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Sobre heróis e ladrões

Aquí en mi celda estoy muy solo
Sólo hay lugar para soñar, soñar, soñar
Sueños de espadas y serpientes
Sueños de muerte y libertad*

Voltava do trabalho, fones nos ouvidos, naquele que é o mais voluntário dos autismos, uma versão moderna do isolamento, como que um monge urbano. De repente uma turba. E parou.

Sacou os fones, e:

- Que houve?

- Ele estava roubando carteiras.

Do lado oposto da rua, dois heróis e um ladrão, este a apanhar e ser seguro por aqueles. E mais dezenas de espectros das dores, a observar.

- Já não bateram o suficiente? Chamem a polícia e pronto! – bradou algum.

- Se é ladrão tem que matar. Tem que matar todos – outro – ou seria a televisão a reprisar o Rio de Janeiro?

Do lado de lá, a cena.

O batedor de carteiras, já homem feito, tentava desvencilhar dos braços do herói vermelho, enquanto o herói azul lhe apontava o dedo, em riste. Todos a esperar, pela lei.

Que chegou em seus tons de cinza, calmamente, a interrogar, o ladrão e os heróis, todos. O herói vermelho ainda a segurar o ladrão, olhos vibrando de satisfação pelo serviço à sociedade, e o azul ainda a lhe bradar pela moral.

No ladrão, via-se, a dor. Não das pancadas, que essas devia já ter acostumado, mas do espetáculo. Do circo. Da transformação de marginal em protagonista. Da humilhação pública.

A lei, calmamente, a interrogar.

Era melhor voltar a ser invisível – ele, e o ladrão, também.

Apalpou a carteira pensando que não queria, não com ele, voltou aos fones, e, curiosamente, viu que a música era como que profeta. Daquilo, e de todo o resto.

Então teve vontade de chorar. De sumir. De vomitar.

Porque – soube pela música – odiamos o cambista, e não o lucro; o flanelinha, e não a venda do espaço; o ladrão, e não a propriedade.

Puta que o pariu, como queria conseguir permanecer alheio.

Sábios fones, aqueles.

Malditos fones.

*Attaque 77 – Espadas y Serpientes

Centro em chamas

Estou mudando de casa e hoje fui limpar o apartamento novo, que fica no prédio em frente.

Aproveitei pra trocar o segredo da fechadura.

Deixei no chaveiro ali em frente aos Correios da São João e, quando fui buscar, notei algo estranho: todos os homens e mulheres de rua daquela região do centro estavam juntos na frente da agência.

Primeiro achei que estavam planejando alguma coisa, talvez um protesto, depois vi que estavam mesmo é tensos com o redor.

O chaveiro, que tinha esquecido de fazer o meu trampo, começou a fazer ali na hora e, enquanto eu esperava, entrou uma tiazinha já conhecida dele e fez uma piada com os moradores de rua.

O que se seguiu foi um pito monstruoso do chaveiro.

Ele disse pra tiazinha que era fácil brincar, mas que “a comunidade ali do bairro” estava fazendo protestos contra aquilo. Porque não aguentavam mais a Polícia empurrando eles de um lado pro outro ali na farsa da “Nova Luz”, e queriam uma solução digna pra todos. Começou a tirar jornais e flyers noticiando e chamando pra manifestações. Disse que outro dia o comércio todo ali da região fechou as portas em protesto no meio da tarde e fez passeata.

Aí os dois ficaram discutindo, a tiazinha falando “eu alcancei meu sonho trabalhando, ninguém me deu nada, a prefeitura não tem dinheiro pra dar casa e comida pra essa gente” e o chaveiro anarquizando no “isso porque a senhora acredita na prefeitura, tem muita cidade americana que inveja o caixa que o Kassab tem, ele gasta bilhões naquela ponte ali da Berrini e deixa esse povo todo na miséria” e eu só de canto de olho nos jornais e de ouvido na conversa, pensando “eu bem que desconfiava da boininha che-guevárica que esse chaveiro sempre usa”.

Eu não tava sabendo de nada, só do fechamento das portas porque minha ex me falou, mas ela também não sabia o porquê daquilo. Parece que a TV tem passado reportagens sobre a cracolândia, que a tiazinha disse “que tem a 1 e a 2, eu vi no Datena”, e que por isso a prefeitura fica mandando a polícia empurrar os moradores de rua pra lá e pra cá.

O chaveiro dischavou (hehehe) a tiazinha até não poder mais, só no “é por isso que o Brasil é assim, ninguém sabe viver em sociedade, tem que se ajudar, essa gente tem problemas, eles também tem os sonhos deles assim como eu e a senhora”, e a tiazinha na lenga-lenga do “eu trabalhei pra ser o que sou e eu vou é mudar daqui, quem tem que fazer alguma coisa é o pessoal que vive aqui desde que nasceu, eu tô aqui só há um ano”.

Acabei voltando pra casa com a cabeça da tiazinha numa bandeja um recorte de jornal e um flyer da manifestação que rolou, e no ponto de ônibus que fica na praça da São João ali entre a Aurora e a Vitória que eu sempre esqueço o nome estavam aqueles agentes da prefeitura que limpam as ruas com aquelas mangueiras de jato ultra-forte, de cara amarrada, pouco se fodendo e molhando todo mundo no ponto, meio que numa vibe “tenho que limpar essa merda dessa praça nesse frio porque essa porra desses mendigos ficam sujando”. O recorte de jornal tinha uma foto com uma faixa onde podia-se ler “DESTINO DIGNO JÁ À POPULAÇÃO DE RUA – CADÊ O CONSELHO TUTELAR???”.

Segue abaixo a transcrição ipsis literis do chamado pra manifestação que rolou, com as partes que me chamaram a atenção em negrito:

“COMUNICADO

MORADORES – PROPRIETÁRIOS – FUNCIONÁRIOS

Você que mora na Rua dos Gusmões – Av. Rio Branco – R. Timbiras – Av. São João e adjacências, convidamos para uma manifestação, nesse quadrilátero, dia 28/07/2009 às 16:00 horas – terça-feira.

Nessa manifestação, o qual deverá durar 1 (uma) hora, em caráter pacífico e sem envolvimento político partidário, NÓS, cidadãos que conhecemos os problemas sociais existentes aqui, devemos dedicar um pouco de nosso tempo, enriquecendo-o com idéias, sugestões e atuar como um canal de negociação entre a comunidade e o poder público, para cobrar soluções e tornar a região mais agradável, valorizando assim, sua história e ocupantes.

Vamos fechar as portas de nossos comércios, apartamentos e sair às ruas ou permanecer em frente aos nossos estabelecimentos com faixas, apitos ou cartazes de cartolinas com reivindicações, em busca de melhor qualidade de vida em NOSSA REGIÃO!!!

VENHAM!!!

“ARREGACEM AS MANHAS E VENHAM TAMBÉM FAZER A DIFERENÇA!!!!!!”

Informações/ sugestões comunidadesantaefigenia@yahoo.com.br ou (11) 85128198 Rita”

Melhor que o Viva o Centro, com certeza.

E, aproveitando o post anterior sobre os af(r)etados neo-Cansei da Marginal Pinheiros esquina com a Berrini, uma iniciativa muito melhor e mais profunda no sentido de pensar o problema como um todo e não só quando a água bate na bunda.

É só comparar:

“A gente não quer empurrar eles pros vizinhos, não. Três anos atrás o pessoal ali do fundo se manifestou e a prefeitura tirou eles de lá e mandou pra cá. A gente não quer fazer a mesma coisa, a gente quer solução pra eles, eles estão na maioria doentes, vivendo na rua, não queremos que sumam com eles, queremos que eles tenham dignidade”.

(Chaveiro indignado, Santa Efigênia)

“A gente não é favelado nem estudante da USP. A maioria aqui votou no Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

(Robson Estevão Baptista, adminitrador de website(?), Movimento dos Sem-Fretado da Berrini)

Colocando a classe média no lugar

Classe média: gente que pensa e age como rico, mas recebe como pobre, se auto-negando, assim, duas vezes.

Geralmente culpada por todos, inclusive eles mesmos, pelos males do mundo.

Gente que não sabe educar suas crianças e que gosta de dar risada do povão que tem que pegar ônibus.

E que, quando tiram seus privilegiozinhos, fica atacada.

Agora, com essa lei dos fretados, colocaram os almofadinhas na mesma situação do povão, tendo que se foder pra pegar transporte coletivo.

Não que eu ache isso bom, melhor seria transporte decente e gratuito pra todo mundo, claro, mas não deixa de ter uma certa justiça poética.

Aí, essa gente, que não tem a mínima noção do que é um protesto coletivo ou do que é se organizar pra conseguir algum direito, mostra a sua cara sem pudor algum.

Vejam as pérolas que a situação provoca, em negrito:

Passageiros de fretados fecham marginal

No 1º dia da restrição, usuários com dificuldade para embarcar bloquearam também as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet

PM e CET tiveram de intervir para liberar as vias no horário de pico do trânsito, mas não houve confrontos; uma pessoa foi detida

Usuários de ônibus fretados protestam na marginal Pinheiros

DA REPORTAGEM LOCAL
DO “AGORA”
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O primeiro dia de restrição aos ônibus fretados terminou ontem com protestos e algumas das principais vias de São Paulo fechadas em pleno horário de pico do trânsito.

A marginal Pinheiros e as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet foram interditadas no final da tarde por passageiros dos fretados que enfrentavam dificuldades para embarcar. Não houve confrontos, mas uma pessoa, que estava no protesto na av. dos Bandeirantes, chegou a ser detida -foi liberada por volta das 20h.

De acordo com dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), ontem à tarde, apesar dos fechamentos de vias, o congestionamento médio foi menor do que em outras segundas.

Na Ricardo Jafet, por exemplo, o mapa da CET, órgão da Prefeitura de São Paulo, não apontava congestionamentos.

Em nota, a prefeitura e a Secretaria de Transportes atribuíram os protestos a “uma postura intransigente de setores que se recusam a cooperar”.

A previsão para hoje é de novas manifestações. Ontem, passageiros de diferentes linhas combinavam um “apitaço” na marginal Pinheiros.
O veto ao tráfego de fretados decretado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) vale de segunda a sexta, das 5h às 21h, em uma área de 70 km2.
A restrição inclui os centros financeiros das avenidas Paulista, Brigadeiro Faria Lima e Luiz Carlos Berrini.

Pistas fechadas

A PM e fiscais da CET tiveram de intervir nos três locais de protestos, mas encontraram resistência maior na manifestação da marginal Pinheiros, que durou quase duas horas.

As nove pistas, no sentido centro, chegaram a ser interditadas por 25 minutos. Depois, os passageiros concentraram-se nas faixas locais.

A reportagem presenciou o momento em que os próprios passageiros, irritados com a demora e a desorganização para embarcar, entraram na pista e pararam o trânsito, formando uma longa fila de fretados, ônibus municipais e carros.

Na Ricardo Jafet, em frente à estação de metrô Santos-Imigrantes, os manifestantes fecharam a pista sentido centro a partir das 18h10. O trânsito só foi liberado às 18h45.

Um homem que se identificou como Renato e se disse motorista desempregado pela medida da prefeitura chegou a simular um atropelamento para fechar a única faixa que a polícia e a CET conseguiram manter liberada.

Ele ficou cerca de cinco minutos no chão, mas saiu correndo quando percebeu que o motorista do ônibus que supostamente o teria atropelado iria ser interrogado pela polícia.

A invasão da pista, incentivada pelo mesmo Renato, começou após um grupo de cerca de mil pessoas se juntar na frente da estação para aguardar a chegada dos ônibus. Na avenida, uma fila de fretados aguardava a vez de encostar para pegar os passageiros -ao menos 200 passariam pelo local.

Aos gritos de “fretado, fretado”, um grupo invadiu a pista da avenida.

Kassab chegou a ser xingado, em coro.

No meio da confusão, a auxiliar administrativa Cinthia Mochida, 32, perdeu dois ônibus com destino a Santo André (Grande São Paulo), onde mora. “O Kassab prometeu não aumentar a passagem de ônibus e agora quer dinheiro dos passageiros dos fretados”, disse ela, que ontem teve que pegar metrô e ônibus para chegar ao escritório, em Perdizes.

***

Protesto na marginal une gerentes, secretárias e analistas

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Foi o protesto dos gerentes de marketing, das secretárias executivas, dos analistas financeiros e de RH. O que se viu ontem por volta das 18h, interrompendo o trânsito na via de acesso para a marginal Pinheiros, altura do Brooklin (zona sul), tinha aparência bem diferente do típico militante de passeata. Em vez de barbas por fazer, eram homens bem escanhoados, vestindo ternos. As mulheres, em cima de saltos 5, usavam tailleurs. A polícia, chamada para restabelecer o fluxo do trânsito, ficou de olho, perfilada, mas não encostou um dedo no pessoal corporativo.

“A gente não é favelado nem estudante da USP”, disse o administrador de website Robson Estevão Baptista, para explicar a inação da PM. “A maioria aqui votou no [Gilberto] Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

Ruth Silva, analista de recursos humanos, trabalha há mais de dez anos na avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, um dos polos financeiros e de serviços de São Paulo, vizinha dali de onde ocorreu o protesto. Moradora em Santana, na zona norte da cidade, ela demora em média uma hora para fazer o percurso casa-trabalho. Ontem, demorou duas horas.

“É uma palhaçada. Os usuários dos fretados são aqueles que sempre chegam na hora, faça chuva, faça sol, tenha greve de ônibus ou de metrô. E é essa confiabilidade que o prefeito Kassab quer que a gente perca.”

Empregos

Segundo a profissional de RH, muitas empresas da região da Berrini preferem candidatos ao emprego que declaram pretender usar ônibus fretados. “Agora, com a confusão que eles criaram, o que era um fator a favor, está se tornando contra. Quero ver qual a empresa que se disporá a contratar alguém de Guarulhos ou de São Bernardo, sabendo que esse profissional ficará à mercê do transporte coletivo comum e do trânsito de São Paulo. Até na empregabilidade essa lei ridícula vai influir.”

“Fretado! Fretado!”, chegou, gritando, Isilda Scabacino, profissional de marketing. Moradora em Santo André, ela paga R$ 250 mensais para ir e voltar ao trabalho todos os dias. Antes da restrição ao tráfego dos fretados, a viagem de ida demorava duas horas. A de volta, outras duas. Ontem, foram 3,5 horas para ir. Ela chegou atrasada.

À tarde, a profissional de marketing esquadrinhava a fila de ônibus fretados no meio da via de acesso à marginal. Procurava o dela, mas nem sinal -e ele estava atrasado duas horas.

O protesto começou porque todos os ônibus que servem o pessoal da Berrini, em vez de recolherem seus passageiros em vários pontos, como ocorria antes, foram concentrados em um único local, na rua Guilherme Barbosa de Mello.

Só que o tal “bolsão” -pequeno para a demanda- logo ficou lotado. Os fretados, que chegavam para recolher seus passageiros, não conseguiam estacionar. Os que, já tendo feito o embarque, tentavam sair do bolsão, não o conseguiam. Ficavam presos no trânsito intenso da marginal.
“Você acha que está ruim agora? Espera o fim das férias escolares. Aí sim, ninguém conseguirá embarcar”, desafiava Regina Cassia Agustini, do setor financeiro de uma empresa da região da Berrini.

À bengaladas

Recebi pelo email institucional. Obviamente, troquei o nome dos envolvidos e dos locais.

Sao Paulo 23 de Abril de 2009. Boa noite Gostaria de parabenizar o Sr João José, funcionário da Agência XXXX - Sao Paulo – XXXX. Após varias tentativas de resolver minha situação na agência acima, hoje fui preparado para ser
preso por agressão,
estava decidido a armar o maior barraco na agência, pois sempre encontrei funcionários que me tratavam com total arrogância e desrespeito, logo ao entrar na agência perguntei quem era o responsável no setor (pois estava decidido a agredir o mesmo com minha bengala), ao chegar esbravejando (esperando o momento certo para agressão) fui prontamente acalmado com as palavras tranqüilizadoras e com a indignação do ocorrido, logo se levantou foi de uma sala para outra e veio com mais uma promessa de que resolveria meu problema em 02 dias. Agradeci e sai da agência com vergonha da minha intenção, acho que os funcionários não são culpados, pois falta treinamento para atender o publico, sugiro que o Sr João José de treinamento aos companheiros, pois ele e um funcionário exemplar. Parabéns pelo seu excelente trabalho Sr João José. Vou aguardar ate 27 de Abril certo que o Sr João fará o possível para resolver meu problema. Obrigado.

Você que é o Corinthians? ou O coração da metrópole

Dez minutos atrás, estou almoçando pizza em pedaço.

Quase no fim do último pedaço, um gordinho de azul senta do meu lado com seu amigo e fica me encarando.

Não dou bola. Ele levanta, olha pra mim e pergunta:

- Você que é o Corinthians?

- !?!? …oi???

- O Corinthians, que passou na RedeTV?

- É… sou eu.

- Também sou Corinthians, mano!!!

O amigo não entende, ele explica baixinho:

- Ele assinou Corinthians no RG.

O amigo sorri.

Levanto, rápido, que a pizza acabou mas a vergonha não, e me vou, tomando o resto da Coca-Cola.

Não sem antes dizer:

- Domingo “é nóis”, hein?

- É nóis, família!

Somos todos Corinthians, independentemente de ter um pedaço de papel escrito isso ou não.

***

Três minutos depois, voltando ao trabalho, um moleque de rua gordinho na Conselheiro Crispiniano levanta e vem na minha direção.

Estende a mão, cara de bravo, em direção à minha Coca. Ele não tem um braço.

- Vai, mano, dá essa Coca aí.

Meio perplexo e meio puto, paro, olho nos olhos dele e digo, com aspereza:

- Vamos com calma aí? 

O  moleque meio que se assusta e se rende, quase se desculpa:

- Vamos com calma. É que eu tô na maior neurose…

- Tranquilo. O lance é ter respeito, dos dois lados. Toma aí – e dou a Coca ainda pela metade pra ele.

- Valeu.

Almoçar – e viver, e trabalhar – no centro de São Paulo é sempre imprevisível, errante, quase uma aventura.

Cheia de situações complicadas como essa.

Dá pra falar em certo e errado? Politicamente correto, incorreto? Sentir culpa, dó, qualquer merda?

Só sei que eu dei a Coca não por ele ser um moleque de rua, nem por não ter um braço. Mas porque ele topou olhar nos meus olhos e trocar idéia, mesmo que tenham sido 10 segundos de idéia.

Aqui, no coração da metrópole, a gente aprende a desentupir as artérias um pouco a cada dia.

Cuecas de marca

Não é de hoje, nem de depois da crise financeira, que o comércio ambulante em São Paulo cresce a passos largos.

É quase impossível sentar num barzinho na Vila Madalena ou na Augusta sem ser abordado por vendedores de flores, de trufas e de DVD’s – o que pode acabar sendo uma boa saída pra quem passa da hora e deixa a mulher em casa, porque o trio combinado gera uma arma e tanto:

- ONDE VOCÊ TAVA?

- Calma amor, hic… olha… hic… trouxe bombons e… hic… flores pra você.

Se não der certo, sempre dá pra apelar usando a carta do “e-ainda-comprei-um-DVD-romântico-pra-assistirmos-juntinhos”.

Mas ontem, quando fui a um bar na cada vez mais classe média alta Vila Romana comemorar os 88 anos de minha avó, não esperava encontrar ambulantes.

Pouco tempo depois de escolher a antropofagia e pedir uma porção de mandioca, já que vegetarianos não se dão bem em relação a petiscos de bar e que eu não queria ser paulista-mêo igual ao resto da mesa que havia pedido “dois pastel e um chopps”, eis que aconteceu.

- Olha a trufaaaa! A trufaaa! Tem de maracujá-côco-cereja, alguém vai quereeer?

Ninguém quis.

Não muito depois, o segundo ambulante teve mais sorte, apesar do enunciado horrível.

- Olha o DVD, nacional e internacional, SÓ FILÉ.

O sogro da minha irmã resolveu presentar o filho com DVD’s nacionais, já que ele está na Austrália (pra onde minha irmã volta hoje) e por lá é difícil encontrar filmes brasileiros – o que na maioria das vezes não faz grnde diferença dadas as merdas produções ruins que rolam por aqui.

Só faltavam, portanto, as flores. E pra não dizer que não falei delas, chegou o terceiro ambulante.

Uma senhora de mais de 60 anos.

Só que ela não carregava buquês, e sim uma sacolinha.

Se aproximou exatamente do meu lado da mesa enquanto eu discursava sobre a empáfia do jogador do Colo-Colo que colocou na camisa o apelido, “Chamagol”, ao invés do nome (é como se Ronaldo colocasse na sua “Fênomeno” ao invés de Ronaldo) e soltou:

- OLHA A CUECA DE MARCA!

O mundo parou.

Pensei estar por um instante num episódio do Hermes e Renato. 

Perdi a fala.

A sogra da minha irmã, meio que não querendo acreditar no que tinha ouvido, disse:

- O quê? Torta de marca?

A senhora, que já havia percebido que ninguém compraria nada, nem respondeu.

- Ninguém quer, né? Tudo bem.

E continuou seu caminho.

Sem saber se ria ou chorava, a mesa se entreolhava, meio chocada.

Respondi à sogra, meio sem certeza: 

- Não, CUECA de marca… é isso né?

- É… – várias vozes trêmulas retrucaram.

Cuecas de marca.

Nunca na minha vida me imaginei em uma situação onde uma senhora de mais de 60 anos me ofereceria cuecas de marca.

A divagação coletiva sobre o acontecido só não continuou muito mais porque Chamagol resolveu chamar um gol na sua primeira participação no jogo e aí o papo voltou pro meu encontro causal com torcedores do Colo-Colo horas antes – o melhor presente da noite segundo minha avó.

Horas mais tarde, em casa, pensei que até que não era má idéia vender cuecas de marca na noite paulistana.

Um ótimo quarto elemento pro trio trufas-flores-DVD’s.

Como que um D’Artagnan para Athos, Porthos e Aramis.

Porque se por acaso o rapaz da situação do começo do post não se safar nem com o filme romântico, se ele tiver feito besteiras que sua cueca possa sinalizar, está ali o perfeito porto seguro pra uma pulação de muro sem pistas: é só trocar de cueca.

Então, cuecas de marca.

E aí, quem vai querer?

Curtas II

É, enquanto a Grécia não manda mais notícias e eu não tenho inspiração de verdade pra novas historinhas da Beth, vamos de curtas novamente.

Até porque é fim de ano e as boas histórias acumulam rápido, rápido.

Boça strikes again

Estou na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, aquela coisa enorme e modernosa, tentando escolher um livro pra minha mãe de Natal.

Na mão tenho um Milan Kundera e um Ítalo Calvino. Estou quase percebendo já que ambos seriam presentes bons pra mim e não pra ela e desistindo de livros quando Boça – ele! – ataca de novo aos meus ouvidos:

- Mêêêo, muinto lôca essa livraria, mêo. Acho que é a melhor livraria do mundo! Nenhum outro país tem uma livraria dessa.

E eu fui embora sem livro e feliz por ser pelo menos metade carioca.

Trabalho

Eu e a minha Robofoot estamos à porta do consultório médico no trabalho esperando pra fazer perícia. Outras duas funcionárias também estão lá. E elas começam a conversar.

- Mas vou te dizer, esse povo é folgado. Quer ver que amanhã vai ter segurado na agência ainda?

- É, é complicado. E quando eles saem do consultório e falam que não entenderam o que o médico disse? E eu que vou saber?

- Ah, é tudo pilantra. Se eu fosse presidente, esse auxílio-reclusão aí, eu cortava na hora. Ficar pensando que a família do detento tem que comer? Porque ele não pensou nisso na hora que matou e roubou? Tem é que morrer de fome mesmo.

- É,  pior são esses auxílios pra idoso. É tudo pilantragem. O povo fica acostumando com essas bolsas leite, bolsa escola, aí fica vagabundeando mesmo em casa.

Eu vou parar por aqui porque meu cérebro preferiu apagar o resto da conversa para o bem do meu estômago.

O governo dá dinheiro PRA BANQUEIRO e as mulheres reclamando que o povão pobre, fodido e ainda por cima DOENTE é “pilantra e vagabundo”.

Declarando a todos os ventos que atendem estes como se fossem lixo.

Eu sei que não deveria mais me assustar com isso, mas porra, eu queria sair dando bicudas robofooticas na cara das duas. 

E não dá nem pra culpar a idade: uma era velha e a outra nova.

Vou te dizer, a queda do 15º andar onde estávamos não seria castigo suficiente pra esse tipo de traste.

25 milhões de março

Peguei um ônibus ontem que passou paralelamente à 25 de março.

Vou te dizer: CARALHO, QUANTO GENTE.

O mundo precisa de algum tipo de epidemia urgente.

Peste negra, febre amarela, peste bubônica, qualquer dessas serve.

Porque nem em final do Corinthians me senti tão apertado. E olha que eu tava no ônibus, de fora, só olhando.

Imagina lá no meio…

Troco

No mesmo ônibus, o cara, que ainda não passou a catraca, vira pro cobrador meio fanho e fala:

- Você não quer trocar três reais não?

Eu entendi que ele queria trocar as 6543634 moedas que tinha por uma nota de dois e uma de um.

Mas o cobrador achou que ele estava pagando a passagem.

Só sei que quando eu desci do ônibus a conversa entre os dois ainda era:

- Olha só, eu te dei três reais, você me devolveu só 0,70.

- Mas a passagem é 2,30 mesmo.

- Não, mas eu queria trocar o dinheiro, não pagar. Eu tenho bilhete.

- Ah, agora já passei o bilhete…

Como diz  meu pai, comunicação é tudo.

Robofoot II

Quando eu acabar de usar a Robofoot no pé direito vou ter que passar ela pro esquerdo.

Porque, putapariu, essa merda tem um ferro que TODA HORA bate no calcanhar do outro pé quando eu ando.

Tá, a culpa é da minha falta de coordenação motora, mas mesmo assim, que merda.

Tô tendo que usar um naco de borracha dentro da meia pra evitar novas pancadas.

Ordem e caos

Aqui na São João entre minha casa e meu trabalho tem uma tiazinha meio doida que grita com os ônibus, os passageiros, os pedestres e tudo.

Eu ia escrever sobre ela, mas um amigo fez isso antes, então eu colo abaixo o texto dele, que é bom demais:

“Fazia já uns 4 meses que eu tava escutando uns gritos aqui no meu escritório, vindos da rua. Era uma voz de mulher, berrando coisas incompreensíveis, sempre na parte da tarde, do meio-dia às seis. 

Eu achava que era alguma coisa de nigeriano, funk, travesti ou pivete, tipos urbanos que dão rolê aqui na minha vizinhança. 

Até que um dia, encafifado, resolvi dar um rolê pra ver de onde vinham os gritos. E achei a origem na Av. São João, logo atrás do meu escritório. Pra ver o volume do bagulho: no centrão, uns cem, duzentos metros de distância, dez andares de altura, eu escuto a gritaria. 

E a gritaria vem de uma tia, uma mendiga negona, que fica no ponto de ônibus na pracinha da São João logo atrás do meu escritório. A tia vai e vem no ponto, gritando com as pessoas, com os ônibus, com os carros, com as estátuas, com tudo. 

Curiosão, me aproximei pra tentar distinguir o que a tia gritava, e era tipo uns chamamentos de atenção, umas broncas em tudo, a tia funcionava como um Jorel da rua, um fiscal do Sarney dos pedestres, veículos e estátuas, chamando a atenção das pessoas e coisas, dos elementos e gases, dos vapores e líquidos, botando ordem nas coisas, uma ordem imaginária, que existe apenas na sua cabeça e que não obedece às leis da química, da física e da matemática. 

Cheguei mais perto, pra ver se a tia me dizia alguma coisa, me incluía na condução do caos urbano que ela tentava em vão ordenar. Pensei que ela podia dizer algo como “AÍ GORDINHO, FICA DE BESTEIRA PARADO NA CALÇADA? SE NÃO VAI PEGAR BUSÃO SAI ANDANDO!” ou “NÃO ACHA QUE TÁ NA HORA DE TOMAR VERGONHA NA CARA E PERDER ESSA PANÇA, MANO? OS PEDESTRE TÃO DANDO A VOLTA PRA PASSAR DO TEU LADO E ISSO TÁ ZOANDO ESSA CALÇADA!” 

Mas a tia não prestou atenção nimim. Tava ocupada gritando com um busão bi-articulado e depois voltou sua atenção prum cachorro que inventou de atravessar a São João ao lado dela, fora da faixa. 

Aí ela virou pro meu lado, e eu vi. Vi a razão da sua loucura, o motivo da sua raiva, o fundamento da sua dialética do nonsense: a tia era barbada. E pior, a barbinha dela fazia uma trança no queixo, tipo um faraó. O bagulho era grande, acho que uns dois ou três dedos, rivalizando e ganhando de uns 6 ou 7 cantores de new-metal. 

Chocado com a constatação, humilhado pela superioridade capilar dela, e constrangido por não ser notado nem pela mendiga barbada, saí andando. 

E enquanto teclo essas linhas aqui no meu escritório, ainda ouço a tia barbada gritando lá na São João. Hoje é ante-véspera de Natal, amanhã acho que ela não vem “trabalhar”, então acho que tá compensando o tempo, acumulando num banco de horas imaginário. 

Vai, tia barbada! Põe ordem na São João! Põe ordem nesse caos!”

por Ruy Fernando

Ele só esqueceu de dizer que além da barba ela tem vitiligo em volta da boca, o que contribui para sua aparência, digamos, única.

Os bichos e a porta II

Além do judô noturno que os bichos lá de casa promovem todo dia, como eu contei no outro post, a porta de casa ocasiona outra relação bastante peculiar com eles.

Acontece que quando fomos levar a Preta pra passear pelas primeiras vezes, pensamos “porque não levar a Branca também? Gato também é gente”.

E ela foi toda faceira numa daquelas bolsas de pano pra transportar gato com a porta aberta, feito um gato egípcio. E nunca pulou da bolsa.

Só que aí, agora, toda vez que vamos levar a cachorra, a gata quer ir também.

E fica miando DESESPERADAMENTE na porta da hora em que saímos com a cachorra até a hora em que voltamos.

E fica pulando nas chaves no meio do dia, como que dizendo “quero passear porra”.

E corre porta afora quando vamos tirar o lixo, no melhor estilo “livre! livre! LIVREEEEE!” até chegar na porta do elevador e não saber o que fazer.

É, gente.

Democracia com animais dá nisso.

Camping

A política do grande queridão Kassab está trazendo todos os mendigos da cracolândia pros arredores da São João.

Ele deve achar que os homens de rua somem se você tira eles de um lugar.

E aí agora todo o comércio alimentício ambulante da região, que não é pouco, entra em conflito com eles. Eu outro dia comprei uma pizza brotinho pra levar pra casa lá na 24 de Maio e tive que pensar bem o caminho e a estratégia pra conseguir chegar com a pizza em casa – porque se algum deles pedisse, eu não ia conseguir negar.

Só espero que isso não acabe dando nisso.

Aliás, caralho, ainda não consegui esquecer esse vídeo.

Ainda bem.

Cartão de natal

É simplesmente impossível encontrar um cartão de Natal não-barango no centro.

Até aqueles fofinhos de bichinhos são estragados com alguma frase ridícula dentro.

É pedir demais encontrar cartões em branco?

Parece que meu amigo secreto vai ficar só com o presente mesmo.

Papel picado

E falando em centro e Natal, ontem alguém teve a brilhante idéia de jogar papel picado do último andar da Galeria do Rock.

MUITO papel picado.

Pra desespero da tiazinha terceirizada da limpeza da C&A, que lutava com sua vassoura são-jórgica contra o papel que o vento e as pessoas insistiam em levar pra entrada da loja.

Enquanto isso, pedestres super preocupados diziam “é por isso que dá enchente nessa merda”.

E nove passos depois atiravam o papel de seus chocolates no chão.

Taxista macabro

Fui voltar da casa dos meus pais ontem à noite  e a minha mãe fez questão de que eu fosse de táxi – afinal, “já” era meia-noite e eu estava de Robofoot.

Aí peguei o táxi e a conversa inevitável com o taxista já começou com ele mandando bem. 

Olhou pro meu pé e disse:

- E aí, chutou a namorada?

OK, ele tentou fazer uma piada entre a Robofoot e a expressão “chutar a namorada”, só que ela foi tão ao pé da letra que eu pensei em chutar literalmente, e já segurei o riso.

Aí fomos conversando de futebol, ele me contando que era goleiro do segundo quadro do time do Banco Itaú de futsal, eu falando do Autônomos, ele me mostrando os dedos quebrados.

Até que chegamos na rua paralela ao Terminal Amaral Gurgel que eu nunca lembro o nome e que é mais conhecida por ser a rua onde mora José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Comentei isso com o taxista.

Eram meia-noite e quarenta e três minutos.

Ele virou pra mim, uma luz vermelha acendeu dentro do táxi, seus dentes incisivos cresceram e gelo seco começou a subir. 

Ele disse:

- Eu já participei de dois filmes dele.

Medo.

- Quais?

- Uns bem antigos, garoto…

Garoto. Não bastasse a palavra rimar com maroto, a expressão dele foi completamente… marota.

Pra não dizer macabra.

Sorte que minha casa fica dois minutos depois disso.

E sorte que não era meia-noite pra ele encarnar no meu cadáver.

Caminhão

E pra fechar o dia, desço do táxi e um caminhão daqueles que carrega caçambas está tentando estacionar em frente ao meu prédio.

Com, ao que parecia, um motorista bêbado descordenado.

Deu ré a primeira vez e a placa de trânsito que manda todos seguirem em frente entortou e ficou quase paralela ao solo.

Deu ré a segunda vez e a placa com o nome da rua passou raspando do mesmo destino.

Aí um cara que estava pela rua foi lá gritar com ele pra prestar atenção.

Não parecia que ele estava entendendo muito.

O que se confirmou quando na nova tentativa de dar ré a placa de trânsito ficou definitivamente paralela ao chão.

Maravilhoso.

Um milagre de Natal

Se um dia eu for levar meus filhos a uma igreja, o que só vai acontecer se Jesus aparecer em carne e osso na minha frente e disser “truta, leva os moleques agora ou vai todo mundo lá pra baixo”, vou levar nessa aqui.

Porque, vou te dizer, nada melhor pra fazer crianças acreditarem em algo que não existe (deus) do que ser pragmático e destruir a crença delas em algo que também não existe (Papai Noel).

Será esse o início de uma nova linhagem de padres materialistas?

Imagina só, a Bíblia numa mão e o Capital na outra…

Mundo lixo

Dez mil anos de humanidade pra chegar a isso.

Eu juro que teria orgasmos múltiplos de pegar um filho da puta que faz isso e quebrar osso por osso do corpo dele antes de atear fogo.

Juro.

Mas aí, é Natal, e o Corinthians contratou Ronaldo.

Então, vamos comprar presentes.

Sem mendigos nas portas das lojas pra atrapalhar o comércio.

Negra polêmica

Depois da pequena polêmica do último post, que na verdade sempre surge quando se fala em “povo”, vamos lá.

A Fórmula 1 é uma merda. Admito que quando criança eu gostava por causa do Senna (e do Prost, e do Berger e PRINCIPALMENTE do Mansell com seu bigode INCRÍVEL), mas depois que cresci – e adquiri meu desgosto por automóveis que me faz não ter nem carta de assassino em potencial motorista – nunca mais acompanhei.

Ontem, estava com meus pais na casa deles. A corrida estava na tela. Durante 4/5 dela, conversamos sobre inúmeras outras coisas e nem prestamos atenção naquela extrema CHATICE. No finalzinho, houve o que houve, e eu decidi escrever o texto.

Feito no calor do momento, talvez algumas coisas não tenham ficado claras. Vamos a elas.

1 – Sendo a Fórmula 1 uma merda, torcer para qualquer um dos pilotos é igualmente merda. Porém, como toda pessoa acompanhando uma disputa, para mim, entre as duas merdas, Hamilton é menos cocozento.

2 – “Povo” não passa de um falso conceito retórico, sendo na realidade não mais que uma alegoria para mascarar a pobreza: imensa maioria miserável ou quase, onde a maior parte é negra ou quase.

Então, se escrevo que Hamilton é “muito mais povo” que Massa, quero dizer que ele é uma imagem muito mais próxima do que se entende por “povo” do que o massa, por suas origens étnicas e sociais.

Ou, pra fazer um trocadilho legal, a imagem de Hamilton é mais massa que Massa.

Agora, hoje, o cara é um playboyzinho igual a todos na Fórmula 1.

Igual ao que Senna era, aliás.

E pra mim, em esporte de rico, pobre não deveria bater palmas, e sim atirar pedras.

Então, não, não acho o Hamilton povão – nem o Felipe (goleiro do Corinthians), aliás – até porque essa discussão sobre “povo” é CHATA PRA CARALHO e já parte de um erro inicial, porque passa por admitir que povo é um conceito quando – pra mim – não é.

Assim sendo, entre o playba branquelo arrogantezinho e o playba negão arrogantezão, numa falsa escolha onde as duas opções são uma merda, fiquei com a segunda.

Simplesmente porque me é mais simpática – foda-se a sua nacionalidade. Assim como na minha cabeça torta um negão da periferia deveria ser mais simpático ao Hamilton do que ao Massa.

E assim que a corrida acabou e o texto foi postado, liguei o rádio, coloquei um Bob Marley e gritei pela janela:

VAI JAMAICA!

HOJE SIM! HOJE SIM… hoje não!?*

Última prova.

O Brasil vê a chance de comemorar um título depois de 17 anos do bi-campeonato de Ayrton Senna.

É difícil, mas o povo crê.

O mesmo povo “pobre e sofrido” que os cinemas adoram retratar lá fora.

O adversário (inimigo!) é inglês.

Negro, jovem, filho de imigrantes.

O extremo oposto da própria Fórmula 1.

E do brasileiro, que larga em primeiro – o inglês sai, inesperadamente, somente em quarto.

A corrida segue sem sustos ou emoções. Daquelas de dar sono. A única variável emocionante é a chuva, que vai e vem.

E que resolve se tornar personagem a cinco voltas do fim.

A confusão entre carros com pneus para pista seca e carros com pneus para pista molhada faz com que muitos pilotos tenham de retornar aos boxes.

E na dança das posições, o brasileiro segue na ponta.

O inglês é quinto.

Está no limite de pontos que lhe garante o título.

O sexto, colado nele, é o alemão sensação, surpresa do ano.

Com um carro bem pior.

“Não vai dar”, todos pensam.

Mas o inglês, por conta da chuva, havia parado para trocar pneus, e o alemão vinha mais rápido.

E, a duas voltas do fim, faz a ultrapassagem.

Ouço gritos da janela, no abastado bairro de classe média alta em que vivem meus pais.

A tela mostra a torcida em absoluto delírio.

E então entra em campo a velha máxima: os últimos serão os primeiros.

E eis que nela, a última curva, um outro alemão, o quarto colocado, não tem forças pra subir por conta de problemas de tração.

O inglês torna-se quinto outra vez.

E é campeão.

O povo chora a derrota de seu piloto.

Mesmo sendo o campeão muito mais povo do que ele.

E a Fórmula 1, talvez hoje o mais elitista – e branco – dos esportes, segue o caminho do golfe e se curva ao primeiro piloto negro campeão de sua história, fã de futebol e de Ayrton Senna.

Na última prova, o Brasil perdeu para o Brazil.

Ou será que foi o oposto?

*O título é referência à famosa prova do GP da Austria de 2002 onde, por decisão da Ferrari, Rubens Barrichelo teve que brecar para deixar Schumacher passar na reta final, deixando o narrador sem palavras depois de afirmar que dessa vez a escuderia não repetiria tal gesto – narração que ficou famosa na internet.