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Não existe racismo no Brasil

Ontem, tomei um ônibus na avenida Ipiranga, em frente ao famoso edifício Copan, em direção ao cruzamento das avenidas Rebouças e Henrique Schaumann.

Estava indo do emprego que tenho de manhã para o que tenho à tarde.

Como de costume, escutava música com o fone de ouvido. O ônibus estava cheio e, assim que passei a catraca, encostei ao lado do cobrador, na porta que não iria abrir até o ponto em que eu desceria.

Uns dois pontos depois, percebi uma certa agitação que os fones de ouvido faziam ser silenciosa. Tirei-os para tentar entender.

Na parte da frente do ônibus, havia um senhor de idade, negro, pobre, com as roupas sujas de tinta, sentado em um dos bancos reservados para gente justamente como ele – de idade. O lugar ao seu lado estava vazio.

Então, uma senhora, branca, também pobre – já que andava de ônibus -, tomou o ônibus procurando por um lugar vazio. A um metro do banco, parou. Olhou para o senhor com espanto e virou as costas, reclamando que era um absurdo ter que sentar “com esse tipo de gente”.

Mais à frente, em outro banco reservado, mas daqueles pra acompanhantes de pessoas em cadeiras de rodas, uma mulher estava sentada. Ela assistia à cena, assim como o cobrador, eu e outro rapaz que acabara de passar a catraca.

A senhora branca virou para essa mulher e disse:

- Minha filha, me deixe sentar aí.

A mulher respondeu:

- Não. Tem um lugar livre do lado daquele senhor, a senhora que sente lá.

O conflito, ao contrário de inúmeros dos casos semelhantes de racismo no Brasil, estava posto, escancarado.

A senhora branca foi resmungando até a frente do ônibus, ao que parece, falar com o motorista. Perto da catraca, eu, o cobrador e a mulher lamentávamos com a cabeça ter que presenciar esse tipo de atitude.

Olhei para o senhor negro. Seu olhar, que antes já era de constangimento – afinal, ele era negro, pobre e ainda por cima com roupas sujas, quase um crime, uma ofensa ao mundo -, agora misturava um certo temor por uma confusão na qual ele não queria estar, e sobre a qual ele não proferiu uma palavra sequer. Estava apenas sentado no ônibus, exercendo nada mais que um direito.

A mulher que enfrentara a senhora branca, então, levantou-se.

Foi sentar ao lado dele, cumprimentando-o.

Não vi se foram conversando durante a viagem, pois tive que descer logo adiante. Mas aquele pequeno ato de solidariedade me deixou comovido.

Dias atrás, li um artigo de um desses acadêmicos que a mídia compra pra defender suas posições. Ele dizia que a política de cotas nas universidades ia contra o próprio texto da Constituição brasileira, e que o racismo não existe no Brasil.

Hoje, percebo que sou obrigado a concordar. Não existe racismo no Brasil. Seria muito melhor se existisse.

Porque haveria confronto, ao invés desse apartheid silencioso, escondido nos pequenos gestos que revelam um costume secular de discriminação aos pobres e aos negros – e, principalmente, aos negros pobres.

Quanto não se descobre ao tirar o fone de ouvido; imaginem então se todo mundo resolvesse tirar os tapa-olhos feitos de papel jornal que estamos (mal) acostumados a usar…

Colocando a classe média no lugar

Classe média: gente que pensa e age como rico, mas recebe como pobre, se auto-negando, assim, duas vezes.

Geralmente culpada por todos, inclusive eles mesmos, pelos males do mundo.

Gente que não sabe educar suas crianças e que gosta de dar risada do povão que tem que pegar ônibus.

E que, quando tiram seus privilegiozinhos, fica atacada.

Agora, com essa lei dos fretados, colocaram os almofadinhas na mesma situação do povão, tendo que se foder pra pegar transporte coletivo.

Não que eu ache isso bom, melhor seria transporte decente e gratuito pra todo mundo, claro, mas não deixa de ter uma certa justiça poética.

Aí, essa gente, que não tem a mínima noção do que é um protesto coletivo ou do que é se organizar pra conseguir algum direito, mostra a sua cara sem pudor algum.

Vejam as pérolas que a situação provoca, em negrito:

Passageiros de fretados fecham marginal

No 1º dia da restrição, usuários com dificuldade para embarcar bloquearam também as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet

PM e CET tiveram de intervir para liberar as vias no horário de pico do trânsito, mas não houve confrontos; uma pessoa foi detida

Usuários de ônibus fretados protestam na marginal Pinheiros

DA REPORTAGEM LOCAL
DO “AGORA”
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O primeiro dia de restrição aos ônibus fretados terminou ontem com protestos e algumas das principais vias de São Paulo fechadas em pleno horário de pico do trânsito.

A marginal Pinheiros e as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet foram interditadas no final da tarde por passageiros dos fretados que enfrentavam dificuldades para embarcar. Não houve confrontos, mas uma pessoa, que estava no protesto na av. dos Bandeirantes, chegou a ser detida -foi liberada por volta das 20h.

De acordo com dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), ontem à tarde, apesar dos fechamentos de vias, o congestionamento médio foi menor do que em outras segundas.

Na Ricardo Jafet, por exemplo, o mapa da CET, órgão da Prefeitura de São Paulo, não apontava congestionamentos.

Em nota, a prefeitura e a Secretaria de Transportes atribuíram os protestos a “uma postura intransigente de setores que se recusam a cooperar”.

A previsão para hoje é de novas manifestações. Ontem, passageiros de diferentes linhas combinavam um “apitaço” na marginal Pinheiros.
O veto ao tráfego de fretados decretado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) vale de segunda a sexta, das 5h às 21h, em uma área de 70 km2.
A restrição inclui os centros financeiros das avenidas Paulista, Brigadeiro Faria Lima e Luiz Carlos Berrini.

Pistas fechadas

A PM e fiscais da CET tiveram de intervir nos três locais de protestos, mas encontraram resistência maior na manifestação da marginal Pinheiros, que durou quase duas horas.

As nove pistas, no sentido centro, chegaram a ser interditadas por 25 minutos. Depois, os passageiros concentraram-se nas faixas locais.

A reportagem presenciou o momento em que os próprios passageiros, irritados com a demora e a desorganização para embarcar, entraram na pista e pararam o trânsito, formando uma longa fila de fretados, ônibus municipais e carros.

Na Ricardo Jafet, em frente à estação de metrô Santos-Imigrantes, os manifestantes fecharam a pista sentido centro a partir das 18h10. O trânsito só foi liberado às 18h45.

Um homem que se identificou como Renato e se disse motorista desempregado pela medida da prefeitura chegou a simular um atropelamento para fechar a única faixa que a polícia e a CET conseguiram manter liberada.

Ele ficou cerca de cinco minutos no chão, mas saiu correndo quando percebeu que o motorista do ônibus que supostamente o teria atropelado iria ser interrogado pela polícia.

A invasão da pista, incentivada pelo mesmo Renato, começou após um grupo de cerca de mil pessoas se juntar na frente da estação para aguardar a chegada dos ônibus. Na avenida, uma fila de fretados aguardava a vez de encostar para pegar os passageiros -ao menos 200 passariam pelo local.

Aos gritos de “fretado, fretado”, um grupo invadiu a pista da avenida.

Kassab chegou a ser xingado, em coro.

No meio da confusão, a auxiliar administrativa Cinthia Mochida, 32, perdeu dois ônibus com destino a Santo André (Grande São Paulo), onde mora. “O Kassab prometeu não aumentar a passagem de ônibus e agora quer dinheiro dos passageiros dos fretados”, disse ela, que ontem teve que pegar metrô e ônibus para chegar ao escritório, em Perdizes.

***

Protesto na marginal une gerentes, secretárias e analistas

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Foi o protesto dos gerentes de marketing, das secretárias executivas, dos analistas financeiros e de RH. O que se viu ontem por volta das 18h, interrompendo o trânsito na via de acesso para a marginal Pinheiros, altura do Brooklin (zona sul), tinha aparência bem diferente do típico militante de passeata. Em vez de barbas por fazer, eram homens bem escanhoados, vestindo ternos. As mulheres, em cima de saltos 5, usavam tailleurs. A polícia, chamada para restabelecer o fluxo do trânsito, ficou de olho, perfilada, mas não encostou um dedo no pessoal corporativo.

“A gente não é favelado nem estudante da USP”, disse o administrador de website Robson Estevão Baptista, para explicar a inação da PM. “A maioria aqui votou no [Gilberto] Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

Ruth Silva, analista de recursos humanos, trabalha há mais de dez anos na avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, um dos polos financeiros e de serviços de São Paulo, vizinha dali de onde ocorreu o protesto. Moradora em Santana, na zona norte da cidade, ela demora em média uma hora para fazer o percurso casa-trabalho. Ontem, demorou duas horas.

“É uma palhaçada. Os usuários dos fretados são aqueles que sempre chegam na hora, faça chuva, faça sol, tenha greve de ônibus ou de metrô. E é essa confiabilidade que o prefeito Kassab quer que a gente perca.”

Empregos

Segundo a profissional de RH, muitas empresas da região da Berrini preferem candidatos ao emprego que declaram pretender usar ônibus fretados. “Agora, com a confusão que eles criaram, o que era um fator a favor, está se tornando contra. Quero ver qual a empresa que se disporá a contratar alguém de Guarulhos ou de São Bernardo, sabendo que esse profissional ficará à mercê do transporte coletivo comum e do trânsito de São Paulo. Até na empregabilidade essa lei ridícula vai influir.”

“Fretado! Fretado!”, chegou, gritando, Isilda Scabacino, profissional de marketing. Moradora em Santo André, ela paga R$ 250 mensais para ir e voltar ao trabalho todos os dias. Antes da restrição ao tráfego dos fretados, a viagem de ida demorava duas horas. A de volta, outras duas. Ontem, foram 3,5 horas para ir. Ela chegou atrasada.

À tarde, a profissional de marketing esquadrinhava a fila de ônibus fretados no meio da via de acesso à marginal. Procurava o dela, mas nem sinal -e ele estava atrasado duas horas.

O protesto começou porque todos os ônibus que servem o pessoal da Berrini, em vez de recolherem seus passageiros em vários pontos, como ocorria antes, foram concentrados em um único local, na rua Guilherme Barbosa de Mello.

Só que o tal “bolsão” -pequeno para a demanda- logo ficou lotado. Os fretados, que chegavam para recolher seus passageiros, não conseguiam estacionar. Os que, já tendo feito o embarque, tentavam sair do bolsão, não o conseguiam. Ficavam presos no trânsito intenso da marginal.
“Você acha que está ruim agora? Espera o fim das férias escolares. Aí sim, ninguém conseguirá embarcar”, desafiava Regina Cassia Agustini, do setor financeiro de uma empresa da região da Berrini.

Vídeos sensacionais e uma novela melhor ainda

Fora de Jogo no RS: vídeo emocionante feito pelo Davi:

Ramones assim VOCÊ NUNCA VIU:


Tá endireitando com a idade? Tome DIREITIL:


O Tigre e O Dragão + Escrava Isaura =


Mar de Paixão, uma novela de André Dahmer e Arnaldo Branco:

http://www.oesquema.com.br/mauhumor/2009/07/24/mega-teaser-multiplus.htm

Curtas II

É, enquanto a Grécia não manda mais notícias e eu não tenho inspiração de verdade pra novas historinhas da Beth, vamos de curtas novamente.

Até porque é fim de ano e as boas histórias acumulam rápido, rápido.

Boça strikes again

Estou na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, aquela coisa enorme e modernosa, tentando escolher um livro pra minha mãe de Natal.

Na mão tenho um Milan Kundera e um Ítalo Calvino. Estou quase percebendo já que ambos seriam presentes bons pra mim e não pra ela e desistindo de livros quando Boça – ele! – ataca de novo aos meus ouvidos:

- Mêêêo, muinto lôca essa livraria, mêo. Acho que é a melhor livraria do mundo! Nenhum outro país tem uma livraria dessa.

E eu fui embora sem livro e feliz por ser pelo menos metade carioca.

Trabalho

Eu e a minha Robofoot estamos à porta do consultório médico no trabalho esperando pra fazer perícia. Outras duas funcionárias também estão lá. E elas começam a conversar.

- Mas vou te dizer, esse povo é folgado. Quer ver que amanhã vai ter segurado na agência ainda?

- É, é complicado. E quando eles saem do consultório e falam que não entenderam o que o médico disse? E eu que vou saber?

- Ah, é tudo pilantra. Se eu fosse presidente, esse auxílio-reclusão aí, eu cortava na hora. Ficar pensando que a família do detento tem que comer? Porque ele não pensou nisso na hora que matou e roubou? Tem é que morrer de fome mesmo.

- É,  pior são esses auxílios pra idoso. É tudo pilantragem. O povo fica acostumando com essas bolsas leite, bolsa escola, aí fica vagabundeando mesmo em casa.

Eu vou parar por aqui porque meu cérebro preferiu apagar o resto da conversa para o bem do meu estômago.

O governo dá dinheiro PRA BANQUEIRO e as mulheres reclamando que o povão pobre, fodido e ainda por cima DOENTE é “pilantra e vagabundo”.

Declarando a todos os ventos que atendem estes como se fossem lixo.

Eu sei que não deveria mais me assustar com isso, mas porra, eu queria sair dando bicudas robofooticas na cara das duas. 

E não dá nem pra culpar a idade: uma era velha e a outra nova.

Vou te dizer, a queda do 15º andar onde estávamos não seria castigo suficiente pra esse tipo de traste.

25 milhões de março

Peguei um ônibus ontem que passou paralelamente à 25 de março.

Vou te dizer: CARALHO, QUANTO GENTE.

O mundo precisa de algum tipo de epidemia urgente.

Peste negra, febre amarela, peste bubônica, qualquer dessas serve.

Porque nem em final do Corinthians me senti tão apertado. E olha que eu tava no ônibus, de fora, só olhando.

Imagina lá no meio…

Troco

No mesmo ônibus, o cara, que ainda não passou a catraca, vira pro cobrador meio fanho e fala:

- Você não quer trocar três reais não?

Eu entendi que ele queria trocar as 6543634 moedas que tinha por uma nota de dois e uma de um.

Mas o cobrador achou que ele estava pagando a passagem.

Só sei que quando eu desci do ônibus a conversa entre os dois ainda era:

- Olha só, eu te dei três reais, você me devolveu só 0,70.

- Mas a passagem é 2,30 mesmo.

- Não, mas eu queria trocar o dinheiro, não pagar. Eu tenho bilhete.

- Ah, agora já passei o bilhete…

Como diz  meu pai, comunicação é tudo.

Robofoot II

Quando eu acabar de usar a Robofoot no pé direito vou ter que passar ela pro esquerdo.

Porque, putapariu, essa merda tem um ferro que TODA HORA bate no calcanhar do outro pé quando eu ando.

Tá, a culpa é da minha falta de coordenação motora, mas mesmo assim, que merda.

Tô tendo que usar um naco de borracha dentro da meia pra evitar novas pancadas.

Ordem e caos

Aqui na São João entre minha casa e meu trabalho tem uma tiazinha meio doida que grita com os ônibus, os passageiros, os pedestres e tudo.

Eu ia escrever sobre ela, mas um amigo fez isso antes, então eu colo abaixo o texto dele, que é bom demais:

“Fazia já uns 4 meses que eu tava escutando uns gritos aqui no meu escritório, vindos da rua. Era uma voz de mulher, berrando coisas incompreensíveis, sempre na parte da tarde, do meio-dia às seis. 

Eu achava que era alguma coisa de nigeriano, funk, travesti ou pivete, tipos urbanos que dão rolê aqui na minha vizinhança. 

Até que um dia, encafifado, resolvi dar um rolê pra ver de onde vinham os gritos. E achei a origem na Av. São João, logo atrás do meu escritório. Pra ver o volume do bagulho: no centrão, uns cem, duzentos metros de distância, dez andares de altura, eu escuto a gritaria. 

E a gritaria vem de uma tia, uma mendiga negona, que fica no ponto de ônibus na pracinha da São João logo atrás do meu escritório. A tia vai e vem no ponto, gritando com as pessoas, com os ônibus, com os carros, com as estátuas, com tudo. 

Curiosão, me aproximei pra tentar distinguir o que a tia gritava, e era tipo uns chamamentos de atenção, umas broncas em tudo, a tia funcionava como um Jorel da rua, um fiscal do Sarney dos pedestres, veículos e estátuas, chamando a atenção das pessoas e coisas, dos elementos e gases, dos vapores e líquidos, botando ordem nas coisas, uma ordem imaginária, que existe apenas na sua cabeça e que não obedece às leis da química, da física e da matemática. 

Cheguei mais perto, pra ver se a tia me dizia alguma coisa, me incluía na condução do caos urbano que ela tentava em vão ordenar. Pensei que ela podia dizer algo como “AÍ GORDINHO, FICA DE BESTEIRA PARADO NA CALÇADA? SE NÃO VAI PEGAR BUSÃO SAI ANDANDO!” ou “NÃO ACHA QUE TÁ NA HORA DE TOMAR VERGONHA NA CARA E PERDER ESSA PANÇA, MANO? OS PEDESTRE TÃO DANDO A VOLTA PRA PASSAR DO TEU LADO E ISSO TÁ ZOANDO ESSA CALÇADA!” 

Mas a tia não prestou atenção nimim. Tava ocupada gritando com um busão bi-articulado e depois voltou sua atenção prum cachorro que inventou de atravessar a São João ao lado dela, fora da faixa. 

Aí ela virou pro meu lado, e eu vi. Vi a razão da sua loucura, o motivo da sua raiva, o fundamento da sua dialética do nonsense: a tia era barbada. E pior, a barbinha dela fazia uma trança no queixo, tipo um faraó. O bagulho era grande, acho que uns dois ou três dedos, rivalizando e ganhando de uns 6 ou 7 cantores de new-metal. 

Chocado com a constatação, humilhado pela superioridade capilar dela, e constrangido por não ser notado nem pela mendiga barbada, saí andando. 

E enquanto teclo essas linhas aqui no meu escritório, ainda ouço a tia barbada gritando lá na São João. Hoje é ante-véspera de Natal, amanhã acho que ela não vem “trabalhar”, então acho que tá compensando o tempo, acumulando num banco de horas imaginário. 

Vai, tia barbada! Põe ordem na São João! Põe ordem nesse caos!”

por Ruy Fernando

Ele só esqueceu de dizer que além da barba ela tem vitiligo em volta da boca, o que contribui para sua aparência, digamos, única.

Os bichos e a porta II

Além do judô noturno que os bichos lá de casa promovem todo dia, como eu contei no outro post, a porta de casa ocasiona outra relação bastante peculiar com eles.

Acontece que quando fomos levar a Preta pra passear pelas primeiras vezes, pensamos “porque não levar a Branca também? Gato também é gente”.

E ela foi toda faceira numa daquelas bolsas de pano pra transportar gato com a porta aberta, feito um gato egípcio. E nunca pulou da bolsa.

Só que aí, agora, toda vez que vamos levar a cachorra, a gata quer ir também.

E fica miando DESESPERADAMENTE na porta da hora em que saímos com a cachorra até a hora em que voltamos.

E fica pulando nas chaves no meio do dia, como que dizendo “quero passear porra”.

E corre porta afora quando vamos tirar o lixo, no melhor estilo “livre! livre! LIVREEEEE!” até chegar na porta do elevador e não saber o que fazer.

É, gente.

Democracia com animais dá nisso.

Camping

A política do grande queridão Kassab está trazendo todos os mendigos da cracolândia pros arredores da São João.

Ele deve achar que os homens de rua somem se você tira eles de um lugar.

E aí agora todo o comércio alimentício ambulante da região, que não é pouco, entra em conflito com eles. Eu outro dia comprei uma pizza brotinho pra levar pra casa lá na 24 de Maio e tive que pensar bem o caminho e a estratégia pra conseguir chegar com a pizza em casa – porque se algum deles pedisse, eu não ia conseguir negar.

Só espero que isso não acabe dando nisso.

Aliás, caralho, ainda não consegui esquecer esse vídeo.

Ainda bem.

Cartão de natal

É simplesmente impossível encontrar um cartão de Natal não-barango no centro.

Até aqueles fofinhos de bichinhos são estragados com alguma frase ridícula dentro.

É pedir demais encontrar cartões em branco?

Parece que meu amigo secreto vai ficar só com o presente mesmo.

Papel picado

E falando em centro e Natal, ontem alguém teve a brilhante idéia de jogar papel picado do último andar da Galeria do Rock.

MUITO papel picado.

Pra desespero da tiazinha terceirizada da limpeza da C&A, que lutava com sua vassoura são-jórgica contra o papel que o vento e as pessoas insistiam em levar pra entrada da loja.

Enquanto isso, pedestres super preocupados diziam “é por isso que dá enchente nessa merda”.

E nove passos depois atiravam o papel de seus chocolates no chão.

Taxista macabro

Fui voltar da casa dos meus pais ontem à noite  e a minha mãe fez questão de que eu fosse de táxi – afinal, “já” era meia-noite e eu estava de Robofoot.

Aí peguei o táxi e a conversa inevitável com o taxista já começou com ele mandando bem. 

Olhou pro meu pé e disse:

- E aí, chutou a namorada?

OK, ele tentou fazer uma piada entre a Robofoot e a expressão “chutar a namorada”, só que ela foi tão ao pé da letra que eu pensei em chutar literalmente, e já segurei o riso.

Aí fomos conversando de futebol, ele me contando que era goleiro do segundo quadro do time do Banco Itaú de futsal, eu falando do Autônomos, ele me mostrando os dedos quebrados.

Até que chegamos na rua paralela ao Terminal Amaral Gurgel que eu nunca lembro o nome e que é mais conhecida por ser a rua onde mora José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Comentei isso com o taxista.

Eram meia-noite e quarenta e três minutos.

Ele virou pra mim, uma luz vermelha acendeu dentro do táxi, seus dentes incisivos cresceram e gelo seco começou a subir. 

Ele disse:

- Eu já participei de dois filmes dele.

Medo.

- Quais?

- Uns bem antigos, garoto…

Garoto. Não bastasse a palavra rimar com maroto, a expressão dele foi completamente… marota.

Pra não dizer macabra.

Sorte que minha casa fica dois minutos depois disso.

E sorte que não era meia-noite pra ele encarnar no meu cadáver.

Caminhão

E pra fechar o dia, desço do táxi e um caminhão daqueles que carrega caçambas está tentando estacionar em frente ao meu prédio.

Com, ao que parecia, um motorista bêbado descordenado.

Deu ré a primeira vez e a placa de trânsito que manda todos seguirem em frente entortou e ficou quase paralela ao solo.

Deu ré a segunda vez e a placa com o nome da rua passou raspando do mesmo destino.

Aí um cara que estava pela rua foi lá gritar com ele pra prestar atenção.

Não parecia que ele estava entendendo muito.

O que se confirmou quando na nova tentativa de dar ré a placa de trânsito ficou definitivamente paralela ao chão.

Maravilhoso.

Um milagre de Natal

Se um dia eu for levar meus filhos a uma igreja, o que só vai acontecer se Jesus aparecer em carne e osso na minha frente e disser “truta, leva os moleques agora ou vai todo mundo lá pra baixo”, vou levar nessa aqui.

Porque, vou te dizer, nada melhor pra fazer crianças acreditarem em algo que não existe (deus) do que ser pragmático e destruir a crença delas em algo que também não existe (Papai Noel).

Será esse o início de uma nova linhagem de padres materialistas?

Imagina só, a Bíblia numa mão e o Capital na outra…

A arte do ouvir alheio e a Geografia

Este post tem dois capítulos.

Capítulo I – Orgulho de ser analfa

15 de outubro, estou indo pra Porto Alegre de avião.

Quando a aeromoça está praticamente fechando a porta da aeronave, entram duas minas esbaforidas.

Olho pro meu lado, dois lugares vazios (o que até o momento me deixava bem feliz). Ergo os olhos pro teto e penso “será, Murphy?”.

Ele diz sim.

Se sentam, e começam, é claro, a conversar.

Tão alto que meus fones de ouvido não conseguem barrar.

Primeiro, falam de toda a esperteza necessária pra conseguir pegar o avião.

- Ai, nem acredito que conseguimos…

- É, que correria!

- É… sei lá… você viu a cara daquele homem lá quando ele viu que a gente conseguiu?

- Vi, foi só a gente entrar que ele foi falar com a atendente. Vai ver ia fazer igual.

- É, eu nunca fiz isso de FINGIR QUE TENHO CÂNCER pra entrar no avião, mas deus vai entender porque eu fiz isso, né?

- Vai…

Nesse momento, eu juro que deixei de ser ateu e rezei com todas as forças pra que deus exista e seja BASTANTE vingativo e criativo – se quiser, ó Senhor, posso até te dar umas idéias, é só bater um fio.

É claro que, depois disso, não dava mais pra me concentrar nem na música, nem no livro.

E elas continuavam a contar pro avião inteiro suas peripécias.

- Meu marido é gaúcho né, e ele fica morrendo de raiva de mim quando eu falo de lá.

- Porquê?

- Ah, é que eu moro em São Paulo né, e a capital de São Paulo é São Paulo, então eu penso em Porto Alegre do mesmo jeito, ESQUEÇO que o estado é Rio Grande do Sul.

- Ai, eu também sou ruim nessas coisas.

- É?

- Sou sim, por exemplo: eu nunca sei a CAPITAL DE CURITIBA…

- Nem eu…

(DEUS, empalamento, DIZ QUE SIM vai?)

- Ah, lá em casa, também, a gente combinou: eu sou boa em matemática e ele é bom em história.

Nesse momento, a luz divina cansou de ser açoitada e o avião deu uma balançada. 

Que, ao que parece, fez bem ao cérebro da outra, que respondeu:

- Mas isso não é história, é geografia.

- AH, DÁ NA MESMA.

Uma pena, sério mesmo, as janelas de avião não abrirem por dentro. 

Capítulo II – Internacional Piriguetista

Hoje, pego um ônibus pra voltar pra casa.

Um ponto depois de adentrá-lo, uma dupla de moderninhas (a versão anos 2000 das patricinhas) passa a catraca falando alto.

Com um sotaque bêêêim paulíííísta, mêêêo.

- Nossa, tipo assimmm, ela é legal mêo, mas se acha néam?

- É, mas tipo assimmm, eu acho até digno sabe?

- Ah, sei lá, é um tal de conheci gente em Paris, na Alemanha, na Suécia… mêo, muinto desnecessário contar tudo issoam…

- E aquela do “ai, eu tive um namorado sueco, mas o português atrapalhava muito”, mêo!? Pô, eu aqui não consigo pegar NEM UM BOLIVIANO!

É… sorte dos bolivianos que ela não deve nem saber aonde é o Pari.

Run, Morales, run.

Anão ou viado?

É, gente.

De vez em quando o seu mp4 que te protege da boçalidade do cotidiano te deixa na mão e você se encontra em um ônibus lotado voltando da USP com milhões de estudantes conversando.

E é claro que meus ouvidos biônicos, numa hora dessas, bastaram se despedir da música pra ouvir logo de cara alguém falando:

- O que você acha pior, que seu filho seja anão ou viado?

E já segurei o riso.

Era o Marcelo, descobri depois, já que os amigos do Marcelo repetiram umas 500 vezes:

- Marcelo, só você mesmo.

Porque começou assim, e daí foi melhorando. Marcelo sabia falar de muitos assuntos. 

Começou com o futuro da família:

- Tenho certeza que minha filha vai ser drogada.

Logo depois, passou pra política:

- Ah, mas uma coisa que eu não vou deixar é ela votar no DEMo. Se votar no DEMo eu jogo ela na rua.

Então, usando o gancho anterior, foi pro futebol:

- Pior do que ser anão ou viado é se ela for palmeirense. Isso nunca. É o fim do mundo!

Corinthiano, o Marcelo?

Não.

- E se ela for corinthiana, Marcelo?

- Fim do mundo menos um.

E pra completar a tríade “política-futebol-religião”, ele mandou logo:

- Agora imagina se ela for religiosa, que saco? Vai ficar querendo ir em Marcha pra Jesus, me pedindo “pai, me leva no Marcelo Rossi”… Pior que isso só se for testemunha de Jeová!

Felizmente (pra mim), o Marcelo não estava só. Ele tinha amigos – três.

Sendo que dos três, dois eram religiosos – um deles, testemunha de Jeová.

Outro tinha acabado de descobrir o uso do “fulano ligou e pediu sei-lá-o-quê de volta”.

Então, a cada marcelada, ele soltava:

- Marcelo, o South Park ligou e pediu o politicamente incorreto de volta.

- Marcelo, Mussolini ligou e disse que você está sendo muito extremista.

Esse, na hora de falar dos futuros filhos, lançou:

- Meu filho vai ser FUINHA, igual o pai.

Por favor, deus, se você existir mesmo, castre esse amigo do Marcelo, sim?

Porque alguém que espera que o filho seja FUINHA IGUAL O PAI simplesmente NÃO PODE reproduzir.

O ônibus subia a Rebouças e Marcelo e seus amigos começavam a discutir sobre licenciatura. Os amigos já faziam, Marcelo ainda não tinha começado. 

Ele só imaginava como era:

- Imagina eu lá, com um monte de gordo que faz física reclamando do professor porque ele mandou ler 2 páginas de texto? Vou fazer grupo com esses caras, eles vão dizer “eu não sei ler, só sei fazer fórmula”.

Nisso uma das amigas do Marcelo soltou A MELHOR DA NOITE, campeã, imbatível, our-concours, supreme:

- Ah, sabe o que eu percebo? Que eu não sinto falta de exatas. Já o pessoal de exatas lá na minha sala, sente muita falta de humanas. Porque, sei lá, É HUMANAS MÊO, É DO SER HUMANO!

Mesmo sempre tendo achado matemática e física coisa de extraterrestre, nessa hora eu não consegui segurar e dei uma risada. 

Mas a turma do Marcelo estava tão compenetrada que nem percebeu.

O momento que ninguém gostaria que chegasse se aproximava. Estávamos já quase no ponto do Marcelo descer, então ele precisava fechar a conversa. 

E é claro que ele não deixaria de finalizar o papo com brilho:

- Claro que eu prefiro que meu filho seja viado. Já pensou, anão? DEFORMADO?

Detalhe: dois metros à frente, uma senhora lutava bravamente pra manter a cadeira de rodas de seu filho parada dentro do ônibus…

Enfim, Marcelo desceu.

Mas me deixou com uma dúvida, que coloco aqui para todos:

E aí, anão ou viado?