Nota de cancelamento

Gostava de pegar o metrô à tarde porque quase sempre estava vazio. Bom, pelo menos era o que considerava vazio. De vez em quando precisava ir em pé, mas ao menos não tinha ninguém bloqueando a porta na hora de descer. Odiava ter que empurrar, tocar nas pessoas pra poder sair. Sentia-se preso, toda vez pensava que não ia dar tempo, a porta ia fechar em cima. Naquele dia, dava pra ir a pé, mas como era de tarde resolveu ceder à preguiça e entrar na estação.

Na catraca, percebeu que não tinha nenhum segurança atento. Esperou alguém passar e se enfiou junto pra passar pelo bloqueio sem pagar. “Catracar”, diziam as pessoas. A prática era mais comum do que parecia, mas ainda muito menos do que deveria ser, com aquele preço absurdo da passagem. Claro que depois de fazer ficava um friozinho na barriga, como se alguém estivesse olhando. E se fosse pego? Tinha bilhete, nem precisava ter feito aquilo. Apressou o passo até a plataforma. Só ficou tranquilo quando entrou no vagão.

O trajeto era curto, só três paradas, mas, com lugares vazios, resolveu sentar. Escolheu um daqueles bancos sozinhos, pra não correr o risco de sentarem do seu lado. Gostava de estar só no transporte público, era um momento de inflexão, colocar os fones de ouvido, mexer no celular, ler um livro. De manhã e no fim da tarde nunca conseguia, precisava estar atento, desviar de tudo e de todos, ficar perto da porta, aquela coisa. Baixou os olhos pro celular e rolou a barra até não ter mais nenhuma atualização. Faltavam duas estações.

Olhou para a porta e percebeu que um homem grande, troncudo, olhava de volta fixamente. Ele carregava uma pasta preta na mão. Desviou o olhar por alguns segundos e tornou a espiar. Os olhos do homem seguiam os seus. Achou estranho, sentiu medo. Resolveu voltar ao celular e tentar não prestar atenção. Não conseguia. Toda vez que olhava de canto de olho o homem ainda estava lá, fixado nele.

Começou a ficar visivelmente perturbado. Batia a perna o chão, o celular na perna, e segurava a mochila com força. O que fazer? Esperar o homem descer? Mas aí ia perder a parada, teria que ir e voltar. Não, não fazia sentido, aquilo era só paranoia. Mas… ele ainda está olhando! O que ele quer? Será um segurança? Me viu catracar, está esperando eu descer pra vir atrás? Deve ser isso. Ah, dane-se, não vou perder minha estação. Chegou, vou descer.

Saltou do banco e foi em direção à porta, o homem ainda olhando fixamente. Chegou perto dele e parou. O homem pareceu projetar o corpo no seu caminho. Deu dois passos para trás. Olhou ao redor, ninguém estava percebendo aquele estranho balé entre os dois. Pensou em gritar, mas e se fosse um segurança? Melhor não. Ouviu o sinal de fechamento de portas. Baixou a cabeça e sentou de volta.

Dobrado sobre a mochila, olhando para os próprios pés, pensava no que fazer. Não queria voltar a olhar pra porta. Devia ir até a última estação? Atravessar o vagão, de forma a ficar entre duas portas pra conseguir escapar? Esperar o homem descer? Estava paralisado, não conseguia decidir nada. E se eu ficar aqui olhando pra baixo, esperando um pouco, quem sabe ele desiste, vai ver nem está mais aí, de repente já desceu, foi chamado pra outra ocorrência. Não quero olhar, não vou, não… olhou. Ele ainda estava lá. O que eu vou fazer? O que eu posso fazer?

O desespero começava a tomar conta. Pensou em se entregar. Mas seria mesmo alguém do metrô? E se fosse pior, um louco, um assaltante? E se ele quisesse seus órgãos, ou se fosse daqueles caras que injetam coisas de seringas contaminadas? Ou um… estuprador? Cada possibilidade era pior do que a outra, e ele se remoía, apertava os braços, mordia os lábios de nervoso. Começou a ficar com raiva. Fechou o punho sem perceber e bateu com a mão no banco. O barulho chamou a atenção de algumas pessoas. Franziu as sobrancelhas, meio com vergonha, mas ainda bravo. Lembrou de um programa de defesa pessoal que viu na TV, dizia pra não se deixar intimidar pelo agressor. Resolveu encarar ele de volta. Concentrou forças, respirou pausadamente e levantou a cabeça. Olhou para o homem.

Ainda o encarava. Com a pasta na mão.

Encarou de volta. De repente aquilo não parecia sério, parecia uma brincadeira de quem piscar primeiro perde. Fez a pior cara de mau que conseguia. Tentou transmitir a raiva que sentia. Mas o homem era um monolito. Sua expressão não mudava. Continuava olhando fixamente pros seus olhos, sem desviar por um segundo. Sentiu um misto de piada e terror na garganta. Baixou os olhos e riu. Aquilo era ridículo, não podia estar acontecendo. Decidiu mudar de lugar.

Atravessou o vagão. Àquela altura, o trem já estava quatro paradas depois da sua. Mais duas e seria a parada final, e aí começaria a voltar. Sentou-se o mais longe que pode daquele homem, que continuava a olhar pra ele, mesmo que de longe. De onde estava, pelo menos, não conseguia se sentir tão intimidado. De vez em quando olhava de volta pra ver se ele ainda estava ali. Sempre estava.

Resolveu esperar o metrô voltar pra descer na parada certa. Tentou se acalmar pra deixar o tempo passar. Colocou música no celular. Na estação final, viu as portas abrirem. Olhou pra porta de antes, agora lá longe, e tomou um susto: o homem não estava mais. Tinha descido! Seria o fim daquela insanidade? Devia descer também? E se ele estivesse na plataforma? Melhor ficar, agora é só esperar a volta e descer na minha parada. Nem acredito! Ele desceu! Em êxtase, tinha vontade de dar um grito. Ouviu o sinal de portas fechando. Estava livre. Olhou fixamente pra fora, esperando o fechamento. No último segundo, viu o homem na plataforma. O mesmo rosto, a mesma pasta.

Movendo-se para voltar ao trem.

Entrou exatamente pela porta em que ele estava.

Encurralado novamente, não conseguia mais pensar. Não podia ser real. Como escapar daquele homem? Precisava tentar alguma coisa.

A raiva se transformou em agonia. Tomado por um impulso, desceu na estação seguinte; o homem desceu junto. Teve medo de tentar sair da estação e ser capturado. Voltou ao trem antes das portas fecharem; o homem voltou junto.

Era isso, estava preso naquele vagão, guardado por aquele homem duro e sua pasta preta. Olhou para o celular: sem sinal. A bateria quase no fim. Sentiu suas forças indo embora. A hora do rush se aproximava. Sentou no banco do fundo e recostou a cabeça na janela, observando as pessoas indo e vindo, saindo e entrando do trem. Perdeu-se no tempo. Já não sabia a quantas horas estava no metrô. De quando em quando buscava pelo homem, que sempre estava lá.

Depois de muitas idas e vindas de ponta a ponta naquela linha, adormeceu. Acordou sem saber que horas eram. O homem ainda lá. Queria chorar, precisava sair daquela situação. Daquele trem, daquela estação. Pensava em desistir e deixar acontecer o que quer que fosse pra acontecer. O vagão já vazio novamente, devia ser noite. Lembrou que em algum momento o metrô tinha que fechar. Seria esse o fim da história?

De repente, dois seguranças do metrô entraram no vagão. Devidamente fardados. Caminharam até ele.

– Senhor, o senhor precisa descer.
– Mas… o quê?
– O senhor tem que descer. Vamos, levante.
– Eu quero descer, mas não posso. Tem um…
– Pode sim.

Foi pego à força pelos dois braços.

– Não, espera! Espera!!!
– Senhor, por favor. Nossas câmeras apontam que o senhor já andou esta linha de ponta a ponta 7 vezes. Está dentro do metrô a mais de 6 horas. O senhor precisa descer.
– Eu quero descer! Faz tempo!!! Mas aquele homem na porta me encarando, ele…

Olhou para a porta.

– Que homem, senhor?

O homem tinha sumido.

– Eu.. eu juro! Ele estava ali, está me perseguindo desde a tarde!
– Senhor, por favor, ou você desce por bem ou por mal.

Sem entender nada, carregado pelos braços, foi colocado pra fora do vagão. Os seguranças pediram para que saísse da estação. Ainda com medo, observou tudo. Nem sinal do homem. Teria sido um delírio? Movimentou-se em direção à escada rolante. Os seguranças voltaram pra dentro do trem. Exausto, agachou junto aos degraus, enquanto sentia o movimento mecânico da escada subindo. Mais uma vez quis chorar, não sabia se de tensão ou alívio. No fim da escada, sentiu uma sombra. Olhou pra cima.

Era ele.

O homem esperou ele se erguer. Ele se jogou contra a parede e ouviu a pergunta:

– Evandro?

Não conseguia responder nada.

– Você é o Evandro, certo?

A voz do homem era surpreendentemente tranquila. Passava alguma calma.

– S… sou… por quê?
– A Janete pediu pra avisar que ela não vai poder jantar com o senhor esta noite. Ela sente muito e quer remarcar pra amanhã. Manda também beijos.
– Ja… Janete???
– Sim. Preciso que o senhor assine pra mim a confirmação de recebimento.

O homem mostrou um papel. Dizia “nota de cancelamento”. O texto era exatamente o mesmo que ele tinha acabado de ler.

– Como… confirmação?
– Sim, senhor.
– Mas… porque só agora?
– Não tenho permissão pra interferir na viagem, senhor. Aqui, uma caneta.

Meio no automático, ainda sem entender muito, olhou pro papel. Rabiscou um arremedo de assinatura.

– São duas vias, senhor – o homem mostrou a outra folha embaixo, idêntica.

Assinou novamente.

– Essa fica comigo, essa é do senhor.

Viu o homem dobrar o papel em dois, guardá-lo na pasta preta cheia de outros papéis, olhar pra ele novamente nos olhos e dizer:

– Boa noite, senhor.

Não conseguiu responder nada.

O homem desceu a escada rolante e parou na plataforma. O próximo trem chegou. O homem entrou no vagão do meio, pela primeira porta, encostou-se junto à ela e começou a encarar uma adolescente de cabelo azul, que mascava chiclete bem em frente a ele. O sinal de fechamento de portas soou mais uma vez. E o trem seguiu viagem.

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O homem que voltou atrás

O alarme tocou no horário de sempre. Esfregou os olhos, deu um beijo na têmpora da esposa e foi para o banheiro. No meio do mijo, lembrou a data. Fazia um ano. Um ano já.

Pensou como parecia ao mesmo tempo fazer mais tempo e ter sido ontem. Era possível isso, parecer perto e longe junto? Seja como for, sentia isso. Tinha perdido o pai sem mais nem menos, um ano atrás, e talvez a imprevisibilidade da coisa é que tenha deixado essa sensação ambígua. Foi tomado por uma certa melancolia, misturada com saudade, e tomou banho sem concentração alguma, duas vezes mais demorado que o de costume. Saiu da toalha pra roupa e já estava atrasado. Decidiu pelo café na padaria.

A padaria era um costume do pai. Parar pra um café, ou uma coca, ou um salgado. Ele pegou gosto naquilo. Às vezes nem tinha fome ou sede ou abstinência de cafeína, mas parava mesmo assim pelo prazer de fazer isso. Sem o pai, o prazer ganhou um traço de saudade, e de uma sensação de conforto ao lembrar do que viveu e que agora era apenas memória. Enquanto esperava o chapeado, olhou o celular. A hora parecia certa, mas a data apontava o dia anterior. Mexeu nas configurações do aparelho. Resolveu abrir o navegador pra dar uma sapeada nas notícias enquanto comia. O site de notícias marcava o dia anterior. As notícias eram as mesmas de ontem – o jogo do seu time que já tinha acontecido, dois a zero fora de casa, era anunciado como grande desafio; a votação no congresso alardeada como determinante já tinha sido, e a reforma passou; e a ventilada prisão de um dos chefes políticos do maior partido do país tinha dado em nada – o chefe fugiu, sabe-se lá pra onde. “No almoço passo numa assistência técnica”, murmurou consigo mesmo. E partiu para o metrô.

Sem celular, pegou o jornal do trem. De novo o dia anterior. Resolveu fazer o que não fazia há anos: comprar o jornal. Escolheu aquele conservador (qual não é neste país?), mas com alguns articulistas progressistas. Entrou no vagão nem tão cheio, nem tão vazio, privilégio de quem mora perto da linha menos lotada e entra no serviço um pouco mais tarde do que a maioria. Deu até pra escolher o banco. Sentou de frente, porque não gostava de olhar pra trás.

Abriu o jornal procurando a seção de esportes e… lá estava o dia anterior. Voltou ao celular, acessou outros sites: todos indicavam o dia anterior. Olhou pra televisão do vagão, que marcava a hora, a data e a temperatura: novamente o dia anterior. Achou que estava alucinando.

Saiu da estação atordoado. Estaria dormindo ainda? Era um sonho? Ou estava confuso com as datas? Tinha certeza do jogo e dos dois a zero, sabia até quem tinha feito os gols. Chegou no trabalho sem nem bom dia:

– Ganhamos ontem, não? Dois a zero?
– Tá doido? O jogo é hoje.
– Mas… como?
– Sendo hoje, ué. Não sei o que você tomou, mas quero só metade, haha.
– Eu… eu só tomei café.

Teria mesmo sonhado com um dia inteiro?

Foi lavar o rosto. No caminho, encontrou o chefe.

– Bom dia, Marcos. Preciso daquele relatório pra hoje, 14h.
– Mas você me pediu ele ontem… e eu já…
– Ontem? Ontem eu nem estive aqui, reunião fora com clientes o dia todo. Preciso dele pra hoje.
– Hoje? É que… eu…
– Você está bem, Marcos? Não parece estar.
– Não não, eu… eu só preciso lavar o rosto.

Entrou no banheiro. Tinha certeza do relatório, lembrava da reação do chefe pelo esquecimento de um dos valores no parágrafo final. Que raios estava acontecendo? Se era um sonho, queria acordar; se não era, não sabia o que fazer. Procurou no computador o relatório, não estava; resolveu refazer, quase todo de cabeça (“como eu lembro de algo que nunca fiz?”), dessa vez sem erros. Entregou duas horas antes do previsto. Saiu pra almoçar e parou em todas as bancas que encontrou no caminho. Em todas encontrou os jornais do dia anterior.

Voltou para o trabalho. O jogo seria a prova final. Se ele acertasse o placar e os autores dos gols, não era sonho e ele não estava delirando. Na volta pra casa, lembrou que a janta tinha sido pizza, que a esposa já tinha pedido antes dele chegar. Abriu a porta e sentiu o cheiro: metade alho, metade portuguesa.

– Tudo bem, Marcos? Que cara é essa?
– Nada, nada… pizza?
– Sim, hoje é dia de jogo né.
– É!? É… é mesmo.
– O que você tem?
– Cansaço, o dia foi puxado. Vou tomar um banho.
– De noite? Você odeia cabelo molhado de noite.
– Hoje eu preciso, preciso relaxar o corpo e a cabeça. Tudo bem?
– Tudo, ué. Mas come primeiro.
– Ainda tô sem fome.

O banho era uma forma de evitar a esposa e de continuar tentando entender o que acontecia. Ficou quase meia hora debaixo d’água, saiu bem perto do começo do jogo. Pegou um pedaço de pizza e comeu sem vontade enquanto assistia o primeiro tempo, com uma sensação enorme de quem assiste uma reprise. O primeiro gol sairia nos acréscimos. Ele não estava sonhando.

– Amor… tem uma coisa estranha acontecendo.
– Ganhar fora de casa? É, tem mesmo.
– Não, não é isso. É que…

Como contar aquilo? Como poderia provar? Aliás, provar o quê? Que tinha acordado no dia anterior? Resolveu não dizer nada.

– …essa portuguesa tá com um gosto estranho.
– Desculpa, eu fui colocar azeite na minha e caiu em tudo. Eu sei que você não gosta.
– Tudo bem, tudo bem. Não está tão forte.
– Pega uma de alho, pedi pra você mesmo.
– Tá bom.

Veio o segundo tempo, e o segundo gol, e depois o sexo que ele já sabia que fariam, felizes pela vitória e engordurados da pizza. Era como se vivesse um déjà-vu incessante. Enfiou a cabeça no travesseiro. Se hoje era ontem, que dia seria amanhã? Anteontem? Mal conseguiu dormir. Tomou um remédio pra relaxar e desmaiou. Acordou com o alarme já na função soneca, a esposa chacoalhando ele de leve.

– Acorda, amor. Vai perder a hora.

Aquela frase. De novo. Abriu os olhos assustado. Olhou o celular: marcava o dia anterior.

Estava mesmo voltando atrás.

Sua cabeça estava a mil. O que isso significava? Aonde iria terminar? Por que só ele percebia? Tomou seu banho na metade do tempo, passou na banca de jornal. Já sabia de todas as notícias. Lembrou do jornal do dia seguinte, pra ele o dia anterior, que tinha deixado no trabalho. Torceu para ainda estar na sua mesa. Não estava. Guardou o que tinha comprado na gaveta, trancou com a chave, pra olhar no dia seguinte, pro mundo o dia anterior. Trabalhou o dia todo com a certeza do que iria acontecer em seguida. Lembrou do pai. Se estava voltando no tempo, voltaria a vê-lo dentro de um ano, um pouco menos. A ideia lhe trouxe expectativas. Em casa, refez tudo outra vez. Dormiu ansioso pela manhã seguinte. Acordou ontem mais uma vez. Foi para o trabalho e o jornal tinha sumido da gaveta.

Resolveu pensar um pouco nas implicações daquilo tudo. Se os dias estavam voltando, então, entre outras coisas: a cada dia ele teria mais dinheiro na conta, até chegar o fim do mês anterior; não precisava mais pagar nenhum boleto, porque eles nunca venceriam; não teria mais surpresas no trabalho, e poderia inclusive antecipar ou evitar grande parte dos problemas; evitaria também todas as brigas e diferenças com sua esposa, sua família e seus colegas; e voltaria a ver seu pai, e a conviver com ele. Considerou que acordar todo dia no passado poderia ser uma diversão, uma possibilidade de reviver os bons momentos e reescrever os dias ruins. A ideia era animadora: teria o privilégio único de redecidir tudo que já havia decidido.

Começou a viver cada dia como se não houvesse amanhã, afinal, não havia mesmo. Depois de alguma semanas entendeu o problema naquilo tudo: por mais que ele fizesse diferente, as novas ações não significavam nada pra além daquele momento. Se o dia seguinte seria o anterior, então as mudanças não teriam nenhum efeito no seu futuro, já que ele era o passado de todo o resto do mundo. Valia o esforço? E as vezes em que o mal estar durou dias? De que adiantaria resolver a situação hoje, se amanhã ela estaria de volta, até que ele chegasse ao início da coisa toda – quando já não faria mais sentido evitá-la, porque no dia seguinte ela nem sequer teria existido? Perdeu o ânimo.

Notou que seus cabelos diminuíam dia após dia. A barba, ao invés de crescer, ficava mais rala, até desaparecer – e, de repente, aparecer de novo. Os fios brancos aos poucos voltavam a ser pretos. Seu corpo rejuvenescia, enquanto sua vida tinha se tornado uma grande espera, um eterno marchar da previsibilidade, uma caminhada em direção ao mesmo. Não precisava ter compromisso algum: podia faltar no trabalho, sumir de casa, encher a cara, bater naquele antigo desafeto. Nada afetaria seu dia seguinte. Passou duas semanas sendo o mais irresponsável que pode: foi demitido oito vezes seguidas, detido outras três. Só em casa mantinha um clima bom, porque a esposa não merecia sofrer por conta dele – ela que, todos os dias, percebia que havia algo de errado com ele. Não tinha saída. A única coisa que ainda lhe trazia expectativa era a chance de rever o pai.

Os meses se arrastavam como nunca. Tentou ler todos os livros, ver todos os filmes, evitar todas as brigas e todos os problemas. Vivia no futuro do pretérito, tentando transformar o imperfeito em perfeito sempre que possível. Encontrou diversão em surpreender a esposa com atitudes diferentes das que tinha tomado na primeira vez – estava editando suas memórias. Duas semanas antes da morte do pai, a tatuagem que em sua homenagem desapareceu. No dia em que a tinha feito, resolveu se poupar da dor: ligou e cancelou a sessão.

Faltando dois dias para o enterro, teve uma crise: ao mudar seu passado, poderia afetar o que o resto do mundo viveria amanhã? Depois de ter redecidido tanto, quase tudo, o que teria ficado para o futuro de sua esposa, de sua mãe e de todo mundo que, ao contrário dele, caminhava para a frente?

Entrou em agonia. Faltava pouco para rever o pai. Lembrou de uma psiquiatra que um amigo havia consultado uma vez; procurou seu nome na internet e achou o contato. Ligou. Conseguiu um horário naquela tarde mesmo. A clínica era um pouco perturbadora, tudo muito branco, pé direito bastante alto, um silêncio sepulcral. O secretário pegou seus dados, perguntou a forma de pagamento. Percebeu que tinha esquecido os documentos, pagou com dinheiro. Entrou na sala da psiquiatra.

– Passado, presente ou futuro?
– É complicado, doutora. Não sei se vai acreditar em mim.
– Tente.
– Bom… todo dia eu… eu acordo no…
– Futuro?
– Não… no passado.
– Interessante. Então o seu amanhã é ontem?
– Isso.
– E o que você faz com ele?
– Bom, como eu já sei o que vai acontecer, pra não morrer de tédio, eu tento mudar as coisas.
– Essa consulta é nova no seu passado ou é coisa antiga?
– É… é nova. Porque eu precisava contar isso pra alguém e tentar descobrir uma coisa.
– Que coisa?
– Se o que eu faço hoje pode alterar o amanhã. Quer dizer, não o meu amanhã, que é ontem, mas o amanhã de todo o resto. Entende?
– Entendo. Fale mais sobre isso.

A conversa seguiu por mais alguns minutos. A doutora disse que trabalhava com distúrbios do sono.

– O senhor aceitaria passar uma noite conosco?
– Não sei, doutora. Seria uma noite inteira?
– Sim, todo o seu sono.

Precisava ver o que sairia daquilo. Queria alguma certeza sobre o futuro. Tinha que ser aquela noite, pois no dia seguinte tudo não teria existido ainda. Colocou essa questão para a médica. Houve acordo. Avisou a esposa, disse que passaria a noite na casa dos pais, e se instalou na cama confortável da clínica, eletrodos ligados à cabeça.

– Tente relaxar e dormir naturalmente. Se não conseguir, podemos ajudá-lo com um remédio, mas não é o ideal.
– Prefiro não tomar nada. Estou cansado, vou acabar dormindo.

Dormiu.

Sonhou que estava voltando no tempo, mas que ao invés de rejuvenescer, envelhecia. O sonho era ainda pior do que o que ele vivia. Acordou assustado, amarrado a uma maca. Pela primeira vez em meses, não tinha a sensação de déjà-vu. Gritou por socorro. Um enfermeiro explicou que ninguém sabia como ele tinha ido parar ali. Não tinha documentos. Não sabiam quem era. Tentou explicar sua condição. Acharam que estava delirando. A médica ficou surpresa por ele saber seu nome. Perguntou a data: era o dia anterior. Não conseguiu convencê-los. Pediu para ligar para a esposa. Não permitiram. Desesperado, debateu-se sobre a maca. Acabou dopado.

Aquela consulta era uma decisão da qual não poderia voltar atrás. Preso na clínica, não compareceu ao enterro do pai. Perdeu seu próprio casamento; não esteve na formatura da universidade, nem prestou o vestibular; não deu seu primeiro beijo; nunca sequer frequentou a escola. Ficou naquele quarto para sempre, retroativamente, sem poder escapar, até ser novamente uma criança de colo.

Deixou de existir um dia antes de ter nascido.

Café da manhã

Era homem-homem e tinha orgulho disso. Nada de afetações, desvios ou cabeça aberta. Homem faz coisa de homem e ponto. Aprendeu assim, criou os filhos assim. E todo dia no café da manhã, que era praticamente a única hora do dia em que a família se reunia, fazia questão de reafirmar isso. Pro filho mais velho e pra filha também. Tudo bem que os tempos são outros e que agora algumas coisas são comuns, mas tem limites. E ele sempre deixava os limites claros.

O casal de filhos nunca respondia. Não sabia se isso era obediência ou medo. Tem diferença? Não importava, importava que escutassem e tratassem de levar aquilo a sério. Bom comportamento na escola, lisura no trabalho, decência na rua. Era a sustentação da sua existência e não abria mão. Não sabia nem como, não sabia como era ser de outro jeito. Até que um dia aconteceu algo inesperado.

– Filho, por favor, puxe a oração pra podermos comer.
– Não.
– Como não???
– Não vou puxar nada. Cansei. Deus não existe, pai. Não pra mim. Chega.

Uma cólera tomou conta do seu corpo. Jogou-se com força pra trás pra arrastar a cadeira e paralisou. Do jeito que estava, ficou. Meio curvado sobre a mesa, a bunda descolada da cadeira, as duas mãos segurando o assento, as pernas semiflexionadas de quem estava por levantar. Não conseguia se mexer, nem falar. A cólera virou pavor. O que era aquilo?

O filho, que já estava de pé preparado pro enfrentamento, não entendeu.

– Pai… pai?

Silêncio. Tentou tocá-lo. Estava duro como pedra. Como se todos os músculos do corpo estivessem retesados. A mãe assustada. A filha mastigando pão meio que no automático, ainda sem entender muito bem o que acontecia.

E ele imóvel.

Chamaram uma ambulância. Não conseguiam movê-lo, e qualquer tentativa parecia causar dor – bom, era o que dava a entender pelo arregalar dos olhos dele, a única parte do corpo que ainda comunicava algo. Vieram os paramédicos. Acharam que era brincadeira. Não era. Não sabiam o que fazer. A mãe ligou pro médico da família. Também não resolveu. Chamaram especialistas, veio mídia, um caso raro de síndrome do encarceramento misturada com uma cãibra corporal em todos os músculos motores. Não podiam deitá-lo, nem sentá-lo, nem nada. A TV chamava de “homo erectus”, num trocadilho científico infame. O povo do bairro falava em Medusa, invertendo os vetores do mito grego. Virou “sêo Medusa”, que em menos de uma semana já era “sêo Medú”.

Os filhos não gostavam muito dele, é fato, mas também não estavam contentes. Fora o assédio nas ruas, aquele pai petrificado na mesa da cozinha era algo perturbador. Resolveram que iriam tentar manter a normalidade e continuar tomando café junto com ele. Só que agora quem falava eram eles. O pai só escutava. Aquela inversão de papéis foi tornando tudo diferente, e de repente tinham coragem pra fazer e contar tudo que antes era proibido. Primeiro foi a filha.

– Pai, vou largar a arquitetura. Odeio a faculdade. Quero ser cabeleireira.

Ele piscou alucinadamente em reprovação, até as pálpebras doerem. Teve medo de paralisar os olhos também. E se os olhos param? Não ia sobrar nada.

No dia seguinte o filho apareceu de cabelo azul.

– Gostou, pai?

Foi como se enfiassem agulhas por debaixo da unha dele. O coração, um dos poucos músculos que ainda mexia, disparou. Ficou vermelho de raiva e vergonha. Seu próprio filho! E ele não podia sequer dizer uma palavra. Teve vontade de chorar. Segurou a lágrima que ameaçava escorrer.

Aquela nova relação familiar de repente foi se tornando habitual. O pai era como uma planta. Quer dizer, parte planta, parte bicho de pelúcia confessional, daqueles que você tem pra contar seus sonhos e seus problemas de noite na cama. Os médicos deixaram um acesso na veia pra que fosse alimentado, e usavam um copo com canudinho pra administrar água pela boca semi-aberta. Revezavam no aparar dos pêlos, que não paravam de crescer, e na troca de roupa. Colocaram uma sonda para as necessidades fisiológicas. E cuidar do pai virou um momento de desabafo e reflexão pra cada um deles.

O filho era quem mais falava. Contava da vontade de ir morar com dois amigos, das baladas, do beijo experimental que deu no Leandro. Gostava de pensar que o piscar do pai, cada vez mais lento, era uma forma de aceitação daquilo tudo, da vida nova que estava construindo. De uma outra pessoa surgindo ali dentro daquele corpo retraído. A filha primeiro achou aquela tarefa um peso, depois se acostumou e começou a se soltar. Fez o pai de cobaia durante todo o curso de cabeleireira. Penteados mil, cabelos descoloridos, um corte diferente a cada mês. A esposa, por algumas semanas, mal falava. Depois começou a conversar sobre as contas da casa, o problema de vazamento no banheiro, a vontade de redecorar a cozinha agora que ele fazia parte dela – a pia de mármore, os armários embutidos, a mesa, a geladeira, o fogão e ele. Aos poucos, resolveu fazer tudo que não conseguia antes da paralisação, ou pela reprovação do marido, ou pela falta de tempo. Voltou a estudar. Começou a trabalhar.

Nas primeiras semanas também vieram amigos. Do trabalho, principalmente, que era praticamente o único mundo que ele tinha. Veio o advogado, contou das possibilidades, pediu pra ele piscar uma vez pra sim e duas pra não. Acabaram resolvendo pedir uma aposentadoria por invalidez, ele relutou, achava que uma hora a paralisia tinha que passar, mas foi convencido de que era melhor não arriscar ficar sem renda e que, se um dia aquilo passasse, dava pra pedir o reingresso na firma. Depois dessa questão resolvida, quase nunca alguém de fora da família vinha vê-lo.

Depois de um mês, colocaram uma televisão na cozinha. Pra ele ver o mundo. Mas era deprimente demais saber que tudo estava em movimento e ele parado. A vida dos filhos e da esposa, vá lá, mas o mundo todo era demais. Não queria saber nada mais do que a família contava. Queria manter o mundo que ele conhecia o mais intacto possível. Aos poucos, foi pedindo para que não lhe dissessem mais as novidades. Nada de política, nem de futebol, nem de guerras ou mudanças drásticas. Se estava trancado em si próprio, queria se agarrar a essa sensação, viver essa situação ao extremo, pensar em tudo como ele deixou antes de se enclausurar.

Assim, não soube mais de nada. O mundo foi girando e ele imóvel, ali, o mesmo homem-homem de sempre. Sua masculinidade era tudo que tinha, e era a última coisa a que podia se agarrar. Não sentia mais nada por ninguém, nem o filho rebelde, nem a filha com seu próprio salão de beleza, nem a esposa que ainda cuidava dele mas seguiu com a vida e se tornou doutora – em Ciência Política. A sua falta de autonomia era humilhante, a fragilidade de sua existência, a dependência extrema da submissão da família aos seus cuidados. Sabia que era uma questão de tempo pra que seus olhos falhassem, ou o coração parasse, ou algum músculo rompesse de tanto tempo sem se mexer e ele morresse de hemorragia interna. Imaginou dez mil formas diferentes de partir, e toda noite fechava os olhos e torcia pra não abrir nunca mais.

Foi aí que aconteceu o Janjão.

Janjão era um amigo de infância. Era homem-homem também, daqueles que não leva desaforo pra casa. Um homem forte, e bruto. Juntos, várias histórias, desde moleques, na escola, na rua, no bar. Tinha vindo visitá-lo duas vezes, ficou muito tocado com a situação, mas não conseguiu voltar mais. Até que a esposa, vendo a depressão nos olhos do marido, ligou e apelou para que viesse. Janjão pensou, pensou e veio. De início, a presença do amigo fez com que ficasse ainda mais triste, as memórias de antigamente, as arruaças, os quebra-quebras, e ele ali agora, sem poder se mexer. Mas Janjão tinha um plano.

– Eu vou te tirar dessa cadeira.

Ele piscou, assustado.

– Vai doer, mas aguenta.

A mulher quis dizer não. Ele respirou fundo e fechou os olhos. Janjão, tão delicado quanto um búfalo manco, de uma vez só arrancou ele dali. Ele desgrudou da cadeira na mesma posição em que estava, deslocou um dedo em cada mão, doía, mas não disse nada. Outra vez conteve uma lágrima.

– Agora a gente vai dar uma volta. Pelos velhos tempos.

E foram pro estádio ver o time jogar. Ele numa cadeira de rodas, as mãos segurando o assento, a bunda levemente descolada. O Janjão empurrando e fazendo cara de mau pra quem olhava curioso. O jogo foi péssimo, zero a zero, mas por algumas horas ele se sentiu menos pior. Agradeceu o amigo, que voltou três dias depois, de novo a pedido da esposa, e dessa vez levou ele pro bordel – pra ela, falou que iam ao cinema. Pagou uma prostituta pra sentar e rebolar no colo dele. Ele não sentia nada, ironicamente certos músculos de seu corpo estavam mais relaxados que gelatina, enquanto todos os outros seguiam firmes como rocha. Fez o amigo entender que queria um carinho nos olhos, a única parte ainda sensível o suficiente. A prostituta massageou suas pálpebras. Sentiu algo próximo de prazer.

As saídas com Janjão trouxeram algum conforto, e ele ficou ansioso pelo próximo encontro. Janjão prometera levá-lo a um bar. Pediu pra esposa pentear seus cabelos, mas não fazer a barba, porque queria estar com cara de homem rústico pra ocasião. Janjão chegou já de noite. Partiram para o mesmo bar da época da faculdade. Janjão pediu duas vodkas, como antigamente, e depois mais duas e mais duas. Rapidamente estavam bêbados. O amigo olhou pra sonda dele e se revoltou.

– Você precisa recuperar sua dignidade. Tem que mijar sozinho, que nem homem, ainda que seja sentado – e arrancou a bolsa de seu corpo. Ele riu – não sentia dor alguma.

Foram para o banheiro. Janjão colocou-o na cabine, fechou a porta, usou o mictório e foi lavar as mãos, dando tempo para que ele se aliviasse. Um outro homem entrou no banheiro. Percebeu a situação e riu de canto de boca. Janjão não gostou e foi tirar satisfação. Começaram a brigar. O homem arrastou Janjão pra fora do banheiro. Ele, do lado de dentro da cabine, a porta fechada, só conseguia ouvir gritos, gemidos e pancadas. Vidros se quebrando. Tinha raiva, estava bêbado, queria ajudar o amigo a brigar. Mas não podia mexer mais do que os olhos. Aos poucos o barulho cessou. Janjão não voltou. Entendeu que estava sozinho. Outros homens entraram e saíram do banheiro, comentando da briga, mas ninguém tentou abrir a porta da cabine. Passou a noite ali, as calças arriadas, com dor de cabeça, querendo gritar, chamar alguém, sem saber o que teria acontecido com o amigo. Acabou dormindo.

No dia seguinte, o faxineiro da manhã achou estranho aquela cabine fechada e o cheiro forte que vinha de dentro e arrombou a porta com força, derrubando ele de boca no chão, a bunda de fora, de cócoras naquele chão gelado e imundo. Quebrou dois dentes na queda. O faxineiro achou sua carteira e ligou pra esposa, que veio resgatá-lo, constrangida, e contou que Janjão estava em coma por espancamento. Uma vez mais, ele conteve as lágrimas. Na mesma noite, perdeu o amigo e a dignidade. Sentia-se menos homem do que nunca. E voltou outra vez pra cozinha onde começou o dia em família por tantos anos.

Derrotado pela paralisia, não tinha mais esperanças. Quase um ano naquela situação. A família olhava pra ele com dó, como se fosse um cachorro moribundo. Ele só queria ficar em paz, fechado consigo mesmo, trancado no mundo que conheceu até antes daquele café da manhã. Um mundo feito por homens, de homens e para homens.

Como ele sempre foi.

Dois meses depois, numa segunda-feira de trabalho, em horário comercial, sêo Medú morreu. Naquela mesma mesa, sozinho, os olhos abertos encarando o pote de manteiga. A família só percebeu no dia seguinte. Foi cremado sem velório, porque não conseguiram esticar seu corpo pra colocar dentro de nenhum caixão.

Ninguém quis ficar com as cinzas.

Dez vezes sete

Hoje essa coisinha completa 10 anos.

É estranho parar pra pensar nisso. Lembrar de quando adotamos ela, Camila Ikuta e eu, nem desmamado tinha ainda. A Camila pegou ela na mão, cabia quase inteira na palma, toda quietinha. Conquistou. Passamos pela veterinária, falamos que ela parecia ser tranquila, e escutamos uma risada.

– Tá vendo essa orelha caída? Então, ela tava mamando na mãe e mordeu, aí a mãe atacou ela. Coloquei uma tala mas vai ficar meio caída pra sempre.

Preta, esse foi seu primeiro charme. Ou o segundo, já que os olhos azuis são sempre a primeira coisa que as pessoas reparam. E perguntam.

– Nossa, ela é cega?
– Você coloca lentes nela?
– Que bonita, é de verdade esse olho?

Logo nas primeiras semanas percebemos que de calminha só tinha a cara faceira mesmo. Destruiu um sofá inteiro, comendo o assento. Destruiu dois colchões. Comeu o aparelho da Eveline Oliveira. Destroçou o boné do Paulius Grigaitis. E junto com os cães com quem conviveu, o Lumpen e a Carmela, e as gatas que ainda a acompanham, primeiro a Branca, que chegou junto com ela, depois a Boquita, a Zica e agora a Jurema, acabou com muitas coisas mais.

Um vidro de saquê – espalhado pela casa toda.

Uma cartela inteira de anticoncepcionais – que rendeu uma lavagem estomacal.

E unha (sim, unha), alho, cebola, cocô de gato e um sem número de objetos, inusitados ou não.

Preta, você conheceu meu pai. Conheceu minha vó. Conheceu tanta gente e tanta coisa que já não existe mais que eu nem consigo lembrar direito da minha vida sem você. Antes de você.

Me esquentando na cama nos dias frios.

Lambendo minhas lágrimas nos dias tristes.

Correndo sem coleira quando deu pra te levar pra lugares públicos sem coleira.

De tudo isso, o que nunca vou conseguir esquecer na vida é o seu olhar. De uma cumplicidade inexplicável. Não humana. Extra humana. Companheira, mesmo.

Aniversário não significa nada pra você, eu sei. Você corre e promove o caos hoje igualzinho fazia quanto tinha 2 meses. E você nunca vai ler isso aqui, e mesmo que eu lesse pra você (não, não vou fazer isso, nem cantar parabéns) não ia significar nada.

Escrevo, então, pra mim mesmo. E pro mundo. Pra dizer que você faz tanta parte de mim que, com a idade na casa dos dois dígitos, me faz começar a ficar agoniado ao imaginar como vai ser quando você não estiver mais aqui.

Dizem que cada ano de cachorro valem 7 anos humanos, então você tá entrando na casa dos 70. Setenta anos comigo. E eu agradeço por cada um deles.

Feliz aniversário, menina. Estarei aqui pra ti até o fim.

O seu. O meu. Ou o nosso.

Sorriso de pai

– Feliz dia do pai 🙂
– Feliz dia do pai. Te amo. Tô aqui esperando seu texto pra me fazer chorar.
– Mais tarde…

***

Lu,

tenho muita saudade de você. Muita mesmo. Eu não sei por quê, nem como, nem quando isso começou, mas nos últimos meses tenho tido uma vontade enorme de mandar tudo à merda e comprar uma passagem pra ir te ver.

Eu tenho tido uns sonhos estranhos. Sonhos não, umas sensações, na hora de dormir. Principalmente na casa da mãe. Parece que tem uma presença, uma força, algo ali que me causa uma espécie de temor, um medo. Não, na verdade não é um medo, é uma ansiedade e uma agonia, e aí eu não consigo deitar de frente pra porta, e fico de costas como que sem querer encarar o que quer que seja que está ali. Não é muito racional, e talvez seja isso o que mais cansa a minha cabeça, porque você sabe o quanto eu sou racional e pragmático nessa bosta de vida. Queria ser menos. Mas a verdade é que eu não sei o que é essa coisa, essa força, e não sei o que fazer. Tento virar de frente, levanto, bebo água, mas acabo só indo dormir quando o cansaço vence a maquinação frenética da mente.

Não é ele, tenho certeza. Porque ele nunca me trouxe angústia, ansiedade ou medo. Ele não era de causar medo, lembra? Ao contrário, ele era de fazer rir.

Lembra da vez que meus amigos e eu fizemos a políca bater lá em casa e todos os vizinhos saírem pra ver o que era, e não era nada? Eu fiquei morrendo de medo da bronca quando ele chegasse, mas ele deu gargalhadas. E passou os meses seguintes fazendo piada com isso.

– Vou sair, não quero saber da SWAT vir aqui hein?

E quando a mãe não se acalmava dentro do carro? Lembra dos trocadilhos? Acho que ela ficava puta, mas depois que todo mundo ria ela vinha junto também né.

Lembra daquela vez que você discutiu com a mãe, chamou ela de autoritária e ela respondeu que autoritária era sua vó? E ele veio, todo sorrateiro, perguntando como se fosse o Chaves falando com o seu Madruga:

– É verdade que a sua avózinha era conhecida como Mussolini?

Lu, hoje eu só consigo lembrar das risadas. Ele me faz rir, e sorrir, e ter vontade de conhecer o mundo todo e fazer mais e mais coisas, como ele sempre quis e sempre fez.

O pai se foi, né, Lu, e a gente ficou. E depois foi também o Abu, e a vó. Parece que a vida encolheu, as pessoas queridas diminuíram e as angústias aumentaram. E aí a gente usa a memória pra tentar encontrar conforto no passado e não se perder. Só que o passado já foi e a memória é seletiva, e ela dança muito conforme a música do nosso coração. Quando a música toca no ritmo da saudade, vem essa vontade de chorar que me aperta os dedos enquanto digito, ou quando eu deito e sinto a presença da sua ausência, e da dele, e da vó e do Abu. É isso: esse medo, esse temor, essa angústia e principalmente a ansiedade só podem ser saudade.

Só que hoje eu não queria chorar, Lu. A saudade não tem que ser ameaçadora. Porque mesmo com ela presente e incômoda, cada dia mais eu percebo que ele tá na gente, sabe? E isso não é só forma de dizer. É de agir, de sorrir, de cantar, de sentir e de ir além.

Ele é as milhares de colheres de açúcar no meu café.

As muitas vezes que a mãe chama a gente quando tá no banho.

A música que sai de qualquer violão.

E o seu sorriso. Lu, é impressionante como ele é o seu sorriso, tanto quanto você era o dele.

Não sei, mas acho que enquanto eu escrevia isso aqui eu percebi o que é que me atormenta de noite. E é saudade, dele e de você.

Então não chora, irmãzinha. Ou chora, se for essa a sua vontade. Mas chora com um sorriso no rosto, e outro no peito. Que seu “rimão” é um bundão, mas logo menos dá um jeito de ir te ver.

E pra mostrar que o pai tá aqui, tá aí e tá em todo lugar, fazendo a gente rir, deixo essa foto dele que encontrei em casa.

É ou não é a nossa cara?

Milhões de beijos,

Dan

A mãe da minha mãe

A mãe da minha mãe. A mãe da minha mãe faria hoje 96 anos. É difícil imaginar tantos anos. Eu não tenho nem metade disso e já acho difícil entender o mundo que eu vivi 10 anos atrás. Imagina o mundo de 80 anos atrás.

A mãe da minha mãe foi, como toda mãe da mãe, uma intensa e contínua aula de história. História de como fazer, de como existir, de como cozinhar, costurar, debater, fazer carinho e contar histórias. Uma aula de história de contar. História de viver.

A mãe da minha mãe teve minha mãe. A minha mãe teve a minha irmã. E a mãe da minha mãe, a minha mãe e a filha da minha mãe me ensinaram tanta coisa só por existir do meu lado que eu nem sei dizer.

Hoje mencionaram pra mim a “casa de vô”. Não tive casa de vô, só de vó. E de mãe, e de irmã. E sempre me impressionou como todas elas eram sempre de alguma forma ela, a mãe da minha mãe, numa trindade que não foi nem nunca quis ser santa mas sim viva, e intensa e o tempo todo.

Vó, tive muita sorte de ter por perto. E de passar todos os 33 anos em que existimos juntos descobrindo, cada vez um pouquinho mais, que a sua história é a minha história, e a da minha mãe e a da filha da minha mãe.

Eu nunca vou ser vó, vó. Mas eu sempre serei você.

Feliz aniversário.

Oito por cinco

Oito é um número par.

Sempre gostei do número oito, embora seja mais afeito aos números ímpares, a ponto de sempre pedir ímpar numa disputa de par ou ímpar. Oito era o Ezequiel, depois descobri que tinha sido o Sócrates, e daí em diante adotei o oito como um número meu, o número da minha camisa.

Sendo um número par, oito é divisível por vários outros números. Dividindo oito por dois, temos quatro: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Dividindo oito por nós quatro, temos dois: ele e ela, minha irmã e eu; elas duas, meu pai e eu. E dividindo oito por ele mesmo, ficamos com um, que é ímpar.

Meu pai era uma pessoa ímpar.

Pai, hoje, depois de oito anos sem você, eu percebi que se a gente coloca o oito na posição horizontal ele fica parecendo o símbolo do infinito. Pode parecer, e na verdade é: nesses dias de aniversário eu me torno uma pessoa ainda mais brega do que as musiquinhas que você cantava pra mãe, pra Lu, pro Abu e pra mim. E olhando pro oito deitado, como você gostava de ficar na sala, fingindo que dormia pra pregar alguma peça na gente, me bateu uma sensação de que você não morreu e nem nunca morrerá. Só deitou pra sempre e desceu naquele buraco frio da sala de cremação da Vila Alpina, indo parar diretamente no infinito das nossas memórias cotidianas, das suas risadas e piadas ausentes e das tristezas que não encontrarão mais seus braços pra descansar.

Quando eu acordei hoje, ouvi de longe seu violão tocando uma música pra gente no fim de ano na praia, e é claro que era Dia Branco: “se você vier, pro que der e vier, comigo”. E lembrei que precisava te contar uma coisa.

Faz um tempinho, pai, que eu deixei de usar a camisa oito nos jogos. Troquei pela cinco, número ímpar como você. Acho que você, a Lu, a mãe e o Abu sabem muito bem porquê.

Te amo.

“Na hora de por a mesa, éramos cinco: meu pai, minha mãe, minha irmã, nosso cachorro e eu. Depois, minha irmã casou-se. Depois, meu pai morreu. Depois, o Abu se foi. Hoje, na hora de por a mesa, somos cinco. Menos minha irmã que está na casa dela, menos meu pai, menos nosso cachorro. Cada um deles é um lugar vazio nesta casa onde comemos minha mãe e eu, mas estarão sempre ali. Na hora de por a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.”