A mãe da minha mãe

A mãe da minha mãe. A mãe da minha mãe faria hoje 96 anos. É difícil imaginar tantos anos. Eu não tenho nem metade disso e já acho difícil entender o mundo que eu vivi 10 anos atrás. Imagina o mundo de 80 anos atrás.

A mãe da minha mãe foi, como toda mãe da mãe, uma intensa e contínua aula de história. História de como fazer, de como existir, de como cozinhar, costurar, debater, fazer carinho e contar histórias. Uma aula de história de contar. História de viver.

A mãe da minha mãe teve minha mãe. A minha mãe teve a minha irmã. E a mãe da minha mãe, a minha mãe e a filha da minha mãe me ensinaram tanta coisa só por existir do meu lado que eu nem sei dizer.

Hoje mencionaram pra mim a “casa de vô”. Não tive casa de vô, só de vó. E de mãe, e de irmã. E sempre me impressionou como todas elas eram sempre de alguma forma ela, a mãe da minha mãe, numa trindade que não foi nem nunca quis ser santa mas sim viva, e intensa e o tempo todo.

Vó, tive muita sorte de ter por perto. E de passar todos os 33 anos em que existimos juntos descobrindo, cada vez um pouquinho mais, que a sua história é a minha história, e a da minha mãe e a da filha da minha mãe.

Eu nunca vou ser vó, vó. Mas eu sempre serei você.

Feliz aniversário.

Oito por cinco

Oito é um número par.

Sempre gostei do número oito, embora seja mais afeito aos números ímpares, a ponto de sempre pedir ímpar numa disputa de par ou ímpar. Oito era o Ezequiel, depois descobri que tinha sido o Sócrates, e daí em diante adotei o oito como um número meu, o número da minha camisa.

Sendo um número par, oito é divisível por vários outros números. Dividindo oito por dois, temos quatro: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Dividindo oito por nós quatro, temos dois: ele e ela, minha irmã e eu; elas duas, meu pai e eu. E dividindo oito por ele mesmo, ficamos com um, que é ímpar.

Meu pai era uma pessoa ímpar.

Pai, hoje, depois de oito anos sem você, eu percebi que se a gente coloca o oito na posição horizontal ele fica parecendo o símbolo do infinito. Pode parecer, e na verdade é: nesses dias de aniversário eu me torno uma pessoa ainda mais brega do que as musiquinhas que você cantava pra mãe, pra Lu, pro Abu e pra mim. E olhando pro oito deitado, como você gostava de ficar na sala, fingindo que dormia pra pregar alguma peça na gente, me bateu uma sensação de que você não morreu e nem nunca morrerá. Só deitou pra sempre e desceu naquele buraco frio da sala de cremação da Vila Alpina, indo parar diretamente no infinito das nossas memórias cotidianas, das suas risadas e piadas ausentes e das tristezas que não encontrarão mais seus braços pra descansar.

Quando eu acordei hoje, ouvi de longe seu violão tocando uma música pra gente no fim de ano na praia, e é claro que era Dia Branco: “se você vier, pro que der e vier, comigo”. E lembrei que precisava te contar uma coisa.

Faz um tempinho, pai, que eu deixei de usar a camisa oito nos jogos. Troquei pela cinco, número ímpar como você. Acho que você, a Lu, a mãe e o Abu sabem muito bem porquê.

Te amo.

“Na hora de por a mesa, éramos cinco: meu pai, minha mãe, minha irmã, nosso cachorro e eu. Depois, minha irmã casou-se. Depois, meu pai morreu. Depois, o Abu se foi. Hoje, na hora de por a mesa, somos cinco. Menos minha irmã que está na casa dela, menos meu pai, menos nosso cachorro. Cada um deles é um lugar vazio nesta casa onde comemos minha mãe e eu, mas estarão sempre ali. Na hora de por a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.”

Sete anos

Pai,

queria que você estivesse aqui. E você não está. Essa é uma constatação dura, de todos os dias, mas que bate mais forte quando o mês é quatro e o dia é vinte e quatro.

A vida é uma bagunça, pai. Está uma bagunça. Tenho mudado muito de decisão sobre que caminho seguir, às vezes em questão de horas. Tudo muda e eu desenho um futuro novo a cada vez. Em todos eles, eu queria que você estivesse aqui. Queria que a Lu estivesse aqui, e o Abu, e as avós. Queria que fosse Pirituba e a She-Ra tivesse dado a luz, e eu fosse lá no quintal com vocês aprender sobre a vida e a morte. Queria que fosse a casa da escadaria e que a gente pulasse o muro pra jogar bola, e que fôssemos naquela tarde o melhor time do mundo porque ganhamos dos outros moleques que por lá corriam.

O nome disso é saudade, eu sei. Essa coisa que nunca se vai, que nunca nos abandona. Tenho muita saudade. Sinto muita saudade. Saudade é de sentir ou de ter, pai? Eu também não sei. Na dúvida, tenho. E sinto.

Ontem a minha mãe me deu um pouquinho de você de presente, assim, despretensiosamente. Umas cordas velhas de violão que ela achou em casa. Não dei muita bola na hora, mas quando cheguei em casa coloquei elas do lado do seu violão, que eu nunca aprendi a tocar, e fiquei relembrando das coisas. Fiquei na saudade, sem medo, que saudade traz lembrança gostosa e vontade de dar abraço. Saudade é bom. De ter e de sentir.

Veio hoje e eu dormi bem pouco. Acordei cedo, passei o dia fazendo coisas que me levaram pra longe de ti. Digo, pra longe do pensar em ti. Pra longe um pouco da saudade. E foi bom, porque a vida é uma bagunça, pai, e se saudade é bom e dá vontade de dar abraço, nesse exato momento o seu faz muita falta. Um abraço, ou um beijo, daqueles que você dava de surpresa, quando lembrava de demonstrar carinho aleatoriamente. Era estranho, porque de repente, mas era bom, pai. Era bem bom.

Queria mesmo que você estivesse aqui. Meu melhor amigo, um que não encontrei nunca mais.

Queria. E você não está.

Então eu sentei aqui, com o violão na mão, e tentei tocar qualquer acorde. Saiu esse texto. Em silêncio, sem lá, nem si, nem sol.

Nem dó.

Feliz aniversário.

São Paulo, 24 de abril de 2016.

Noventa e cinco

Minha florzinha querida,

esperei passar o seu dia pra te escrever. É que foi um dia estranho, sabe, vó. Tinha um monte de gente na rua, gente que não viveu nenhuma das duas ditaduras pelas quais você passou, gritando que queria intervenção militar. Queria muito que eles tivessem estado comigo numa daquelas conversas na sua cozinha, quando você me contava do medo na época do Getúlio, de fugir pro Paraná, de como você ficava desesperada da minha mãe se meter em militância clandestina em pleno regime militar, da época em que você temia pela vida do meu avô, que era jornalista. Eu não vivi nada disso, vó, mas a sua voz sempre foi de respeito pra mim, e tudo que eu escutei guardei pra vida toda.

Assim como guardei as comidas todas, e as outras histórias, as alegres. Do rio Tietê limpo, de nadar nele, de ir pra Bariloche e perder todas as malas. Do Corinthians, vó. O Corinthians ganhou ontem, 3 a 0, e eu lembrei de você gargalhando naquele aniversário da minha irmã em que saía gol atrás de gol e a gente meteu 7 a 1 no Santos.

O dia ontem também foi cercado de mulheres, vó. Aquelas mulheres enormes que tive o privilégio de nascer no meio, as muitas mães, tias, professoras e terapeutas que sempre tiveram os braços abertos pros seus netos. Passei o seu dia na casa delas, pensando, claro, em vocês jogando buraco, e de quantas vezes te vi naquela mesa com os olhos compenetrados nas cartas. Eu funciono assim, vó, preciso estar nos lugares pra ir reativando as memórias deles, e as suas também.

É claro que senti sua falta. Talvez mais do que nunca. Um dia antes, passando de carro em frente ao seu apartamento, falei pro meu amigo que dirigia, “minha vó mora aqui”, e logo em seguida percebi que não mora mais. Não sei como é tomar um tiro no peito, vó, mas duvido que o buraco seja maior. Esse que eu tô falando agora é outro buraco, e ele não é bem assim um jogo de cartas. Não é como se o que fizesse falta fosse só aquele ás pra fazer canastra, sabe. A falta aqui é outra, a dimensão é outra. Você faz muita falta, vó, e falando em fazer falta, se a minha vida fosse um volante, já tinha tomado cartão vermelho, viu.

Mas o carro seguiu e a vida continuou, vó, e eu lembrei que aprendi com você a não deixar os buracos serem maiores que a gente nunca. No fim, todo buraco é vazio, que nem o jogo, e a gente preenche ele como quer, né. De repente sai uma canastra, mesmo que suja. E veio o seu dia e eu tentei encher o buraco com o seu sorriso, porque, como diz aquela música, vó, apesar dos idiotas, eu amo você, e por mais que eles estivessem em grande número pela cidade, não chegaram nem perto do seu tamanho.

Porque vó, era pra você ter feito noventa e cinco anos ontem. Noventa e cinco! Eu nem sei se consigo dimensionar o que é tudo isso, dá quase três vezes a minha vida. Se eu chegar perto disso, vó, espero que seja com um pouquinho-que-seja da sua energia, da sua compreensão e da sua lábia. Minha mãe me diz que você era uma espanhola brava, mas eu acho que te conheci depois disso porque, vou te dizer, com o seu jeitinho ali quietinho no seu canto você sempre conseguia o que queria – inclusive quando o que queria era não comer o brócolis que você precisava comer.

Fui dormir pensando nisso, e na sua cervejinha, e em como você sabia curtir essas coisas pequenas da vida. Peguei no sono te observando no vai-e-vém eterno daquela cadeira de balanço, um ano pra lá, outro ano pra cá, e de repente eu estava no seu colo de novo em algum sonho maluco com cartas, Corinthians e comida.

Assim passei o seu dia, vó. Te amando como sempre, e te faltando como nunca. Mas sem te deixar ir pra longe, porque você sabe, e como sabe, que viverá eternamente em nossos corações.

Meu, da Lu, da mãe, do pai, da tia, dos primos e dos quatrocentos netos que te herdaram por carinho, porque você era tão grande que precisávamos sempre te compartilhar.

Te amo.

Até sempre,

Dan.

vó

Ortencia

Hoje era minha vez de dormir com ela, mas ela decidiu dormir sozinha.

Ela e os 94 anos dela, cheios de gelatina colorida, jogos do Corinthians, buraco e muitas boas memórias.

Noventa e quatro são muitos anos. Mais do que eu consigo imaginar. Neles couberam muitas mudanças, de cidade, de casa e de vida. Muitos jogos, de cartas, de futebol e de amor. Couberam vários netos, muitos filhos e filhas, muitos sorrisos e aniversários.

Foi uma vida intensa e florida, como o nome dela: Ortencia pra uns, dona Ortencia pra outros. Pra mim foi sempre vó.

Minha vó querida de todos os anos, de todos os dias, de todos os risos e de todas as dores.

Hoje era minha vez de dormir com ela. Mas ela decidiu dormir sozinha. E no caminho de táxi até o hospital, só tocava o seu querido Roberto.

“Por isso uma força
Me leva a cantar
Por isso essa força
Estranha no ar
Por isso é que eu canto
Não posso parar
Por isso essa voz, essa voz
Tamanha…”

Era um aviso.

Uma homenagem.

Uma lembrança.

De que hoje é minha vez de dormir com ela. Porque ela nunca dormirá sozinha.

Adeus, dona Ortencia. Adeus, minha florzinha.

Te amo pra sempre.

Adeus

Já tive perdas na vida. Uma avó e um pai. E doeu, dói até hoje. O caminho até o velório, o percurso até o enterro, o vagar até a cremação, foram todos momentos quase infinitos de espera pra dizer adeus. Em todos eles, porém, a morte já estava dada. O adeus era inevitável, coletivo, e não tinha sido decidido por mim.

Hoje o Abu se foi. Foram 15 anos de carinhos, lambidas, latidos e risadas. Em todos eles, o ato de abrir a porta do apartamento era instantaneamente seguido por um outro tipo de espera, pelo rabo balançando, o latido, a corrida emocionada, os pulos. O abrir a porta tinha vida, e a vida era alegre e saltitante.

Mas vida que é vida termina. E a do Abu também teria que terminar. Eu sempre tive cachorros, mas nunca tinha perdido um nas minhas mãos. Fazia já alguns anos que os latidos e lambidas vinham sendo gradativamente substituídos por ganidos e dores. Sabíamos que um dia chegaria a hora. A hora do fim, a hora do adeus.

Hoje, quando acordei e caminhei para o veterinário, de certa forma me vi repetindo uma vez mais o mesmo trajeto. Mas alguma coisa era diferente. Porque eu sabia que chegando lá a morte não estaria. Ainda haveria vida, e uma vida que não era a minha.

Como decidir pela existência de outro ser?

Tem horas em que não há muito espaço pra dúvidas. Algumas decisões precisam ser sem pensar demais, relativizar, criar esperança. Mas isso não torna nada mais fácil.

Abu viveu quase metade da minha vida comigo. Mais da metade, se contarmos apenas a parte da vida da qual eu tenho memórias. Era uma parte de mim, da minha mãe, da minha irmã. A última parte viva do meu pai, ou pelo menos do tempo em que todos nós existíamos juntos.

Quando cheguei na sala do veterinário, o mesmo nestes 15 anos, Abu quase não se movia mais. Era pele e osso, respirava devagar. Não tinha mais músculos, nem pra fechar os olhos – passou a última noite acordado, ao lado da minha mãe, a mais fiel das companhias que qualquer ser vivo pode ter. Enxuguei as lágrimas que já tinham corrido pelo caminho. Era a hora.

Do último beijo, o último abraço, o último afago. Do último carinho.

A vida é sempre cheia de perdas. E cada perda é um eterno recomeçar. Nunca é fácil aprender a viver sem, mas todo vazio é um espaço para construir. Cada vez que alguém se vai, o coração aumenta mais um pouquinho. Que é pra caber as coisas novas, misturadas com as memórias velhas.

“Não aprendi dizer adeus”, diz uma música brega. Cantarolei ela na cabeça por todo o caminho.

O meu até o veterinário.

E o do Abu até a memória.

Sabe, Abu?

Acho que a gente nunca aprende.

Obrigado, meu amigo. Até sempre.

abu

Sessenta e seis

Sempre tivemos cachorros. Desde os meus 3 anos, e os alguns meses de minha irmã, quando meu pai chegou em casa com uma vira-lata que ele tinha comprado no pet shop em frente à casa da minha vó. Conhecendo meu pai, provavelmente foi no impulso, porque ele não compraria uma vira-lata se tivesse pensado por dois minutos que fossem. Pior: não compraria uma vira-lata, fêmea, pensando que era um macho.

Pois bem, She-Ra chegou. Porque com 3 anos a minha vida era em grande parte assistir He-Man, e como aquela cachorrinha preta era fêmea, só podia ser a She-Ra. Que viveu conosco por longos anos e várias casas, da Chácara Inglesa pra Vila Zatt, da Villa Zatt pra Lapa. She-Ra era a típica companheira, que acompanhava minha mãe até a estação de trem na hora de ir trabalhar, e depois voltava pra casa sozinha. Aprendemos com ela que a vida é frágil: foram várias ninhadas, a primeira inteira natimorta, as outras cuidadas com carinho pelas duas mães da casa, a minha e ela. Lembro dos filhotinhos paridos no quintal, de madrugada, e do trabalho pra convencê-la a nos deixar pegá-los para transportar pra dentro de casa, numa caixinha quentinha.

Um dia, She-Ra se foi. Saiu pra dar uma volta no bairro como sempre e não voltou. Foi difícil, doeu, muito mais na minha mãe do que na gente. Mas não teve jeito. Ficou o Pipoca, que, dois anos depois, quando mudamos pra um apartamento, acabou mudando pra uma outra casa.

No apartamento, foram uns 5 anos sem cachorro nenhum. Era difícil, mas eram as regras do meu pai. E ele tinha um argumento bom: era maldade trancar um cão num apartamento pequeno. Não sei o quanto ele mesmo acreditava nisso e o quanto era só preguiça de ter que dar bronca na gente por não limpar a futura sujeira do cachorro. Sei que nesse tempo tivemos hamsters, peixes, e só não entramos na onda dos pintinhos coloridos porque minha mãe morre de medo de qualquer coisa viva que voe.

Até que minha irmã cresceu, e arrumou um namorado. E namorado às vezes faz coisas sem pensar muito. Foi assim que, em janeiro de 2000, chegou em casa um vira-latinha minúsculo. Entre vários nomes pro cãozinho, depois de praguejar muito contra ele, meu pai, que na época se engalfinhava comigo em discussões políticas, eu um jovem punk que acabava de descobrir o anarquismo, ele um velho militante trotskysta que viveu a ditadura, sugeriu Abu. Abu, de Mumia Abu-Jamal. Que quase ninguém, em casa e no círculo de amigos, conhecia. Mas o nome era fofo e pequeno como o cachorro, e assim ele se tornou o Abu.

O Abu e a minha irmã eram uma coisa só. Dizem que cachorro escolhe dono/a, e o Abu escolheu ela rapidamente. Por anos, foram inseparáveis. E a casa tinha nova vida, o abrir da porta era sempre uma festa, porque é sempre bom chegar onde tem alguém te esperando. E o Abu estava sempre esperando.

Um dia, meu pai adoeceu. Um enfisema pulmonar, fruto das décadas de fumante, que lhe tiraria a vida 6 anos depois. Enfisema é uma doença desgraçada, que vai tolhendo pouco a pouco a autonomia da pessoa. E meu pai foi ficando cada vez mais em casa. Ao mesmo tempo, eu tinha ido morar com a namorada, e minha irmã foi viver na Austrália. Meu pai e o Abu acabaram se tornando íntimos como nunca ninguém tinha imaginado. Ele, que achava crueldade um cachorro no apartamento, e que acabou trancado no mesmo apartamento. Fazia músicas pro cachorro, contava histórias, filmava, fotografava. Chegou até a deixar lamber o prato – coisa que sempre repreendeu a gente de fazer.

Uma das imagens mais marcantes da minha vida vai ser, pra sempre, o olhar do Abu em direção à porta, depois de chegarmos do velório do meu pai. Faltava alguém.

Hoje, do alto dos seus 15 anos, o Abu resiste. É o companheiro da minha mãe, e às vezes da minha vó. E resume bem meus sentimentos sempre que chega um 24 de abril: aniversário do meu pai, aniversário do Mumia Abu-Jamal – que, diga-se de passagem, agoniza numa cela nos EUA, tendo vários direitos humanos, entre eles o de ser atendido corretamente para sua diabetes, negado. A luta internacional livrou-o da sentença de execução, mas não da prisão perpétua. De todos nessa história, é o que mais tempo viveu enclausurado.

Nunca encontrei Mumia Abu-Jamal ao vivo. Já li muito sobre ele. Já li muito os escritos dele. Já sonhei, refleti e pensei sobre a vida dele. Um homem negro preso numa montagem policial e trancado numa cela para sempre. Um nome que faz o elo entre dois dos olhares mais sinceros que eu já conheci. Uma data que eu nunca vou poder tirar de mim.

Quando chega 24 de abril, só consigo pensar em poder dar um abraço.

No Mumia, por tudo.

No Abu, por sempre.

E no meu pai, porque faz falta.

Muita falta.

São Paulo, 24 de abril de 2015.