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Centro em chamas

Estou mudando de casa e hoje fui limpar o apartamento novo, que fica no prédio em frente.

Aproveitei pra trocar o segredo da fechadura.

Deixei no chaveiro ali em frente aos Correios da São João e, quando fui buscar, notei algo estranho: todos os homens e mulheres de rua daquela região do centro estavam juntos na frente da agência.

Primeiro achei que estavam planejando alguma coisa, talvez um protesto, depois vi que estavam mesmo é tensos com o redor.

O chaveiro, que tinha esquecido de fazer o meu trampo, começou a fazer ali na hora e, enquanto eu esperava, entrou uma tiazinha já conhecida dele e fez uma piada com os moradores de rua.

O que se seguiu foi um pito monstruoso do chaveiro.

Ele disse pra tiazinha que era fácil brincar, mas que “a comunidade ali do bairro” estava fazendo protestos contra aquilo. Porque não aguentavam mais a Polícia empurrando eles de um lado pro outro ali na farsa da “Nova Luz”, e queriam uma solução digna pra todos. Começou a tirar jornais e flyers noticiando e chamando pra manifestações. Disse que outro dia o comércio todo ali da região fechou as portas em protesto no meio da tarde e fez passeata.

Aí os dois ficaram discutindo, a tiazinha falando “eu alcancei meu sonho trabalhando, ninguém me deu nada, a prefeitura não tem dinheiro pra dar casa e comida pra essa gente” e o chaveiro anarquizando no “isso porque a senhora acredita na prefeitura, tem muita cidade americana que inveja o caixa que o Kassab tem, ele gasta bilhões naquela ponte ali da Berrini e deixa esse povo todo na miséria” e eu só de canto de olho nos jornais e de ouvido na conversa, pensando “eu bem que desconfiava da boininha che-guevárica que esse chaveiro sempre usa”.

Eu não tava sabendo de nada, só do fechamento das portas porque minha ex me falou, mas ela também não sabia o porquê daquilo. Parece que a TV tem passado reportagens sobre a cracolândia, que a tiazinha disse “que tem a 1 e a 2, eu vi no Datena”, e que por isso a prefeitura fica mandando a polícia empurrar os moradores de rua pra lá e pra cá.

O chaveiro dischavou (hehehe) a tiazinha até não poder mais, só no “é por isso que o Brasil é assim, ninguém sabe viver em sociedade, tem que se ajudar, essa gente tem problemas, eles também tem os sonhos deles assim como eu e a senhora”, e a tiazinha na lenga-lenga do “eu trabalhei pra ser o que sou e eu vou é mudar daqui, quem tem que fazer alguma coisa é o pessoal que vive aqui desde que nasceu, eu tô aqui só há um ano”.

Acabei voltando pra casa com a cabeça da tiazinha numa bandeja um recorte de jornal e um flyer da manifestação que rolou, e no ponto de ônibus que fica na praça da São João ali entre a Aurora e a Vitória que eu sempre esqueço o nome estavam aqueles agentes da prefeitura que limpam as ruas com aquelas mangueiras de jato ultra-forte, de cara amarrada, pouco se fodendo e molhando todo mundo no ponto, meio que numa vibe “tenho que limpar essa merda dessa praça nesse frio porque essa porra desses mendigos ficam sujando”. O recorte de jornal tinha uma foto com uma faixa onde podia-se ler “DESTINO DIGNO JÁ À POPULAÇÃO DE RUA – CADÊ O CONSELHO TUTELAR???”.

Segue abaixo a transcrição ipsis literis do chamado pra manifestação que rolou, com as partes que me chamaram a atenção em negrito:

“COMUNICADO

MORADORES – PROPRIETÁRIOS – FUNCIONÁRIOS

Você que mora na Rua dos Gusmões – Av. Rio Branco – R. Timbiras – Av. São João e adjacências, convidamos para uma manifestação, nesse quadrilátero, dia 28/07/2009 às 16:00 horas – terça-feira.

Nessa manifestação, o qual deverá durar 1 (uma) hora, em caráter pacífico e sem envolvimento político partidário, NÓS, cidadãos que conhecemos os problemas sociais existentes aqui, devemos dedicar um pouco de nosso tempo, enriquecendo-o com idéias, sugestões e atuar como um canal de negociação entre a comunidade e o poder público, para cobrar soluções e tornar a região mais agradável, valorizando assim, sua história e ocupantes.

Vamos fechar as portas de nossos comércios, apartamentos e sair às ruas ou permanecer em frente aos nossos estabelecimentos com faixas, apitos ou cartazes de cartolinas com reivindicações, em busca de melhor qualidade de vida em NOSSA REGIÃO!!!

VENHAM!!!

“ARREGACEM AS MANHAS E VENHAM TAMBÉM FAZER A DIFERENÇA!!!!!!”

Informações/ sugestões comunidadesantaefigenia@yahoo.com.br ou (11) 85128198 Rita”

Melhor que o Viva o Centro, com certeza.

E, aproveitando o post anterior sobre os af(r)etados neo-Cansei da Marginal Pinheiros esquina com a Berrini, uma iniciativa muito melhor e mais profunda no sentido de pensar o problema como um todo e não só quando a água bate na bunda.

É só comparar:

“A gente não quer empurrar eles pros vizinhos, não. Três anos atrás o pessoal ali do fundo se manifestou e a prefeitura tirou eles de lá e mandou pra cá. A gente não quer fazer a mesma coisa, a gente quer solução pra eles, eles estão na maioria doentes, vivendo na rua, não queremos que sumam com eles, queremos que eles tenham dignidade”.

(Chaveiro indignado, Santa Efigênia)

“A gente não é favelado nem estudante da USP. A maioria aqui votou no Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

(Robson Estevão Baptista, adminitrador de website(?), Movimento dos Sem-Fretado da Berrini)

Colocando a classe média no lugar

Classe média: gente que pensa e age como rico, mas recebe como pobre, se auto-negando, assim, duas vezes.

Geralmente culpada por todos, inclusive eles mesmos, pelos males do mundo.

Gente que não sabe educar suas crianças e que gosta de dar risada do povão que tem que pegar ônibus.

E que, quando tiram seus privilegiozinhos, fica atacada.

Agora, com essa lei dos fretados, colocaram os almofadinhas na mesma situação do povão, tendo que se foder pra pegar transporte coletivo.

Não que eu ache isso bom, melhor seria transporte decente e gratuito pra todo mundo, claro, mas não deixa de ter uma certa justiça poética.

Aí, essa gente, que não tem a mínima noção do que é um protesto coletivo ou do que é se organizar pra conseguir algum direito, mostra a sua cara sem pudor algum.

Vejam as pérolas que a situação provoca, em negrito:

Passageiros de fretados fecham marginal

No 1º dia da restrição, usuários com dificuldade para embarcar bloquearam também as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet

PM e CET tiveram de intervir para liberar as vias no horário de pico do trânsito, mas não houve confrontos; uma pessoa foi detida

Usuários de ônibus fretados protestam na marginal Pinheiros

DA REPORTAGEM LOCAL
DO “AGORA”
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O primeiro dia de restrição aos ônibus fretados terminou ontem com protestos e algumas das principais vias de São Paulo fechadas em pleno horário de pico do trânsito.

A marginal Pinheiros e as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet foram interditadas no final da tarde por passageiros dos fretados que enfrentavam dificuldades para embarcar. Não houve confrontos, mas uma pessoa, que estava no protesto na av. dos Bandeirantes, chegou a ser detida -foi liberada por volta das 20h.

De acordo com dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), ontem à tarde, apesar dos fechamentos de vias, o congestionamento médio foi menor do que em outras segundas.

Na Ricardo Jafet, por exemplo, o mapa da CET, órgão da Prefeitura de São Paulo, não apontava congestionamentos.

Em nota, a prefeitura e a Secretaria de Transportes atribuíram os protestos a “uma postura intransigente de setores que se recusam a cooperar”.

A previsão para hoje é de novas manifestações. Ontem, passageiros de diferentes linhas combinavam um “apitaço” na marginal Pinheiros.
O veto ao tráfego de fretados decretado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) vale de segunda a sexta, das 5h às 21h, em uma área de 70 km2.
A restrição inclui os centros financeiros das avenidas Paulista, Brigadeiro Faria Lima e Luiz Carlos Berrini.

Pistas fechadas

A PM e fiscais da CET tiveram de intervir nos três locais de protestos, mas encontraram resistência maior na manifestação da marginal Pinheiros, que durou quase duas horas.

As nove pistas, no sentido centro, chegaram a ser interditadas por 25 minutos. Depois, os passageiros concentraram-se nas faixas locais.

A reportagem presenciou o momento em que os próprios passageiros, irritados com a demora e a desorganização para embarcar, entraram na pista e pararam o trânsito, formando uma longa fila de fretados, ônibus municipais e carros.

Na Ricardo Jafet, em frente à estação de metrô Santos-Imigrantes, os manifestantes fecharam a pista sentido centro a partir das 18h10. O trânsito só foi liberado às 18h45.

Um homem que se identificou como Renato e se disse motorista desempregado pela medida da prefeitura chegou a simular um atropelamento para fechar a única faixa que a polícia e a CET conseguiram manter liberada.

Ele ficou cerca de cinco minutos no chão, mas saiu correndo quando percebeu que o motorista do ônibus que supostamente o teria atropelado iria ser interrogado pela polícia.

A invasão da pista, incentivada pelo mesmo Renato, começou após um grupo de cerca de mil pessoas se juntar na frente da estação para aguardar a chegada dos ônibus. Na avenida, uma fila de fretados aguardava a vez de encostar para pegar os passageiros -ao menos 200 passariam pelo local.

Aos gritos de “fretado, fretado”, um grupo invadiu a pista da avenida.

Kassab chegou a ser xingado, em coro.

No meio da confusão, a auxiliar administrativa Cinthia Mochida, 32, perdeu dois ônibus com destino a Santo André (Grande São Paulo), onde mora. “O Kassab prometeu não aumentar a passagem de ônibus e agora quer dinheiro dos passageiros dos fretados”, disse ela, que ontem teve que pegar metrô e ônibus para chegar ao escritório, em Perdizes.

***

Protesto na marginal une gerentes, secretárias e analistas

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Foi o protesto dos gerentes de marketing, das secretárias executivas, dos analistas financeiros e de RH. O que se viu ontem por volta das 18h, interrompendo o trânsito na via de acesso para a marginal Pinheiros, altura do Brooklin (zona sul), tinha aparência bem diferente do típico militante de passeata. Em vez de barbas por fazer, eram homens bem escanhoados, vestindo ternos. As mulheres, em cima de saltos 5, usavam tailleurs. A polícia, chamada para restabelecer o fluxo do trânsito, ficou de olho, perfilada, mas não encostou um dedo no pessoal corporativo.

“A gente não é favelado nem estudante da USP”, disse o administrador de website Robson Estevão Baptista, para explicar a inação da PM. “A maioria aqui votou no [Gilberto] Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

Ruth Silva, analista de recursos humanos, trabalha há mais de dez anos na avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, um dos polos financeiros e de serviços de São Paulo, vizinha dali de onde ocorreu o protesto. Moradora em Santana, na zona norte da cidade, ela demora em média uma hora para fazer o percurso casa-trabalho. Ontem, demorou duas horas.

“É uma palhaçada. Os usuários dos fretados são aqueles que sempre chegam na hora, faça chuva, faça sol, tenha greve de ônibus ou de metrô. E é essa confiabilidade que o prefeito Kassab quer que a gente perca.”

Empregos

Segundo a profissional de RH, muitas empresas da região da Berrini preferem candidatos ao emprego que declaram pretender usar ônibus fretados. “Agora, com a confusão que eles criaram, o que era um fator a favor, está se tornando contra. Quero ver qual a empresa que se disporá a contratar alguém de Guarulhos ou de São Bernardo, sabendo que esse profissional ficará à mercê do transporte coletivo comum e do trânsito de São Paulo. Até na empregabilidade essa lei ridícula vai influir.”

“Fretado! Fretado!”, chegou, gritando, Isilda Scabacino, profissional de marketing. Moradora em Santo André, ela paga R$ 250 mensais para ir e voltar ao trabalho todos os dias. Antes da restrição ao tráfego dos fretados, a viagem de ida demorava duas horas. A de volta, outras duas. Ontem, foram 3,5 horas para ir. Ela chegou atrasada.

À tarde, a profissional de marketing esquadrinhava a fila de ônibus fretados no meio da via de acesso à marginal. Procurava o dela, mas nem sinal -e ele estava atrasado duas horas.

O protesto começou porque todos os ônibus que servem o pessoal da Berrini, em vez de recolherem seus passageiros em vários pontos, como ocorria antes, foram concentrados em um único local, na rua Guilherme Barbosa de Mello.

Só que o tal “bolsão” -pequeno para a demanda- logo ficou lotado. Os fretados, que chegavam para recolher seus passageiros, não conseguiam estacionar. Os que, já tendo feito o embarque, tentavam sair do bolsão, não o conseguiam. Ficavam presos no trânsito intenso da marginal.
“Você acha que está ruim agora? Espera o fim das férias escolares. Aí sim, ninguém conseguirá embarcar”, desafiava Regina Cassia Agustini, do setor financeiro de uma empresa da região da Berrini.

Você que é o Corinthians? ou O coração da metrópole

Dez minutos atrás, estou almoçando pizza em pedaço.

Quase no fim do último pedaço, um gordinho de azul senta do meu lado com seu amigo e fica me encarando.

Não dou bola. Ele levanta, olha pra mim e pergunta:

- Você que é o Corinthians?

- !?!? …oi???

- O Corinthians, que passou na RedeTV?

- É… sou eu.

- Também sou Corinthians, mano!!!

O amigo não entende, ele explica baixinho:

- Ele assinou Corinthians no RG.

O amigo sorri.

Levanto, rápido, que a pizza acabou mas a vergonha não, e me vou, tomando o resto da Coca-Cola.

Não sem antes dizer:

- Domingo “é nóis”, hein?

- É nóis, família!

Somos todos Corinthians, independentemente de ter um pedaço de papel escrito isso ou não.

***

Três minutos depois, voltando ao trabalho, um moleque de rua gordinho na Conselheiro Crispiniano levanta e vem na minha direção.

Estende a mão, cara de bravo, em direção à minha Coca. Ele não tem um braço.

- Vai, mano, dá essa Coca aí.

Meio perplexo e meio puto, paro, olho nos olhos dele e digo, com aspereza:

- Vamos com calma aí? 

O  moleque meio que se assusta e se rende, quase se desculpa:

- Vamos com calma. É que eu tô na maior neurose…

- Tranquilo. O lance é ter respeito, dos dois lados. Toma aí – e dou a Coca ainda pela metade pra ele.

- Valeu.

Almoçar – e viver, e trabalhar – no centro de São Paulo é sempre imprevisível, errante, quase uma aventura.

Cheia de situações complicadas como essa.

Dá pra falar em certo e errado? Politicamente correto, incorreto? Sentir culpa, dó, qualquer merda?

Só sei que eu dei a Coca não por ele ser um moleque de rua, nem por não ter um braço. Mas porque ele topou olhar nos meus olhos e trocar idéia, mesmo que tenham sido 10 segundos de idéia.

Aqui, no coração da metrópole, a gente aprende a desentupir as artérias um pouco a cada dia.

A fome

Hoje, por volta de onze e meia da noite, eu voltava de um passeio com a minha cachorra pelo Largo do Arouche quando, a poucos metros de casa, um senhor barbado, negro, mancando de uma perna, me chamou.

- Ei, amigo, por favor.

Parei pra escutar.

Ele queria comida.

Pedia arroz e feijão, estava “com muita vontade” de comer arroz e feijão.

Andava a duas horas, mancando, pedindo comida, e nada.

O homem chorava.

Não, não foi a primeira vez que me aconteceu isso.

Nem a primeira vez que neguei por estar de bolsos vazios – passear a cachorra não demanda dinheiro.

Mas fazia tempo que alguém não olhava nos meus olhos implorando comida.

Que eu não pude dar.

Cheguei em casa e, num impulso, enchi um recipiente com arroz e feijão, esquentei no micro-ondas, peguei um garfo e desci correndo pra ver se o homem ainda andava pela minha rua.

Procurei pelo entorno do Largo do Arouche por cerca de 15 minutos.

Não o encontrei.

Haviam muitas outras pessoas procurando comida pelos lixos.

Mas eu não procurava alguém pra expiar um sentimento de culpa.

Procurava eu mesmo.

Poucas sensações neste mundo podem ser piores do que não poder ajudar uma pessoa com fome.

Não importa se aquele prato nem salvaria o mundo, nem resolveria o problema da fome daquele senhor pra todo o sempre.

O fato é que, por mais assistencialista, excuso de consciência ou altruísmo burguês que possa parecer, me senti impelido a ajudar um homem que olhou nos meus olhos e implorou por comida.

E eu não pude dar.

E se o fato de isso me incomodar tanto a ponto de marejar os olhos não deve ser tomado como motivo de orgulho, também não deve passar despercebido.

Há mais entre duas pessoas que se cruzam numa rua deserta do centro à noite do que qualquer discurso ideológico sobre a fome pode dizer.

Curtas II

É, enquanto a Grécia não manda mais notícias e eu não tenho inspiração de verdade pra novas historinhas da Beth, vamos de curtas novamente.

Até porque é fim de ano e as boas histórias acumulam rápido, rápido.

Boça strikes again

Estou na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, aquela coisa enorme e modernosa, tentando escolher um livro pra minha mãe de Natal.

Na mão tenho um Milan Kundera e um Ítalo Calvino. Estou quase percebendo já que ambos seriam presentes bons pra mim e não pra ela e desistindo de livros quando Boça – ele! – ataca de novo aos meus ouvidos:

- Mêêêo, muinto lôca essa livraria, mêo. Acho que é a melhor livraria do mundo! Nenhum outro país tem uma livraria dessa.

E eu fui embora sem livro e feliz por ser pelo menos metade carioca.

Trabalho

Eu e a minha Robofoot estamos à porta do consultório médico no trabalho esperando pra fazer perícia. Outras duas funcionárias também estão lá. E elas começam a conversar.

- Mas vou te dizer, esse povo é folgado. Quer ver que amanhã vai ter segurado na agência ainda?

- É, é complicado. E quando eles saem do consultório e falam que não entenderam o que o médico disse? E eu que vou saber?

- Ah, é tudo pilantra. Se eu fosse presidente, esse auxílio-reclusão aí, eu cortava na hora. Ficar pensando que a família do detento tem que comer? Porque ele não pensou nisso na hora que matou e roubou? Tem é que morrer de fome mesmo.

- É,  pior são esses auxílios pra idoso. É tudo pilantragem. O povo fica acostumando com essas bolsas leite, bolsa escola, aí fica vagabundeando mesmo em casa.

Eu vou parar por aqui porque meu cérebro preferiu apagar o resto da conversa para o bem do meu estômago.

O governo dá dinheiro PRA BANQUEIRO e as mulheres reclamando que o povão pobre, fodido e ainda por cima DOENTE é “pilantra e vagabundo”.

Declarando a todos os ventos que atendem estes como se fossem lixo.

Eu sei que não deveria mais me assustar com isso, mas porra, eu queria sair dando bicudas robofooticas na cara das duas. 

E não dá nem pra culpar a idade: uma era velha e a outra nova.

Vou te dizer, a queda do 15º andar onde estávamos não seria castigo suficiente pra esse tipo de traste.

25 milhões de março

Peguei um ônibus ontem que passou paralelamente à 25 de março.

Vou te dizer: CARALHO, QUANTO GENTE.

O mundo precisa de algum tipo de epidemia urgente.

Peste negra, febre amarela, peste bubônica, qualquer dessas serve.

Porque nem em final do Corinthians me senti tão apertado. E olha que eu tava no ônibus, de fora, só olhando.

Imagina lá no meio…

Troco

No mesmo ônibus, o cara, que ainda não passou a catraca, vira pro cobrador meio fanho e fala:

- Você não quer trocar três reais não?

Eu entendi que ele queria trocar as 6543634 moedas que tinha por uma nota de dois e uma de um.

Mas o cobrador achou que ele estava pagando a passagem.

Só sei que quando eu desci do ônibus a conversa entre os dois ainda era:

- Olha só, eu te dei três reais, você me devolveu só 0,70.

- Mas a passagem é 2,30 mesmo.

- Não, mas eu queria trocar o dinheiro, não pagar. Eu tenho bilhete.

- Ah, agora já passei o bilhete…

Como diz  meu pai, comunicação é tudo.

Robofoot II

Quando eu acabar de usar a Robofoot no pé direito vou ter que passar ela pro esquerdo.

Porque, putapariu, essa merda tem um ferro que TODA HORA bate no calcanhar do outro pé quando eu ando.

Tá, a culpa é da minha falta de coordenação motora, mas mesmo assim, que merda.

Tô tendo que usar um naco de borracha dentro da meia pra evitar novas pancadas.

Ordem e caos

Aqui na São João entre minha casa e meu trabalho tem uma tiazinha meio doida que grita com os ônibus, os passageiros, os pedestres e tudo.

Eu ia escrever sobre ela, mas um amigo fez isso antes, então eu colo abaixo o texto dele, que é bom demais:

“Fazia já uns 4 meses que eu tava escutando uns gritos aqui no meu escritório, vindos da rua. Era uma voz de mulher, berrando coisas incompreensíveis, sempre na parte da tarde, do meio-dia às seis. 

Eu achava que era alguma coisa de nigeriano, funk, travesti ou pivete, tipos urbanos que dão rolê aqui na minha vizinhança. 

Até que um dia, encafifado, resolvi dar um rolê pra ver de onde vinham os gritos. E achei a origem na Av. São João, logo atrás do meu escritório. Pra ver o volume do bagulho: no centrão, uns cem, duzentos metros de distância, dez andares de altura, eu escuto a gritaria. 

E a gritaria vem de uma tia, uma mendiga negona, que fica no ponto de ônibus na pracinha da São João logo atrás do meu escritório. A tia vai e vem no ponto, gritando com as pessoas, com os ônibus, com os carros, com as estátuas, com tudo. 

Curiosão, me aproximei pra tentar distinguir o que a tia gritava, e era tipo uns chamamentos de atenção, umas broncas em tudo, a tia funcionava como um Jorel da rua, um fiscal do Sarney dos pedestres, veículos e estátuas, chamando a atenção das pessoas e coisas, dos elementos e gases, dos vapores e líquidos, botando ordem nas coisas, uma ordem imaginária, que existe apenas na sua cabeça e que não obedece às leis da química, da física e da matemática. 

Cheguei mais perto, pra ver se a tia me dizia alguma coisa, me incluía na condução do caos urbano que ela tentava em vão ordenar. Pensei que ela podia dizer algo como “AÍ GORDINHO, FICA DE BESTEIRA PARADO NA CALÇADA? SE NÃO VAI PEGAR BUSÃO SAI ANDANDO!” ou “NÃO ACHA QUE TÁ NA HORA DE TOMAR VERGONHA NA CARA E PERDER ESSA PANÇA, MANO? OS PEDESTRE TÃO DANDO A VOLTA PRA PASSAR DO TEU LADO E ISSO TÁ ZOANDO ESSA CALÇADA!” 

Mas a tia não prestou atenção nimim. Tava ocupada gritando com um busão bi-articulado e depois voltou sua atenção prum cachorro que inventou de atravessar a São João ao lado dela, fora da faixa. 

Aí ela virou pro meu lado, e eu vi. Vi a razão da sua loucura, o motivo da sua raiva, o fundamento da sua dialética do nonsense: a tia era barbada. E pior, a barbinha dela fazia uma trança no queixo, tipo um faraó. O bagulho era grande, acho que uns dois ou três dedos, rivalizando e ganhando de uns 6 ou 7 cantores de new-metal. 

Chocado com a constatação, humilhado pela superioridade capilar dela, e constrangido por não ser notado nem pela mendiga barbada, saí andando. 

E enquanto teclo essas linhas aqui no meu escritório, ainda ouço a tia barbada gritando lá na São João. Hoje é ante-véspera de Natal, amanhã acho que ela não vem “trabalhar”, então acho que tá compensando o tempo, acumulando num banco de horas imaginário. 

Vai, tia barbada! Põe ordem na São João! Põe ordem nesse caos!”

por Ruy Fernando

Ele só esqueceu de dizer que além da barba ela tem vitiligo em volta da boca, o que contribui para sua aparência, digamos, única.

Os bichos e a porta II

Além do judô noturno que os bichos lá de casa promovem todo dia, como eu contei no outro post, a porta de casa ocasiona outra relação bastante peculiar com eles.

Acontece que quando fomos levar a Preta pra passear pelas primeiras vezes, pensamos “porque não levar a Branca também? Gato também é gente”.

E ela foi toda faceira numa daquelas bolsas de pano pra transportar gato com a porta aberta, feito um gato egípcio. E nunca pulou da bolsa.

Só que aí, agora, toda vez que vamos levar a cachorra, a gata quer ir também.

E fica miando DESESPERADAMENTE na porta da hora em que saímos com a cachorra até a hora em que voltamos.

E fica pulando nas chaves no meio do dia, como que dizendo “quero passear porra”.

E corre porta afora quando vamos tirar o lixo, no melhor estilo “livre! livre! LIVREEEEE!” até chegar na porta do elevador e não saber o que fazer.

É, gente.

Democracia com animais dá nisso.

Camping

A política do grande queridão Kassab está trazendo todos os mendigos da cracolândia pros arredores da São João.

Ele deve achar que os homens de rua somem se você tira eles de um lugar.

E aí agora todo o comércio alimentício ambulante da região, que não é pouco, entra em conflito com eles. Eu outro dia comprei uma pizza brotinho pra levar pra casa lá na 24 de Maio e tive que pensar bem o caminho e a estratégia pra conseguir chegar com a pizza em casa – porque se algum deles pedisse, eu não ia conseguir negar.

Só espero que isso não acabe dando nisso.

Aliás, caralho, ainda não consegui esquecer esse vídeo.

Ainda bem.

Cartão de natal

É simplesmente impossível encontrar um cartão de Natal não-barango no centro.

Até aqueles fofinhos de bichinhos são estragados com alguma frase ridícula dentro.

É pedir demais encontrar cartões em branco?

Parece que meu amigo secreto vai ficar só com o presente mesmo.

Papel picado

E falando em centro e Natal, ontem alguém teve a brilhante idéia de jogar papel picado do último andar da Galeria do Rock.

MUITO papel picado.

Pra desespero da tiazinha terceirizada da limpeza da C&A, que lutava com sua vassoura são-jórgica contra o papel que o vento e as pessoas insistiam em levar pra entrada da loja.

Enquanto isso, pedestres super preocupados diziam “é por isso que dá enchente nessa merda”.

E nove passos depois atiravam o papel de seus chocolates no chão.

Taxista macabro

Fui voltar da casa dos meus pais ontem à noite  e a minha mãe fez questão de que eu fosse de táxi – afinal, “já” era meia-noite e eu estava de Robofoot.

Aí peguei o táxi e a conversa inevitável com o taxista já começou com ele mandando bem. 

Olhou pro meu pé e disse:

- E aí, chutou a namorada?

OK, ele tentou fazer uma piada entre a Robofoot e a expressão “chutar a namorada”, só que ela foi tão ao pé da letra que eu pensei em chutar literalmente, e já segurei o riso.

Aí fomos conversando de futebol, ele me contando que era goleiro do segundo quadro do time do Banco Itaú de futsal, eu falando do Autônomos, ele me mostrando os dedos quebrados.

Até que chegamos na rua paralela ao Terminal Amaral Gurgel que eu nunca lembro o nome e que é mais conhecida por ser a rua onde mora José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Comentei isso com o taxista.

Eram meia-noite e quarenta e três minutos.

Ele virou pra mim, uma luz vermelha acendeu dentro do táxi, seus dentes incisivos cresceram e gelo seco começou a subir. 

Ele disse:

- Eu já participei de dois filmes dele.

Medo.

- Quais?

- Uns bem antigos, garoto…

Garoto. Não bastasse a palavra rimar com maroto, a expressão dele foi completamente… marota.

Pra não dizer macabra.

Sorte que minha casa fica dois minutos depois disso.

E sorte que não era meia-noite pra ele encarnar no meu cadáver.

Caminhão

E pra fechar o dia, desço do táxi e um caminhão daqueles que carrega caçambas está tentando estacionar em frente ao meu prédio.

Com, ao que parecia, um motorista bêbado descordenado.

Deu ré a primeira vez e a placa de trânsito que manda todos seguirem em frente entortou e ficou quase paralela ao solo.

Deu ré a segunda vez e a placa com o nome da rua passou raspando do mesmo destino.

Aí um cara que estava pela rua foi lá gritar com ele pra prestar atenção.

Não parecia que ele estava entendendo muito.

O que se confirmou quando na nova tentativa de dar ré a placa de trânsito ficou definitivamente paralela ao chão.

Maravilhoso.

Um milagre de Natal

Se um dia eu for levar meus filhos a uma igreja, o que só vai acontecer se Jesus aparecer em carne e osso na minha frente e disser “truta, leva os moleques agora ou vai todo mundo lá pra baixo”, vou levar nessa aqui.

Porque, vou te dizer, nada melhor pra fazer crianças acreditarem em algo que não existe (deus) do que ser pragmático e destruir a crença delas em algo que também não existe (Papai Noel).

Será esse o início de uma nova linhagem de padres materialistas?

Imagina só, a Bíblia numa mão e o Capital na outra…

Mundo lixo

Dez mil anos de humanidade pra chegar a isso.

Eu juro que teria orgasmos múltiplos de pegar um filho da puta que faz isso e quebrar osso por osso do corpo dele antes de atear fogo.

Juro.

Mas aí, é Natal, e o Corinthians contratou Ronaldo.

Então, vamos comprar presentes.

Sem mendigos nas portas das lojas pra atrapalhar o comércio.

Assalto no cartão

Começo este blog falando de algo que me passou minutos antes de iniciá-lo.

Acontece que morar no centro é uma experiência única.

Estou eu voltando pra casa quando, a um quarteirão do querido lar, em frente a um hotel desses Formule 1, um garoto de não mais que 20 anos, descalço, sujo, se aproxima e pede dinheiro pra comprar um marmitex.

Estou duro, de verdade. Nem metade do mês e R$ 20 na conta. Digo a ele que não tenho. Ele diz que posso pagar no cartão. Dou risada, acho que é brincadeira. Não é.

- Se a gente rouba vocês falam que a gente é mau, se a gente pede vocês não dão, né?

Tenho vontade de dizer que prefiro que ele roube. Mas não eu, alguém que tenha dinheiro. Ao invés disso, mostro minha mochila rasgada e o tênis gasto e tento argumentar que ele devia ir pedir pra quem tem grana, não pra quem tá na mesma merda que ele – OK, exagerei, mas nessas horas não se pensa muito nisso.

Ele pára no meio da faixa de pedestres, semáforo aberto, e vai embora.

Depois minha culpa cristã de ateu mal-resolvido ficou me consumindo. Mas, numa boa, pagar assalto no cartão não dá, né.

***

Depois falei com um amigo que disse que passou pela mesma coisa, o que só reforça a minha idéia de que é golpe. Menos mal, porque sempre me sinto um filho da puta negando comida pra alguém que está com fome, mesmo quando não tenho o que fazer sobre o assunto.