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Delas, o tempo

As três gatas, havendo visita, se iam. Quer dizer, iam e vinham outra vez, principalmente a branquela, atirada que só. A pretinha, cheia de si, demorava mais, mas trazia consigo o ar de dona da casa a investigar quem vinha se intrometer. Só a rajada que, não mesmo.

Encantavam, elas, porque isso de que gato é distante, rá, mentira. Das grandes.

Acordava, e estavam as três à porta do quarto, ou duas, ou uma. Nenhuma, nunca. Sempre havia. E olhavam sua cara de sono, e queriam era afago, ou comida, ou o quarto com suas caixas e esconderijos.

Ele as tomava no colo, acariciava. Gostava de surpreender a pretinha. Sempre a mais difícil, cheia de não-me-toques. Mas era pegá-la e miava, a danada, e fingia querer sair, mas ficava, e fechava os olhinhos. Rendia.

Desconfiadas eram, sim, que gato não é igual gente ou cachorro. Cheiravam, e sentiam seguro, antes de tudo. Isso com os outros. Com ele, já eram. E ele delas.

Então que no dia a dia era ele que sabia das manias de uma e de outra, e de outra, que três, e eram a ele que se entregavam, como se fosse árvore de natal, ele, e enfeites, elas. De modo que nunca estava só, nada. Iam ao sofá e lhe ocupavam, pernas, braços, qualquer dobra. E logo era um festival de barrigas ao céu, e ronronares e afagos e manha. Manha, sim, que todo gato tem manha de sobrenome.

Mas não só elas. Também era ele quem as buscava. Sim, que das suas manias todas havia aquela de contar. E estava uma e outra, mas e a rajada? Essa demorava mais pra chegar, mas chegava. Então contava, e lá: uma, duas, três.

Um dia a branquela não. E uma, duas. E onde? Toca a procurar, dentro do armário, embaixo da cama, atrás da geladeira. Nada.

Uma, duas. Três?

Precisava três.

Começou a subir um suor, e que diabos, onde se enfiou? Passou pela rede na janela? Não, que não era possível, magrela mas nem tanto.

E em cima do armário, e atrás do fogão. Nada. As portas dos quartos e banheiros, como sempre, fechadas. Estaria dentro? Mas como? Foi ver.

Nada.

Era quase desespero já, e justo a branquela, frágil e delicada. Aonde, essa gata? Que se fugir aposto que não dura três minutos, porque tão bobinha, e… ouviu unhas.

Vinha de fora.

Será possível?

E sim, será possível, abrira a porta pra botar o lixo, e ela zás, disparou, que nem viu, ela que gostava de passear, sim, gata que gosta de passear, vê se pode, ia na bolsinha de pano e tudo, e nem fugir queria, só olhar a rua. Daí que porta aberta era sempre chance, pra ela. Mas ia sempre até a escada, e pronto, estátua. Esperando que ele a tomasse no colo, e quiçá a bolsinha, ou ao menos o lar outra vez.

Então operou o resgate e levantou-a e viu nos seus olhos a felicidade do reencontro, daqueles de quem espera na rodoviária por parente distante.

E a pôs no chão, donde observavam as outras duas, e pronto.

Uma, duas, três.

Que o ritmo da casa, eram elas.

Olhos de cão – I

Namoravam, e moravam juntos, e tinham animais de estimação.

Eram dois cachorros e uma gata.

Entre eles, se portavam como os cachorros, companheiros. Dividiam sonhos e atenções, carinhos, beijos e fidelidade.

As janelas do apartamento não tinham rede. E a gata por vezes ia dar suas bandas.

Ia e voltava. Ia e voltava. Ia e voltava.

Um dia foi, e não voltou.

Eram cachorros, mas o namoro era a gata.

A Zica do Pacaembu

Domingo, saindo do Pacaembu com uma amiga com a cabeça cheia pela goleada sofrida, coisa que há muito não via acontecer em casa, reparamos num amontoado de gente apontando pra um cantinho junto à parede. Passo olhando pra ver o que é e qual não foi minha surpresa ao constatar que havia um pequeno gato acuado junto a uma dobra no muro.

Agachei e tentei tocá-lo, mas o bichano estava com muito medo e tentava me atacar. Aos poucos, fui ganhando sua confiança, e fiquei ali uns bons 15 minutos sentado no chão fazendo-lhe carinho. Enquanto isso, esperava o estádio esvaziar e protegia o pequeno animal da curiosidade de crianças pequenas – que poderiam facilmente ter tomado uma bela unhada – e de marmanjos e donzelas que exprimiam, cada qual a seu tom de voz, “oooooooun, um gatinho”.

Uma delas, inclusive, alertou para o fato de que provavelmente era uma gatinha, uma vez que tinha três cores e machos com três cores são raríssimos. Pedi a minha amiga para encontrar uma caixa de papelão em alguma das lanchonetes do estádio e, com o Pacaembu já quase vazio, me arrisquei para pegar a gatinha pelo cangote e colocá-la na caixa.

Rumando com a bichana em direção ao último portão aberto do estádio, disse à minha amiga:

- Essa já tem nome: Zica. Tirei a Zica do Pacaembu.

Cheguei em casa com minha nova companheira e tive que trancá-la no banheiro, uma vez que não sabia a reação que teriam Branca e Boquita, as gatas, e Preta, a cachorra que já tenho por aqui. Tratei de arrumar-lhe uma caixinha com pano, comida, água e um pouco da areia das outras gatas, e fui ao computador ver se encontrava algum amigo veterinário online para umas dicas.

Nesse meio tempo, nenhum veterinário online, consegui, mesmo sem ter a intenção definida de doá-la, duas potenciais donas para a Zica. E já planejava o atraso no trabalho no dia seguinte para levá-la ao veterinário.

Só que, como todo torcedor apaixonado está cansado de saber, zica não se controla tão fácil assim.

Do quarto, ouvi um barulho na área e fui ver o que passava. Era ela.

Tinha forçado o trinco quebrado da janela do banheiro, a qual eu tinha deixado meio aberta para que entrasse ar, e fuçava pela área amedrontada pela Preta, que não queria mais do que cheirá-la, e pela novidade do lugar desconhecido.

Me aproximei e a Zica pulou na janela. Como já tenho animais em casa, entretanto, as janelas tem rede. Mas Zica é pequena e esguia e se enfiou entre o vidro e a rede propriamente dita. Tive que abrir a janela para tentar pegá-la, e com o movimento, por mais que eu tenha me esforçado em ser sutil, ela se assustou e passou a cabeça pela rede. Ao sentir-se presa, forçou o resto do corpo e foi-se telhadinho afora. Entrou pela janela do depósito da loja de peças automotivas que fica ao lado do meu prédio, a única saída possível daquele telhado.

Aborrecido, dormi mal, pensando apenas em bater na loja ao lado no dia seguinte pela manhã na esperança de reaver a Zica. Não poderia deixá-la correndo o risco de retornar às ruas – vai que ela volta pro Pacaembu…

Mas pela manhã descobri que o depósito tinha trocentas caixas e que a Zica provavelmente estaria perdida ali no meio. Deixei meu telefone e fui trabalhar. Só conseguia pensar na pobre gatinha assustada.

Quase no final do expediente, meu telefone toca e, pela primeira vez nas últimas 6 ligações, não é minha mãe: é o porteiro do prédio dizendo que encontraram a Zica, mas que esta fugiu de volta pro telhado e se enfiou numa caixa d’água abandonada.

Voei pra casa para ver aonde tinha se enfiado a gatinha e constatei que dali era impossível tirá-la. Por onde entrara não cabia um corpo humano, nem o meu, magro que sou. E me resignei a esperar que saísse, talvez retornasse à loja, e finalmente fosse capturada.

Até que a amiga que encontrou a Zica junto comigo ligou e disse que sua mãe tinha uma armadilha para gatos. Consistia numa gaiola em que jazia dependurado um pequeno gancho onde se podia prender um pedaço de carne de modo que, quando o gato o mordesse e puxasse, a gaiola se fecharia. Içei a armadilha terraço do prédio abaixo até o telhadinho e deixei ela lá.

De 17h30 até 22h ouvia a gata miar. Devo ter incomodado o porteiro pedindo para entrar no porão do prédio, onde ela dificilmente estaria mas podia estar, umas quinze vezes, e nada. De 20 em 20 minutos olhava pela janela e a carne estava lá, pendurada. Precisava me distrair.

Fui ver televisão, entoando mentalmente como se fosse escanteio para o adversário no Pacaembu:

- Sai, Zica! Sai daí!

Até que, telefone em punhos, enquanto conversava com uma amiga aniversariante*, vejo a Preta correr até a área e escuto um miado mais forte. Fui olhar e era a Zica: tinha caído na armadilha!

A fome havia vencido o medo da bichana, assim como a fé da torcida (quase)sempre vence as cabeçadas à meta de nosso arqueiro durante os jogos.

Subi com ela de volta ao banheiro e dessa vez fechei bem a janela. Não só a de lá mas todas as da casa. E tratei de alimentar a danada, que com a comida ficou um pouco menos arisca e até me deixou pegá-la no colo.

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Ainda não sei se vou ficar com ela, vai depender da aceitação do resto da população animal que comigo habita. De certa forma seria interessante que fosse domada e por aqui ficasse. Conviver com a Zica antecipadamente seria um bom treinamento prévio para a Libertadores 2010. Mas caso não dê certo, com certeza a gatinha irá para as mãos de alguma companheira de arquibancada, das duas que já se interessaram pela bichana.

Porque com a Zica, você sabe, tem-se que ter muito cuidado.

Ainda mais às vésperas do centenário.

E ninguém melhor pra cuidar da Zica do que quem já está mais do que acostumado com isso, anos e anos fazendo parte da massa sofredora que não à toa é conhecida a todo lado por Fiel Torcida.

***

*A Zica do Pacaembu, em homenagem à aniversariante Renata, que comigo falava ao telefone quando a bichana finalmente caiu na armadilha, levará seu nome como sobrenome. De forma que nos próximos jogos, no lugar do “sai, zica!” de sempre, gritarei com toda a certeza do mundo de que a bola irá pela linha de fundo:

- Sai, Renata!

Andando sobre patas

As pessoas sempre se espantam quando eu digo que tenho uma cachorra e duas gatas.

“Sério? Elas não se matam?”, perguntam.

Tom&Jerry demais na cabeça dessas criaturas.

Preta e Branca vieram juntas pra casa, novinhas. São irmãs. Se uma vai passear, a outra quer ir junto – Branca é a única gata de que tenho notícia que passeia dentro de uma bolsinha de pano com a porta aberta e nem sequer esboça fugir ou pular.

Por esses tempos, chegou em casa a Boquita, outra gata que encontrei minúscula na rua. De início temi que Preta e Branca a estranhassem, mas passado um mês, dormem juntas, brincam juntas e sofrem uma pela outra. Outro dia tive de prender Preta no banheiro e as duas gatas ficaram na porta, escutando a companheira chorar e me olhando com uma cara de “solta ela, pai”.

Seres simples, esses animais de estimação. Mesmo com uma briga de vez em quando, uma bronca, nunca esquecem que estão no mesmo barco, na mesma casa, no coração do mesmo dono.

De defeito, mesmo, só tem um: gostam demais de gente. 

Essa mesma gente que faz dilúvio em copo d’água por qualquer coisinha, que não consegue levar projeto nenhum pra frente quando há uma discordância, que sai se estapeando na primeira derrota mais dura, que vai pra casa depois de uma enorme humilhação coletiva com o orgulho tão ferido que é incapaz de repensar o que passou.

Orgulho.

Tenho certeza que Preta, Branca e Boquita não fazem idéia do que seja isso.

E ainda me chamam de louco quando eu digo que quero morrer sozinho em uma casa com meus 20 cachorros e 35 gatos.

Boquita

Ontem fui passear a Preta com o Jão e a Mix, amigos que deram uma passada de surpresa aqui em casa.

Eram mais ou menos sete e meia da noite.

Logo na calçada do prédio, começamos a ouvir um miado fininho, sem parar.

Eu e a Mix achamos que vinha de um carro estacionado e ficamos procurando com a lanterna dos celulares embaixo dele.

Chegou o dono do carro, abriu o capô, e uma coisinha preta minúscula miava em cima do motor.

Peguei ela na mão e imediatamente ela grudou na minha camiseta.

Aí, não teve jeito. Tive que trazer pra casa.

Fiquei com medo da Branca maltratá-la. Que nada, só estranhou um pouco e ficou na dela.

A Preta, curiosa e estabanada, é que ficou querendo cheirar e lamber a gatinha (descobrimos depois que é fêmea).

Só que a pequena é brava, e espanta a cachorra dez vezes maior com uma abertura de boca engraçada.

Daí que, juntando as coisas, depois de pensar em chamar ela de Pantera, de Viola e de Nêga, acabamos por nomeá-la Boquita.

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Boquita

O mais novo membro do meu harém da família.

Preta e Branca

Preta e Branca

Irresistível.

Come, pequena!

Come, pequena!

Curtas II

É, enquanto a Grécia não manda mais notícias e eu não tenho inspiração de verdade pra novas historinhas da Beth, vamos de curtas novamente.

Até porque é fim de ano e as boas histórias acumulam rápido, rápido.

Boça strikes again

Estou na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, aquela coisa enorme e modernosa, tentando escolher um livro pra minha mãe de Natal.

Na mão tenho um Milan Kundera e um Ítalo Calvino. Estou quase percebendo já que ambos seriam presentes bons pra mim e não pra ela e desistindo de livros quando Boça – ele! – ataca de novo aos meus ouvidos:

- Mêêêo, muinto lôca essa livraria, mêo. Acho que é a melhor livraria do mundo! Nenhum outro país tem uma livraria dessa.

E eu fui embora sem livro e feliz por ser pelo menos metade carioca.

Trabalho

Eu e a minha Robofoot estamos à porta do consultório médico no trabalho esperando pra fazer perícia. Outras duas funcionárias também estão lá. E elas começam a conversar.

- Mas vou te dizer, esse povo é folgado. Quer ver que amanhã vai ter segurado na agência ainda?

- É, é complicado. E quando eles saem do consultório e falam que não entenderam o que o médico disse? E eu que vou saber?

- Ah, é tudo pilantra. Se eu fosse presidente, esse auxílio-reclusão aí, eu cortava na hora. Ficar pensando que a família do detento tem que comer? Porque ele não pensou nisso na hora que matou e roubou? Tem é que morrer de fome mesmo.

- É,  pior são esses auxílios pra idoso. É tudo pilantragem. O povo fica acostumando com essas bolsas leite, bolsa escola, aí fica vagabundeando mesmo em casa.

Eu vou parar por aqui porque meu cérebro preferiu apagar o resto da conversa para o bem do meu estômago.

O governo dá dinheiro PRA BANQUEIRO e as mulheres reclamando que o povão pobre, fodido e ainda por cima DOENTE é “pilantra e vagabundo”.

Declarando a todos os ventos que atendem estes como se fossem lixo.

Eu sei que não deveria mais me assustar com isso, mas porra, eu queria sair dando bicudas robofooticas na cara das duas. 

E não dá nem pra culpar a idade: uma era velha e a outra nova.

Vou te dizer, a queda do 15º andar onde estávamos não seria castigo suficiente pra esse tipo de traste.

25 milhões de março

Peguei um ônibus ontem que passou paralelamente à 25 de março.

Vou te dizer: CARALHO, QUANTO GENTE.

O mundo precisa de algum tipo de epidemia urgente.

Peste negra, febre amarela, peste bubônica, qualquer dessas serve.

Porque nem em final do Corinthians me senti tão apertado. E olha que eu tava no ônibus, de fora, só olhando.

Imagina lá no meio…

Troco

No mesmo ônibus, o cara, que ainda não passou a catraca, vira pro cobrador meio fanho e fala:

- Você não quer trocar três reais não?

Eu entendi que ele queria trocar as 6543634 moedas que tinha por uma nota de dois e uma de um.

Mas o cobrador achou que ele estava pagando a passagem.

Só sei que quando eu desci do ônibus a conversa entre os dois ainda era:

- Olha só, eu te dei três reais, você me devolveu só 0,70.

- Mas a passagem é 2,30 mesmo.

- Não, mas eu queria trocar o dinheiro, não pagar. Eu tenho bilhete.

- Ah, agora já passei o bilhete…

Como diz  meu pai, comunicação é tudo.

Robofoot II

Quando eu acabar de usar a Robofoot no pé direito vou ter que passar ela pro esquerdo.

Porque, putapariu, essa merda tem um ferro que TODA HORA bate no calcanhar do outro pé quando eu ando.

Tá, a culpa é da minha falta de coordenação motora, mas mesmo assim, que merda.

Tô tendo que usar um naco de borracha dentro da meia pra evitar novas pancadas.

Ordem e caos

Aqui na São João entre minha casa e meu trabalho tem uma tiazinha meio doida que grita com os ônibus, os passageiros, os pedestres e tudo.

Eu ia escrever sobre ela, mas um amigo fez isso antes, então eu colo abaixo o texto dele, que é bom demais:

“Fazia já uns 4 meses que eu tava escutando uns gritos aqui no meu escritório, vindos da rua. Era uma voz de mulher, berrando coisas incompreensíveis, sempre na parte da tarde, do meio-dia às seis. 

Eu achava que era alguma coisa de nigeriano, funk, travesti ou pivete, tipos urbanos que dão rolê aqui na minha vizinhança. 

Até que um dia, encafifado, resolvi dar um rolê pra ver de onde vinham os gritos. E achei a origem na Av. São João, logo atrás do meu escritório. Pra ver o volume do bagulho: no centrão, uns cem, duzentos metros de distância, dez andares de altura, eu escuto a gritaria. 

E a gritaria vem de uma tia, uma mendiga negona, que fica no ponto de ônibus na pracinha da São João logo atrás do meu escritório. A tia vai e vem no ponto, gritando com as pessoas, com os ônibus, com os carros, com as estátuas, com tudo. 

Curiosão, me aproximei pra tentar distinguir o que a tia gritava, e era tipo uns chamamentos de atenção, umas broncas em tudo, a tia funcionava como um Jorel da rua, um fiscal do Sarney dos pedestres, veículos e estátuas, chamando a atenção das pessoas e coisas, dos elementos e gases, dos vapores e líquidos, botando ordem nas coisas, uma ordem imaginária, que existe apenas na sua cabeça e que não obedece às leis da química, da física e da matemática. 

Cheguei mais perto, pra ver se a tia me dizia alguma coisa, me incluía na condução do caos urbano que ela tentava em vão ordenar. Pensei que ela podia dizer algo como “AÍ GORDINHO, FICA DE BESTEIRA PARADO NA CALÇADA? SE NÃO VAI PEGAR BUSÃO SAI ANDANDO!” ou “NÃO ACHA QUE TÁ NA HORA DE TOMAR VERGONHA NA CARA E PERDER ESSA PANÇA, MANO? OS PEDESTRE TÃO DANDO A VOLTA PRA PASSAR DO TEU LADO E ISSO TÁ ZOANDO ESSA CALÇADA!” 

Mas a tia não prestou atenção nimim. Tava ocupada gritando com um busão bi-articulado e depois voltou sua atenção prum cachorro que inventou de atravessar a São João ao lado dela, fora da faixa. 

Aí ela virou pro meu lado, e eu vi. Vi a razão da sua loucura, o motivo da sua raiva, o fundamento da sua dialética do nonsense: a tia era barbada. E pior, a barbinha dela fazia uma trança no queixo, tipo um faraó. O bagulho era grande, acho que uns dois ou três dedos, rivalizando e ganhando de uns 6 ou 7 cantores de new-metal. 

Chocado com a constatação, humilhado pela superioridade capilar dela, e constrangido por não ser notado nem pela mendiga barbada, saí andando. 

E enquanto teclo essas linhas aqui no meu escritório, ainda ouço a tia barbada gritando lá na São João. Hoje é ante-véspera de Natal, amanhã acho que ela não vem “trabalhar”, então acho que tá compensando o tempo, acumulando num banco de horas imaginário. 

Vai, tia barbada! Põe ordem na São João! Põe ordem nesse caos!”

por Ruy Fernando

Ele só esqueceu de dizer que além da barba ela tem vitiligo em volta da boca, o que contribui para sua aparência, digamos, única.

Os bichos e a porta II

Além do judô noturno que os bichos lá de casa promovem todo dia, como eu contei no outro post, a porta de casa ocasiona outra relação bastante peculiar com eles.

Acontece que quando fomos levar a Preta pra passear pelas primeiras vezes, pensamos “porque não levar a Branca também? Gato também é gente”.

E ela foi toda faceira numa daquelas bolsas de pano pra transportar gato com a porta aberta, feito um gato egípcio. E nunca pulou da bolsa.

Só que aí, agora, toda vez que vamos levar a cachorra, a gata quer ir também.

E fica miando DESESPERADAMENTE na porta da hora em que saímos com a cachorra até a hora em que voltamos.

E fica pulando nas chaves no meio do dia, como que dizendo “quero passear porra”.

E corre porta afora quando vamos tirar o lixo, no melhor estilo “livre! livre! LIVREEEEE!” até chegar na porta do elevador e não saber o que fazer.

É, gente.

Democracia com animais dá nisso.

Camping

A política do grande queridão Kassab está trazendo todos os mendigos da cracolândia pros arredores da São João.

Ele deve achar que os homens de rua somem se você tira eles de um lugar.

E aí agora todo o comércio alimentício ambulante da região, que não é pouco, entra em conflito com eles. Eu outro dia comprei uma pizza brotinho pra levar pra casa lá na 24 de Maio e tive que pensar bem o caminho e a estratégia pra conseguir chegar com a pizza em casa – porque se algum deles pedisse, eu não ia conseguir negar.

Só espero que isso não acabe dando nisso.

Aliás, caralho, ainda não consegui esquecer esse vídeo.

Ainda bem.

Cartão de natal

É simplesmente impossível encontrar um cartão de Natal não-barango no centro.

Até aqueles fofinhos de bichinhos são estragados com alguma frase ridícula dentro.

É pedir demais encontrar cartões em branco?

Parece que meu amigo secreto vai ficar só com o presente mesmo.

Papel picado

E falando em centro e Natal, ontem alguém teve a brilhante idéia de jogar papel picado do último andar da Galeria do Rock.

MUITO papel picado.

Pra desespero da tiazinha terceirizada da limpeza da C&A, que lutava com sua vassoura são-jórgica contra o papel que o vento e as pessoas insistiam em levar pra entrada da loja.

Enquanto isso, pedestres super preocupados diziam “é por isso que dá enchente nessa merda”.

E nove passos depois atiravam o papel de seus chocolates no chão.

Taxista macabro

Fui voltar da casa dos meus pais ontem à noite  e a minha mãe fez questão de que eu fosse de táxi – afinal, “já” era meia-noite e eu estava de Robofoot.

Aí peguei o táxi e a conversa inevitável com o taxista já começou com ele mandando bem. 

Olhou pro meu pé e disse:

- E aí, chutou a namorada?

OK, ele tentou fazer uma piada entre a Robofoot e a expressão “chutar a namorada”, só que ela foi tão ao pé da letra que eu pensei em chutar literalmente, e já segurei o riso.

Aí fomos conversando de futebol, ele me contando que era goleiro do segundo quadro do time do Banco Itaú de futsal, eu falando do Autônomos, ele me mostrando os dedos quebrados.

Até que chegamos na rua paralela ao Terminal Amaral Gurgel que eu nunca lembro o nome e que é mais conhecida por ser a rua onde mora José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Comentei isso com o taxista.

Eram meia-noite e quarenta e três minutos.

Ele virou pra mim, uma luz vermelha acendeu dentro do táxi, seus dentes incisivos cresceram e gelo seco começou a subir. 

Ele disse:

- Eu já participei de dois filmes dele.

Medo.

- Quais?

- Uns bem antigos, garoto…

Garoto. Não bastasse a palavra rimar com maroto, a expressão dele foi completamente… marota.

Pra não dizer macabra.

Sorte que minha casa fica dois minutos depois disso.

E sorte que não era meia-noite pra ele encarnar no meu cadáver.

Caminhão

E pra fechar o dia, desço do táxi e um caminhão daqueles que carrega caçambas está tentando estacionar em frente ao meu prédio.

Com, ao que parecia, um motorista bêbado descordenado.

Deu ré a primeira vez e a placa de trânsito que manda todos seguirem em frente entortou e ficou quase paralela ao solo.

Deu ré a segunda vez e a placa com o nome da rua passou raspando do mesmo destino.

Aí um cara que estava pela rua foi lá gritar com ele pra prestar atenção.

Não parecia que ele estava entendendo muito.

O que se confirmou quando na nova tentativa de dar ré a placa de trânsito ficou definitivamente paralela ao chão.

Maravilhoso.

Um milagre de Natal

Se um dia eu for levar meus filhos a uma igreja, o que só vai acontecer se Jesus aparecer em carne e osso na minha frente e disser “truta, leva os moleques agora ou vai todo mundo lá pra baixo”, vou levar nessa aqui.

Porque, vou te dizer, nada melhor pra fazer crianças acreditarem em algo que não existe (deus) do que ser pragmático e destruir a crença delas em algo que também não existe (Papai Noel).

Será esse o início de uma nova linhagem de padres materialistas?

Imagina só, a Bíblia numa mão e o Capital na outra…

Curtas

Estou amando a crise na Grécia, mas cansado de postar sobre ela aqui. Mesmo assim, vou continuar postando, porque acho fundamental que o que se passa por lá seja retransmitido por todos os meios possíveis.

Pra descontrair um pouco, entretanto, vai um post menos sério.

Robofoot

É, cinco dias de gesso não foram suficientes pro meu tornozelo.

Então, serão mais 15 dias com uma bota que imobiliza o pé mas me permite andar feito um idiota

O mais legal é o nome da bota: Robofoot.

robofoot

Os pés malfeitores se verão comigo.

Futurista. Tenho o pé do Robocop agora e mais uma personagem pra Beth, A Meia.

Essa contusão, aliás, me fez perceber que não damos muito valor às nossas articulações. 

Porque tente pegar a faca que caiu da pia enquanto você lavava louça usando Robofoot.

Ou estender a roupa.

Ou calçar o tênis no outro pé.

Subir os degraus do ônibus.

Trocar o jornal da cachorra.

Equilibar o prato de comida da cozinha até a sala enquanto você anda no melhor estilo piscina, “aqui tá fundo, aqui tá raso”.

Atravessar a rua fora da faixa e com o semáforo aberto para os carros (como todo bom paulistano).

Pegar alguma coisa em cima do armário.

Porque Robofoot melhora seu tornozelo, mas destrói completamente a sua já pouca coordenação motora.

Telefone

A pizzaria perto da casa dos meus pais é muito boa. Só que a atendente sofre de alguma disfunção cerebral.

- Boa noite, qual o telefone de cadastro, senhor?

- 3384-7633.

- Três três, oito quatro, sete cinco, dois dois?

- Não, não, 3384-7633.

- Seis seis oito…

- NÃO, três, três, oito, quatro, sete, meia, três, três!

- Três, três, oito, quatro, sete, sete, seis, seis?

- NÃO!!! Três-três-oito-quatro-sete-meia-três-três!!!

Mas nem dá pra reclamar, não é das piores coisas. Quem sofre mesmo é a Camila, que tem a língua um pouco presa.

Ela ligando pra UOL:

- Qual o email de cadastro?

- ikuta.se@uol.com.br

- ikuta, efe, ê?

- Não, ikuta, essfe, ê.

- Efe?

- Essfe!

- Efe???

- ESSFE!

- Efe??????

- ESSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSE!!!

Ufa.

Paulista

Andando que nem um idiota com a minha Robofoot pela Avenida Paulista ontem eu descobri duas coisas.

A primeira é a real função do horário de verão: repor toda a eletricidade gasta com iluminação baranga pela cidade.

A segunda é que a competição de pior tatuagem do mundo já tem vencedor: o rapaz que desfilava pelas calçadas à minha frente com as mesmas calçadas tatuadas no braço.

É, sabe aquela calçada com o desenho do mapa do Estado de São Paulo em preto e branco?

O cara tatuou no braço.

Torci tanto pr’aquele Terminal Princesa Isabel avançar o sinal vermelho…

Elevador

São cinco elevadores aqui no trabalho.

Só um funciona.

Dezessete andares.

Então, cada vez que você vai subir ou descer, pode colocar 10 minutos esperando o elevador e mais 10 dentro dele.

Porque ele pára em TODOS os andares.

Porque são dezessete, e sempre tem alguém em todos eles querendo descer ou subir.

Porque as pessoas querem descer e apertam os dois botões, pra subir e pra descer, aí pegam o elevador subindo e quando ele tá descendo ele pára de novo no mesmo andar.

Porque nego é PREGUIÇOSO e pega elevador pra ir do décimo primeiro pro décimo.

E eu com a Robofoot agora não posso mais tocar o foda-se e descer os dez andares de escada (eu trabalho no décimo primeiro e curiosamente o térreo é no primeiro).

Então, dá-lhe papo de elevador.

Vou pendurar uma plaquinha no pescoço escrito “sim, eu machuquei o pé e vou ficar com esta merda 15 dias explicando isso, e pra piorar só tem um elevador nessa joça e eu vou ser obrigado a contar essa história toda vez que pegá-lo, porque subitamente todos viraram meus amigos e se preocupam com a minha saúde”.

Os bichos e a porta

A Preta e a Branca ficam todo dia boa parte do dia sozinhas.

Então, quando eu e a Camila chegamos à noite, é hora delas gastarem energia, já que dormiram o dia inteiro.

Só que pra gente é hora de dormir, já que gastamos energia o dia inteiro.

Então é só arrumar a cama e deitar que começa a putaria.

A gata corre e se joga na porta, fazendo “bum” de levinho com seus quase três quilos.

Aí a cachorra vai atrás e se atira violentamente, fazendo “BOOOOM” com seus onze quilos bem pesados, atropelando a gata e provavelmente assustando e acordando os vizinhos (que não podem reclamar, porque tem um recém-nascido chorão).

E ficam nessa correria e tacação na porta uns bons 20 minutos. 

Depois vem as duas pra cama, e a gata quer dormir em cima da gente enquanto a cachorra quer ficar no meio, ou mais perto do que a gata.

E termina que vamos dormir sempre tarde, porque a casa é delas e só podemos dormir quando elas decidem parar de putaria.

Porque temos bichos, então?

Pô, olha pra elas:

branca

Branca, às 7h da manhã, na sua já famosa cena "agora que você acordou, vem aqui me fazer afago"

preta

Preta, às 7h da manhã, na sua famosa cena "foda-se que você acordou, eu vou continuar aqui deitada no seu, quer dizer, meu travesseiro até você ir comer alguma coisa que eu posso pedir", depois de 10 minutos de lambeção de rosto ao perceber que eu abri os olhos

Irrestíveis.

A Preta ainda tem olhos azuis lindíssimos que o flash teima em deixar vermelhos.

Vó, vó…

Abriu um supermercado Hirota ao lado da casa da minha vó.

Vó corinthianíssima que sempre me liga pra comentar do time e dos jogos.

Ela foi lá conferir, comprar qualquer coisa só pra ver qual era.

Descobriu que era o supermercado mais caro do quarteirão (tem três).

Chegando no caixa, virou pro atendente e disse:

- Escuta, porquê vocês não mudam o nome do mercado pra Takaro?

Vó!?

Aí depois disso ela pegou carona de carro com uma amiga da minha mãe e a minha mãe. E resolveu contar piada.

- Deitados na cama, a velhinha virou pro velhinho e disse: “meu bem, lembra de quando você mordiscava os meus peitinhos?”. E ele: “lembro, querida”. Ela: “era tão bom…”. Ele se levanta. Ela “aonde você vai, meu bem?”. Ele: “buscar minha dentadura…”

Desse jeito, vou ter que dar pra ela de Natal (é, gente, eu odeio Natal mas adoro agradar meus entes queridos) aquele livro da tiazinha de 67 anos que resolveu voltar a fazer sexo.

E um pote de Viagra.

Amor em preto e branco

Continuando a série “feliz aniversário”, pro Corinthians e pra mim, conto a história de Preta e Branca, minhas filhotas queridas.

Em maio de 2007, eu e a Camila fomos morar juntos. É, casamos, isso aí, campeão. E é claro que a gente, como bons apaixonados por bichos e desgostosos de gente, fomos logo pegar animais de estimação.

Só que a Camila sempre foi adoradora de gatos e eu, de cães. Tem a ver com a nossa personalidade. Ela, quietinha, sutil, delicada, mas forte quando precisa e com a habilidade necessária pra dizer “deixa eu aqui sozinha no meu canto”. Eu, bobão, alegre, sem noção, mas fiel (vai, Corinthians!). Então precisávamos de dois bichos, mesmo isso sendo um absurdo pra quem vive numa quitinete. E fomos nós pra UIPA escolher dois filhotinhos – machos – que já tinham até nome: Neto e Viola.

Chegando lá, nada de filhotes machos. Aliás, nada de animais que nos interessassem e/ou fosse viáveis na quitinete. Até que adentramos o setor onde estavam as cadelas que haviam recém-parido. E eis que a Camila vê um filhotinho pequenino, quietinho, preto, de olhos azuis. Parecia um lobinho. Pegou ele no colo e aquele bicho era simplesmente irrestível. Estava feita a escolha – dele, ou melhor, dela, porque era uma fêmea.

Partimos pro balcão de adoção só com ela, porque gato que era bom não tinha nenhum filhote, e eu fiquei encafifado com uma gatinha branca já com uns 6 meses toda quietinha, mas que estava doente. A Camila não tinha gostado. Mas eu, como bom coração mole (outro dia conto quando fui pra praia de Pipa, próxima à Natal, e encontrei uma filhotinha quase morta caída no chão – resultado: todo mundo na praia e eu 3 dias cuidando da gatinha) fiquei pensando nela. E convenci a patroa a pegá-la também.

Sim, no final saímos com duas fêmeas. E eu tinha escolhido a gata e a Camila, a cachorra. Contrariando todas as expectativas.

Foi assim que surgiram a Preta e a Branca. Nomes óbvios, mas muito melhores do que as breguices que a gente cogitou antes: os nomes das nossas mães, dos nossos antigos prédios, de jogadores do Corinthians no feminino, Mara e Dona (tá, esse era um trocadilho legal, vai). E a família cresceu. E a bagunça também.

Diz uma frase de um livro: “Antes de adotar um cachorro, é bom ter em mente que ele lhe causará algum estrago”.

Sábias palavras que eu li, felizmente, tarde demais.

A lobinha de olhos azuis era um capeta. Destruía tudo. Mas era esperta, aprendeu a fazer as necessidades no lugar certo rapidinho. E era quieta, não latia quase nada. Provavelmente o pai tenha sido um husky, até pelos olhos azuis. Já a gata era quieta, pequena, delicada. Apanhava da cachorra nas brincadeiras, porque ficaram inseparáveis. Uma dupla a la sessão da tarde: pronta pra aprontar muuuuuuuita confusão.

Lá pelos 3 meses de casa, Preta já podia ir pra rua. E eu, um guardião da democracia e da igualdade para todos os seres que sou (punk de merda), pensei: porque não passear a gata também? Comprei uma bolsinha e iam as duas, a cachorra na coleira, a gata na bolsa. Com a porta aberta, lógico. Quase uma deusa egípcia.

Resultado: hoje, se eu levo só a cachorra pra rua (e ela precisa ir TODO dia, ultrahiperativa que é), a gata fica miando na porta enquanto eu não voltar.

A Preta na rua é uma figura. Os olhos azuis chamam atenção de todo mundo – tem gente que até pergunta se ela é cega. E ao contrário dos donos, ela gosta mais de gente do que de cães (coitada). O que significa querer pular em todo mundo. E como eu sou louco pra passear com cachorro sem coleira, vira e mexe ela me apronta alguma. Outro dia, pulou num policial pelas costas. Ontem, ficou latindo pros cavalos da polícia. A capeta é meio punk, igual o dono. Não gosta das “otoridades”.

Ter bicho dá um trabalho enorme. Mas vale a pena demais. Nada neste mundo pode pagar aqueles olhinhos no meu travesseiro quando eu acordo.

Eu não queria escrever um post tão fofo, mas fica difícil falando de bichos. Ainda mais dos meus.

Olha só que coisas fofas:

Antes de conhecer a Camila, eu tinha certeza de que ia ser um velho solitário que vive com 50 cachorros.

Agora tenho certeza de que vamos ser um casal solitário que vive com 25 cachorros e 25 gatos.

Ou quase isso.