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Seis

Fiquei com a impressão ontem de ter estragado o texto com aquele poema final. Que nem é meu, diga-se, só adaptei. Não que eu ache o poema ruim, mas ficou meio fora de lugar.

Fora de lugar. Quem nunca se sentiu fora de lugar?

***

“No tengo bandera ni nación
no hablo tu idioma, soy un animal.
Vivo y muero en cualquier lugar
tengo sexo con quien quiero, si se da

Porque yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral

Con el corazón abierto voy
corro el riesgo si me quieren lastimar
veo el aura, leo tu intención
tengo instinto y se cuando debo ladrar

Por que yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral.
No puedo entender a esta humanidad
seres racionales y el poder los hace matar

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque amo como perro
y te huelo como perro
y te cojo como perro, soy un perro

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque siento como perro
mis amigos son los perros
y me junto con los perros soy un perro
soy un perro…”

Quando eu era bem pequeno, meus pais me levavam pros comícios do PT. E pras bocas de urna, também. Os dois faziam parte dos movimentos de esquerda que acabaram gerando o partido. Não me lembro de muita coisa, só de bastante vermelho. Desde criança minha cor preferida é vermelho. Vai ver é por isso.

Mais tarde um pouco, comecei a me interessar por música. Não pagode, axé, essas merdas. Música. Entrei pelo rock brasileiro farofa, Titãs, Skank. Depois fui pro rap de playboy, Gabriel O Pensador, e pro rap de verdade, com Racionais. Me interessava mais as letras do que a música. E nesse caminho encontrei o punk.

O punk sempre rendeu discussões inflamadas com meu pai. Ele tinha na cabeça aquela imagem de punk fazendo merda, sendo estúpido, quebrando, cuspindo, enchendo o saco. E eu entrei no punk por outro caminho, mais moderno, mais pela atitude do que pela música ou pelo visual. A atitude punk era ter orgulho de estar fora de lugar. Eu estava fora de lugar. Mesmo com meu pai, que defendia idéias trotskistas quase sempre, enquanto eu me interessava pelo anarquismo, mais livre, menos programático. Não fosse isso, não fosse esse conflito, e talvez o punk tivesse se tornado pra mim só a estética. Mas pra contrariar meu pai tive que ir atrás de informação, explicar aquele A na jaqueta, o cabelo ridículo, a roupa militaresca rasgada. Também porque os amigos dos meus pais eram todos dessa esquerda que se fodeu com a ditadura, então os encontros de família e amigos sempre traziam conversas de esquerda, e pra participar – e adolescente virgem deslumbrado sempre quer participar – eu precisava saber contrariar.

Algo que eu considero uma das coisas mais realmente revolucionárias do punk é a liberdade que ele te dá pra fazer parte dele. Parte de qualquer parte dele. Você pode tocar bateria sem nem saber o nome das peças. Organizar shows sem saber como ligar o amplificador. Ser a banda, o público, o produtor, tudo ao mesmo tempo. No lugar dos lugares estritamente delimitados, das tarefas restritas e restritivas, o caos de se fazer, de ter que fazer tudo por conta própria. Porque era isso ou não era. Não era punk. Ao invés de depositar dinheiro e confiança em organizações estranhas com estruturas definidas, o punk te encorajava a construir a sua própria. Falo no passado porque hoje já não sei mais, não participo tanto. Não que seja algo de época, não sou tão velho e recalcado ainda pra dizer que punk era o que eu fiz e o que eu vivi e não o que há agora. Mas talvez as oportunidades, as portas de entrada pra coisa toda sejam outras, tenham mudado, e esteja mais difícil de se encontrar quem passe pela porta do fazer você mesmo tudo, tudo mesmo.

Nunca houve tanto espaço e tanta condição material pra se ter show punk e ao mesmo tempo tão pouca gente fazendo a coisa acontecer lá de baixo. Vai ver o punk ficou fora do lugar de menos.

***

Lembro da primeira vez que vi aquela massa negra ensurdecedora. Lembro perfeitamente. Ali virei corinthiano. Ali resolvi tocar bateria.

Diferente da maioria das histórias de futebol, eu não torço pro time do meu pai. Meu pai aprendeu a torcer para o meu. Carioca, Fluminense desde pequeno, se casou com uma paulista e se viu frente ao problema quando o filho nasceu: pra que time o moleque vai torcer? Resolveu da forma mais democrática que conhecia, herdeira do passado de militância. Me apresentou aos times da cidade e me levou em um jogo de cada. Não precisei ir além do segundo. Nem ele, aliás.

Numa coisa meu pai destoava dos comunistas irritantes que conheci na universidade: ele adorava futebol. Adorava mesmo. Contava histórias muito boas, de Castilho, goleiro mítico do Fluminense; da vez que se viu abraçando loucamente uma torcedora que estava com o namorado botafoguense vendo a final no estádio enquanto este se sentava pra lamentar o gol sofrido no último minuto; de Pelé; da Copa de 58 ouvida no rádio, com 9 anos; de vários jogadores que a mídia esportiva faz questão de não lembrar. Me levou a jogar bola desde cedo. Bola e tudo que envolve futebol. Uma das coisas que mais me arrependo é de ter perdido nas mudanças de casa um saco enorme com times de botão que ele guardava desde a infância. Eram botões feitos por ele mesmo, com casca de côco, tampas de relógio, fichas de ônibus que se usava na época. Todos tinham nome.

Desde pequeno, desde 1990 pra ser mais exato, eu decidi que seria jogador de futebol. Vi minha mãe chorando com o gol de Cannigia nos tirando da Copa do Mundo e prometi vingança. Naquele mesmo ano, o Corinthians levou o Brasileirão, com Neto, Ronaldo, Wilson Mano e Tupãzinho. Eu não precisava daquilo, a torcida já tinha me conquistado. Mas ganhar aquele título e daquele jeito com certeza ajudou a solidificar meu corinthianismo e meu jeito de jogar bola dando muito mais importância pra vontade e pra raça do que pra habilidade. Ironicamente, o amigo mais próximo de meu pai tinha feito o caminho inverso: palmeirense, paulistano, casou com uma flamenguista. Os filhos, todos palmeirenses, meus quase-irmãos, um pouco mais novos que eu, cresceram com a geração Parmalat, que montou supertimes no rival. Não por acaso, jogavam muita bola, muita mesmo. Jogam ainda. Mas nenhum de nós virou jogador. Eu porque não era bom o suficiente. Eles porque tinham escrúpulos o suficiente.

Meu pai era um filho da puta com futebol. Em 1986, com o Palmeiras na final do Paulistão contra a surpresa Inter de Limeira, a torcida alviverde tinha certeza de que a fila, que já chegava aos 10 anos, iria acabar. Esse amigo do meu pai também. Deu Inter. Morando no mesmo prédio, meu pai não teve dúvida: desceu até o 3º andar. Chegou lá e a conterrânea carioca abriu a porta já começando a rir, mas implorou por bondade, como se carioca conhecesse bondade na hora de cutucar o rival no futebol. O amigo estava prostrado em frente à TV, desolado. Meu pai resolveu que “só queria uma xícara de açúcar pra Célia terminar o bolo”. A carioca jogou o jogo segurando o riso, sabendo que não podia ser só aquilo. E não era: fechada a porta, açúcar na mão, da janela do corredor meu pai gritou: “CORINTER!”. Não contente, datilografou depois uma carta “consoladora” em que usava todos os nomes dos jogadores da Inter em trocadilhos. Nunca enviou. Teve piedade.

Não que o amigo não merecesse. Em 1984, na primeira rodada do campeonato, o jornal televisivo anunciava que o rival do Fluminense estava preocupado com o ataque tricolor. Era o Casal 20, Washington e Assis. O amigo palmeirense ridicularizou, meu pai ouviu calado. Meses depois, calhou de haver uma festa em casa no dia da final. O Flu levou o título. E o amigo teve que escutar o hino na vitrola pelo menos umas 20 vezes no repeat.

O dono santista da banca de jornal também sofria. Era o Santos perder e meu pai ligava pra banca. O cara atendia e ele não dizia nada, só soltava um risinho sacana. Anos e anos a fio. Se o santista descobriu, sempre fingiu que não sabia de nada. Meu pai era um dos melhores clientes. O dinheiro venceu mais uma vez.

Lembro também de que eu tinha um amigo são-paulino, um gordinho folgado canhoto, habilidoso. Ia lá em casa e meu pai repetia o mesmo ritual que tinha com todos os meus amigos: tirar um sarro, deixar o cara se sentir à vontade. Depois de um tempo, os moleques ficavam ousados, começavam a tirar uma com o Fluminense, que nos anos 90 não teve lá muitas glórias. O camisa 9 tricolor, Ézio, era sempre alvo de piadas. Meu pai então fazia os moleques cantarem o hino do Flu. Um teve que repetir cinco vezes do lado de fora de casa até ter permissão pra entrar.

Esse amigo gordinho acompanhava meu pai e eu quando ele me levava pra jogar. Morávamos já na Lapa, e o Palmeiras era bem perto; mas o coração era alvinegro, e o Corinthians ficava na zona leste. Meu pai resolveu a questão se associando aos dois clubes. Eu ia pro Palmeiras de dia de semana, depois da aula, várias vezes com o gordinho como convidado. Jogava futebol de salão. Certa vez fui assaltado na entrada: levaram meu uniforme da escolinha. Nunca fiquei tão pouco puto de ter sido roubado.

No Corinthians, jogava futebol de campo, aos fins de semana. O gordinho lá também ia de convidado. Um dia se esqueceu e foi com um calção do São Paulo. Achamos que pudesse acontecer algo, mas ninguém falou nada. Essa geografia do clube duplo levava meu pai a exercitar sua raiva do rival. Comparava sempre as situações vividas dentro dos dois clubes. O Palmeiras não deixava meu primo entrar no clube com uma camiseta do Flu. No Corinthians, o gordinho ia de calção do São Paulo. No Palmeiras, um diretor berrava pra seu filho de 8 anos quebrar a perna do rival num jogo de futsal.  O Corinthians era o time da Democracia Corinthiana. Não deve ter sido uma escolha difícil pra quem militou contra a ditadura. Sem falar que a trimensalidade no Corinthians era mais barata que a mensalidade no Palmeiras.

Mais velho e doente, começou a ter que ficar sempre em casa. Assistia documentários e mais documentários. Fazia questão de me contar os mais interessantes, o que me irritava às vezes. Era uma alma comunicativa presa em um corpo já débil. No intervalo dos documentários, havia Chaves, as séries de comédia e os programas esportivos. Todo dia então vinham as mensagens de texto pelo celular: “Vai passar na TV um filme chamado Seres Rastejantes; deve ser sobre o Palmeiras…”, ou “Apelido do Cristiano Ronaldo em Portugal: Puto Maravilha!”, ou ainda “A goleira da seleção paraguaia é da altura da sua mãe, hehehe… ela deveria tentar o futebol pebolim”.

Quando eu era mais novo, tinha asco da idéia de ter um filho. Não queria. Não nesse mundo.

Hoje, a cada mensagem de texto que eu não recebo mais, cresce a minha vontade de ser pai.

***

“Pai
02-Dez-07 19:22

A mente aberta, a palavra certa e o coração esperto!
Força, Timão! Glória Timão!!!”

Uma vez, em 1991, entrei de mascote com o time, mãos dadas com Ronaldo. Eu ainda queria ser goleiro. Meu pai chutava uma bola de plástico pra que eu defendesse. A enorme janela da sala da casa em Pirituba era o gol.

Dezoito anos depois, pisei o gramado outra vez. O estádio estava tão vazio quanto meu coração. Os gols nem sequer tinham rede. Carregava meu pai nas mãos. O deixei ali, no banco de reservas, pra sempre. O hino, cantei em silêncio.

Hoje tem jogo. Vou lá.

Ver meu pai.

É sábado!

Amigos e amigas,
é sabado o primeiro show da Cinco, a banda meio guitar, meio punk em que toco guitarra, depois de anos de projeto indo e vindo!
Tocaremos com o Siete Armas e o Ordinaria Hit no Espaço Impróprio. O evento contará ainda com uma intervenção de pintura ao vivo da Mandy Mussi.
E olha só: SEREMOS A PRIMEIRA BANDA!
Portanto, cheguem cedo!
O show está marcado pra 18h, então no máximo às 19h estaremos no palco. E isso é muito sério! Atraso de cinco horas em show é coisa que ninguém merece.
Pra quem não conhece o som das bandas (a gente ainda não tem nada gravado):
Ordinaria Hit – www.myspace.com/ordinaria
Siete Armas – www.myspace.com/sietearmas
Pra quem não conhece a Mandy Mussi: www.flickr.com/thedrummaqueen
O cartaz do show você pode ver aqui: http://img.photobucket.com/albums/v415/mandioca/cartaz2410.jpg
Resumindo:
Cinco | Siete Armas | Ordinaria Hit (tocando nessa ordem!)
+ intervenção de Mandy Mussi
sábado – 24/10 – 18h
R$ 5,00
Espaço Impróprio – Rua Dona Antônia de Queiroz, 40 – próximo ao Shopping Frei Caneca
Venda de comida vegan e bebidas
Vejo vosês lá!
Abraços,
Danilo (ou Mandioca).

Amigos e amigas,

é sabado o primeiro show da Cinco, a banda meio guitar, meio punk em que toco guitarra, depois de anos de projeto indo e vindo!

Tocaremos com o Siete Armas e o Ordinaria Hit no Espaço Impróprio. O evento contará ainda com uma intervenção de pintura ao vivo da Mandy Mussi.

E olha só: SEREMOS A PRIMEIRA BANDA!

Portanto, cheguem cedo!

O show está marcado pra 18h, então no máximo às 19h estaremos no palco. E isso é muito sério! Atraso de cinco horas em show é coisa que ninguém merece.

Pra quem não conhece o som das bandas (a gente ainda não tem nada gravado):

Ordinaria Hit – www.myspace.com/ordinaria

Siete Armas – www.myspace.com/sietearmas

Pra quem não conhece a Mandy Mussi: www.flickr.com/thedrummaqueen

O cartaz do show você pode ver aqui: http://img.photobucket.com/albums/v415/mandioca/cartaz2410.jpg

Resumindo:

Cinco | Siete Armas | Ordinaria Hit (tocando nessa ordem!)

+ intervenção de Mandy Mussi

sábado – 24/10 – 18h

R$ 5,00

Espaço Impróprio – Rua Dona Antônia de Queiroz, 40 – próximo ao Shopping Frei Caneca

Venda de comida vegan e bebidas

Vejo vocês lá!

Autônomos FC internacional

Os amigos ingleses do Easton Cowboys&Cowgirls, time de futebol (e outros esportes) anti-fascista que virá ao Brasil em maio, estão organizando um show com a lendária banda punk finlandesa Riistetyt na Inglaterra para arrecadar fundos para o Autônomos FC e o Ativismo ABC!

Segue o cartaz do evento:
flyer

Divulguem!

 

O site do Easton: http://eastoncowboys.org.uk/

Garota sem cabelos

Outro dia a Lelê fez aniversário e a festa foi num bar de rockabilly novo que tem por aqui.

Foi legal, embora eu tenho ficado menos de 2h lá porque tinha que acordar cedo no dia seguinte.

E me lembrou de uma história engraçada bizarra.

Eu sempre gostei de rockabilly, mesmo não sabendo dançar.

Quer dizer, gostei (e gosto) de um jeito turista, ou seja, sem conhecer de verdade.

Aqueles baixos acústicos e a levada dançante sempre me hipnotizaram.

Mas nunca me aventurei a ir em shows por causa da ligação complicada que a cena rockabilly tinha (não sei se ainda tem) com a cena careca/skinhead aqui em São Paulo.

Aí, um belo dia, uma amiga minha, ex-vocalista de uma banda em que toquei, me chamou pra ir num show de rockabilly em Jundiaí. Ela namorava um cara da cena e curtia pra caramba, me dizia que não tinha erro nem perigo alguns.

Juntei meus medos, coloquei numa sacolinha e, em nome da amizade com ela, fui. Eu, ela, o namorado e mais um ou dois amigos.

O show começava tarde, então se eu me arrependesse e quisesse ir embora, sem chance. 

Chegamos lá e, como eu previa, haviam carecas. E alguns punks também, o que de certa forma me tranquilizou, porque parecia que pelo menos briga não rolava por conta de visual.

Estava eu então conversando com minha amiga enquanto a primeira banda não começava quando de repente alguém puxa minha cadeira com força, virando-a. 

Já me preparei pra mandar meu amigo à merda pela brincadeira sem graça quando olho e… não é meu amigo quem está do outro lado da cadeira.

É um careca.

Enorme.

Com a namorada a tiracolo.

Que aponta o dedo na minha cara, numa típica cena de filme de briga de bar, e inicia o fantástico diálogo abaixo:

- Você é anarcopunk.

- Eu? Não não.

- É sim, que eu tô ligado.

- (eu começando a suar frio) Não sou mano.

- É sim, moleque, admite.

- (eu já suando frio e começando a gaguejar) Nã-não mano, nu-nunca fui anarcopunk. Tô aqui só pelo som, não pela política.

- TÁ VENDO? Você tá ligado nesse lance de política. VOCÊ É ANARCOPUNK MANO!

- (eu temendo pela vida) Não sou cara, não sou.

Nesse meio-tempo, um dos meus amigos já tinha ido “buscar ajuda”. E por isso entendia-se procurar uma mina que estava no show que me conhecia há tempos e que antes era anarcopunk e agora era careca.

Perguntou pra ela se rolava treta de punk com careca no show e ela disse que não, então ele falou que “estavam me intimando” e ela foi ver qual que era.

Parecia a salvação.

Só que esquecemos que carecas também tem memória.

Ela chegou e disse:

- E aí, Mandioca, beleza?

- (eu com cara de POR FAVOR ME TIRA DAQUI) Fala, tudo bem?

E o careca-intimador?

- VOCÊ CONHECE ELA?

- (eu pensando se era bom conhecer ela) Co… conheço, conheço.

- ENTÃO VOCÊ É ANARCOPUNK, PORQUE ELA ERA ANARCOPUNK!

Pronto.

Fodeu.

“Mãe, te amo. Obrigado por tudo, quero ser cremado. Vou morrer sem ver o Coringão campeão da Libertadores”, pensei.

Era a minha hora.

Bem que o meu décimo oitavo sentido, aquele que fica no ânus e fecha ao sinal de perigo, tinham me dito pra não ir naquele show.

Eu já rezava mentalmente o ave-maria, mesmo sem saber as palavras, quando uma luz se abriu no céu.

Eram as lâmpadas do lugar sendo acesas.

E com elas, música ambiente.

Parecia que queriam aquele momento bem registrado, o-fim-do-anarcopunk-que-se-meteu-a-besta-num-show-de-rockabilly.

O cenário estava pronto, só faltava o filme da minha vida passando pra tudo ficar beleza.

Mas então algo aconteceu.

Um misto de sorte randômica com um certo grau de demência do cara me salvou.

Acontece que a mina ex-anarcopunk falou:

- Não, mano, o Mandioca nunca foi anarcopunk. 

E ao mesmo tempo, começou a tocar no som ambiente Skinhead Girl.

Um hino careca/skinhead.

Nisso, o careca nem percebeu que a mina tinha dito que eu na verdade era straight-edge – o que podia tanto me trazer problemas quanto a tão sonhada paz.

Levantou, me deu um afago na cabeça meio mata-leão dizendo “então beleza” ou algo do tipo e foi lá pogar ao som de Specials.

Eu?

Suava em bicas.

E a partir daquele momento desenvolvi uma paranóia de que TODOS no lugar estavam me olhando e me achando anarcopunk.

Isso porque eu estava num visual extremamente normal, de camisa pólo, calça jeans, tênis e óculos – tirando, é claro, o fato de que eu nunca fui anarcopunk.

Algo que não tinha a menor relevância ali.

Se quisessem que eu fosse anarcopunk eu seria e não haveria músculo conversa ou fatos suficientes pra provar o contrário.

Porque todo anarcopunk é magrelo e chato, então automaticamente eu me tornava anarcopunk naquele lugar.

E nisso o show rolou e os olhares me gelavam e o tempo não passava.

Mas no final deu a hora do trem voltar a funcionar e eu me mandei rapidinho e enterrei essa história no subsolo da minha memória.

Até que a Lelê fez o favor de trazer ela à tona novamente.

Hoje eu rio dela, mas vou te dizer, nunca passei um aperto tão grande num show.

Salvo pela garota sem cabelos, literal e musicalmente falando.

Valeu, Specials, meu muito obrigado.

Te devo uma.

There she was
Swinging down the high street, yeah
Hair cropped short, butts and perm
I couldn’t believe my eyes,
Like a story out of a book
She was my height
My weight
My size
She wore (her braces and blue jeans)

Skinhead girl(x4)
She was mine

I made up my mind
Was gonna be corageous, yeah
Her head on my hand
And touch her gentle
She looked at me
And smiled
I know that was for real
She was my height
She wore (her braces and blue jeans)

Zero zero sete

Hoje fui votar, exercer tooodo esse grandicíssimo direito democrático que foi concedido conquistado com a luta de muitos e a gloriosa e benevolente vontade do Estado.

Obrigado, Estado, obrigado.

E como as mudanças que surgirão no mundo depois das 9 pressionadas de botão que me são permitidas acontecerem serão responsabilidade minha, fui lá e fiz a minha parte.

Meu voto, minha responsabilidade, minha parte.

Tudo meu.

Engraçado… e os outros?

“Ah, pára, cada um no seu quadrado, né, Mandioca!”

“Será que você não fica feliz com nada? Pô, você já tem a dádiva da escolha! Isto é democracia!”

Legal, então eu posso escolher quem vai me estuprar? Que fantástico!

Nos tempos de papai e mamãe (sem trocadalhos) não se podia isso não.

Em compensação, papai e mamãe foram de certa forma forçados impelidos a construir o que queriam, sem a cidadania politicamente correta da votação ou de pedir ao Estado “ei, tio, posso?”.

Eles lutaram. Juntos. Por algo em comum, algo melhor pra todos. Naquela época, existiam os outros. E não só na tela de cinema quando algum filho de banqueiro queria fazer filme pra mostrar pra Europa “oh, como sofremos”.

O que eu estou dizendo, que é melhor uma sociedade autoritária pra que as pessoas se vejam inclinadas a lutar?

“É isso Mandioca, você prefere a ditadura? Queria estar em Cuba ou China? Queria ser um bárbaro árabe morando no Irã?”

Não.

Porque isso seria determinista e matemático demais (ditadura + grupos radicais = revolução) e uma interpretação deveras simplista. Sem contar que seria tomar toda revolução como uma coisa intrínseca, necessária e totalitariamente boa – alô, Revolução Francesa? Tem alguém aí? Tô ligando pra agradecer pela nova ordem burguesa das coisas… brigado, viu? Égalite, Fraternité, Liberté… de mercado.

“Caramba, nem da Revolução Francesa você gosta? Pôxa, é graças a ela que hoje a gente pode escolher, mêo!”

Uau!

Isso parece bom quando comparado ao feudalismo, à Idade Média ou aos 4354325 anos de poder de Fidel Castro né?

Lá em Cuba ninguém pode escolher entre tênis da Nike e da Adidas, que absurdo!

Já a gente aqui pode escolher. Graças à democracia.

Só não tem é dinheiro pra todo mundo comprar.

Ou melhor, a imensa maioria não tem direito dinheiro pra comprar.

Que coisa não?

Na ilha do Fidel não tem quase ninguém descalço…

“Caralho Mandioca, você quer mesmo uma ditadura né…”

Não.

Só que nem todo o azul é marinho e nem todo o vermelho come criancinha.

A ditadura cubana é um lixo.

Mas isso não faz da “democracia” brasileira (e estadunidense, argentina, uruguaia etc) algo bom.

Simplesmente porque o mundo todo vive uma ditadura bem maior e mais ampla, irrestrita.

A ditadura da mercadoria, do capital.

Tudo se vende, tudo se compra.

Ah sim, se pode votar no que se compra – “quero o Corinthians de roxo ou de branco no próximo jogo de pay-per-view que eu vou comprar por R$ 55,00?”

Desde que se compre.

Neste totalitarismo de mercado, o direito sagrado do voto nada mais é do que uma farsa.

Te forçam a “deixam” escolher, mas não te dizem que é possível ir além do escolher, criar suas próprias opções.

Te dão a tinta amarela ou a verde pra pintar sua cara, mas não dizem que se você quiser pode  pintar ela de preto.

Ou então não pintar.

E que se um grupo grande de pessoas optasse por deixar de fazer papel de palhaço não pintar as caras e passasse a juntar seus interesses pra lutar e pra criar suas próprias opções, o tal do titio Estado estaria fodido.

(Lutar, como fizeram nossos pais pra que hoje possamos sentar a nossa bunda – sozinha – na cadeira em frente ao computador e fazer um blog engraçadalho.)

Mas não.

Agradecemos todos os dias por ter internet.

Porque, como diria o Rodrigo, seria demais dividir as coisas que você já tem: cerveja, um par de tênis e o caos.

E seguimos navegando no mar da sociedade de compra e venda de informação – que é na verdade a sociedade do totalitarismo informacional.

Um lugar onde se fundamenta argumentos com o velho e bom novo e péssimo “eu li na internet”.

Onde se renega a História e se nega o conhecimento – porque você leu na internet, só você, sozinho, e a partir daí passou a ser verdade, sem a busca pela origem da informação, sua construção, seu passado; e sem a necessária etapa de transformação da informação em conhecimento que consiste em colocar a informação para o mundo e a partir daí contextualizá-la e colocá-la à prova enquanto algo capaz de explicar e ser explicada por esse mesmo mundo.

E aí, a absoluta ausência do outro e do coletivo é tão grande que um dia de votação se torna cidadania, uma enquete eletrônica se transforma em “programação interativa”.

Numa verdadeira sociedade de jornalistas (onde estão os poetas, mortos?), que votam e fazem sua parte.

É o abstrato se tornando concreto.

O sertão que já virou mar.

E já que virou mar, compareci à minha seção eleitoral de fone de ouvido, essa espécie de escafandro social que te protege da falta de lucidez alheia e do tédio do cotidiano, escutando Isis – The Red Sea, e tal qual um bom agente secreto da subversão, usei a velha e boa tática do 007.

Zero zero zero zero zero, confirma.

Zero zero, confirma.

Os sete zeros da insubmissão simbólica.

E saí de lá cantando, junto com o Neurosis:

Where are they now?
They’re gone
I saw them run,
run to the sea…

A paz verde e o furor alvinegro

Segunda foi aniversário do Felipão, e teve mais bebemoração.

(É, setembro sempre tem um monte de aniversário porque em janeiro a galera tá de férias e de ressaca das festas de fim de ano e faz sexo com, digamos, menos cuidado do que deveria.)

Durante a velha e boa conversa-de-bar-em-dia-de-aniversário, que também é dia de reunir a galera que não se vê faz um tempinho em pleno dia de semana, três assuntos foram dominantes: o Autônomos, já que o Felipão é o camisa 6 do Auto A; o Corinthians, já que o Felipão é corinthiano; e a sustentabilidade, já que a mesa só tinha geógrafos nerds e dois deles – Júnior e Rê – tinha ido a um show lindjo no fim de semana, “About us”, onde artistas bacanérrimos ensinavam a moçada a “consumir sustentavelmente”. 

Teve também o Paulão contando as peripécias dele como padrinho de um casamento que contava até com um Timmy, o que foi bem engraçado.

Mas essa enrolação toda é só o contexto pra dizer que nessa onda de fazer tatuagens novas eu acabei tendo um momento nostalgia punk e terça vim pro trabalho ouvindo Dead Fish.

Dead Fish que é uma banda interessante.

Primeiro porque, na minha opinião, é uma das melhores bandas punks do Brasil.

Segundo porque eu sou amigo do Rodrigo, o vocalista, e isso já causou muuuuuuita confusão. 

Uma vez, uma amiga veio em casa me cumprimentar no meu aniversário. Eu morava ‘cos punk’, e o Rodrigo volta e meia tava lá. Daí que nesse dia ele chega e me cumprimenta, dá uma zoada, eu devolvo e percebo que a mina tá pálida de susto.

Ele vira as costas e vai embora e ela balbucia:

- É… o… o… 

- É.

- Nossa…

- Ih, relaxa, é um cara como qualquer outro.

Mas não adiantou, a cara dela continuou de susto até ir embora, algo como “nossa, o Rodrigo do Dead Fish vem aqui nessa casa tosca e ainda é amigo do Mandioca???”.

Porra, eu conheço o cara bem antes da fama toda. Vira e mexe vou em jogo do Corinthians com ele (ou melhor, ele vai comigo), fui num jogo do Flamengo – o time dele – também, e quando a gente se encontra na rua pára (ei, Houaiss, você já sabe a rima) pra bater um papo.

Então, pra mim, ser amigo dele não é nem motivo pra contar pra todo mundo, “olha que legal, sou amigo de um cara famoso”, e nem motivo pra esconder de todo mundo, “putz, que merda, vão achar que eu lambo o saco do cara só porque ele é famoso”.

Aliás, isso dele ser famoso é meio que algo não-processado na minha mente. Eu vejo ele na TV e não encaixa, é bizarro. Mas enfim, dá sempre pra zoar com ele, como quando alguém pede autógrafo na rua ou quando estávamos conversando no ponto de ônibus e um bando de emos punks mirins ficou olhando e apontando e ele ficou todo sem graça. Divertido.

(OK, eu também já fui punk mirim, mas sei lá se sou eu ou se “na minha época” a  relação entre o cara que toca e o que assiste era muito mais de igual pra igual e menos espetaculosa do que hoje dentro do punk. 

Tá, 10 anos atrás não é tanto tempo assim, mas na “modernidade líquida” tudo voa muito rápido – diz aí, você se lembra o que tinha antes no lugar desse prédio bacana que construíram no seu bairro?)

Enfim, eu curto Dead Fish e acho as letras, principalmente do “Sonho Médio”, muito boas.

Daí que vim escutando e quando chegou em “Paz Verde” eu não pude deixar de lembrar da sustentabilidade de segunda:

(…)

Não me venha com retórica terceiro mundista 
seu incompetente miscigenado, 
a culpa não é do capital! 
O meu império ecologista sabe lucrar, 
sabe vender e o que é melhor, 
a selva foi internacionalizada. 
Índio iludido pensou que fosse melhorar, 
todas as bandeiras (do G7) estavam lá! 
Mas o que se viu foi mais uma divisão,
os índios tiveram que financiar suas ocas em bancos silvestres. 

(…)

E aí vieram outras músicas e eu fui reparando, ou melhor, lembrando de como as letras são muito bem construídas e tem mensagens bem claras e, o que é melhor, elaboradas – não são aquela velha fórmula punk do “foda-se o sistema, abaixo a igreja”.

Só que antes, nos meus 18 aninhos, eu escutava e pensava, “gênios!”. Hoje eu escuto e penso, “é, eles souberam fazer algo minimamente bem feito, que fica na cabeça e ao mesmo tempo é forte”.

Tudo bem, tem horas que o Rodrigo dá uma forçada – “sooooou um cidadãããããão” e coisas assim – mas no geral a banda é boa e desperta um sentimento revoltado de classe média legal de “vambora fazer alguma coisa”.

O problema é quando esse sentimento é despertado em um virginiano paranóico impulsivo que sempre às vezes perde o bom senso, como eu.

Então, no meio disso tudo, me veio um insight que me disse o que eu devo ser na vida:

presidente da Gaviões da Fiel.

Não porque eu sou o gênio que vai revolucionar a torcida, mas porque… sei lá, porque eu sou pró-ativo, gosto de manipular organizar as coisas e acho que seria um bom presidente, sendo que por presidente eu não entendo o cara que tem privilégios sobre o resto, e sim o cara que tem a maior responsa de todas, um mediador de conflitos, um relações públicas que só se fode.

Empolgado, fui correndo contar a novidade pra minha futura assessora de imprensa, a Lelê.

Liguei pra ela – a cobrar, lógico, que presidente pode – e contei da minha nova ambição. 

Primeiro ela riu, mas depois que viu que eu estava falando sério me chamou de doido e disse que vai tentar me apoiar. 

Que bom, uma das dez blogueiras mais bonitas do Brasil-il-il tá do meu lado, já é um começo.

Fora que eu posso usar ela como musa da torcida corretora ortográfica – apesar do Houaiss ter fodido a bagaça geral e liberado o ‘é nóis’ – e, quem sabe, rainha da bateria.

O que uma tatuagem, uma bebemoração sustentável e algumas musiquinhas encanta-garotinho-punk somadas à total falta de bom senso e incapacidade geral de discernimento não fazem com a gente, né?

Ainda bem que eu tenho amigos na Gaviões e quando fui contar pra eles me encheram tanto a paciência me chamando de presidente e pedindo solução pros milhões de problemas internos da quadra que quase me fizeram desistir do meu sonho.

Mas não conseguiram.

Sabe como é, I have a dream e coisa e tal.

Aliás, me ajudaram a perceber que eu preciso bolar um passo-a-passo “como ser presidente da Gaviões”.

Depois deixo de tutorial pra quem eu achar que merece.

Mas como sou bonzinho e a favor da informação livre, libero já o primeiro passo, imprescindível, que serve pra fazer o sonhador pisar de novo no chão e encarar a necessidade de ser pragmático – coisa que eu ainda não fiz.

Passo 1: ficar sócio da Gaviões…

Munição ou Maldição?

Tem ligações que a vida apronta entre as pessoas que você conhece que rendem histórias bizarras.

Hoje, uma amiga me contou o final de uma delas.

Seguinte: entre 2002 e 2004, mais ou menos, eu fui baterista de uma banda de hardcore crust chamada Munição. A banda tinha até boas idéias, mas a execução delas era bem ruinzinha. E durante sua curta existência vivemos muuuuuuitas aventuras.

Entre outras peripécias, tocamos em Curitiba (onde rasgamos uma Bíblia e quebramos a imagem de uma santa), Joinville (onde nosso vocalista tocou vestido de mulher e na platéia se ouviu a pergunta “Isso é uma mina muito feia ou um cara vestido de mina?”), Araraquara (onde roubaram parte dos nossos instrumentos enquanto discutíamos com os locais que achavam que o nosso jeito “enérgico” no palco era um desrespeito típico dos habitantes da capital para com os caipiras) e alguns lugares de São Paulo onde Judas perdeu as botas. Nosso já citado vocalista, o Babette, era (e ainda é) uma figura ímpar, quase uma caricatura, que num dos shows, sem mais nem menos, deu um beijo – de língua – em um dos guitarristas e que, em outro, após ter brigado com a namorada, tocou sem camisa com a frase “o amor não vale nada” na barriga – frase que ficou para sempre estampada ao contrário na camisa do baixista, o Davi, depois que o Babette resolveu pular, todo suado, nas costas dele.

Pois bem.

Quando decidimos terminar a banda, depois de ter lançado só uma demo muuuuuito ruim (nomeada “Demo ensaio ensaio do Demo”), resolvemos que no último show lançaríamos um CD que na verdade era um ensaio ao vivo. Intitulamos ele de D.E.U.S. (Demo Ensaio do Último Show) e fizemos pouquíssimas cópias (umas 5 ou 10, não lembro) que jogamos do palco pra galera presente no show (que desviou pra não pegá-las, lógico).

Anos depois, a banda desfeita, nosso vocalista foi morar em Assis, onde cursaria a faculdade de História da UNESP. Depois de um tempo lá, ele ficou sem casa e foi convidado por um punk para dividir apartamento. Aceitou de imediato, grato pela conhecida burrice ingênua solidariedade punk.

Chegando na casa do tal punk (cujo nome descobri hoje: Róbson), o dito cujo foi lhe mostrar os CDs que tinha, já que punk que é punk encoxa a mãe no tanque sempre tem orgulho de sua coleção de discos ruins.

Seguiu-se o seguinte diálogo (ou algo do tipo):

- Véi, escuta essa banda, é a melhor banda que eu já escutei de hardcore, as músicas são foda e as letras são fodidas!

- Sério? De onde eles são?

- De São Paulo. Mas a banda acabou, eu peguei esse CD no último show deles, só tem 5 cópias no mundo!

Babette pega o CD.

- MANO! NÃO ACREDITO!

- Que foi, véi, cê conhece eles???

- MANO! EU ERA O VOCALISTA DA BANDA!

- Ah, pára, mentira!

- EU JURO MANO! EU JURO! EU QUE FIZ TODAS ESSAS LETRAS!

Como o CD não tinha o nome dos integrantes da banda nem nada, o punk Róbson não acreditou e intimou o Babette, como todo bom punk faz. E o Babette teve que cantar junto uma ou duas músicas pro cara crer.

Só essa parte da história já é fantástica. Mas tem mais.

Hoje uma amiga minha, a Ana Carol, vem falar comigo no MSN. Diz ela:

- Mandioca, você conhece o Róbson? Um que foi falar com você na USP semana passada? Que fez História na UNESP?

- Aaaaaaah, o Róbson? O Robinho? Não. Aliás, eu nem fui na USP semana passada.

- Um que é amigo do James, que namora uma Juliana…

- Não. James pra mim é nome de mordomo e Juliana, nunca vi na feira.

- Um que pegou com vocês uma fita do Massacre [em Alphaville, outra banda em que já toquei].

- Não… que eu me lembre.

- Ele morava com um amigo seu, sei lá, em Assis, que era da banda.

- NOSSA! O BABETTE???

- Éééé, esse mesmo. Tem até uma lenda que ele pegou a fita num show de vocês e só depois conheceu o cara.

- NOSSA! Eu conheço a lenda do cara, mas não o cara! Só que a lenda certa é com um CD e a banda é o Munição!

- É isso aí, é isso aí.

- Tá, que que tem ele?

- Ele morreu sexta-feira.

- QUÊ???

- É, ele tinha vindo morar aqui com a Juliana, namorada dele, que é minha amiga. Aí na sexta eles brigaram e…

Pra encurtar a história: o cara brigou com a namorada e foi dar um rolê. Ela juntou as roupas dele num saco pra expulsar ele de casa e foi visitar o irmão. Ele voltou pra casa, não achou ela nem as roupas dele e achou que ela tinha ido pra Bauru, cidade natal dele, levar as roupas dele embora. Falou isso pra prima dela, pegou a moto pra ir atrás da mina e… morreu em um acidente na Berrini.

A família dele não deixou a mina ir nem no velório nem no enterro. 

Bizarro, simplesmente bizarro.

O Munição às vezes parece uma maldição que nunca vai nos abandonar.

Ficam aqui os pêsames pela morte de uma das maiores lendas da minha vida. 

E da vida de todos da banda.

Que descanse em paz. Provavelmente nosso maior único fã.

Hoje o blog está de luto por ele, que morreu por amor.

Amor que, longe de não valer nada, rende grandes e intermináveis histórias para a humanidade.