Arquivo da tag: trânsito

Colocando a classe média no lugar

Classe média: gente que pensa e age como rico, mas recebe como pobre, se auto-negando, assim, duas vezes.

Geralmente culpada por todos, inclusive eles mesmos, pelos males do mundo.

Gente que não sabe educar suas crianças e que gosta de dar risada do povão que tem que pegar ônibus.

E que, quando tiram seus privilegiozinhos, fica atacada.

Agora, com essa lei dos fretados, colocaram os almofadinhas na mesma situação do povão, tendo que se foder pra pegar transporte coletivo.

Não que eu ache isso bom, melhor seria transporte decente e gratuito pra todo mundo, claro, mas não deixa de ter uma certa justiça poética.

Aí, essa gente, que não tem a mínima noção do que é um protesto coletivo ou do que é se organizar pra conseguir algum direito, mostra a sua cara sem pudor algum.

Vejam as pérolas que a situação provoca, em negrito:

Passageiros de fretados fecham marginal

No 1º dia da restrição, usuários com dificuldade para embarcar bloquearam também as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet

PM e CET tiveram de intervir para liberar as vias no horário de pico do trânsito, mas não houve confrontos; uma pessoa foi detida

Usuários de ônibus fretados protestam na marginal Pinheiros

DA REPORTAGEM LOCAL
DO “AGORA”
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O primeiro dia de restrição aos ônibus fretados terminou ontem com protestos e algumas das principais vias de São Paulo fechadas em pleno horário de pico do trânsito.

A marginal Pinheiros e as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet foram interditadas no final da tarde por passageiros dos fretados que enfrentavam dificuldades para embarcar. Não houve confrontos, mas uma pessoa, que estava no protesto na av. dos Bandeirantes, chegou a ser detida -foi liberada por volta das 20h.

De acordo com dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), ontem à tarde, apesar dos fechamentos de vias, o congestionamento médio foi menor do que em outras segundas.

Na Ricardo Jafet, por exemplo, o mapa da CET, órgão da Prefeitura de São Paulo, não apontava congestionamentos.

Em nota, a prefeitura e a Secretaria de Transportes atribuíram os protestos a “uma postura intransigente de setores que se recusam a cooperar”.

A previsão para hoje é de novas manifestações. Ontem, passageiros de diferentes linhas combinavam um “apitaço” na marginal Pinheiros.
O veto ao tráfego de fretados decretado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) vale de segunda a sexta, das 5h às 21h, em uma área de 70 km2.
A restrição inclui os centros financeiros das avenidas Paulista, Brigadeiro Faria Lima e Luiz Carlos Berrini.

Pistas fechadas

A PM e fiscais da CET tiveram de intervir nos três locais de protestos, mas encontraram resistência maior na manifestação da marginal Pinheiros, que durou quase duas horas.

As nove pistas, no sentido centro, chegaram a ser interditadas por 25 minutos. Depois, os passageiros concentraram-se nas faixas locais.

A reportagem presenciou o momento em que os próprios passageiros, irritados com a demora e a desorganização para embarcar, entraram na pista e pararam o trânsito, formando uma longa fila de fretados, ônibus municipais e carros.

Na Ricardo Jafet, em frente à estação de metrô Santos-Imigrantes, os manifestantes fecharam a pista sentido centro a partir das 18h10. O trânsito só foi liberado às 18h45.

Um homem que se identificou como Renato e se disse motorista desempregado pela medida da prefeitura chegou a simular um atropelamento para fechar a única faixa que a polícia e a CET conseguiram manter liberada.

Ele ficou cerca de cinco minutos no chão, mas saiu correndo quando percebeu que o motorista do ônibus que supostamente o teria atropelado iria ser interrogado pela polícia.

A invasão da pista, incentivada pelo mesmo Renato, começou após um grupo de cerca de mil pessoas se juntar na frente da estação para aguardar a chegada dos ônibus. Na avenida, uma fila de fretados aguardava a vez de encostar para pegar os passageiros -ao menos 200 passariam pelo local.

Aos gritos de “fretado, fretado”, um grupo invadiu a pista da avenida.

Kassab chegou a ser xingado, em coro.

No meio da confusão, a auxiliar administrativa Cinthia Mochida, 32, perdeu dois ônibus com destino a Santo André (Grande São Paulo), onde mora. “O Kassab prometeu não aumentar a passagem de ônibus e agora quer dinheiro dos passageiros dos fretados”, disse ela, que ontem teve que pegar metrô e ônibus para chegar ao escritório, em Perdizes.

***

Protesto na marginal une gerentes, secretárias e analistas

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Foi o protesto dos gerentes de marketing, das secretárias executivas, dos analistas financeiros e de RH. O que se viu ontem por volta das 18h, interrompendo o trânsito na via de acesso para a marginal Pinheiros, altura do Brooklin (zona sul), tinha aparência bem diferente do típico militante de passeata. Em vez de barbas por fazer, eram homens bem escanhoados, vestindo ternos. As mulheres, em cima de saltos 5, usavam tailleurs. A polícia, chamada para restabelecer o fluxo do trânsito, ficou de olho, perfilada, mas não encostou um dedo no pessoal corporativo.

“A gente não é favelado nem estudante da USP”, disse o administrador de website Robson Estevão Baptista, para explicar a inação da PM. “A maioria aqui votou no [Gilberto] Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

Ruth Silva, analista de recursos humanos, trabalha há mais de dez anos na avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, um dos polos financeiros e de serviços de São Paulo, vizinha dali de onde ocorreu o protesto. Moradora em Santana, na zona norte da cidade, ela demora em média uma hora para fazer o percurso casa-trabalho. Ontem, demorou duas horas.

“É uma palhaçada. Os usuários dos fretados são aqueles que sempre chegam na hora, faça chuva, faça sol, tenha greve de ônibus ou de metrô. E é essa confiabilidade que o prefeito Kassab quer que a gente perca.”

Empregos

Segundo a profissional de RH, muitas empresas da região da Berrini preferem candidatos ao emprego que declaram pretender usar ônibus fretados. “Agora, com a confusão que eles criaram, o que era um fator a favor, está se tornando contra. Quero ver qual a empresa que se disporá a contratar alguém de Guarulhos ou de São Bernardo, sabendo que esse profissional ficará à mercê do transporte coletivo comum e do trânsito de São Paulo. Até na empregabilidade essa lei ridícula vai influir.”

“Fretado! Fretado!”, chegou, gritando, Isilda Scabacino, profissional de marketing. Moradora em Santo André, ela paga R$ 250 mensais para ir e voltar ao trabalho todos os dias. Antes da restrição ao tráfego dos fretados, a viagem de ida demorava duas horas. A de volta, outras duas. Ontem, foram 3,5 horas para ir. Ela chegou atrasada.

À tarde, a profissional de marketing esquadrinhava a fila de ônibus fretados no meio da via de acesso à marginal. Procurava o dela, mas nem sinal -e ele estava atrasado duas horas.

O protesto começou porque todos os ônibus que servem o pessoal da Berrini, em vez de recolherem seus passageiros em vários pontos, como ocorria antes, foram concentrados em um único local, na rua Guilherme Barbosa de Mello.

Só que o tal “bolsão” -pequeno para a demanda- logo ficou lotado. Os fretados, que chegavam para recolher seus passageiros, não conseguiam estacionar. Os que, já tendo feito o embarque, tentavam sair do bolsão, não o conseguiam. Ficavam presos no trânsito intenso da marginal.
“Você acha que está ruim agora? Espera o fim das férias escolares. Aí sim, ninguém conseguirá embarcar”, desafiava Regina Cassia Agustini, do setor financeiro de uma empresa da região da Berrini.

Curtas II

É, enquanto a Grécia não manda mais notícias e eu não tenho inspiração de verdade pra novas historinhas da Beth, vamos de curtas novamente.

Até porque é fim de ano e as boas histórias acumulam rápido, rápido.

Boça strikes again

Estou na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, aquela coisa enorme e modernosa, tentando escolher um livro pra minha mãe de Natal.

Na mão tenho um Milan Kundera e um Ítalo Calvino. Estou quase percebendo já que ambos seriam presentes bons pra mim e não pra ela e desistindo de livros quando Boça – ele! – ataca de novo aos meus ouvidos:

- Mêêêo, muinto lôca essa livraria, mêo. Acho que é a melhor livraria do mundo! Nenhum outro país tem uma livraria dessa.

E eu fui embora sem livro e feliz por ser pelo menos metade carioca.

Trabalho

Eu e a minha Robofoot estamos à porta do consultório médico no trabalho esperando pra fazer perícia. Outras duas funcionárias também estão lá. E elas começam a conversar.

- Mas vou te dizer, esse povo é folgado. Quer ver que amanhã vai ter segurado na agência ainda?

- É, é complicado. E quando eles saem do consultório e falam que não entenderam o que o médico disse? E eu que vou saber?

- Ah, é tudo pilantra. Se eu fosse presidente, esse auxílio-reclusão aí, eu cortava na hora. Ficar pensando que a família do detento tem que comer? Porque ele não pensou nisso na hora que matou e roubou? Tem é que morrer de fome mesmo.

- É,  pior são esses auxílios pra idoso. É tudo pilantragem. O povo fica acostumando com essas bolsas leite, bolsa escola, aí fica vagabundeando mesmo em casa.

Eu vou parar por aqui porque meu cérebro preferiu apagar o resto da conversa para o bem do meu estômago.

O governo dá dinheiro PRA BANQUEIRO e as mulheres reclamando que o povão pobre, fodido e ainda por cima DOENTE é “pilantra e vagabundo”.

Declarando a todos os ventos que atendem estes como se fossem lixo.

Eu sei que não deveria mais me assustar com isso, mas porra, eu queria sair dando bicudas robofooticas na cara das duas. 

E não dá nem pra culpar a idade: uma era velha e a outra nova.

Vou te dizer, a queda do 15º andar onde estávamos não seria castigo suficiente pra esse tipo de traste.

25 milhões de março

Peguei um ônibus ontem que passou paralelamente à 25 de março.

Vou te dizer: CARALHO, QUANTO GENTE.

O mundo precisa de algum tipo de epidemia urgente.

Peste negra, febre amarela, peste bubônica, qualquer dessas serve.

Porque nem em final do Corinthians me senti tão apertado. E olha que eu tava no ônibus, de fora, só olhando.

Imagina lá no meio…

Troco

No mesmo ônibus, o cara, que ainda não passou a catraca, vira pro cobrador meio fanho e fala:

- Você não quer trocar três reais não?

Eu entendi que ele queria trocar as 6543634 moedas que tinha por uma nota de dois e uma de um.

Mas o cobrador achou que ele estava pagando a passagem.

Só sei que quando eu desci do ônibus a conversa entre os dois ainda era:

- Olha só, eu te dei três reais, você me devolveu só 0,70.

- Mas a passagem é 2,30 mesmo.

- Não, mas eu queria trocar o dinheiro, não pagar. Eu tenho bilhete.

- Ah, agora já passei o bilhete…

Como diz  meu pai, comunicação é tudo.

Robofoot II

Quando eu acabar de usar a Robofoot no pé direito vou ter que passar ela pro esquerdo.

Porque, putapariu, essa merda tem um ferro que TODA HORA bate no calcanhar do outro pé quando eu ando.

Tá, a culpa é da minha falta de coordenação motora, mas mesmo assim, que merda.

Tô tendo que usar um naco de borracha dentro da meia pra evitar novas pancadas.

Ordem e caos

Aqui na São João entre minha casa e meu trabalho tem uma tiazinha meio doida que grita com os ônibus, os passageiros, os pedestres e tudo.

Eu ia escrever sobre ela, mas um amigo fez isso antes, então eu colo abaixo o texto dele, que é bom demais:

“Fazia já uns 4 meses que eu tava escutando uns gritos aqui no meu escritório, vindos da rua. Era uma voz de mulher, berrando coisas incompreensíveis, sempre na parte da tarde, do meio-dia às seis. 

Eu achava que era alguma coisa de nigeriano, funk, travesti ou pivete, tipos urbanos que dão rolê aqui na minha vizinhança. 

Até que um dia, encafifado, resolvi dar um rolê pra ver de onde vinham os gritos. E achei a origem na Av. São João, logo atrás do meu escritório. Pra ver o volume do bagulho: no centrão, uns cem, duzentos metros de distância, dez andares de altura, eu escuto a gritaria. 

E a gritaria vem de uma tia, uma mendiga negona, que fica no ponto de ônibus na pracinha da São João logo atrás do meu escritório. A tia vai e vem no ponto, gritando com as pessoas, com os ônibus, com os carros, com as estátuas, com tudo. 

Curiosão, me aproximei pra tentar distinguir o que a tia gritava, e era tipo uns chamamentos de atenção, umas broncas em tudo, a tia funcionava como um Jorel da rua, um fiscal do Sarney dos pedestres, veículos e estátuas, chamando a atenção das pessoas e coisas, dos elementos e gases, dos vapores e líquidos, botando ordem nas coisas, uma ordem imaginária, que existe apenas na sua cabeça e que não obedece às leis da química, da física e da matemática. 

Cheguei mais perto, pra ver se a tia me dizia alguma coisa, me incluía na condução do caos urbano que ela tentava em vão ordenar. Pensei que ela podia dizer algo como “AÍ GORDINHO, FICA DE BESTEIRA PARADO NA CALÇADA? SE NÃO VAI PEGAR BUSÃO SAI ANDANDO!” ou “NÃO ACHA QUE TÁ NA HORA DE TOMAR VERGONHA NA CARA E PERDER ESSA PANÇA, MANO? OS PEDESTRE TÃO DANDO A VOLTA PRA PASSAR DO TEU LADO E ISSO TÁ ZOANDO ESSA CALÇADA!” 

Mas a tia não prestou atenção nimim. Tava ocupada gritando com um busão bi-articulado e depois voltou sua atenção prum cachorro que inventou de atravessar a São João ao lado dela, fora da faixa. 

Aí ela virou pro meu lado, e eu vi. Vi a razão da sua loucura, o motivo da sua raiva, o fundamento da sua dialética do nonsense: a tia era barbada. E pior, a barbinha dela fazia uma trança no queixo, tipo um faraó. O bagulho era grande, acho que uns dois ou três dedos, rivalizando e ganhando de uns 6 ou 7 cantores de new-metal. 

Chocado com a constatação, humilhado pela superioridade capilar dela, e constrangido por não ser notado nem pela mendiga barbada, saí andando. 

E enquanto teclo essas linhas aqui no meu escritório, ainda ouço a tia barbada gritando lá na São João. Hoje é ante-véspera de Natal, amanhã acho que ela não vem “trabalhar”, então acho que tá compensando o tempo, acumulando num banco de horas imaginário. 

Vai, tia barbada! Põe ordem na São João! Põe ordem nesse caos!”

por Ruy Fernando

Ele só esqueceu de dizer que além da barba ela tem vitiligo em volta da boca, o que contribui para sua aparência, digamos, única.

Os bichos e a porta II

Além do judô noturno que os bichos lá de casa promovem todo dia, como eu contei no outro post, a porta de casa ocasiona outra relação bastante peculiar com eles.

Acontece que quando fomos levar a Preta pra passear pelas primeiras vezes, pensamos “porque não levar a Branca também? Gato também é gente”.

E ela foi toda faceira numa daquelas bolsas de pano pra transportar gato com a porta aberta, feito um gato egípcio. E nunca pulou da bolsa.

Só que aí, agora, toda vez que vamos levar a cachorra, a gata quer ir também.

E fica miando DESESPERADAMENTE na porta da hora em que saímos com a cachorra até a hora em que voltamos.

E fica pulando nas chaves no meio do dia, como que dizendo “quero passear porra”.

E corre porta afora quando vamos tirar o lixo, no melhor estilo “livre! livre! LIVREEEEE!” até chegar na porta do elevador e não saber o que fazer.

É, gente.

Democracia com animais dá nisso.

Camping

A política do grande queridão Kassab está trazendo todos os mendigos da cracolândia pros arredores da São João.

Ele deve achar que os homens de rua somem se você tira eles de um lugar.

E aí agora todo o comércio alimentício ambulante da região, que não é pouco, entra em conflito com eles. Eu outro dia comprei uma pizza brotinho pra levar pra casa lá na 24 de Maio e tive que pensar bem o caminho e a estratégia pra conseguir chegar com a pizza em casa – porque se algum deles pedisse, eu não ia conseguir negar.

Só espero que isso não acabe dando nisso.

Aliás, caralho, ainda não consegui esquecer esse vídeo.

Ainda bem.

Cartão de natal

É simplesmente impossível encontrar um cartão de Natal não-barango no centro.

Até aqueles fofinhos de bichinhos são estragados com alguma frase ridícula dentro.

É pedir demais encontrar cartões em branco?

Parece que meu amigo secreto vai ficar só com o presente mesmo.

Papel picado

E falando em centro e Natal, ontem alguém teve a brilhante idéia de jogar papel picado do último andar da Galeria do Rock.

MUITO papel picado.

Pra desespero da tiazinha terceirizada da limpeza da C&A, que lutava com sua vassoura são-jórgica contra o papel que o vento e as pessoas insistiam em levar pra entrada da loja.

Enquanto isso, pedestres super preocupados diziam “é por isso que dá enchente nessa merda”.

E nove passos depois atiravam o papel de seus chocolates no chão.

Taxista macabro

Fui voltar da casa dos meus pais ontem à noite  e a minha mãe fez questão de que eu fosse de táxi – afinal, “já” era meia-noite e eu estava de Robofoot.

Aí peguei o táxi e a conversa inevitável com o taxista já começou com ele mandando bem. 

Olhou pro meu pé e disse:

- E aí, chutou a namorada?

OK, ele tentou fazer uma piada entre a Robofoot e a expressão “chutar a namorada”, só que ela foi tão ao pé da letra que eu pensei em chutar literalmente, e já segurei o riso.

Aí fomos conversando de futebol, ele me contando que era goleiro do segundo quadro do time do Banco Itaú de futsal, eu falando do Autônomos, ele me mostrando os dedos quebrados.

Até que chegamos na rua paralela ao Terminal Amaral Gurgel que eu nunca lembro o nome e que é mais conhecida por ser a rua onde mora José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Comentei isso com o taxista.

Eram meia-noite e quarenta e três minutos.

Ele virou pra mim, uma luz vermelha acendeu dentro do táxi, seus dentes incisivos cresceram e gelo seco começou a subir. 

Ele disse:

- Eu já participei de dois filmes dele.

Medo.

- Quais?

- Uns bem antigos, garoto…

Garoto. Não bastasse a palavra rimar com maroto, a expressão dele foi completamente… marota.

Pra não dizer macabra.

Sorte que minha casa fica dois minutos depois disso.

E sorte que não era meia-noite pra ele encarnar no meu cadáver.

Caminhão

E pra fechar o dia, desço do táxi e um caminhão daqueles que carrega caçambas está tentando estacionar em frente ao meu prédio.

Com, ao que parecia, um motorista bêbado descordenado.

Deu ré a primeira vez e a placa de trânsito que manda todos seguirem em frente entortou e ficou quase paralela ao solo.

Deu ré a segunda vez e a placa com o nome da rua passou raspando do mesmo destino.

Aí um cara que estava pela rua foi lá gritar com ele pra prestar atenção.

Não parecia que ele estava entendendo muito.

O que se confirmou quando na nova tentativa de dar ré a placa de trânsito ficou definitivamente paralela ao chão.

Maravilhoso.

Um milagre de Natal

Se um dia eu for levar meus filhos a uma igreja, o que só vai acontecer se Jesus aparecer em carne e osso na minha frente e disser “truta, leva os moleques agora ou vai todo mundo lá pra baixo”, vou levar nessa aqui.

Porque, vou te dizer, nada melhor pra fazer crianças acreditarem em algo que não existe (deus) do que ser pragmático e destruir a crença delas em algo que também não existe (Papai Noel).

Será esse o início de uma nova linhagem de padres materialistas?

Imagina só, a Bíblia numa mão e o Capital na outra…

Todos os times são do povo

por Maurício Noznica*

Se “time do povo” for o título dado à equipe que tem tocerdores que fazem mais sacifícios, então somos todos torcedores do time do povo.

Cada um que conte a sua história, a minha é essa:

O jogo é fora de casa.

A torcida adversária estará não duas, ou 10, mas 100 vezes maior que a nossa.

Mesmo assim, dois ônibus irão pro estádio na outra cidade, sem escolta da polícia.

Pra variar, se perdem. Por azar passamos em frente da sede de duas organizadas, das grandes. Seus integrantes nos olham com um misto de raiva e sarcasmo. “Que ridículos”, pensam.

Os dois ônibus seguem.

Será um jogo difícil, contra o líder disparado, que conta os jogos pra alcançar o acesso à Série A, de onde caíra no ano anterior.

Chegamos ao estádio. As ruas tomadas da torcida rival. Ameaçam nos jogar alguns objetos, mesmo assim não fechamos os vidros, seguimos cantando, como um último grito.

A entrada? Portão 23 do Pacaembu. É… é esse mesmo, onde uma fila de cerca de 500 corinthianos se empurra para entrar. Quatro policiais aparecem e nos fazem descer no meio da multidão. Não houve maldade, não fizeram nada, olhavam admirados como se dissessem “por que vieram?”, mesma pergunta da polícia, que nos vê apenas como um trabalho a mais.

Por alguns minutos somos o centro das atenções, a mistura de desafio, medo e alegria se transforma em euforia ao entrarmos no lugar destinado a nossa torcida.

Minutos de êxtase depois inicia-se o jogo. O time joga afinado com o desejo dos torcedores, com raça e vontade falando mais alto que a técnica. Nossa torcida sequer depende disso e segue cantando desde o primeiro minuto de jogo.

Santo André 1 x 0. As lágrimas são tantas quanto os gritos. Acaba o primeiro tempo. Jogamos bem, cantamos bonito.

Nossa gente, nossos cidadãos e cidadãs, senhoras, crianças, adolescenes, boleiros, trabalhadores, desempregados… todos ali… orgulhosos do nosso brasão, que simplesmente é usado como escudo de união.

Começa o 2º tempo. Chove. Santo André 2 x 0. Mais lágrimas.

O Corinthians acorda e vai pra cima, mas ainda desconcertado, e após um erro do ataque, é possível escutar as primeiras vaias e reclamações.

Se segura Santo André… se aguentarmos mais alguns minutos…

Uma massa de ar quente se desloca na minha cara. O gol vem gritado por quase 30 mil torcedores. Machuca, deixa triste, mas não paramos de cantar.

Eu já sabia o fim. Era impossível ser diferente, o estádio vinha abaixo. A policia avisa, se quisermos escolta para a volta, temos que sair agora. Então não queremos escolta, eu nunca vou te abandonar, Santo André.

Gol. O policial ri enquanto vai embora.

Corinthians 2 x 2 Santo André. O pior aconteceu.

E dá-lhe mais sufoco. Mas acaba-se o jogo e o sonho.

Acordo do transe e me sinto bem, fizemos nossa parte, continuamos cantando.

Mas temos que esperar mais um tempo de 45 minutos pra irmos embora.

Esperamos, xingados por todos que deixam o estádio. Não nos importamos.

Chegam nossos ônibus (que estão incrivelmente mais lotados agora).

Não temos escolta, as ruas estão paradas e cheias de torcedores rivais. Assim que a última pessoa entra no ônibus vem a primeira pedra.

Primeira e última, é o que parecia, a torcida adversária não parece nos perceber no meio do trânsito e da chuva.

O motorista, pra variar, se perde e contorna o Pacaembu. Seguimos apreensivos, até que um torcedor alvinegro vem até a nossa porta e nos convida: “desce aê, cuzão”. As 45 pessoas, entre as quais idosas e crianças que estavam no ônibus, rejeitam a idéia.

Inconformado com a negativa, o amigo do lado de fora estoura o vidro da porta do ônibus com uma pedra, ou garrafa que tinha em mãos. Os vidros chegam a machucar algumas pessoas.

Não há uma viatura, um policial, estamos por nossa própria conta, sem deus, sem leis.

E por obra do destino o trânsito anda, e saímos dali. Simples assim.

A viagem ainda demora, e chegamos em Santo André por volta das 20h30, a ponto de saber que o time B havia vencido o Linense por 4×3 pela Copa FPF. Pudemos saudar os jogadores que saíam pelo portão do Brunão.

E chega por hoje, semana que vem jogamos em casa.

Não somos muitos, mas também somos povo, e pra nós o Ramalhão é que é o time do povo…

*Maurício Noznica é publicitário, andreense, punk, colecionador de camisas (que podem ser vistas em seu blog, http://asmilcamisas.wordpress.com) e estava entre os que invadiram o gramado do Maracanã quando o Ramalhão venceu o Flamengo por 2 x 0 e sagrou-se campeão da Copa do Brasil de 2004. Me mandou esse texto por email em resposta ao meu texto “Time do Povo” e eu tomei a liberdade de criar um título e publicá-lo aqui.

A arte do ouvir alheio e a Geografia

Este post tem dois capítulos.

Capítulo I – Orgulho de ser analfa

15 de outubro, estou indo pra Porto Alegre de avião.

Quando a aeromoça está praticamente fechando a porta da aeronave, entram duas minas esbaforidas.

Olho pro meu lado, dois lugares vazios (o que até o momento me deixava bem feliz). Ergo os olhos pro teto e penso “será, Murphy?”.

Ele diz sim.

Se sentam, e começam, é claro, a conversar.

Tão alto que meus fones de ouvido não conseguem barrar.

Primeiro, falam de toda a esperteza necessária pra conseguir pegar o avião.

- Ai, nem acredito que conseguimos…

- É, que correria!

- É… sei lá… você viu a cara daquele homem lá quando ele viu que a gente conseguiu?

- Vi, foi só a gente entrar que ele foi falar com a atendente. Vai ver ia fazer igual.

- É, eu nunca fiz isso de FINGIR QUE TENHO CÂNCER pra entrar no avião, mas deus vai entender porque eu fiz isso, né?

- Vai…

Nesse momento, eu juro que deixei de ser ateu e rezei com todas as forças pra que deus exista e seja BASTANTE vingativo e criativo – se quiser, ó Senhor, posso até te dar umas idéias, é só bater um fio.

É claro que, depois disso, não dava mais pra me concentrar nem na música, nem no livro.

E elas continuavam a contar pro avião inteiro suas peripécias.

- Meu marido é gaúcho né, e ele fica morrendo de raiva de mim quando eu falo de lá.

- Porquê?

- Ah, é que eu moro em São Paulo né, e a capital de São Paulo é São Paulo, então eu penso em Porto Alegre do mesmo jeito, ESQUEÇO que o estado é Rio Grande do Sul.

- Ai, eu também sou ruim nessas coisas.

- É?

- Sou sim, por exemplo: eu nunca sei a CAPITAL DE CURITIBA…

- Nem eu…

(DEUS, empalamento, DIZ QUE SIM vai?)

- Ah, lá em casa, também, a gente combinou: eu sou boa em matemática e ele é bom em história.

Nesse momento, a luz divina cansou de ser açoitada e o avião deu uma balançada. 

Que, ao que parece, fez bem ao cérebro da outra, que respondeu:

- Mas isso não é história, é geografia.

- AH, DÁ NA MESMA.

Uma pena, sério mesmo, as janelas de avião não abrirem por dentro. 

Capítulo II – Internacional Piriguetista

Hoje, pego um ônibus pra voltar pra casa.

Um ponto depois de adentrá-lo, uma dupla de moderninhas (a versão anos 2000 das patricinhas) passa a catraca falando alto.

Com um sotaque bêêêim paulíííísta, mêêêo.

- Nossa, tipo assimmm, ela é legal mêo, mas se acha néam?

- É, mas tipo assimmm, eu acho até digno sabe?

- Ah, sei lá, é um tal de conheci gente em Paris, na Alemanha, na Suécia… mêo, muinto desnecessário contar tudo issoam…

- E aquela do “ai, eu tive um namorado sueco, mas o português atrapalhava muito”, mêo!? Pô, eu aqui não consigo pegar NEM UM BOLIVIANO!

É… sorte dos bolivianos que ela não deve nem saber aonde é o Pari.

Run, Morales, run.

Anão ou viado?

É, gente.

De vez em quando o seu mp4 que te protege da boçalidade do cotidiano te deixa na mão e você se encontra em um ônibus lotado voltando da USP com milhões de estudantes conversando.

E é claro que meus ouvidos biônicos, numa hora dessas, bastaram se despedir da música pra ouvir logo de cara alguém falando:

- O que você acha pior, que seu filho seja anão ou viado?

E já segurei o riso.

Era o Marcelo, descobri depois, já que os amigos do Marcelo repetiram umas 500 vezes:

- Marcelo, só você mesmo.

Porque começou assim, e daí foi melhorando. Marcelo sabia falar de muitos assuntos. 

Começou com o futuro da família:

- Tenho certeza que minha filha vai ser drogada.

Logo depois, passou pra política:

- Ah, mas uma coisa que eu não vou deixar é ela votar no DEMo. Se votar no DEMo eu jogo ela na rua.

Então, usando o gancho anterior, foi pro futebol:

- Pior do que ser anão ou viado é se ela for palmeirense. Isso nunca. É o fim do mundo!

Corinthiano, o Marcelo?

Não.

- E se ela for corinthiana, Marcelo?

- Fim do mundo menos um.

E pra completar a tríade “política-futebol-religião”, ele mandou logo:

- Agora imagina se ela for religiosa, que saco? Vai ficar querendo ir em Marcha pra Jesus, me pedindo “pai, me leva no Marcelo Rossi”… Pior que isso só se for testemunha de Jeová!

Felizmente (pra mim), o Marcelo não estava só. Ele tinha amigos – três.

Sendo que dos três, dois eram religiosos – um deles, testemunha de Jeová.

Outro tinha acabado de descobrir o uso do “fulano ligou e pediu sei-lá-o-quê de volta”.

Então, a cada marcelada, ele soltava:

- Marcelo, o South Park ligou e pediu o politicamente incorreto de volta.

- Marcelo, Mussolini ligou e disse que você está sendo muito extremista.

Esse, na hora de falar dos futuros filhos, lançou:

- Meu filho vai ser FUINHA, igual o pai.

Por favor, deus, se você existir mesmo, castre esse amigo do Marcelo, sim?

Porque alguém que espera que o filho seja FUINHA IGUAL O PAI simplesmente NÃO PODE reproduzir.

O ônibus subia a Rebouças e Marcelo e seus amigos começavam a discutir sobre licenciatura. Os amigos já faziam, Marcelo ainda não tinha começado. 

Ele só imaginava como era:

- Imagina eu lá, com um monte de gordo que faz física reclamando do professor porque ele mandou ler 2 páginas de texto? Vou fazer grupo com esses caras, eles vão dizer “eu não sei ler, só sei fazer fórmula”.

Nisso uma das amigas do Marcelo soltou A MELHOR DA NOITE, campeã, imbatível, our-concours, supreme:

- Ah, sabe o que eu percebo? Que eu não sinto falta de exatas. Já o pessoal de exatas lá na minha sala, sente muita falta de humanas. Porque, sei lá, É HUMANAS MÊO, É DO SER HUMANO!

Mesmo sempre tendo achado matemática e física coisa de extraterrestre, nessa hora eu não consegui segurar e dei uma risada. 

Mas a turma do Marcelo estava tão compenetrada que nem percebeu.

O momento que ninguém gostaria que chegasse se aproximava. Estávamos já quase no ponto do Marcelo descer, então ele precisava fechar a conversa. 

E é claro que ele não deixaria de finalizar o papo com brilho:

- Claro que eu prefiro que meu filho seja viado. Já pensou, anão? DEFORMADO?

Detalhe: dois metros à frente, uma senhora lutava bravamente pra manter a cadeira de rodas de seu filho parada dentro do ônibus…

Enfim, Marcelo desceu.

Mas me deixou com uma dúvida, que coloco aqui para todos:

E aí, anão ou viado?

Futebol ama a dor

Jogador de futebol amador é uma categoria ímpar.

A única que pode sair de um fim de semana com 3 jogos na bagagem. Ou seja, sempre há uma chance de vitória, de alegria, de achar que joga muito e se lamentar de não ter tentado ser profissional – se o Rafael Moura pode, porque eu não?

Fim de semana que começou na sexta, já com futebol.

Fui ao Bar do Zé, palco da minha bebedeira festa de aniversário, bebecomemorar o aniversário do Gabriel, o 10 do Auto, grande corinthiano e grande jornalista. Não bebi, porque tinha pintado minha tatuagem do peito na segunda e o álcool estava proibido, ou quase.

Falamos e falamos do Auto, do Corinthians, do MACD, da vida.

E eu consegui a proeza de lembrar que os uniformes do Auto estavam com o Felipão e ele precisava ter deixado com alguém que fosse ao jogo de sábado.

15 minutos depois dele me deixar no ponto de ônibus.

Resultado: sábado acabei tendo que acordar cedo pra ir com ele levar o uniforme  para o Auto B enfrentar o Pinguim, lá na zona leste, no nosso campo, antes de ir pra USP jogar com o MACD.

O jogo do Auto B era 10h.

O do MACD, meio-dia, na USP.

Preciso dizer que tinha trânsito na Marginal, na Salim, aonde quer que fôssemos?

O resultado foi que chegamos lá e tivemos que sair correndo pra USP.

Era o primeiro jogo do MACD na Copa FFLCH 2008, contra o Sai da Frente, equipe que tem um homem e o resto de mulheres em seu elenco.

Jogávamos desfalcados de nosso dono do time capitão Júnior e de nosso mentor intelectual, chefe e patrão técnico Paulão.

Porém, jogo é jogo, campeonato é campeonato, e, apesar de começarmos estranhando a situação, no segundo tempo resolvemos jogar e enfiamos 10 a 0. Não porque elas eram mulheres, mas porque o time era fraco mesmo.

O time que jogou esse primeiro jogo:

Mandioca, Vevé, Chico e Bona.

Em pé: Ribas, Caio, Diogo, Kaká, Baldraia e Felipão; Agachados: Mandioca, Vevé, Chico e Bona.

Finda a goleada, ainda dei entrevista pra imprensa jogando o favoritismo pra lá, como o Paulão me ensinou, e fui tomar banho.

Depois de almoçar, parti pra Penha, onde fui imortalizar a minha história.

Essa parte do fim de semana não precisa de palavras, só da imagem:

Quem é, é. Quem não é, cabelo avôa. Feita pelo Jonas, do Ink Tattoo. Corinthiano, é lógico.

Quem é, é. Quem não é, cabelo avôa. Feita pelo Jonas, do Ink Tattoo. Corinthiano, é lógico.

Domingo, mesmo de tatuagem nova no braço, fui jogar pelo Auto A em Guarulhos contra o Moleque Travesso - afinal, sou o dono e presidente lateral-direito do time, cargo posição que ninguém quer ocupar, e não faria sentido estampar o Corinthians no braço e no dia seguinte ficar de viadagem molho por conta de uma dorzinha no braço. 

Pra variar, nego faltou e tivemos apena 11 guerreiros pra jogar dois tempos de 40 minutos, sendo que 2 deles eram goleiros. Um teve que se sacrificar na linha.

No fim do primeiro tempo, os papéis pareciam ter se invertido e nós é que aprontamos a travessura: com um time bem pior e fora de casa, seguramos um 0 a 0 contra o melhor time que já enfrentamos na várzea.

Mas algum virginiano filho da puta cara legal lá na época da Revolução Industrial tinha que ter inventado que futebol tem que ter dois tempos quando foi definir as malditas 17 regras do jogo.

Maldita mania de padronização.

Maldito ideal babaca crente cristão mentiroso de igualdade de oportunidades.

Mas fazer o quê se, apesar de amador, apesar de nós mesmos definirmos a duração dos tempos, apesar de jogarmos em campos nos quais a linha lateral faz uma curva por conta do racionalismo frio do planejamento viário da cidade que mutila o campo, o nosso futebol de fim de semana também tem alguns tótens inquestionáveis?

É, Galvão, a regra é clara.

E lá fomos nós pra segunda etapa, capengas, com dores, honrando o hino do Auto.

E, é claro, não aguentamos a falta de fôlego  e a pior qualidade técnica e fomos impiedosamente goleados por 6 a 0.

O que, apesar de nos chatear por sabermos que poderíamos ter oferecido mais resistência com um time com menos desfalques, até que ficou de bom tamanho, já que o Moleque Travesso costuma vencer seus jogos em casa por esse placar mesmo.

Placar que, se somado com os 7 a 1 que o Pinguim enfiou no Auto B sábado, totaliza um total de 13 gols tomados e 1 feito pelo Auto no fim de semana.

Quer mais?

O gol a favor foi contra.

Numa jogada bizarra do goleiro, que furou uma bola recuada.

O Autônomos é o único time do mundo que sai de uma vitória heróica fora de casa para duas goleadas homéricas porque a galera simplemente vestiu o chinelinho e desapareceu.

Ainda bem que o futebol amador, além de te dar 3, 4, 5 chances por fim de semana pra cantar vitória, também te dá a liberdade de ter mais de um time* e de estar pouco ligando pra placares agregados.

A gente ama a dor da derrota tanto quanto a alegria da vitória, o sentimento de “valeu a pena” que bate quando a sua coxa aponta dores musculares múltiplas na segunda e a ansiedade deliciosa de esperar pelo próximo jogo.

De certa forma, é um jeito de ainda sermos crianças nesse mar de responsabilidades da morte vida adulta.

***

* não sem problemas, já que o pessoal do Auto B morreu de cíumes por 4 jogadores do Auto A terem “preferido” ir jogar com o MACD do que ficar por lá vendo eles apanharem ajudando eles contra o Pinguim…

A língua das marijuanas

E todo esse futebol, é lógico, me faz lembrar de coisas tragicômicas engraçadas.

O ano é 2006, e vamos ao Morumbi ver Corinthians x Santos eu, Camila e Eveline, uma amiga gaúcha que queria conhecer a Fiel.

Pegamos o ônibus, tudo tranquilo, nada muito lotado. Passamos a catraca, cheio de corinthianos do lado de lá, e vamos ao fundo. Sentamos.

Estamos conversando quando de repente percebo que a massa alvinegra está cercando uma dupla de rapazes. A primeira coisa que penso é “ih, santista se fodeu”.

Mas não.

Eram gringos.

Da gringolândia Inglaterra.

Torcedores do glorioso West Ham.

Que estavam indo ver o atual campeão brasileiro jogar contra o time mais sem graça famoso do Brasil.

E os corinthianos tentando se comunicar com eles.

Um queria perguntar se era a primeira vez deles no Brasil:

- Iú, number uón, Brasil?

E os gringos, crentes de que estavam sendo intimados:

- Corinthians!

- No no, iú, number uón, Brasil?

- Corinthians, Corinthians!!!

Nisso eu já pensava “ih, gringo vai se foder, vão tomar a papete, o protetor solar, a camisa pólo e se bobear até a rodinha”.

E os caras continuavam na obscura peregrinação entre línguas:

- Uát ár iú?

- ???

- Iú, uát ár?

- ?????!!?!?!?!?!?!

- Citi! Citi!

- Oh! London, London.

E assim a coisa ia. Ou melhor, não ia.

Até que um gênio da lingüística cara salta lá de trás, quase gritando “Eureka!”, aponta o dedo pros ingleses já rosas de tanto calor e de tanto intimão sem sentido, faz um sinal em direção à própria boca e conclama, triunfante:

- MARIJUANA?

E os rosados:

- OOOOOOH, YEAAAAAAAH!

E todos caem na risada.

Nisso, o ônibus chega ao ponto do estádio e eu desço perto dos gringos. 

Ao vê-los perdidos na multidão, tento ajudar com meu inglês macarrônico:

- Hi, do you guys have tickets?

- No, no, we wanna buy.

- You came to the game without tickets???

- Yeah… do you think it’s a problem?

- Well, it depends. If you see someone trying to sell you tickets, DON’T BUY, cause they will rip you off. Buy only at the… the…

E agora, mêodêo? COMO CARALHOS ERA BILHETERIA EM INGLÊS?

Como eu não lembrava, usei a linguagem dos surdo-mudos velha tática dos sinais e apontei.

- Oooh, yeah! Thanx, man!

E seguimos tentando conversar, agora sobre futebol.

- The actual champion here is Corinthians, no?

- Well, we are the national champions, but this is a game of the state championship. Like a regional cup.

- Oh, I see… and who are the actual champions?

- São Paulo. But Corinthians are the one who most won this cup.

- Okay. And… the champions of the states championships classifies to the national championship?

- No…

E dá-lhe explicar pra eles geografia do Brasil e a bagunça lógica do futebol brasileiro.

Até que chegamos na bilheteria, eles me agradecem pela ajuda, ficam e eu sigo caminho.

Orgulhoso e feliz pelo bom escoteiro que eu tinha sido.

Mas não por muito tempo, já que o Santos ganhou o jogo – zica gringa, certeza.

Malditos Hammers… nem pra deixar um fino gringolês pra gente puxar*.

***

*OK, eu nem fumar fumo direito, mas não podia desperdiçar a tiradinha maconheiro pride no final da história…

Romaria do car… cavalo.

Domingão, dia de dormir até tarde. Algo sabido por todo ser de bom senso do planeta.

Mas acontece que bom senso hoje em dia é igual música boa: coisa rara.

Daí que inventaram de todo ano fazer uma feira do interiorrrrr no Parque da Água Branca.

E pra fechar a feira com chave de ouro merda, organizam uma romaria de burros, éguas e jumentos do centro até o Parque.

Todos eles puxados por cavalos.

E com imagens de santas padroeiras.

Até aí tudo bem, legal, bonito, todo mundo expressando seus valores culturais pela cidade, retomando as ruas, desfazendo a dicotomia campo/cidade, mostrando pro povo da capitar como é a vida na roça e todas essas coisas que me fazem lembrar do Marcovaldo, livro muito bom do Ítalo Calvino.

Mas, PORRA, PRECISAVA SER DOMINGO DE MANHÃ?

Ano passado essa marcha já me fodeu: tinha jogo do Autônomos, de campeonato, e o trânsito da São João parado TOTALMENTE pra romaria passar.

A 2 km/h.

Algo tão inacreditável que fez até o motorista do ônibus perder o rumo e CORTAR CAMINHO.

É, gente, ônibus cortando caminho.

Aí esse ano eles resolveram melhorar, e me acordar às 9h da madrugada.

Causando um trânsito monstro na Duque de Caxias, o que levou ao uso comedido e bem aplicado das buzinas pelos donos de cérebros diminutos automóveis, que sempre pensam que o som irritante de seus preciosos carros vai fazer desaparecer aquilo que empaca sua sagrada passagem.

Por isso que eu digo, na minha democraturacia as pessoas vão ter que fazer teste de QI pra usar buzina, câmera digital e celular.

E quem usar errado VAI PRA SIBÉRIA.

Passados todos os caipiras, volto pra cama pra tentar dormir mais um pouco. 

Mas não sem antes ver o melhor de tudo: atrás da romaria, vinha um carro da CET e mais dois funcionários a pé com… um carrinho de mão e uma pá.

Pra recolher a merda que os cavalos faziam conforme iam passando.

Literalmente, fiscais de cocô.

Veja só que mundo injusto: tanta gente tirando foto inútil de cavalo passando na rua e eu sem uma câmera disponível pra registrar esse momento lindjo.

4o minutos depois, já debaixo do edredon, naquele estágio de pré-sono, começo a escutar de novo buzinas e um carro de som com sotaque.

Pesadelo?

Não.

A romaria, que deu a volta no centro e pegou a São João.

“Pamonhas, pamonhas, pamonhas. Pamonhas de Pirrracicaba”.

Aiaiai, Papai Noel, cadê minha bazuca?

Já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem…

Parabéns pra você

Bom, ontem o Sport Club Corinthians Paulista completou 98 anos. Amanhã, eu completo 26. E por coincidência, hoje, o cara da banca de jornal onde eu comrpo o Lance! todos os dias, corinthiano também, faz aniversário.

Em homenagem a tudo isso, posto um texto que escrevi uns meses atrás. É grande, mas vale as risadas.

Corinthians x São Caetano ou A mini-epopéia urbana de um torcedor

É terça-feira, dia de Corinthians em campo, e nesses dias eu acordo ansioso, já que isso significa que eu estarei lá – sempre com um sacrifício ou outro, mas nunca esperando o que estava por vir neste 6 de maio.

O jogo é no Morumbi e tem seu iníco marcado para as nove horas. São quase sete da noite quando saio de casa, no centro, munido de agasalho, boina, bilhete único e, é claro, os ingressos – são seis. Não, não sou cambista, só tenho a sorte de morar ao lado do posto de venda mais vazio da cidade, o que invariavelmente faz com que eu compre ingresso pros irmãos.

Às sete e quinze, pego o ônibus, não o de sempre que para na porta do estádio, mas um que me deixa na Francisco Morato. Mais longe, tem que andar um pouquinho, mas não dá as voltas que o outro dá. Entre um sacrifício e outro para os meus R$ 2,30, escolho o que vai me permitir estar no estádio a tempo. Mesmo pensando que não deveria ser assim e lembrando de quando a Erundina colocava ônibus grátis nos dias de jogo.

O ônibus começa sua (ou melhor, minha) via crucis pela Rua da Consolação. Até que vamos rápido, graças ao “corredor da Marta”, e em questão de quinze minutos atingimos a Avenida Rebouças. É aí que o terror toma conta do semblante até então feliz e cantante de todos os corinthianos do ônibus: o trânsito de São Paulo estava em dia de trânsito de São Paulo.

No meio do caos, recebo uma ligação: um dos irmãos e sua companheira teve um ataque de pedra nos rins e estava no hospital. Dois ingressos iriam sobrar, e eu precisaria vendê-los antes de entrar. O que já estava feio ficava ainda pior: um amigo no hospital e tempo ainda mais apertado. Minha boca balbuciava: “maldito estádio de merda”.

O relógio aponta oito horas da noite quando o ônibus atinge a altura da Avenida Brigadeiro Faria Lima. São agora vinte minutos parado nos mesmos cinquenta metros que antecedem o ponto. As camisas do Corinthians olham pela janela e sofrem, angustiadas. Até que a ansiedade típica dos momentos que antecedem uma batalha fala mais alto e faz com que o motorista abra a porta. Todos descem, e eu vou junto, meio que sem saber porque – àquela altura, já tinha ligado para os donos de três dos outros cinco ingressos pra avisar que iria me atrasar.

Corro junto à “família” e vejo todos entrando em um ônibus na Faria Lima. Entro também, sem olhar o letreiro, e descubro que ele seguirá pela avenida e pegará a Cidade Jardim. Fico feliz, porque a Faria Lima anda, e as esperanças de chegar ao jogo a tempo voltam.

Por pouco tempo.

No cruzamento com a Cidade Jardim, a imensidão de veículos parados volta. E junto com ela os olhares de terror e a ansiedade.

São exatamente oito e vinte e seis quando a massa alvinegra faz com que mais um motorista abra as portas do ônibus fora do ponto.

Desço de novo e começo a correr pela Cidade Jardim. Penso em me adiantar ao trânsito e pegar um ônibus que esteja parado mais à frente. Chego ao último ponto antes da ponte que atravessa a Marginal e o ônibus mais próximo é o mesmo do qual desci, lá atrás. Melhor continuar correndo.

Subo a ponte e estou do outro lado da Marginal, o que para paulistanos acostumados a ir a jogos no Morumbi significa mais de meio caminho andado – ou, no meu caso, corrido. Nenhum ônibus no horizonte próximo, à frente ou às costas. Sigo minha maratona, agora acompanhado por dois outros desesperados.

Àquela altura meu cérebro já começava a explicar para os músculos que era hora de superação. Martelava o nome de antigos guerreiros do suor para mantê-lo correndo – E, ZE, QUI-EL! E, ZE, QUI-EL! Ú, IL, SON-MANO! Ú, IL, SON-MANO!. E eu pegava a Avenida dos Tajuras a todo gás para entrar à esquerda na Rua Engenheiro Oscar Americano.

Pelas ruas, carros com bandeirões, hinos e cantos de estádio tocando ou sendo entoados. “Vai, Corinthians”, gritavam para mim, e eu respondia “vai, carona”, com o polegar estendido, na esperança de que “família” e “irmão” não fossem só termos vazios, que vencessem o individualismo intrínseco ao automóvel particular. Em vão.

Alcanço a Avenida Morumbi e começo a acreditar que “sim, é possível” – ou “si, se puede”, como diria um famoso lema hermano. Totalmente perdido por aqueles lados cheios de mansões e casarões, pergunto ao fiscal da CET se devo continuar reto ou quebrar à direita. Sigo suas orientações e quebro à direita: estava na Avenida Giovanni Gronchi.

Enquanto corro pela Praça Vinícus de Moraes, cheia de placas “Adidas – patrocinando o seu cooper” ou coisa do tipo, percebo que meus colegas de maratona desistiram – ou pelo menos pararam de correr. Não os vejo mais nem ao longe, e fico feliz por ser magro e ter aptidão biológica para provas de longa distância. Parece que este ano finalmente o sonho da São Silvestre será alcançado – sem meu pai (com quem sonhei junto) presente, mas com ele em mente ao lado de Ezequiel, Wilson Mano, Marcelo, Giba e o deus Neto.

Alcanço a Praça Santos Coimbra e já posso escutar o estádio em polvorosa. E é aí que a casa cai – literalmente: meu cérebro se distrai um pouco com o chamado da Fiel e faz o corpo tropeçar no cimento irregular da calçada. Vou ao chão, com uma dor incrível tomando conta de meu joelho esquerdo.

Puta que o pariu, corri da Faria Lima até ali e a 500 metros vou tropeçar? Não era justo, não mesmo. Num legar cheio de “praças de rico”, não dava pra ter mergulhado na grama? Pelo menos na grama eu poderia me contorcer pedindo falta. Enfim, não tenho tempo pra reclamar, então em frente, pernas, em frente, pulmão! Desculpa aí, joelho, mas quase 50 mil pessoas me esperam.

A adrenalina supera a dor e corro manquitolando até a Praça Roberto Gomes pedrosa, ponto de encontro. O relógio marca oito e cinquenta e três quando finalmente paro de correr. Era um recorde, eu tinha certeza. Mas cadê os “irmãos”? Ligo pra eles e estão chegando. Vieram de carro e eu cheguei mais rápido correndo. O trânsito de São Paulo estava em dia de trânsito de São Paulo.

São oito e cinquenta e seis quando finalmente os encontro. Faltam quatro minutos para o jogo e ainda preciso vender os ingressos. Tento ficar próximo à entrada da fila da bilheteria, mas a concorrência com os cambistas é demais. Nos dividimos procurando alguém sem ingresso, mas os olhos de todos só conseguem focar o portão de entrada. Então desisto de vendê-los e vamos pra fila. São já nove e quinze, e até ali, a julgar pela (falta de) explosão da torcida, o jogo está morno.

Ao entrarmos na fila, chamada assim apenas por conveniência, a polícia resolve “organizá-la” – e por isso entende-se dar porrada pelos lados para que todos se espremam junto ao portão de ferro. Enquanto isso, lá na frente, libera-se a entrada de dez em dez pessoas, o que é um absurdo. Como se a fila fosse diminuir daquele jeito, ou as pessoas se acalmar – ao contrário, o jogo corre e o sangue ferve ainda mais. No meio disso tudo, dou sorte: o torcedor atrás de mim descobre que perdeu seu ingresso e eu vendo um dos sobrantes pra ele – ia morrer com um só na mão.

A Fiel, da fila, começa a cantar “soooou, corinthiano, maloqueiro e sofredor”. Penso, sou mesmo, mas não naquela situação. Sou sofredor ao correr da Faria Lima ao Morumbi pra assistir ao jogo ou ao passar 90 minutos esperando por um golzinho chorado, não por servir de gado pra polícia. Ali não era hora daquela música, era hora de “vaaai, Corinthians, vai, não pára de lutaaar, vai torcida Fiel, saravá São Jorge, ele vai nos ajudar”. Ou então da marchinha, “contra todo ditador que no Timão quiser mandar, a Gaviões nasceu pra poder reivindicar, os direitos da Fiel que paga ingresso sem parar”. Ou ainda da nova música, inspirada no Rei Roberto Carlos (o da perna biônica, não o da meia lacônica): “não pára, não pára não páraaa… não pára, não pára não páraaa… não pára, não pára não pára o meu Coringãããão…”. Mas infelizmente o povo acostumou a ser gado, no metrô, no ônibus, no estádio, então cada um se apertava o mais longe que podia dos cacetetes e torcia praquilo andar logo.

São nove e trinta no meu relógio quando finalmente entramos na rampa de acesso às arquibancadas azuis.Após a revista policial (afinal, torcedor é tudo bandido mesmo), corremos para as catracas, quando percebo um grupo aglutinado ao lado delas com semblante triste. Haviam comprado ingressos falsos. Digo que tenho um sobrando, e eles resolvem comprá-lo – era muita sorte.

Era.

Porque nisso voltam dois dos três companheiros putos da vida, dizendo que o ingresso que eu dei pra eles era de arquibancada vermelha e não de azul. Só um tinha passado, e esperava ansioso pela gente depois das catracas sem entender nada.

Puta merda, como eu não percebi que a desgraçada do Ingresso Fácil tinha me dado arquibancadas vermelhas no meio das azuis? Eu tinha explicitamente pedido só azuis, que caralho. Arranjo rapidamente uma explicação-consolo no fato de que no dia em que comprei a fila estava grande, e tinha um clima tenso, já que Gaviões e Independente se aglomeravam para comprar ingressos para os respectivos jogos de seus times, e na hora em que finalmente peguei os meus olhei só se não eram do São Paulo por engano, nem conferi o setor.

Olho meu ingresso e ele também é da vermelha. Temos três vermelhas e uma azul. Vendo a azul e seguimos nós três pra vermelha, do outro lado do estádio. Nosso companheiro fica sozinho na azul.

À essa altura, dar a volta no estádio era o menor dos problemas. O primeiro tempo já era mesmo, então vamos caminhando até o outro lado, não sem pressa, mas sem correr. As ruas ao redor do Morumbi já estão bem esvaziadas, praticamente todos já entraram. Compramos um amendoim, porque dentro do estádio só paga R$ 5,00 num lanche minúsculo quem é muito trouxa, e seguimos até a vermelha.

Passada a catraca e a ida ao banheiro, estamos à boca das arquibancadas. Impossível entrar. Eram nove e quarenta e sete da noite. O jeito era esperar os dois minutinhos que faltavam até o intervalo. Feito isso, damos sorte: ao alcançar os degraus da arquibancada, encontramos logo três lugares vagos.

O segundo tempo corre feliz, com alguns sustos e algumas raivas (morre, Acosta!), mas no final a vitória é nossa. Com, como não podia deixar de ser, gol aos 43 minutos – aí sim, sofredores com orgulho.

A volta pra casa é marcada pela descoberta de que a menina que estava conosco perdeu R$ 20,00 (estavam no bolso, assim como as mãos dela, e ao tirá-las pra comemorar os gols deve ter jogado a nota pro alto sem querer), o que rendeu boas piadas, e pela raiva do Morumbi.

Não é compreensível como a Fifa acha que dá pra ter Copa do Mundo aqui. Onde o trânsito vai melhorar até 2014? E a polícia? E as entradas apertadas e poucas do Morumbi? Ah, já sei, vão estabelecer um rodízio: aqueles que tiverem renda mensal inferior a R$ 50.000,00 não poderão circular em dias de jogo.

É mais fácil mudar a Copa pro Haiti.

Chego em casa por volta de meia-noite e quarenta, de carona, já que o trânsito da volta do jogo era quase o mesmo da ida. Entro manquitolando, com a dor do joelho impactado com o cimento da calçada finalmente superando a adrenalina, e a mulher pergunta:

- Que que aconteceu? Teve briga?

- Senta, que a história é longa.

Burn, Panetone, Burn.