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Munição sem maldição!

Pra tranquilizar todo mundo depois de umas interpretações erradas aqui da história:

- o Babette NÃO MORREU (que eu saiba), quem morreu na história foi o Róbson, amigo dele;

- NÃO É VERDADE que depois de escutar a demo ou o CD do Munição você recebe um telefonema com uma voz estranha dizendo “sete dias”;

- TAMBÉM NÃO É VERDADE que depois desses sete dias o Babette sai da TV pra te matar vestido de mulher com uma santa e uma Bíblia na mão e gritando “EU TACO FOGO!”;

- o Róbson NÃO É A LENDA-VIVA QUE PEGOU O CD DO MUNIÇÃO. Me embananei aqui com o que me contou a Ana Carol. Quem pegou o CD foi o James, e foi ele também que ofereceu abrigo pro Babette. O Róbson apenas morou com eles depois.

Ou seja, A LENDA VIVE! Ainda posso conhecê-la um dia e tirar foto junto! E pra melhorar, ela se chama JAMES!

J-A-M-E-S!

Sensacional.

Mesmo assim, fica aqui meu pesar pela morte do Róbson, que não conheci, mas que de uma forma ou de outra esteve ligado com a história do Munição.

Sem maldição.

EU TACO FOGO!

Babette diz: EU TACO FOGO!

Munição ou Maldição?

Tem ligações que a vida apronta entre as pessoas que você conhece que rendem histórias bizarras.

Hoje, uma amiga me contou o final de uma delas.

Seguinte: entre 2002 e 2004, mais ou menos, eu fui baterista de uma banda de hardcore crust chamada Munição. A banda tinha até boas idéias, mas a execução delas era bem ruinzinha. E durante sua curta existência vivemos muuuuuuitas aventuras.

Entre outras peripécias, tocamos em Curitiba (onde rasgamos uma Bíblia e quebramos a imagem de uma santa), Joinville (onde nosso vocalista tocou vestido de mulher e na platéia se ouviu a pergunta “Isso é uma mina muito feia ou um cara vestido de mina?”), Araraquara (onde roubaram parte dos nossos instrumentos enquanto discutíamos com os locais que achavam que o nosso jeito “enérgico” no palco era um desrespeito típico dos habitantes da capital para com os caipiras) e alguns lugares de São Paulo onde Judas perdeu as botas. Nosso já citado vocalista, o Babette, era (e ainda é) uma figura ímpar, quase uma caricatura, que num dos shows, sem mais nem menos, deu um beijo – de língua – em um dos guitarristas e que, em outro, após ter brigado com a namorada, tocou sem camisa com a frase “o amor não vale nada” na barriga – frase que ficou para sempre estampada ao contrário na camisa do baixista, o Davi, depois que o Babette resolveu pular, todo suado, nas costas dele.

Pois bem.

Quando decidimos terminar a banda, depois de ter lançado só uma demo muuuuuito ruim (nomeada “Demo ensaio ensaio do Demo”), resolvemos que no último show lançaríamos um CD que na verdade era um ensaio ao vivo. Intitulamos ele de D.E.U.S. (Demo Ensaio do Último Show) e fizemos pouquíssimas cópias (umas 5 ou 10, não lembro) que jogamos do palco pra galera presente no show (que desviou pra não pegá-las, lógico).

Anos depois, a banda desfeita, nosso vocalista foi morar em Assis, onde cursaria a faculdade de História da UNESP. Depois de um tempo lá, ele ficou sem casa e foi convidado por um punk para dividir apartamento. Aceitou de imediato, grato pela conhecida burrice ingênua solidariedade punk.

Chegando na casa do tal punk (cujo nome descobri hoje: Róbson), o dito cujo foi lhe mostrar os CDs que tinha, já que punk que é punk encoxa a mãe no tanque sempre tem orgulho de sua coleção de discos ruins.

Seguiu-se o seguinte diálogo (ou algo do tipo):

- Véi, escuta essa banda, é a melhor banda que eu já escutei de hardcore, as músicas são foda e as letras são fodidas!

- Sério? De onde eles são?

- De São Paulo. Mas a banda acabou, eu peguei esse CD no último show deles, só tem 5 cópias no mundo!

Babette pega o CD.

- MANO! NÃO ACREDITO!

- Que foi, véi, cê conhece eles???

- MANO! EU ERA O VOCALISTA DA BANDA!

- Ah, pára, mentira!

- EU JURO MANO! EU JURO! EU QUE FIZ TODAS ESSAS LETRAS!

Como o CD não tinha o nome dos integrantes da banda nem nada, o punk Róbson não acreditou e intimou o Babette, como todo bom punk faz. E o Babette teve que cantar junto uma ou duas músicas pro cara crer.

Só essa parte da história já é fantástica. Mas tem mais.

Hoje uma amiga minha, a Ana Carol, vem falar comigo no MSN. Diz ela:

- Mandioca, você conhece o Róbson? Um que foi falar com você na USP semana passada? Que fez História na UNESP?

- Aaaaaaah, o Róbson? O Robinho? Não. Aliás, eu nem fui na USP semana passada.

- Um que é amigo do James, que namora uma Juliana…

- Não. James pra mim é nome de mordomo e Juliana, nunca vi na feira.

- Um que pegou com vocês uma fita do Massacre [em Alphaville, outra banda em que já toquei].

- Não… que eu me lembre.

- Ele morava com um amigo seu, sei lá, em Assis, que era da banda.

- NOSSA! O BABETTE???

- Éééé, esse mesmo. Tem até uma lenda que ele pegou a fita num show de vocês e só depois conheceu o cara.

- NOSSA! Eu conheço a lenda do cara, mas não o cara! Só que a lenda certa é com um CD e a banda é o Munição!

- É isso aí, é isso aí.

- Tá, que que tem ele?

- Ele morreu sexta-feira.

- QUÊ???

- É, ele tinha vindo morar aqui com a Juliana, namorada dele, que é minha amiga. Aí na sexta eles brigaram e…

Pra encurtar a história: o cara brigou com a namorada e foi dar um rolê. Ela juntou as roupas dele num saco pra expulsar ele de casa e foi visitar o irmão. Ele voltou pra casa, não achou ela nem as roupas dele e achou que ela tinha ido pra Bauru, cidade natal dele, levar as roupas dele embora. Falou isso pra prima dela, pegou a moto pra ir atrás da mina e… morreu em um acidente na Berrini.

A família dele não deixou a mina ir nem no velório nem no enterro. 

Bizarro, simplesmente bizarro.

O Munição às vezes parece uma maldição que nunca vai nos abandonar.

Ficam aqui os pêsames pela morte de uma das maiores lendas da minha vida. 

E da vida de todos da banda.

Que descanse em paz. Provavelmente nosso maior único fã.

Hoje o blog está de luto por ele, que morreu por amor.

Amor que, longe de não valer nada, rende grandes e intermináveis histórias para a humanidade.