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Sessenta

Hoje meu pai completaria 60 anos.

Amanhã completam-se 3 meses de sua morte.

Hoje eu faço 60 anos.

Amanhã, 59 e 9 meses.

Noventa dias parecem pouco perto de sessenta anos.

Mas casa segundo sem meu pai é uma eternidade. 

Tanto não dito nesses três meses…

Fui pra Argentina, pai. Duas vezes.

Assinei Corinthians no RG.

Ronaldo finalmente jogou. E como jogou.

Estamos na final do Paulista.

Não jogamos mais no Morumbi, só como visitantes. E nos dão apenas 10% dos ingressos.

Estou solteiro de novo.

Tenho mais uma filha, a Boquita. Achei ela na rua.

E hoje eu me formo.

Pra lembrar de você, e de quanto de você esteve e está em minha tese.

Sinto saudades demais. 

Às vezes choro no almoço. 

Não um choro desalentador, mas um choro ao mesmo tempo doído e gostoso.

Dos chutes na janela em Pirituba.

Das idas ao terrão do Corinthians – lembra quando joguei de meia-esquerda e ganhei a camisa de melhor em campo?

Do Pacaembu – embora lá você esteja sempre que eu vou.

Do boa noite de todos os dias.

Eu poderia escrever muito mais do que as 198 páginas da minha tese, só de lembranças suas. Mas prefiro guardá-las, pra revê-las aos poucos.

A cada beijo em você no braço direito antes de cada jogo.

A cada gol sem abraços, sem telefonemas, sem “você viu, que golaço?”.

A cada dia sozinho neste mundo.

Mas, apesar das palavras tristes, não se preocupe, pai. Estou bem.

Completando alguns sonhos, destruindo alguns outros, criando outros novos. 

Importando alguns seus.

Não sei direito se você pode me ver, ouvir ou escutar. 

Mas se puder, olhe pela janela no dia 31 de dezembro.

Estarei lá, como a gente combinou e não cumpriu.

Correndo a São Silvestre.

E vou chegar ao fim. Duas vezes.

Uma por mim, e outra por você.

Porque você sempre foi minha mão, meus olhos, minhas pernas, meu sangue quando precisei.

Nada mais justo do que eu agora ser seus pulmões.

Parabéns, pai.

Nos encontramos nos sessenta.

Todo dia.

Beijos,

Dan.

***

P.S.: Lu, chorar de saudade não é vergonha alguma. Mas lembre sempre que o pai tá aí, tá aqui, tá em todo lugar. E sempre vai estar. Espero te ver em muito breve, quem sabe eu não vou pra Austrália em julho?

Te amo, irmãzona!

Crônicas portenhas – parte I

Voltei da terra da prata fazem uns dias já, mas só agora consegui me recompor para contar alguma coisa.

E como não dá pra ir à Argentina sem pensar em futebol, a saga começa com ele.

Então, senhoras e senhores, entra em campo a Seleção Brasileira que vai à Argentina defender as cores canarinhas.

Vamos à escalação do time.

No meio campo, organizando as jogadas com maestria, Leonor Macedo.

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No ataque, leve, feliz e saltitante como bom bambi que é, Alejandro Cuesta.

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Na defesa, cuidando para que o time esteja sempre seguro de sua posição (ou seja, o responsável pelos bilhetes do metrô), eu.

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E no gol, não deixando passar desaforo nenhum, Wandeko.

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Pois é, foram doze dias em terras hermanas. Doze dias de férias, azaração e uma galerinha da pesada aprontando muuuuita confusão… ou não.

Cerveja, isso sim, com certeza teve. Quilmes e Stella Artois de um litro mais calor: faça as contas.

E argentinos e argentinas, também, teve aos montes. Desfilando pelas ruas, uma verdadeira fashion week permanente. Haja olho azul nesse mundo. Embora parando pra pensar com calma tenha sido com eles que menos conversei – ao mesmo tempo em que quando encontrei uma argentina pra conversar… bem… maldito castellano-com-a-língua-entre-os-dentes, irresistível.

Mas o que importa é que foi divertido, um monte. Mesmo com alguns estresses. E tem tanta coisa pra contar que nem sei por onde começar… mentira, sei sim: La Bombonera.

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O estádio do Club Atletico Boca Juniors poderia ser resumido numa Rua Javari de três andares. O que, em jogo importante com casa cheia, deve ser monumental – com perdão do trocadilho. 

Mas, sinceramente, o que eu vi naquele Boca 3 – 0 Argentinos Juniors não foi muito diferente do que vejo por aqui num Corinthians 3 – 0 Marília no Pacaembu: uma hinchada que canta o tempo todo e o resto que sobe e desce junto com o jogo.

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E falando em Corinthians…

Parede da Bombonera

Parede da Bombonera

Fora do estádio, aí sim, outra história. Muito mais organização, ruas no entorno fechadas bem antes da hora do jogo, divisão de quem entra por qual portão sem haver tumulto, nem sequer um policial intimidador – ok, não estávamos no setor da La Doce, então isso conta – e muito comércio. O entorno do estádio do Boca é um típico lugar pra turista otário, onde você pode comprar mais caro a mesma coisa que compraria no centro de Buenos Aires três vezes mais barato. Aliás, toda Buenos Aires – capital federal – é um grande pega-turista.

Do jogo, ficaram duas impressões fortes: o respeito que se tem com o minuto de silêncio – a hinchada toda simplesmente cala por completo – e a adoração à Riquelme, preferido todo o tempo em relação ao deus maior xeneize Maradona.

Maradona, inclusive, que encontramos dando uma volta pelo Caminito, espécie de centro antigo do bairro da Boca:

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E já que saí do estádio pra falar do Caminito, vamos a ele.

Encantador, assim posso resumi-lo.

Uma rua antiga com casinhas coloridas, muito comércio de rua, restaurantes, estatuetas (aliás, estátua é o que não falta em Buenos Aires, lado a lado com bosta de cachorro). E muita adoração ao Boca Juniors:

Por lá tiramos muitas fotos, até uma com o Cartola:

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E encontramos um argentino que fez questão de homenagear o São Paulo (o vídeo não é nosso, mas ele fez igualzinho com a gente):

Agora, uma dica boa pra quem quer ir à Boca e à Bombonera sem se foder é chegar no estádio umas 5 horas antes do jogo, comprar seu ingresso na bilheteria normal sem superfaturamento, dar uma volta pela Boca ou por algum bairro próximo e voltar uma ou duas horas antes do jogo. Isso, claro, se tratando de um jogo sem maior relevância como esse Boca – Argentinos Juniors a que fomos.

E como esse post já tá grande demais, vamos parar por aqui.

Não sem um vídeo final pra ilustrar o espírito Xeneize:

E não sem cenas dos próximos capítulos:

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Resposta do Nordeste

Resposta ao post “Corinthians mais paulista do que nunca”:

***

Oman, suas preocupações são justas, mas nós daqui do Nordeste, de início, só queríamos uma arbitragem mais imparcial e uma tabela menos sacana com nossas torcidas. Olha aí os horários dos jogos da gente… Nem ligamos se a imprensa não conhece o nome dos nossos jogadores, basta que denunciem os erros da arbitragem. Esse ano beirou ao ridículo. Só vou dar um dado pra você suspeitar do que acontece. Durante todo o campeonato só marcaram dois pênaltis a favor do Vitória, ambos no primeiro turno. Sendo que contra o Vitória já marcaram 7. Agora, o Vitória é um dos times mais leves do campeonato brasileiro, que joga com maior velocidade e é, ao mesmo tempo, o time menos violento, com menor número de faltas. Não é de estranhar não? Só não levanto os erros de arbitragem aqui pra não parecer ridículo, coisa de torcedor chorão. E o site globo.com ainda teve a cara de pau de fazer uns cálculos doidos para mostrar que o Vitória foi beneficiado pelos erros de arbitragens e, claro, os times do Rio os mais prejudicados. Agora, os dois erros a favor do Vitória, um contra o Flamengo e outro contra o Fluminense, os árbitros dessas partidas foram suspensos [todos esses dados precisam ser confirmados]. Desse jeito o Campeonato Brasileiro vai se tornar um campeonato paulista ampliado mesmo, com até os times do Rio sendo secundários e o time shopping center (São Paulo) levanto três a cada cinco. Esse ano deu vontade de voltar pra Série B, pq lá o campeonato é mais emocionante, mais justo, mais equilibrado. Não é à toa que todo mundo que desce, quando volta a torcida está mil vezes mais apaixonada. A série B faz bem ao futebol!

Outra coisa é que os campeonatos regionais são uma droga, um grande lixo, ao contrário do que vocês aí do sul e sudeste pensam. A gente aqui do nordeste quer mesmo jogar o Nordestão, que era um campeonato lindo, sempre com arquibancadas cheias – o que a gente sabe fazer melhor do que ninguém – mas a CBF proibiu a existência desse torneio. Prefiro mil vezes o Nordestão que o Brasileirão!

Portanto, a melhor fórmula para o Campeonato Brasileiro não é impor um “sistema de cotas”. Isso é besteira. É importante para as universidades, não para o futebol. A melhor coisa é tirar da TV o poder sobre o campeonato e priorizar as arquibancadas, e os torcedores que as freqüentam. Voltar a colocar os jogos aos domingos pra que a gente contagie nossos times. Não é só a torcida do Flamengo e a do Corinthians que sabe fazer festa não! E garantir que percamos na bola, mesmo tendo times inferiores, e não por causa da interferência das arbitragens. Pq a gente vai ao estádio pra ver nossos times mesmo eles sendo tecnicamente inferiores, e aplaude até quando perde, mas perdemos todo o ânimo quando sabemos que o “apito amigo” vai nos levar sempre à derrota, não interessa o quanto o time jogue com a raça que a gente pediu.

O tipo de justiça que a gente quer é essa. O capital não vai se justo com a gente nunca, nunca vamos ter os mesmos recursos que os times do sul e sudeste. Ninguém se ilude com isso por aqui. Mas se os juízes conseguirem se submeterem menos à essa lógica e deixarem a torcida da gente fazer o que ninguém mais faz por nós, que é torcer por nós mesmo, então a gente volta a se apaixonar por esse campeonatozinho.

É isso. Quem fala aqui é um torcedor indignado com os rumos desse futebol brasileiro.

Abraços!!

DanCaribé

A arte do ouvir alheio e a Geografia

Este post tem dois capítulos.

Capítulo I – Orgulho de ser analfa

15 de outubro, estou indo pra Porto Alegre de avião.

Quando a aeromoça está praticamente fechando a porta da aeronave, entram duas minas esbaforidas.

Olho pro meu lado, dois lugares vazios (o que até o momento me deixava bem feliz). Ergo os olhos pro teto e penso “será, Murphy?”.

Ele diz sim.

Se sentam, e começam, é claro, a conversar.

Tão alto que meus fones de ouvido não conseguem barrar.

Primeiro, falam de toda a esperteza necessária pra conseguir pegar o avião.

- Ai, nem acredito que conseguimos…

- É, que correria!

- É… sei lá… você viu a cara daquele homem lá quando ele viu que a gente conseguiu?

- Vi, foi só a gente entrar que ele foi falar com a atendente. Vai ver ia fazer igual.

- É, eu nunca fiz isso de FINGIR QUE TENHO CÂNCER pra entrar no avião, mas deus vai entender porque eu fiz isso, né?

- Vai…

Nesse momento, eu juro que deixei de ser ateu e rezei com todas as forças pra que deus exista e seja BASTANTE vingativo e criativo – se quiser, ó Senhor, posso até te dar umas idéias, é só bater um fio.

É claro que, depois disso, não dava mais pra me concentrar nem na música, nem no livro.

E elas continuavam a contar pro avião inteiro suas peripécias.

- Meu marido é gaúcho né, e ele fica morrendo de raiva de mim quando eu falo de lá.

- Porquê?

- Ah, é que eu moro em São Paulo né, e a capital de São Paulo é São Paulo, então eu penso em Porto Alegre do mesmo jeito, ESQUEÇO que o estado é Rio Grande do Sul.

- Ai, eu também sou ruim nessas coisas.

- É?

- Sou sim, por exemplo: eu nunca sei a CAPITAL DE CURITIBA…

- Nem eu…

(DEUS, empalamento, DIZ QUE SIM vai?)

- Ah, lá em casa, também, a gente combinou: eu sou boa em matemática e ele é bom em história.

Nesse momento, a luz divina cansou de ser açoitada e o avião deu uma balançada. 

Que, ao que parece, fez bem ao cérebro da outra, que respondeu:

- Mas isso não é história, é geografia.

- AH, DÁ NA MESMA.

Uma pena, sério mesmo, as janelas de avião não abrirem por dentro. 

Capítulo II – Internacional Piriguetista

Hoje, pego um ônibus pra voltar pra casa.

Um ponto depois de adentrá-lo, uma dupla de moderninhas (a versão anos 2000 das patricinhas) passa a catraca falando alto.

Com um sotaque bêêêim paulíííísta, mêêêo.

- Nossa, tipo assimmm, ela é legal mêo, mas se acha néam?

- É, mas tipo assimmm, eu acho até digno sabe?

- Ah, sei lá, é um tal de conheci gente em Paris, na Alemanha, na Suécia… mêo, muinto desnecessário contar tudo issoam…

- E aquela do “ai, eu tive um namorado sueco, mas o português atrapalhava muito”, mêo!? Pô, eu aqui não consigo pegar NEM UM BOLIVIANO!

É… sorte dos bolivianos que ela não deve nem saber aonde é o Pari.

Run, Morales, run.