Segunda foi aniversário do Felipão, e teve mais bebemoração.
(É, setembro sempre tem um monte de aniversário porque em janeiro a galera tá de férias e de ressaca das festas de fim de ano e faz sexo com, digamos, menos cuidado do que deveria.)
Durante a velha e boa conversa-de-bar-em-dia-de-aniversário, que também é dia de reunir a galera que não se vê faz um tempinho em pleno dia de semana, três assuntos foram dominantes: o Autônomos, já que o Felipão é o camisa 6 do Auto A; o Corinthians, já que o Felipão é corinthiano; e a sustentabilidade, já que a mesa só tinha geógrafos nerds e dois deles – Júnior e Rê – tinha ido a um show lindjo no fim de semana, “About us”, onde artistas bacanérrimos ensinavam a moçada a “consumir sustentavelmente”.
Teve também o Paulão contando as peripécias dele como padrinho de um casamento que contava até com um Timmy, o que foi bem engraçado.
Mas essa enrolação toda é só o contexto pra dizer que nessa onda de fazer tatuagens novas eu acabei tendo um momento nostalgia punk e terça vim pro trabalho ouvindo Dead Fish.
Dead Fish que é uma banda interessante.
Primeiro porque, na minha opinião, é uma das melhores bandas punks do Brasil.
Segundo porque eu sou amigo do Rodrigo, o vocalista, e isso já causou muuuuuuita confusão.
Uma vez, uma amiga veio em casa me cumprimentar no meu aniversário. Eu morava ‘cos punk’, e o Rodrigo volta e meia tava lá. Daí que nesse dia ele chega e me cumprimenta, dá uma zoada, eu devolvo e percebo que a mina tá pálida de susto.
Ele vira as costas e vai embora e ela balbucia:
- É… o… o…
- É.
- Nossa…
- Ih, relaxa, é um cara como qualquer outro.
Mas não adiantou, a cara dela continuou de susto até ir embora, algo como “nossa, o Rodrigo do Dead Fish vem aqui nessa casa tosca e ainda é amigo do Mandioca???”.
Porra, eu conheço o cara bem antes da fama toda. Vira e mexe vou em jogo do Corinthians com ele (ou melhor, ele vai comigo), fui num jogo do Flamengo – o time dele – também, e quando a gente se encontra na rua pára (ei, Houaiss, você já sabe a rima) pra bater um papo.
Então, pra mim, ser amigo dele não é nem motivo pra contar pra todo mundo, “olha que legal, sou amigo de um cara famoso”, e nem motivo pra esconder de todo mundo, “putz, que merda, vão achar que eu lambo o saco do cara só porque ele é famoso”.
Aliás, isso dele ser famoso é meio que algo não-processado na minha mente. Eu vejo ele na TV e não encaixa, é bizarro. Mas enfim, dá sempre pra zoar com ele, como quando alguém pede autógrafo na rua ou quando estávamos conversando no ponto de ônibus e um bando de emos punks mirins ficou olhando e apontando e ele ficou todo sem graça. Divertido.
(OK, eu também já fui punk mirim, mas sei lá se sou eu ou se “na minha época” a relação entre o cara que toca e o que assiste era muito mais de igual pra igual e menos espetaculosa do que hoje dentro do punk.
Tá, 10 anos atrás não é tanto tempo assim, mas na “modernidade líquida” tudo voa muito rápido – diz aí, você se lembra o que tinha antes no lugar desse prédio bacana que construíram no seu bairro?)
Enfim, eu curto Dead Fish e acho as letras, principalmente do “Sonho Médio”, muito boas.
Daí que vim escutando e quando chegou em “Paz Verde” eu não pude deixar de lembrar da sustentabilidade de segunda:
(…)
Não me venha com retórica terceiro mundista
seu incompetente miscigenado,
a culpa não é do capital!
O meu império ecologista sabe lucrar,
sabe vender e o que é melhor,
a selva foi internacionalizada.
Índio iludido pensou que fosse melhorar,
todas as bandeiras (do G7) estavam lá!
Mas o que se viu foi mais uma divisão,
os índios tiveram que financiar suas ocas em bancos silvestres.
(…)
E aí vieram outras músicas e eu fui reparando, ou melhor, lembrando de como as letras são muito bem construídas e tem mensagens bem claras e, o que é melhor, elaboradas – não são aquela velha fórmula punk do “foda-se o sistema, abaixo a igreja”.
Só que antes, nos meus 18 aninhos, eu escutava e pensava, “gênios!”. Hoje eu escuto e penso, “é, eles souberam fazer algo minimamente bem feito, que fica na cabeça e ao mesmo tempo é forte”.
Tudo bem, tem horas que o Rodrigo dá uma forçada – “sooooou um cidadãããããão” e coisas assim – mas no geral a banda é boa e desperta um sentimento revoltado de classe média legal de “vambora fazer alguma coisa”.
O problema é quando esse sentimento é despertado em um virginiano paranóico impulsivo que sempre às vezes perde o bom senso, como eu.
Então, no meio disso tudo, me veio um insight que me disse o que eu devo ser na vida:
presidente da Gaviões da Fiel.
Não porque eu sou o gênio que vai revolucionar a torcida, mas porque… sei lá, porque eu sou pró-ativo, gosto de manipular organizar as coisas e acho que seria um bom presidente, sendo que por presidente eu não entendo o cara que tem privilégios sobre o resto, e sim o cara que tem a maior responsa de todas, um mediador de conflitos, um relações públicas que só se fode.
Empolgado, fui correndo contar a novidade pra minha futura assessora de imprensa, a Lelê.
Liguei pra ela – a cobrar, lógico, que presidente pode – e contei da minha nova ambição.
Primeiro ela riu, mas depois que viu que eu estava falando sério me chamou de doido e disse que vai tentar me apoiar.
Que bom, uma das dez blogueiras mais bonitas do Brasil-il-il tá do meu lado, já é um começo.
Fora que eu posso usar ela como musa da torcida corretora ortográfica – apesar do Houaiss ter fodido a bagaça geral e liberado o ‘é nóis’ – e, quem sabe, rainha da bateria.
O que uma tatuagem, uma bebemoração sustentável e algumas musiquinhas encanta-garotinho-punk somadas à total falta de bom senso e incapacidade geral de discernimento não fazem com a gente, né?
Ainda bem que eu tenho amigos na Gaviões e quando fui contar pra eles me encheram tanto a paciência me chamando de presidente e pedindo solução pros milhões de problemas internos da quadra que quase me fizeram desistir do meu sonho.
Mas não conseguiram.
Sabe como é, I have a dream e coisa e tal.
Aliás, me ajudaram a perceber que eu preciso bolar um passo-a-passo “como ser presidente da Gaviões”.
Depois deixo de tutorial pra quem eu achar que merece.
Mas como sou bonzinho e a favor da informação livre, libero já o primeiro passo, imprescindível, que serve pra fazer o sonhador pisar de novo no chão e encarar a necessidade de ser pragmático – coisa que eu ainda não fiz.
Passo 1: ficar sócio da Gaviões…