parou para todos rirem.

Uma pena não ter sido filmado.

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2 Respostas para “A batalha da curva

  1. grande relato mandi. até parece que vc estava presente, fazendo a do jornalista..

  2. É, mas o relato é do Gabriel, que esteve lá… hehehe.

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