Arquivo do mês: setembro 2008

A batalha da curva

Bem, pra quem não sabe, além do MACD eu jogo no Autônomos FC, time autogestionário de futebol de várzea.

E sábado último, os mafaldinos (como somos conhecidos) conseguiram uma vitória épica fora de casa.

Segue o relato:

Diário Mafaldino – A batalha da curva 

Penha (Brasil) – Foi do jeito que ninguém esperava, em circunstâncias que sugeriam um potencial vexame e com um grupo de jogadores extenuado por ter emendado duas partidas em seqüência que o Autônomos voltou a se reencontrar com a vitória, e mais, a fazer as pazes com os triunfos na condição de visitante, fato ainda não muito corriqueiro na breve história do clube. O palco da façanha, que quase veio também na partida anterior, foi o já célebre campo da curva, delimitado em um de seus cantos pelo cruzamento da Radial Leste com a Avenida Aricanduva. Parece endereço de bar, mas é apenas o local de onde se pode cobrar escanteios. 

Entretanto, são as vitórias que vêm acompanhadas de dias de câimbras, canelas raladas e carrinhos na lama que se desfrutam mais intensamente. Com apenas 11 jogadores disponíveis e cerca de 15 minutos para descansar entre um e outro jogo, o Auto voltou ao ‘Campo da Curva’ para se defrontar com o Fanáticos, mais um time da casa. 

Temeroso com a possibilidade de não conseguir fazer uma apresentação digna, o Auto precisou usar algo além das pernas para vencer a partida. Consciente das limitações que as circunstâncias impunham, o rubro-negro calculou o jogo desde o início e mesmo com uma formação totalmente inédita, formada pelo acaso, executou seu plano praticamente à perfeição. Com Matusa iniciando no gol, a zaga foi formada por Jão, Feu e Renato. Zau e Sema foram os volantes, Gabriel e Boça os alas, com Flaco Ñeta na posição de enlace e a dupla de ataque Bruno e Mago, repeteco da preliminar. 

E quando menos se podia esperar, o Auto teve o começo de jogo mais fulminante do ano. Logo de cara, Ñeta desarmou o volante adversário, serviu Bruno, que disparou de longe, rasteiro e abriu o placar. Logo na seqüência, Zau rifou uma pelota em direção ao goleiro, que tal qual Shroiff da Tchecoslováquia, na final de 62, largou a bola que parecia garantida na pequena área, nos pés de Bruno, que foi o Vavá da vez e empurrou- a para as redes. 2-0 em um par de jogadas e sem que sua defesa precisasse ser acionada, para incredulidade dos próprios jogadores visitantes, que se entreolhavam e simplesmente gargalhavam. 

Com um começo de jogo de sonhos, o Auto contou com a eficiência de seu meio, que teve Zau como bandeira nos desarmes, e cortava as jogadas do time da casa logo em sua nascente, fazendo com que as bolas chegassem picadas ou já perdidas para a linha de zaga. Aproveitando ainda os espaços cedidos pelo time da casa – que se lançava ao ataque com muitos jogadores, porém sem muita profundidade -, o terceiro gol não demorou a sair, vindo após linda trama entre vários jogadores pelo meio, que terminou com Sema abrindo para Valdivia na ponta direita e com o cruzamento perfeito deste para a cabeça de Bruno, anotando o terceiro numa autêntica jogada de manual.  

Antes que viesse o intervalo, má notícia para o rubro-negro: Zau, após se engalfinhar seguidas vezes com o armador adversário, fez falta sobre o mesmo, que se irritou e atirou-lhe a bola. Confusão no gramado/terrão e o juiz, que já havia advertido os dois mais de uma vez, tirou o vermelho do bolso, deixando ambas as equipes com dez. A continuidade da partida mostraria que o Auto foi o maior prejudicado, pois sem opções de banco e com um time já repleto de improvisos, pareceu um time de vôlei no segundo tempo, tantas foram as trocas de posição entre os jogadores, que aconteciam conforme o cansaço e eventuais lesões se faziam sentir. 

De posse de uma valiosa vantagem, o Auto voltou ao complemento decidido a esperar atrás e lançar Bruno e Valdivia nos contra-ataques, que sempre apareciam em meio a vulnerável defesa local. Tendo trocado meio time no descanso, o Fanáticos também estava firme em seu propósito de buscar o resultado. Logo de cara, um chute de fora da área encobriu Feu, permitindo o desconto. Com juiz/jogador da casa no apito, não se podia esperar outra coisa a não ser o velho expediente das faltinhas perto da área. Em uma delas, Feu não alcançou batida bem colocada em seu canto e a vantagem autônoma se viu ainda mais encurtada. 

O cenário da derrocada parecia montado. No entanto, o Auto não havia esquecido de suas cartas na manga. Sempre procurando sua dupla de ataque através de lançamentos, raramente bloqueados, a equipe visitante chegaria ao quarto gol em jogada brigada e vencida por Bruno, que no meio de dois zagueiros conseguiu levar a bola para dentro da área e executar o arqueiro fanático. Tranqüilidade mais que bem-vinda fundamental, por ter dado uma maior margem ao time que se arrastava como podia em seu quarto tempo de jogo. Tudo isso após o quase-frangaço de Feu, que ao tentar agarrar cruzamento baixo, deixou a bola passar entre suas pernas para caprichosamente flertar com a linha fatal, sendo salva por Matusa, que a afastou para a puta que pariu e empatou a foda local, mas não o jogo. 

Voltando a ser sufocado por séries intermináveis de chutes de longa distância e cruzamentos na área, o Auto se segurava como podia. Em uma dessas investidas, Boça “fez” pênalti no ponteiro esquerdo da casa, que deve ter aprendido o truque nas escolas de teatro gaúchas, comandadas pelo professor Tinga. A justificativa do árbitro-meia-direita-no-primeiro-tempo foi risível: “ele se jogou porque se não seria levantado”. Entretanto, os deuses do futebol só queriam dar uma pitada extra (como se precisasse!) de heroísmo ao embate. Concentrado como nunca, mestre Feu voou alto à sua direita, espalmando espetacularmente a cobrança e desatando o delírio total entre os jogadores. Pouco depois, porém, novo chute de fora da área voltaria a encontrar morada nas redes rubro-negras e os Fanáticos estavam no encalço novamente. 

A partir de então, o que se viu foi uma verdadeira demonstração de garra e comprometimento com a causa autônoma. Foi extinto o esquema tático e agora todos defendiam ‘em uníssono’, rebatendo para o mais longe possível qualquer bola que respingasse perto do pagode rubro-negro, como diria outro mestre, Silvio Luiz no caso. E foram dezenas. Mas com Feu de volta a zaga e com Jão em nova tarde de gigante, o time encontrou segurança em sua defesa, complementada pela segura atuação de Boça no arco nos minutos derradeiros. Ñeta encostou pela esquerda em Renato (como desarmou!) e ajudou a bloquear essa via adversária. Pela direita, Gabriel e Matusa faziam o mesmo, com o segundo também auxiliando Sema na cabeça de área. Bruno e Valdivia, contundido, permaneciam na frente, segurando alguns defensores. 

Com a chuva fina caindo junto da cinzenta tarde-noite que cobria a cidade, o jogo foi se aproximando de seu final na base do ataque contra defesa. Porém, à medida que o time da casa não encontrava a igualdade, o jogo na verdade se afastava de seu término, pois aparentemente o relógio do juiz não era a prova d’água. 

Mas não, dessa vez não haveria quem estragasse a tarde de glória do Auto. Esgotados, os jogadores explodiram em festa ao ouvirem o último sopro da tarde e conquistar o fantástico triunfo, graças a uma tarde exuberante de Bruno e um conjunto de guerreiros conscientes de que essa não podia, e tampouco merecia, escapar, ainda que na marra fosse. 

Extasiada, a esquadra autônoma invadiu os vestiários entoando o tradicional coro de sua torcida e ali mesmo embalou a festa da suada e sofrida vitória. Já recompensados, os jogadores se cumprimentavam e saboreavam cada segundo daquela reunião de bravos caudilhos, que levariam para suas casas uma história cheia de contornos épicos e dramáticos, protagonizada por eles mesmos. Pequenas alegrias que só podem ser compreendidas por quem leva em sua própria alma o significado de jogar por simples devoção a uma camisa e a um grupo de amigos, reproduzindo um pouco em suas próprias carnes pedacinhos daquela magia que o futebol nos ensinou desde que nos entendemos por gente. Com muita cerveja e fumaça no balneário, os jogadores estenderam aquela gloriosa jornada até o último instante possível, deixando as dependências do Guaiauna somente ao anoitecer, ao lado da última testemunha do local. 

(Enviado especial, z/l).

***

Cabe dizer que eu não joguei esse segundo jogo, só o primeiro, quando perdemos por 4 x 3 com direito a um pênalti desperdiçado nos minutos finais.

Jogo em que protagonizei o melhor lateral do mundo: fui tomar impulso pra cobrar, escorreguei na grama molhada, a bola escapou da minha mão e eu fui de cara no chão.

O jogo parou para todos rirem.

Uma pena não ter sido filmado.

Amor, carinho e dedicação

Eu entrei na faculdade em 2002. Cronologicamente. 

Porque meu coração só conseguiu achar espaço ali lá pro fim de 2005, quando eu conheci o MACD – Movimento Amor, Carinho e Dedicação.

Um nome “sério de brincadeira”, de uma galera que prega o amorismo.

E que joga bola de um jeito que eu sempre sonhei em jogar: com o coração, e nada mais do que isso.

Em 2006, jogando pelo MACD, me sagrei campeão da Copa FFLCH. Numa final contra os rivais históricos do TTV, depois de uma semifinal em que saímos perdendo de 3 x 0 – quando virei pra todo mundo e disse: vamos virar esse jogo.

Terminou 6 x 4. Pra gente.

A conquista foi tão emocionante que gerou um dos mais belos textos que já escrevi sobre futebol.

Um texto que me leva às lágrimas quando releio.

E que hoje, às vesperas de mais uma Copa FFLCH (começa sábado), coloco aqui como forma de incentivo ao coletivo amorista em mais uma disputa.

Aos apreciadores do esporte bretão, muito prazer, MACD.

Aos apreciadores do amor, muito tesão: MACD.

O texto de 2006: 

MACD campeão da Copa FFLCH 2006: uma vitória do amorismo

O texto a seguir é um relato da épica partida entre MACD e Tô Ti Vênu, ocorrida há algumas horas e válida pela final da Copa FFLCH 2006. Obviamente, este relato tem um lado: ele é, definitivamente, amarelo (a cor do uniforme usado pelo time amorista durante todo o campeonato) ou, pra quem preferir, vinho (a cor decidida pelo coletivo MACD para colorir o manto sagrado do time).

Espero que gostem.

Abraços,

Danilo.

***

Foram duas semanas de uma longa espera, uma delas pelo resultado do jogo da outra semifinal. Mas, no primeiro dia do último mês de 2006, saiu o adversário da final: o Tô Ti Vênu, time dos amigos e velhos conhecidos. Marcou-se a data para dali 8 dias.

Durante estes dias, às vezes dormir era difícil. A ansiedade pelo jogo, as mil imagens de como ia ser, as preocupações com este ou aquele lance perigoso. O horário só foi definido a 3 dias da partida, o que serviu, de certa forma, pra distrair a mente do jogo um pouco discutindo sobre a que horas entraríamos em quadra. Meio-dia, um sábado, como os outros 6 que tinham chegado e ido embora com vitória. Ansiávamos por aquele fim contando jogo por jogo, como o mestre Zagallo. Estava chegando a hora.

Fim de semestre, CEPEUSP vazio. Nenhum jogo nas quadras ao lado. Os dois times se aquecendo, um vermelho, outro amarelo, mas todos, com certeza, nervosos. Se entreolhavam, cochichavam, testavam os chutes e o goleiro. Gritos de incentivo de um lado e de outro, podia se perceber que o amarelo tinha um pouco mais de animação, parecia mais disposto. Um juiz de cada lado, pra enxergar melhor as jogadas, os times postos; era a hora, o começo do tão esperado fim. Fosse ele qual fosse, aquela jornada já era memorável, toda a trajetória até a final, momentos inesquecíveis.

Ao soar do apito, vieram 5 minutos de muitos erros e pouco jogo. O famoso “estudo” que um time faz do outro no começo de todo jogo importante. O MACD marcava em cima, o Tô Ti Vênu não conseguia sair jogando. Até que, num lançamento de longe, Glauco aparece sozinho na cara do goleiro amorista e faz: 1 x 0 para os vermelhos.

Ao contrário da semifinal, o amarelo não se abalou. Retomou a marcação e começou a tomar conta do jogo. Júnior, cansado, sai para dar lugar àquele que seria a estrela da tarde: seu irmão e sósia Kaká. Então, em uma bola chutada pelo goleiro vermelho do meio da quadra, o rebote cai no pé dele, recém-entrado, que chuta de longe, desviando do goleiro. Era o empate, e a camisa rasgada na comemoração.

O jogo recomeça e continua, equilibrado, mas com o MACD tendo o controle das ações. Após algumas boas defesas de Odilon, goleiro vermelho,  e um pedido de tempo do time amarelo, um lançamento até Júnior acaba em falta. A barreira se forma e Felipe enche o pé, no meio dela: a bola passa, desvia, e entra. Era a virada amarela. Delírio de um lado da quadra, as duas torcidas em polvorosa. Assustado, o Tô Ti Vênu erra a saída de bola, e o primeiro tempo acaba.

No intervalo, mais conversa. Estávamos na frente, mas ainda faltavam 20 minutos pra que pudéssemos comemorar qualquer coisa. A seriedade precisa continuar.

O segundo tempo começa e, precisando do empate, o Tô Ti Vênu cresce. O time amarelo fica nervoso e faz 3 faltas seguidas, tomando 2 amarelos. E em um lance fortuito, a bola sobra para Fábio dentro da área, que completa de letra. Baldraia tenta a defesa, mas a bola passa pelo meio de suas pernas e… ultrapassa a linha, mas não inteira. Os juízes apontam o meio da quadra, dando o gol. O MACD se revolta.

Nervoso, o time amarelo vai pra cima, querendo a vantagem que lhe havia sido roubada de volta. E num escanteio, Júnior aciona Kaká, que tira um zagueiro e faz: 3 x 2 MACD. Festa, abraços, e o dono do jogo comemora mais uma vez tirando uma lasquinha da torcida adversária.

Nem bem haviam se reestabelecido do gol e os amarelos sofriam novo empate: Pedro, sozinho depois de roubada de bola no meio da quadra, faz. O nervosismo volta.

Discutindo muito com os juízes, os jogadores do MACD começam a sofrer ameaças de expulsão. Era a hora do técnico Paulão “Telê” Fávero tomar uma atitude: tempo para o amarelo. Os juízes avisam que era melhor se acalmarem ou alguém iria expulso, Danilo discute com um deles e é puxado para fora da quadra. O jogo estava empatado e era a hora de acalmar os ânimos. Faltavam 5 minutos e quem marcasse dali pra frente provavelmente levantaria o troféu.

Mais calmos, os amarelos retornam pro jogo, e Kaká pede bola, como fez todo o tempo. Pede e recebe; recebe e, em um drible lindo, mágico, fantástico, épico, tira dois adversários da jogada e bate no canto. MACD 4, Tô Ti Vênu 3. Os reservas vermelhos não acreditam, uma garrafa d’água estoura no chão. Kaká, pra não perder o costume, provoca a torcida vermelha de novo.

O jogo recomeça e dessa vez quem está nervoso é o Tô Ti Vênu. Precisam do gol a todo custo e vem pra cima. Mas o dia era mesmo de Kaká, e em mais um lançamento, ele faz outro lindo gol: simula o passe e chuta forte, no ângulo. A bola bate no travessão e entra, decretando o 5 x 3.

Dessa vez só uma parte da torcida grita, feliz. Faltam poucos minutos para que a temporada acabe com o coroamento do time da raça, do amor, do carinho e, mais do que tudo nesse jogo, da dedicação. Os vermelhos atacam, os amarelos defendem, Baldraia salva um gol em um lindo giro de Renatinho. E, quando menos esperavam (parecia que o jogo não terminaria nunca), o apito de um dos árbitros soa três vezes. Fim de jogo. MACD campeão.

A euforia toma conta do lado amarelo. Todo o esforço, os trabalhos de campo perdidos, as brigas com as namoradas, os machucados estavam devidamente recompensados. Camila entrega as medalhas aos campeões, Baldraia ganha o prêmio de goleiro menos vazado. E finalmente, para fechar as comemorações, Pedrão, artilheiro do campeonato e pivô do Tô Ti Vênu, entrega a taça aos campeões amarelos, que dão a volta olímpica.

Eram heróis. E, mais importante que isso, amigos.

O campeonato acabava com a vitória do time esforçado, sem craques, coletivo. Se o jogo teve um astro, Kaká, este só brilhou porque o resto do time jogou como um relógio.

Cansados, partiram para o merecido almoço – afinal, jogar ao meio-dia é fogo, pelo menos o sol esteve escondido – e as não menos merecidas cervejas.

Bebidas na taça de campeão, é lógico.

MACD, campeão da Copa FFLCH 2006: um time para sempre.

***

Para ver as imagens da conquista amorista, acesse o link a seguir: http://smg.photobucket.com/albums/v415/mandioca/MACD/

Para quem não sabe o que é amorismo e tem Orkut, viste: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=130499

E para quem se pergunta porque diabos eu perco meu tempo escrevendo sobre futebol amador, eu respondo: não tenho mais saco pra futebol profissional, sem ética, sem paixão (tirando a que vem das arquibancadas) e sem escrúpulos. O futebol enquanto festa saiu do povo, e pertence à ele; então, nada mais justo do que homenagear aqueles que ainda o fazem ser bonito, apaixonante, emocionante.

***

Jogaram pelo MACD em 2006: Baldraia (Goleiro), Danilo (Fixo/Ala), Bona (Fixo), Felipão (Ala), Kaká (Pivô), Júnior (Pivô), Ribas (Pivô/Ala) e Paulão (Técnico/Pivô).

***

O texto da semi de 2006:

“Sábado, 24/11/2006, 11h da manhã.

CEPEUSP.

Jogam, pelas semifinais da Copa FFLCH, MACD x Zaratustras.

O MACD começa dominando o jogo. Tem mais posse de bola e pressiona o adversário, que não consegue sair jogando.

De repente, em um contra-ataque fortuito, o Zaratustras abre o placar. O MACD se abala e, na saída de bola, perde a posse da pelota e toma mais um gol: 2 x 0. Um minuto depois, um chute despretensioso acaba surpreendendo o goleiro, e o inesperado placar aponta: MACD 0 x 3 Zaratustras.

Movidos pelo Amor, o Carinho e a Dedicação, Ribas, Kaká, Júnior, Bona, Baldraia, Felipe, Danilo e Paulão se entreolham, sem acreditar no que está acontecendo. E resolvem que aquilo não estava correto. Como sempre diziam, podiam perder na bola, nunca na raça.

Vão pra cima.

Em uma bonita tabela entre irmãos, Júnior consegue, depois de 2 bolas na trave, descontar para o MACD. O primeiro tempo ainda assiste mais uma bola na trave em uma cobrança de falta de Ribas, mas o jogo termina com o placar parcial de 3 x 1 para o Zaratustras.

No intervalo, os 8 MACDônicos decidem que aqueles 20 minutos que faltavam tinham que ser os 20 minutos da vida deles. Bom, tudo bem, talvez não da vida, mas pelo menos do ano, ou do semestre.

Em um chute de longe, logo no começo, Kaká traz o MACD de volta ao jogo: 2 x 3. O Zaratustras se assusta, Nietzsche está morto, e em uma cobrança de lateral de Felipe, Kaká empata o jogo, de cabeça e de costas, no melhor estilo Obina de ser.

Festa absoluta em um lado da quadra, descrença do outro.

O MACD não pára, e mais uma vez Kaká, de novo de cabeça (ou de ombro), vira o jogo. Deliíro. Amor. Carinho. Dedicação. Tantos sentimentos que ele tira a camisa, não consegue recolocá-la e é substituído. Era inacreditável, aquele bando de marmanjo velho e sem fôlego tinha virado o jogo pra cima dos jovens nietzscheanos. O pessimismo dos Zaratustras aumenta, não acreditam naquele eterno retorno. E Júnior se aproveita da confusão pra acertar um belo chute: 5 x 3.

A festa estava quase pronta.

O Zaratustras, em desespero, vem pra cima. E consegue uma falta, bem próxima a área. A barreira faz o que toda barreira deveria fazer: não abre, e a bola não entra. Em um contra-ataque, Júnior decreta o fim do jogo, aos 18 do segundo tempo: MACD 6 x 3 Zaratustras.

Em êxtase, os MACDistas se abraçam. Camila, nossa única torcedora, abre um sorriso. A festa é tanta que eles se descuidam e, faltando 1 minuto para o apito final, tomam um gol de carrinho.

Mas era tarde e, 3 bolas pro mato depois, o jogo acaba.

O MACD está na final da Copa FFLCH.

Paulão, o todo-poderoso técnico MACDeiro, pula como uma criança. Alguns quase choram. Nem a Alemanha em 1954 tinha proporcionado tanta emoção aos fãs do esporte bretão.

Semana que vem, o último jogo. Mas, independente do resultado, já fizemos tudo valer a pena.

Agora é torcer pro time do Guile (Aos 45 do Segundo Tempo) contra o favoritíssimo e poderoso (será mesmo?) Tô Ti Vênu.

Olê, Olê Olê Olêêê…

M-A… C-D!!!”

Toninho Vanusa

Quinta-feira, dia de trabalho incomum: um monte de processos para tramitar.

De repente, aparece um senhor no balcão, cabelos grisalhos, e pergunta:

– Por favor, o Valdemar tá aí?

– Valdemar, motorista? Pera aí.

– Fala pra ele que é o Toninho que tá procurando ele, o Toninho que jogou no Palmeiras.

Uma luzinha de entusiasmo acendeu na minha cabeça. Enquanto meu companheiro de trabalho procura o Valdemar na copa, eu pergunto:

– O senhor jogou no Palmeiras?

– Sim. Palmeiras, Juventus e Vasco.

– Quando?

– Em 76, 77…

Nisso, alguém o chama e ele vai até a copa atrás do Valdemar. Penso que perdi uma boa conversa e vou procurar na internet por algum Toninho no Palmeiras em 76. Segundos depois ele volta. Com o Valdemar. E diz:

– Esse aqui, ó, um grande central!

– Que nada, ele que era um puta meia-esquerda!

Eu aponto uma foto no computador e pergunto:

– O senhor é esse aqui? Jogou com o Ademir?

– Joguei, eu era reserva dele. Mas esse não sou eu, eu sou outro Toninho. O Vanusa.

E começou a contar as suas histórias.

Jogou no Palmeiras até que um carrinho fez com que caísse sobre o braço – que hoje não mexe mais direito – e tivesse fratura exposta. Daí foi pro Juventus e pro Vasco.

Quando criança, era engraxate e fazia “70 centavos por dia”, segundo ele. Até que um dia um dos homens que com ele engraxava os sapatos o viu fazendo embaixadinhas e pediu pra fazer mais.

Juntou gente.

E ele voltou pra casa com 5 cruzeiros.

O pai, claro, perguntou de onde tinha vindo “tanto” dinheiro. Ele disse a verdade. Achou que ia apanhar.

Mas o pai, ao invés disso, contou um segredo: tinha sido meia-esquerda do Madri da Mooca.

“Um dos maiores”.

Seu tio, irmão do pai, tinha jogado no Corinthians na década de 20 – Joãozinho. Amputou as duas pernas.

Seu pai amputou uma.

Uma época em o futebol não tinha contusões com finais tão “felizes” quanto as do Fenômeno. 

E também não dava dinheiro: Toninho Vanusa prestou concurso do então INPS e virou servidor público. Passou a jogar pelo time do Instituto. E lá conheceu o Valdemar.

Depois de mostrar a habilidade que tinha com a pelota fazendo alguns malabarismos com uma bola imaginária, não tive outra saída: pedi um autógrafo.

– Para um grande amigo meu, palmeirense fanático.

– Você não é palmeirense?

– Não não, sou corinthiano.

– EU TAMBÉM! E fanático!

Guardei o autógrafo e tratei logo de registrar sua história. Não é todo dia que se conhece um ídolo do futebol alternativo assim, sem mais nem menos.

Pena não ter tirado uma foto. Mas ele disse que ficará em São Paulo – ele mora em Bebedouro – o mês inteiro, já que está cuidando da mãe doente.

E assim se foi, o reserva de Ademir, dialeticamente corinthiano e palmeirense, presente na mítica final do Brasileirão de 78.

E que – descobri depois – devia ser bom de bola mesmo. 

Basta conferir as fotos abaixo pra atestar:

Año de la mujer peruana. Campeonato Sud Americano de Futbol Juvenil. Huampani. Agosto de 1975, Peru.

Em pé estão: Éder, Tião Marçal, Carlos Alberto Barbosa, Toninho Vanusa, Everaldo e o goleiro Carlos. O jogador agachado é Celso Freitas. O foto foi tirada em agosto de 1975, no Peru. Era o Campeonato Sul-Americano Sub-21. Na parte de baixo observe a seguinte legenda, em espanhol: Año de la mujer peruana. Campeonato Sud Americano de Futbol Juvenil. Huampani. Agosto de 1975, Peru.

Este Palmeiras venceu o Inter de Porto Alegre por 2 a 0 em 3 de agosto de 1978 no Morumbi. O jogo valeu pela semifinal do Campeonato Brasileiro e teve a presença de 59.495 pagantes. Toninho marcou os dois gols. Em pé estão Rosemiro, Leão, Beto Fuscão, Alfredo, Pires e Pedrinho; agachados vemos Silvio, Jorge Mendonça, Toninho, Escurinho e Toninho Vanusa

Este Palmeiras venceu o Inter de Porto Alegre por 2 a 0 em 3 de agosto de 1978 no Morumbi. O jogo valeu pela semifinal do Campeonato Brasileiro e teve a presença de 59.495 pagantes. Toninho marcou os dois gols. Em pé estão Rosemiro, Leão, Beto Fuscão, Alfredo, Pires e Pedrinho; agachados vemos Silvio, Jorge Mendonça, Toninho, Escurinho e Toninho Vanusa

Chico (massagista), Jarbas, Marcelo Oliveira, Luiz Carlos Gaúcho, Cláudio Adão e Toninho Vanusa.

Seleção Brasileira Juniores campeã de Cannes (França) em 1974. Em pé: Vanderlei Luxemburgo, Walter, Xáxa, Batista, Carlos e Carlinhos. Agachados: Chico (massagista), Jarbas, Marcelo Oliveira, Luiz Carlos Gaúcho, Cláudio Adão e Toninho Vanusa.

 

Em tempo: se alguém quiser comprar um card dele, é só clicar aqui.

Fonte das fotos:

 http://desenvolvimento.miltonneves.com.br/qfl/Conteudo.aspx?id=60473

Viva Luquinhas!

Em homenagem ao retorno do Luquinhas à sua casa, (não falei, Lelê?), vou contar uma ou duas histórias engraçadas sobre o meu segundo lar, o hospital.

Eu tenho uma doença congênita herdada do meu pai chamada microesferocitose. Basicamente, meu baço estúpido destruía meus glóbulos vermelhos só porque estes eram menores (micro) e mais esféricos (esferocitose) do que o normal. 

Com isso, o corpo ficava aberto à doenças mil. Pneumonia tive várias. Transfusão de sangue, fiz algumas. E, como consequência, tinha cálculos na vesícula, o que rendia uma dor que me fez respeitar mais do que tudo a dor do parto nas mulheres: aguda, vinha e voltava em intervalos cada vez menores, eu ficava pálido, suava frio, e sem ar.

Tudo isso antes dos 10 anos. Com 10, operei – a única coisa a se fazer pra quem tem a minha doença – e tirei fora o baço e a vesícula, que a essa altura tinha o tamanho quase que de uma manga, de tão cheia de cálculos. 

Minha irmã foi ainda pior: operou com 6, de emergência, pois estava com uma penumonia gravíssima.

Já meu pai é praticamente um herói, um mito, um totem para os microesferocitósicos (hehe): operou SÓ DEPOIS DOS 30. Socorro, só de me imaginar até hoje com aquela dor… sai fora.

Depois de operar, sem baço, órgão de defesa do organismo, uma criança precisa de proteção extra. E no nosso caso – meu e da minha irmã – essa proteção foi tomar Benzetacyl de 21 em 21 dias até os 18 anos. 

Com tudo isso, adquiri uma resistência à dor enorme. Tanto que nunca saí de um jogo de futebol por pancada, e olha que sou magrelíssimo – 1,75m, 52kg.

E aprendi a respeitar experiências dolorosas como momentos de crescimento, de aprendizado sobre o corpo e a mente.

Como se pode perceber, sobrevivi e depois da operação nunca mais fui internado – a não ser para fechar novamente um dos pontos internos da mesma, que se abriu cerca de 7 anos depois e que dava passagem a uma alça do intestino quando eu fazia certos movimentos e podia estrangular essa alça e causar coisa pior.

Até aí, tudo “tranquilo”, dentro do possível, tirando a minha necessária dependência da halopatia. 

Eis que então, uns dois anos atrás, estou eu no Kazebre, uma funesta casa de shows na zona leste, pra assistir a um show dos Los Hermanos – tá, podem zoar, eu mereço. Mas hippie é a mãe!

Chovia, o lugar era de terra, que a essa altura já era barro. O palco estava posicionado em um lugar bizarro onde várias pilastras te impediam de ver os barbudos a não ser que você se espremesse no meio da multidão.

Eu estava de saco cheio, puto, sujo de barro querendo ir embora antes do show começar quando, de repente, sinto uma pontada entre as costelas.

Dor.

Dor aguda, fininha, que tinha reflexos de acordo com a minha respiração.

Em nome dos companheiros que se divertiam com as músicas mesmo sem ver o palco, aguentei a tortura do show da dor até o fim e fui pra casa.

A dor não passava mas, como eu disse, sou teimoso bastante tolerante e me recusava a visitar minha segunda casa ir ao hospital.

Até que um dia, indo pro trabalho, corri pra pegar o ônibus e… quase desmaiei. 

Tava foda, não tinha jeito, e fui pro pronto-socorro.

Crente de que era uma fratura na costela ou algo do tipo, passei por um ortopedista. Ele me mandou pro raio-X. Quando voltei, ele disse que não tinha fratura nenhuma, mas que desconfiava de algo.

Foi falar com o clínico geral.

E voltou todo contente pela minha dor por ter descoberto algo que ele não via há anos, desde que se especializou em ortopedia: um pneumotórax.

Passei então pelo clínico geral, que decidiu me internar – não sem antes me botar medo dizendo que podia ser necessário operar.

Uma vez no quarto, aguardo com a Camila a chegada da minha mãe, a essa altura já histérica passagem de um pneumologista, especialista na área. Demora um pouco, mas o cara vem, faz algumas perguntas e me explica da doença. Diz que é típico de pessoas magras como eu e que da primeira vez costuma fechar sozinho. Caso aconteça uma segunda, aí tem que operar. E as chances de uma outra vez vão aumentando pouco a pouco: 40% de ter uma segunda, 60% uma terceira, 80% uma quarta…

Antes de sair do quarto, ele percebe que se “esqueceu” de perguntar algumas coisas. E manda:

– Você é astronauta?

– !!?!?!?!?!?!?!

– Ou piloto de avião?

– !?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!

– Mergulhador?

A essa altura, já acho que ele está brincando, mas respondo:

– Não, doutor, porque? Tenho cara?

– Não não, é que se fosse, você não poderia mais exercer sua profissão por conta do penumotórax.

PUXA VIDA, que pena. Lá se foi meu sonho de ser astronauta, hein? 

Por favor né, chega um MOLEQUE com cara de 17 anos (apesar de ter uns 24), de tênis velho, mochila rasgada, roupa largada e ele pergunta se é ASTRONAUTA? Isso que é seguir o procedimento à risca… valeu, Descartes!

Enfim, fiquei de observação, o pneumotórax fechou sozinho, nunca mais tive outro e acho difícil que volte a ter no que resta de vida pra todos nós – 53 dias.

E pelo menos posso dizer que tive a mesma doença do Manuel Bandeira – viu só, que chique, que boêmio, que elegante, que… merda.

É isso aí. Viver é correr riscos. 

E saber vencê-los, como fez o Luquinhas.

Saúde, moleque. E vê se pára de dar sustos na sua mãe – quer dizer, sustos de saúde, porque aqueles envolvendo orientação sexual são bem divertidos…

Protegido: Amor em preto e branco

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