Sete anos

Pai,

queria que você estivesse aqui. E você não está. Essa é uma constatação dura, de todos os dias, mas que bate mais forte quando o mês é quatro e o dia é vinte e quatro.

A vida é uma bagunça, pai. Está uma bagunça. Tenho mudado muito de decisão sobre que caminho seguir, às vezes em questão de horas. Tudo muda e eu desenho um futuro novo a cada vez. Em todos eles, eu queria que você estivesse aqui. Queria que a Lu estivesse aqui, e o Abu, e as avós. Queria que fosse Pirituba e a She-Ra tivesse dado a luz, e eu fosse lá no quintal com vocês aprender sobre a vida e a morte. Queria que fosse a casa da escadaria e que a gente pulasse o muro pra jogar bola, e que fôssemos naquela tarde o melhor time do mundo porque ganhamos dos outros moleques que por lá corriam.

O nome disso é saudade, eu sei. Essa coisa que nunca se vai, que nunca nos abandona. Tenho muita saudade. Sinto muita saudade. Saudade é de sentir ou de ter, pai? Eu também não sei. Na dúvida, tenho. E sinto.

Ontem a minha mãe me deu um pouquinho de você de presente, assim, despretensiosamente. Umas cordas velhas de violão que ela achou em casa. Não dei muita bola na hora, mas quando cheguei em casa coloquei elas do lado do seu violão, que eu nunca aprendi a tocar, e fiquei relembrando das coisas. Fiquei na saudade, sem medo, que saudade traz lembrança gostosa e vontade de dar abraço. Saudade é bom. De ter e de sentir.

Veio hoje e eu dormi bem pouco. Acordei cedo, passei o dia fazendo coisas que me levaram pra longe de ti. Digo, pra longe do pensar em ti. Pra longe um pouco da saudade. E foi bom, porque a vida é uma bagunça, pai, e se saudade é bom e dá vontade de dar abraço, nesse exato momento o seu faz muita falta. Um abraço, ou um beijo, daqueles que você dava de surpresa, quando lembrava de demonstrar carinho aleatoriamente. Era estranho, porque de repente, mas era bom, pai. Era bem bom.

Queria mesmo que você estivesse aqui. Meu melhor amigo, um que não encontrei nunca mais.

Queria. E você não está.

Então eu sentei aqui, com o violão na mão, e tentei tocar qualquer acorde. Saiu esse texto. Em silêncio, sem lá, nem si, nem sol.

Nem dó.

Feliz aniversário.

São Paulo, 24 de abril de 2016.

Noventa e cinco

Minha florzinha querida,

esperei passar o seu dia pra te escrever. É que foi um dia estranho, sabe, vó. Tinha um monte de gente na rua, gente que não viveu nenhuma das duas ditaduras pelas quais você passou, gritando que queria intervenção militar. Queria muito que eles tivessem estado comigo numa daquelas conversas na sua cozinha, quando você me contava do medo na época do Getúlio, de fugir pro Paraná, de como você ficava desesperada da minha mãe se meter em militância clandestina em pleno regime militar, da época em que você temia pela vida do meu avô, que era jornalista. Eu não vivi nada disso, vó, mas a sua voz sempre foi de respeito pra mim, e tudo que eu escutei guardei pra vida toda.

Assim como guardei as comidas todas, e as outras histórias, as alegres. Do rio Tietê limpo, de nadar nele, de ir pra Bariloche e perder todas as malas. Do Corinthians, vó. O Corinthians ganhou ontem, 3 a 0, e eu lembrei de você gargalhando naquele aniversário da minha irmã em que saía gol atrás de gol e a gente meteu 7 a 1 no Santos.

O dia ontem também foi cercado de mulheres, vó. Aquelas mulheres enormes que tive o privilégio de nascer no meio, as muitas mães, tias, professoras e terapeutas que sempre tiveram os braços abertos pros seus netos. Passei o seu dia na casa delas, pensando, claro, em vocês jogando buraco, e de quantas vezes te vi naquela mesa com os olhos compenetrados nas cartas. Eu funciono assim, vó, preciso estar nos lugares pra ir reativando as memórias deles, e as suas também.

É claro que senti sua falta. Talvez mais do que nunca. Um dia antes, passando de carro em frente ao seu apartamento, falei pro meu amigo que dirigia, “minha vó mora aqui”, e logo em seguida percebi que não mora mais. Não sei como é tomar um tiro no peito, vó, mas duvido que o buraco seja maior. Esse que eu tô falando agora é outro buraco, e ele não é bem assim um jogo de cartas. Não é como se o que fizesse falta fosse só aquele ás pra fazer canastra, sabe. A falta aqui é outra, a dimensão é outra. Você faz muita falta, vó, e falando em fazer falta, se a minha vida fosse um volante, já tinha tomado cartão vermelho, viu.

Mas o carro seguiu e a vida continuou, vó, e eu lembrei que aprendi com você a não deixar os buracos serem maiores que a gente nunca. No fim, todo buraco é vazio, que nem o jogo, e a gente preenche ele como quer, né. De repente sai uma canastra, mesmo que suja. E veio o seu dia e eu tentei encher o buraco com o seu sorriso, porque, como diz aquela música, vó, apesar dos idiotas, eu amo você, e por mais que eles estivessem em grande número pela cidade, não chegaram nem perto do seu tamanho.

Porque vó, era pra você ter feito noventa e cinco anos ontem. Noventa e cinco! Eu nem sei se consigo dimensionar o que é tudo isso, dá quase três vezes a minha vida. Se eu chegar perto disso, vó, espero que seja com um pouquinho-que-seja da sua energia, da sua compreensão e da sua lábia. Minha mãe me diz que você era uma espanhola brava, mas eu acho que te conheci depois disso porque, vou te dizer, com o seu jeitinho ali quietinho no seu canto você sempre conseguia o que queria – inclusive quando o que queria era não comer o brócolis que você precisava comer.

Fui dormir pensando nisso, e na sua cervejinha, e em como você sabia curtir essas coisas pequenas da vida. Peguei no sono te observando no vai-e-vém eterno daquela cadeira de balanço, um ano pra lá, outro ano pra cá, e de repente eu estava no seu colo de novo em algum sonho maluco com cartas, Corinthians e comida.

Assim passei o seu dia, vó. Te amando como sempre, e te faltando como nunca. Mas sem te deixar ir pra longe, porque você sabe, e como sabe, que viverá eternamente em nossos corações.

Meu, da Lu, da mãe, do pai, da tia, dos primos e dos quatrocentos netos que te herdaram por carinho, porque você era tão grande que precisávamos sempre te compartilhar.

Te amo.

Até sempre,

Dan.

vó

Ortencia

Hoje era minha vez de dormir com ela, mas ela decidiu dormir sozinha.

Ela e os 94 anos dela, cheios de gelatina colorida, jogos do Corinthians, buraco e muitas boas memórias.

Noventa e quatro são muitos anos. Mais do que eu consigo imaginar. Neles couberam muitas mudanças, de cidade, de casa e de vida. Muitos jogos, de cartas, de futebol e de amor. Couberam vários netos, muitos filhos e filhas, muitos sorrisos e aniversários.

Foi uma vida intensa e florida, como o nome dela: Ortencia pra uns, dona Ortencia pra outros. Pra mim foi sempre vó.

Minha vó querida de todos os anos, de todos os dias, de todos os risos e de todas as dores.

Hoje era minha vez de dormir com ela. Mas ela decidiu dormir sozinha. E no caminho de táxi até o hospital, só tocava o seu querido Roberto.

“Por isso uma força
Me leva a cantar
Por isso essa força
Estranha no ar
Por isso é que eu canto
Não posso parar
Por isso essa voz, essa voz
Tamanha…”

Era um aviso.

Uma homenagem.

Uma lembrança.

De que hoje é minha vez de dormir com ela. Porque ela nunca dormirá sozinha.

Adeus, dona Ortencia. Adeus, minha florzinha.

Te amo pra sempre.

Adeus

Já tive perdas na vida. Uma avó e um pai. E doeu, dói até hoje. O caminho até o velório, o percurso até o enterro, o vagar até a cremação, foram todos momentos quase infinitos de espera pra dizer adeus. Em todos eles, porém, a morte já estava dada. O adeus era inevitável, coletivo, e não tinha sido decidido por mim.

Hoje o Abu se foi. Foram 15 anos de carinhos, lambidas, latidos e risadas. Em todos eles, o ato de abrir a porta do apartamento era instantaneamente seguido por um outro tipo de espera, pelo rabo balançando, o latido, a corrida emocionada, os pulos. O abrir a porta tinha vida, e a vida era alegre e saltitante.

Mas vida que é vida termina. E a do Abu também teria que terminar. Eu sempre tive cachorros, mas nunca tinha perdido um nas minhas mãos. Fazia já alguns anos que os latidos e lambidas vinham sendo gradativamente substituídos por ganidos e dores. Sabíamos que um dia chegaria a hora. A hora do fim, a hora do adeus.

Hoje, quando acordei e caminhei para o veterinário, de certa forma me vi repetindo uma vez mais o mesmo trajeto. Mas alguma coisa era diferente. Porque eu sabia que chegando lá a morte não estaria. Ainda haveria vida, e uma vida que não era a minha.

Como decidir pela existência de outro ser?

Tem horas em que não há muito espaço pra dúvidas. Algumas decisões precisam ser sem pensar demais, relativizar, criar esperança. Mas isso não torna nada mais fácil.

Abu viveu quase metade da minha vida comigo. Mais da metade, se contarmos apenas a parte da vida da qual eu tenho memórias. Era uma parte de mim, da minha mãe, da minha irmã. A última parte viva do meu pai, ou pelo menos do tempo em que todos nós existíamos juntos.

Quando cheguei na sala do veterinário, o mesmo nestes 15 anos, Abu quase não se movia mais. Era pele e osso, respirava devagar. Não tinha mais músculos, nem pra fechar os olhos – passou a última noite acordado, ao lado da minha mãe, a mais fiel das companhias que qualquer ser vivo pode ter. Enxuguei as lágrimas que já tinham corrido pelo caminho. Era a hora.

Do último beijo, o último abraço, o último afago. Do último carinho.

A vida é sempre cheia de perdas. E cada perda é um eterno recomeçar. Nunca é fácil aprender a viver sem, mas todo vazio é um espaço para construir. Cada vez que alguém se vai, o coração aumenta mais um pouquinho. Que é pra caber as coisas novas, misturadas com as memórias velhas.

“Não aprendi dizer adeus”, diz uma música brega. Cantarolei ela na cabeça por todo o caminho.

O meu até o veterinário.

E o do Abu até a memória.

Sabe, Abu?

Acho que a gente nunca aprende.

Obrigado, meu amigo. Até sempre.

abu

Sessenta e seis

Sempre tivemos cachorros. Desde os meus 3 anos, e os alguns meses de minha irmã, quando meu pai chegou em casa com uma vira-lata que ele tinha comprado no pet shop em frente à casa da minha vó. Conhecendo meu pai, provavelmente foi no impulso, porque ele não compraria uma vira-lata se tivesse pensado por dois minutos que fossem. Pior: não compraria uma vira-lata, fêmea, pensando que era um macho.

Pois bem, She-Ra chegou. Porque com 3 anos a minha vida era em grande parte assistir He-Man, e como aquela cachorrinha preta era fêmea, só podia ser a She-Ra. Que viveu conosco por longos anos e várias casas, da Chácara Inglesa pra Vila Zatt, da Villa Zatt pra Lapa. She-Ra era a típica companheira, que acompanhava minha mãe até a estação de trem na hora de ir trabalhar, e depois voltava pra casa sozinha. Aprendemos com ela que a vida é frágil: foram várias ninhadas, a primeira inteira natimorta, as outras cuidadas com carinho pelas duas mães da casa, a minha e ela. Lembro dos filhotinhos paridos no quintal, de madrugada, e do trabalho pra convencê-la a nos deixar pegá-los para transportar pra dentro de casa, numa caixinha quentinha.

Um dia, She-Ra se foi. Saiu pra dar uma volta no bairro como sempre e não voltou. Foi difícil, doeu, muito mais na minha mãe do que na gente. Mas não teve jeito. Ficou o Pipoca, que, dois anos depois, quando mudamos pra um apartamento, acabou mudando pra uma outra casa.

No apartamento, foram uns 5 anos sem cachorro nenhum. Era difícil, mas eram as regras do meu pai. E ele tinha um argumento bom: era maldade trancar um cão num apartamento pequeno. Não sei o quanto ele mesmo acreditava nisso e o quanto era só preguiça de ter que dar bronca na gente por não limpar a futura sujeira do cachorro. Sei que nesse tempo tivemos hamsters, peixes, e só não entramos na onda dos pintinhos coloridos porque minha mãe morre de medo de qualquer coisa viva que voe.

Até que minha irmã cresceu, e arrumou um namorado. E namorado às vezes faz coisas sem pensar muito. Foi assim que, em janeiro de 2000, chegou em casa um vira-latinha minúsculo. Entre vários nomes pro cãozinho, depois de praguejar muito contra ele, meu pai, que na época se engalfinhava comigo em discussões políticas, eu um jovem punk que acabava de descobrir o anarquismo, ele um velho militante trotskysta que viveu a ditadura, sugeriu Abu. Abu, de Mumia Abu-Jamal. Que quase ninguém, em casa e no círculo de amigos, conhecia. Mas o nome era fofo e pequeno como o cachorro, e assim ele se tornou o Abu.

O Abu e a minha irmã eram uma coisa só. Dizem que cachorro escolhe dono/a, e o Abu escolheu ela rapidamente. Por anos, foram inseparáveis. E a casa tinha nova vida, o abrir da porta era sempre uma festa, porque é sempre bom chegar onde tem alguém te esperando. E o Abu estava sempre esperando.

Um dia, meu pai adoeceu. Um enfisema pulmonar, fruto das décadas de fumante, que lhe tiraria a vida 6 anos depois. Enfisema é uma doença desgraçada, que vai tolhendo pouco a pouco a autonomia da pessoa. E meu pai foi ficando cada vez mais em casa. Ao mesmo tempo, eu tinha ido morar com a namorada, e minha irmã foi viver na Austrália. Meu pai e o Abu acabaram se tornando íntimos como nunca ninguém tinha imaginado. Ele, que achava crueldade um cachorro no apartamento, e que acabou trancado no mesmo apartamento. Fazia músicas pro cachorro, contava histórias, filmava, fotografava. Chegou até a deixar lamber o prato – coisa que sempre repreendeu a gente de fazer.

Uma das imagens mais marcantes da minha vida vai ser, pra sempre, o olhar do Abu em direção à porta, depois de chegarmos do velório do meu pai. Faltava alguém.

Hoje, do alto dos seus 15 anos, o Abu resiste. É o companheiro da minha mãe, e às vezes da minha vó. E resume bem meus sentimentos sempre que chega um 24 de abril: aniversário do meu pai, aniversário do Mumia Abu-Jamal – que, diga-se de passagem, agoniza numa cela nos EUA, tendo vários direitos humanos, entre eles o de ser atendido corretamente para sua diabetes, negado. A luta internacional livrou-o da sentença de execução, mas não da prisão perpétua. De todos nessa história, é o que mais tempo viveu enclausurado.

Nunca encontrei Mumia Abu-Jamal ao vivo. Já li muito sobre ele. Já li muito os escritos dele. Já sonhei, refleti e pensei sobre a vida dele. Um homem negro preso numa montagem policial e trancado numa cela para sempre. Um nome que faz o elo entre dois dos olhares mais sinceros que eu já conheci. Uma data que eu nunca vou poder tirar de mim.

Quando chega 24 de abril, só consigo pensar em poder dar um abraço.

No Mumia, por tudo.

No Abu, por sempre.

E no meu pai, porque faz falta.

Muita falta.

São Paulo, 24 de abril de 2015.

Xixi nas calças

Quando eu era pequeno, fazia xixi nas calças e na cama. Tenho certeza de que vocês também.

Morria de vergonha disso. Fazer xixi nas calças era como um atestado de dependência, de não ter controle sobre o próprio corpo. Muitas vezes era por ter bebido líquido demais, outras era por um pesadelo. Nessas, acabava acordando assustado, com medo e, pra piorar, envergonhado.

Depois de crescido, ouvi diversos relatos de xixi nas calças, de crianças e de adultos. Alguns davam muita agonia: eram calças molhadas por medo da morte na forma de uma arma apontada, ou na exata hora da morte mesmo, um último descontrole corporal, uma espécie de aviso do nosso corpo para o mundo de que o ser que ali morre carrega dentro de si uma criança – com seus medos e vergonhas.

Ontem eu estava dando aula quando recebi uma mensagem no celular. Era uma amiga, uma companheira de movimento social, dizendo que a frente da Câmara Municipal tinha se tornado uma praça de guerra. Os movimentos de moradia de São Paulo, juntos, pressionavam os vereadores pela votação – finalmente e com vários problemas sérios – do Plano Diretor, aquele montoado de papel escrito por gente de gravata (que já fez xixi nas calças e teve medo de pesadelo um dia) que significa uma pequena vitória pra uma imensa parte da população da cidade.

Mais da metade dos paulistanos, em levantamento de 2012, moram em favelas ou habitações precárias, ou em habitação nenhuma. Isso são mais de 5 milhões de pessoas. Todas elas também já fizeram xixi na calça um dia. E ontem estavam representadas em milhares de vozes de todas as faixas etárias que enxergam na aprovação do plano um avanço legal na regularização fundiária de suas casas, no processo de busca por moradia digna, um freio na especulação imobiliária sem limites que pode te tirar do sofá e colocar na rua num piscar de olhos – quando você menos vê, sua casa virou um estádio em Itaquera.

A Câmara Municipal é em teoria a “casa do povo”. Está escrito lá, inclusive. Mas quando o povo chega na porta, os vereadores, invariavelmente, tal qual todos nós um dia, mijam nas calças. De medo. Alguns, dizem, fazem até pior. E apelam pro único truque que conhecem, desde 1500: a violência. Hoje, ela responde por Polícia Militar. Ontem, estava acompanhada da Guarda Municipal.

Os guardas e policiais, todos eles, também já fizeram xixi nas calças. E tiveram vergonha. Ontem, entretanto, fizeram coisa bem pior, da qual não parecem ter vergonha nenhuma: jogaram bombas, atiraram e agrediram aquele povo sem casa que, na porta da casa do povo, lutava por resolver essa equação há tanto tempo desbalanceada.

Não, não sou professor de Química. Sou professor de Geografia. Não sei falar sobre a ureia do xixi nas calças e nem sobre o gás lacrimogênio das bombas do Estado. Sei falar um pouco sobre o direito à moradia e à cidade, e também sobre ter vergonha de fazer xixi nas calças, de ter medo de pesadelo e de ter lembranças horríveis, pessoais e coletivas, de gás lacrimogênio.

Terminei a aula ontem e vim pra casa apreensivo para ler as notícias. Na caixa de email, a mesma companheira da mensagem no celular narrava: não sei se há presos e feridos, passei por lá rapidamente. A parte mais triste foi ver uma criança fazer xixi na roupa por causa das bombas de gás.

Todos nós já fizemos xixi nas calças. E tenho certeza de que não precisamos de foto nenhuma pra imaginar o terror sentido por essa criança, e a vergonha depois, do próprio descontrole do corpo.

Posso ver essa criança chorando dentro de mim. E isso me dá muita, mas muita vergonha.

Não do xixi nas calças, mas do descabimento que é ter na maior metrópole da América Latina tanta casa sem gente, tanta gente sem casa e uma Polícia Militar que atira bombas em crianças.

A Polícia Militar é o eterno xixi nas calças do Estado. O próprio descontrole.

O problema é que, até agora, mesmo crescido, ele não sente nenhuma vergonha disso.

Terror, paixão e esperança: a Copa em três atos

(publicado originalmente aqui)

I.

Era o dia mais quente da história da metrópole desde 1943. Era sábado, dia de assembleia na ocupação. Mas antes da assembleia tinha outra coisa: um debate-bola sobre a Copa do Mundo, a Fifa e os efeitos disso tudo na vida daquela gente.

Aquilo, a princípio, parecia estranho pra ela: como a Copa que vai acontecer na zona leste de São Paulo poderia ter a ver com Osasco? Ainda mais aquele lugar de Osasco, longe, no topo de um dos muitos morros do planalto paulista, quase no pico do Jaraguá?

Chegaram uns moços e moças, mais moças que moços. O mais velho deles não parecia mais velho que ela. O que teriam a dizer? Anunciaram na rádio comunitária da ocupação, desceu muita gente pra escutar. Era sábado, e fazia sol, o maior sol desde 1943, mas pr’aquela gente o sol agora era suave, porque tinham teto. Teto que tinham construído, eles próprios, no terreno particular abandonado há décadas, em dívida com o poder público, enquanto ela e toda aquela gente não tinha um lugar que fosse pra se esconder do calor – e da chuva, e da miséria, e pra receber uma carta de algum parente distante.

Decidiram ocupar meses antes. Luta Popular: era esse o nome do grupo que ajudou na ocupação, na organização, no dia seguinte. Porque claro que viria o terror no dia seguinte – e no outro, no outro e no outro. Terror de “não ter nada garantido”, frase repetida como mantra por ali; terror de jornalistas, desses que tem teto, e comida, e carro, e emprego, que apareciam pra “noticiar” e chamavam de invasão; terror dos homens armados que rondavam o terreno e faziam ameaças.

Mas passaram-se os meses e o terror se dissipou, em parte. Ainda existe, que vida de gente pobre é basicamente saber lidar com o terror o tempo todo, mas não mandava mais nos corpos e mentes das quase 1000 famílias, às vezes mais, às vezes menos, que havia quase 6 meses moravam ali. Sim, moravam, ainda que sem luz e sem água, mas moravam.

E então era sábado, e vieram os moços e moças de um tal Comitê, Popular como a Luta, falar da Copa. E falaram – que a Fifa era quem estava ganhando com a Copa, que pro povo só sobraram as violações de direitos, os despejos, os ingressos caros, as proibições de trabalhar, a exploração sexual de crianças e adolescentes. Mas que havia luta: no comitê, como na ocupa, centenas se agrupavam pra denunciar, questionar, se opor, mostrar pro mundo todo que a tal da Copa só trazia ganho pra quem já tinha. Quem não tinha, bom, estava como eles: na luta. Popular.

Uma menina ao lado dela perguntou, quanto se gastou com a Copa? Quase 30 bilhões, foi a resposta. E quantas casas, quantos terrenos como aquele, quantos hospitais e escolas públicos dava pra fazer com esse dinheiro? Tanta casa sem gente, tanta gente sem casa, e esse dinheiro todo pro bolso de quem já tem todo esse dinheiro. Sentiu raiva, quis gritar, quis falar. Por que não? Falou.

– Isso é culpa nossa, sabe porquê? Porque depois quando vem essa gente aqui, beijar nossos filhos, pedir voto, a gente vai e vota neles. Tem que não ir votar! Tem que não ir votar na eleição, nunca mais!

Falava com vontade, com brio, com garra. E contagiava. Muitos aplausos, muita energia no ar, força, de vontade, de lutar. Veio o jornalista, outro, entrevistar, e ela repetiu com a mesma força tudo, e disse mais, e mais. A reunião já se dissipava, que era hora da assembleia da ocupa mais acima no morro, e ela notou que dois jovens daqueles do comitê a observavam com admiração. Chegavam mais perto. E perguntaram:

– Qual o nome da senhora?
– Maria da Paixão, mas em Osasco todo mundo me conhece por Mineirinha.
– Paixão… ótimo nome pra quem luta!
– Não é, minha filha? E falta muita luta ainda…

Falta sim, Mineirinha, falta muita luta. Pra vida toda.

Que, se for vivida com essa paixão, se for como a vida da Paixão da Esperança, não há terror que cale.

***

II.

Era sábado, o mesmo do maior sol desde 1943, e eles chegavam pra trabalhar. A diferença social ali não era tão grande quanto a salarial: os que chutavam bola ganhavam muito muito mais do que os que limpavam os quartos e os recintos, mas vários poderiam ter sido, anos ou meses antes, vizinhos deles. Era treino do Corinthians, no luxuoso e moderno CT construído na última década do time.

Tudo correria normal como o dia antes desse, e o antes desse, não fosse a paixão. De repente, uma centena de gente, a maioria da mesma origem que a maioria dos que ali trabalhavam, cercou o local. Tinham ódio no olhar, aquele tipo de ódio de quem se sente traído, roubado, esquecido, e queriam que alguém pagasse por isso – de preferência, os que chutavam bola. Da paixão, veio o terror.

Começaram uma caçada aos privilegiados, aqueles que tinham o direito de carregar aquela camisa centenária e que, pior, ganhavam muito muito mais que todo mundo ali pra isso. E que, na opinião deles, vinham fazendo isso sem paixão. Se esconderam, esses, com medo de algo que nunca tinham vivenciado tão de perto. De repente o trabalho milionário, de repente a visibilidade midiática invasiva, de repente tudo isso se tornava invisível. De repente, eles não eram mais adulados, eram odiados.

Os quase-vizinhos da recepção e da limpeza não se esconderam. Não podiam. Eram ordens. Ficaram no meio.

O povo entre o povo e o povo, o trabalhador entre a paixão e o terror. Uma mediação que se expressou pela força: esganamentos, correria, medo.

Minutos depois, os jornais noticiavam o fato. “Em momento bizarro, os invasores chegarem a se divertir no CT Joaquim Grava. Alguns pularam na piscina, enquanto outros passeavam tranquilamente, observando a estrutura do local e até puxando papo com funcionários do clube”, disse um portal desses eletrônicos. Bizarro? O que era bizarro? A opulência do CT moderno e vultuoso, propriedade atual daquele time há mais de cem anos fundado por trabalhadores pobres, frente à pobreza daqueles que, por intermédio da única paixão que lhes permite sair da parte mais baixa da pirâmide, resolviam cobrar na força o comprometimento dos jogadores? Ou bizarro era que aquelas pessoas, “invasores, vândalos, bandidos”, fossem capazes das mesmas coisas que o resto, nadar, conversar, sentir prazer ao utilizar um equipamento que não existe para eles na esfera pública?

Era esperto, o tal portal. Era a voz dos de cima. Daqueles que morrem de medo de um dia ter que vivenciar o terror porque uma Paixão dessas qualquer resolveu cobrar na porta de casa pela Esperança que lhes foi roubada. Esperança de sair de baixo, de olhar nos olhos de igual pra igual.

E a invasão daquele sábado vinha em boa hora: era a desculpa perfeita pra reforçar, ainda mais, a repressão. Em nome do futebol. Em nome da Fifa. Em nome da Copa.

Copa pra quem?

***

III.

Era sábado, o sábado mais quente desde 1943. E eu estava lá, entre o Terror, a Paixão e a Esperança, tentando desembaraçar o fio que ligava as tantas bandeiras do Corinthians tremulando na ocupação de Osasco à cobrança violenta dos torcedores no CT de Guarulhos, tão violenta que, sem notar, fazia com que quem tivesse medo, todo o tempo, fosse o trabalhador.

Era sábado. O sábado mais quente desde 1943. E eu fui dormir com uma vontade enorme de gritar.