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Seis

Fiquei com a impressão ontem de ter estragado o texto com aquele poema final. Que nem é meu, diga-se, só adaptei. Não que eu ache o poema ruim, mas ficou meio fora de lugar.

Fora de lugar. Quem nunca se sentiu fora de lugar?

***

“No tengo bandera ni nación
no hablo tu idioma, soy un animal.
Vivo y muero en cualquier lugar
tengo sexo con quien quiero, si se da

Porque yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral

Con el corazón abierto voy
corro el riesgo si me quieren lastimar
veo el aura, leo tu intención
tengo instinto y se cuando debo ladrar

Por que yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral.
No puedo entender a esta humanidad
seres racionales y el poder los hace matar

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque amo como perro
y te huelo como perro
y te cojo como perro, soy un perro

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque siento como perro
mis amigos son los perros
y me junto con los perros soy un perro
soy un perro…”

Quando eu era bem pequeno, meus pais me levavam pros comícios do PT. E pras bocas de urna, também. Os dois faziam parte dos movimentos de esquerda que acabaram gerando o partido. Não me lembro de muita coisa, só de bastante vermelho. Desde criança minha cor preferida é vermelho. Vai ver é por isso.

Mais tarde um pouco, comecei a me interessar por música. Não pagode, axé, essas merdas. Música. Entrei pelo rock brasileiro farofa, Titãs, Skank. Depois fui pro rap de playboy, Gabriel O Pensador, e pro rap de verdade, com Racionais. Me interessava mais as letras do que a música. E nesse caminho encontrei o punk.

O punk sempre rendeu discussões inflamadas com meu pai. Ele tinha na cabeça aquela imagem de punk fazendo merda, sendo estúpido, quebrando, cuspindo, enchendo o saco. E eu entrei no punk por outro caminho, mais moderno, mais pela atitude do que pela música ou pelo visual. A atitude punk era ter orgulho de estar fora de lugar. Eu estava fora de lugar. Mesmo com meu pai, que defendia idéias trotskistas quase sempre, enquanto eu me interessava pelo anarquismo, mais livre, menos programático. Não fosse isso, não fosse esse conflito, e talvez o punk tivesse se tornado pra mim só a estética. Mas pra contrariar meu pai tive que ir atrás de informação, explicar aquele A na jaqueta, o cabelo ridículo, a roupa militaresca rasgada. Também porque os amigos dos meus pais eram todos dessa esquerda que se fodeu com a ditadura, então os encontros de família e amigos sempre traziam conversas de esquerda, e pra participar – e adolescente virgem deslumbrado sempre quer participar – eu precisava saber contrariar.

Algo que eu considero uma das coisas mais realmente revolucionárias do punk é a liberdade que ele te dá pra fazer parte dele. Parte de qualquer parte dele. Você pode tocar bateria sem nem saber o nome das peças. Organizar shows sem saber como ligar o amplificador. Ser a banda, o público, o produtor, tudo ao mesmo tempo. No lugar dos lugares estritamente delimitados, das tarefas restritas e restritivas, o caos de se fazer, de ter que fazer tudo por conta própria. Porque era isso ou não era. Não era punk. Ao invés de depositar dinheiro e confiança em organizações estranhas com estruturas definidas, o punk te encorajava a construir a sua própria. Falo no passado porque hoje já não sei mais, não participo tanto. Não que seja algo de época, não sou tão velho e recalcado ainda pra dizer que punk era o que eu fiz e o que eu vivi e não o que há agora. Mas talvez as oportunidades, as portas de entrada pra coisa toda sejam outras, tenham mudado, e esteja mais difícil de se encontrar quem passe pela porta do fazer você mesmo tudo, tudo mesmo.

Nunca houve tanto espaço e tanta condição material pra se ter show punk e ao mesmo tempo tão pouca gente fazendo a coisa acontecer lá de baixo. Vai ver o punk ficou fora do lugar de menos.

***

Lembro da primeira vez que vi aquela massa negra ensurdecedora. Lembro perfeitamente. Ali virei corinthiano. Ali resolvi tocar bateria.

Diferente da maioria das histórias de futebol, eu não torço pro time do meu pai. Meu pai aprendeu a torcer para o meu. Carioca, Fluminense desde pequeno, se casou com uma paulista e se viu frente ao problema quando o filho nasceu: pra que time o moleque vai torcer? Resolveu da forma mais democrática que conhecia, herdeira do passado de militância. Me apresentou aos times da cidade e me levou em um jogo de cada. Não precisei ir além do segundo. Nem ele, aliás.

Numa coisa meu pai destoava dos comunistas irritantes que conheci na universidade: ele adorava futebol. Adorava mesmo. Contava histórias muito boas, de Castilho, goleiro mítico do Fluminense; da vez que se viu abraçando loucamente uma torcedora que estava com o namorado botafoguense vendo a final no estádio enquanto este se sentava pra lamentar o gol sofrido no último minuto; de Pelé; da Copa de 58 ouvida no rádio, com 9 anos; de vários jogadores que a mídia esportiva faz questão de não lembrar. Me levou a jogar bola desde cedo. Bola e tudo que envolve futebol. Uma das coisas que mais me arrependo é de ter perdido nas mudanças de casa um saco enorme com times de botão que ele guardava desde a infância. Eram botões feitos por ele mesmo, com casca de côco, tampas de relógio, fichas de ônibus que se usava na época. Todos tinham nome.

Desde pequeno, desde 1990 pra ser mais exato, eu decidi que seria jogador de futebol. Vi minha mãe chorando com o gol de Cannigia nos tirando da Copa do Mundo e prometi vingança. Naquele mesmo ano, o Corinthians levou o Brasileirão, com Neto, Ronaldo, Wilson Mano e Tupãzinho. Eu não precisava daquilo, a torcida já tinha me conquistado. Mas ganhar aquele título e daquele jeito com certeza ajudou a solidificar meu corinthianismo e meu jeito de jogar bola dando muito mais importância pra vontade e pra raça do que pra habilidade. Ironicamente, o amigo mais próximo de meu pai tinha feito o caminho inverso: palmeirense, paulistano, casou com uma flamenguista. Os filhos, todos palmeirenses, meus quase-irmãos, um pouco mais novos que eu, cresceram com a geração Parmalat, que montou supertimes no rival. Não por acaso, jogavam muita bola, muita mesmo. Jogam ainda. Mas nenhum de nós virou jogador. Eu porque não era bom o suficiente. Eles porque tinham escrúpulos o suficiente.

Meu pai era um filho da puta com futebol. Em 1986, com o Palmeiras na final do Paulistão contra a surpresa Inter de Limeira, a torcida alviverde tinha certeza de que a fila, que já chegava aos 10 anos, iria acabar. Esse amigo do meu pai também. Deu Inter. Morando no mesmo prédio, meu pai não teve dúvida: desceu até o 3º andar. Chegou lá e a conterrânea carioca abriu a porta já começando a rir, mas implorou por bondade, como se carioca conhecesse bondade na hora de cutucar o rival no futebol. O amigo estava prostrado em frente à TV, desolado. Meu pai resolveu que “só queria uma xícara de açúcar pra Célia terminar o bolo”. A carioca jogou o jogo segurando o riso, sabendo que não podia ser só aquilo. E não era: fechada a porta, açúcar na mão, da janela do corredor meu pai gritou: “CORINTER!”. Não contente, datilografou depois uma carta “consoladora” em que usava todos os nomes dos jogadores da Inter em trocadilhos. Nunca enviou. Teve piedade.

Não que o amigo não merecesse. Em 1984, na primeira rodada do campeonato, o jornal televisivo anunciava que o rival do Fluminense estava preocupado com o ataque tricolor. Era o Casal 20, Washington e Assis. O amigo palmeirense ridicularizou, meu pai ouviu calado. Meses depois, calhou de haver uma festa em casa no dia da final. O Flu levou o título. E o amigo teve que escutar o hino na vitrola pelo menos umas 20 vezes no repeat.

O dono santista da banca de jornal também sofria. Era o Santos perder e meu pai ligava pra banca. O cara atendia e ele não dizia nada, só soltava um risinho sacana. Anos e anos a fio. Se o santista descobriu, sempre fingiu que não sabia de nada. Meu pai era um dos melhores clientes. O dinheiro venceu mais uma vez.

Lembro também de que eu tinha um amigo são-paulino, um gordinho folgado canhoto, habilidoso. Ia lá em casa e meu pai repetia o mesmo ritual que tinha com todos os meus amigos: tirar um sarro, deixar o cara se sentir à vontade. Depois de um tempo, os moleques ficavam ousados, começavam a tirar uma com o Fluminense, que nos anos 90 não teve lá muitas glórias. O camisa 9 tricolor, Ézio, era sempre alvo de piadas. Meu pai então fazia os moleques cantarem o hino do Flu. Um teve que repetir cinco vezes do lado de fora de casa até ter permissão pra entrar.

Esse amigo gordinho acompanhava meu pai e eu quando ele me levava pra jogar. Morávamos já na Lapa, e o Palmeiras era bem perto; mas o coração era alvinegro, e o Corinthians ficava na zona leste. Meu pai resolveu a questão se associando aos dois clubes. Eu ia pro Palmeiras de dia de semana, depois da aula, várias vezes com o gordinho como convidado. Jogava futebol de salão. Certa vez fui assaltado na entrada: levaram meu uniforme da escolinha. Nunca fiquei tão pouco puto de ter sido roubado.

No Corinthians, jogava futebol de campo, aos fins de semana. O gordinho lá também ia de convidado. Um dia se esqueceu e foi com um calção do São Paulo. Achamos que pudesse acontecer algo, mas ninguém falou nada. Essa geografia do clube duplo levava meu pai a exercitar sua raiva do rival. Comparava sempre as situações vividas dentro dos dois clubes. O Palmeiras não deixava meu primo entrar no clube com uma camiseta do Flu. No Corinthians, o gordinho ia de calção do São Paulo. No Palmeiras, um diretor berrava pra seu filho de 8 anos quebrar a perna do rival num jogo de futsal.  O Corinthians era o time da Democracia Corinthiana. Não deve ter sido uma escolha difícil pra quem militou contra a ditadura. Sem falar que a trimensalidade no Corinthians era mais barata que a mensalidade no Palmeiras.

Mais velho e doente, começou a ter que ficar sempre em casa. Assistia documentários e mais documentários. Fazia questão de me contar os mais interessantes, o que me irritava às vezes. Era uma alma comunicativa presa em um corpo já débil. No intervalo dos documentários, havia Chaves, as séries de comédia e os programas esportivos. Todo dia então vinham as mensagens de texto pelo celular: “Vai passar na TV um filme chamado Seres Rastejantes; deve ser sobre o Palmeiras…”, ou “Apelido do Cristiano Ronaldo em Portugal: Puto Maravilha!”, ou ainda “A goleira da seleção paraguaia é da altura da sua mãe, hehehe… ela deveria tentar o futebol pebolim”.

Quando eu era mais novo, tinha asco da idéia de ter um filho. Não queria. Não nesse mundo.

Hoje, a cada mensagem de texto que eu não recebo mais, cresce a minha vontade de ser pai.

***

“Pai
02-Dez-07 19:22

A mente aberta, a palavra certa e o coração esperto!
Força, Timão! Glória Timão!!!”

Uma vez, em 1991, entrei de mascote com o time, mãos dadas com Ronaldo. Eu ainda queria ser goleiro. Meu pai chutava uma bola de plástico pra que eu defendesse. A enorme janela da sala da casa em Pirituba era o gol.

Dezoito anos depois, pisei o gramado outra vez. O estádio estava tão vazio quanto meu coração. Os gols nem sequer tinham rede. Carregava meu pai nas mãos. O deixei ali, no banco de reservas, pra sempre. O hino, cantei em silêncio.

Hoje tem jogo. Vou lá.

Ver meu pai.

Vídeos sensacionais e uma novela melhor ainda

Fora de Jogo no RS: vídeo emocionante feito pelo Davi:

Ramones assim VOCÊ NUNCA VIU:


Tá endireitando com a idade? Tome DIREITIL:


O Tigre e O Dragão + Escrava Isaura =


Mar de Paixão, uma novela de André Dahmer e Arnaldo Branco:

http://www.oesquema.com.br/mauhumor/2009/07/24/mega-teaser-multiplus.htm

Abraço de campeão

Eu tentei, juro que tentei.

Porque pensei nisso a semana toda.
O ano todo.
Desde 25 de janeiro.
Queria um título de pulos e abraços e sorrisos.
Mas não deu.
Quando Sálvio Spínola finalmente trilou o apito final, fui às lágrimas sem contenção.
Como uma criança.
Como em 1990.
2007, Série B, meu pai, tudo junto.
Saí do estádio com dor de cabeça. Exausto.
Feliz, e ao mesmo tempo sentindo falta.
De um abraço que sempre esteve aqui com o Corinthians.
Comigo e com o Corinthians.
Um abraço eterno.
Em nossos corações, em nossos corpos, em nossas memórias.
Ali, às 18h07 de 03 de maio último, eu sabia que mais de 25 milhões de pessoas estavam em êxtase.
Que os jogadores ergueriam a taça em instantes.
Que a torcida rumaria para a Praça Campos de Bagatelle.
Mas meus olhos não conseguiam sair do banco de reservas.
O mesmo, pai, onde você descansa.
O um a mais sempre que o placar anuncia o público presente.
O um a menos sempre que há jogo. Ou vida.
Faltou pouco para que eu pulasse o alambrado…
Domingo, o Corinthians ganhou seu 26° título paulista. O primeiro que assisti de forma invicta.
Nenhuma derrota.
Domingo, eu ganhei meu primeiro título órfão.
Nenhum abraço.
E todos eles juntos.
Domingo, voltei a ser criança.
E saí correndo pelas ruas de Pirituba, gritando “é campeão, pai!”.
Somos.
Invictos… e inseparávei

Porque pensei nisso a semana toda.

O ano todo.

Desde 25 de janeiro.

Queria um título de pulos e abraços e sorrisos.

Mas não deu.

Quando Sálvio Spínola finalmente trilou o apito final, fui às lágrimas sem contenção.

Como uma criança.

Como em 1990.

2007, Série B, meu pai, tudo junto.

Saí do estádio com dor de cabeça. Exausto.

Feliz, e ao mesmo tempo sentindo falta.

De um abraço que sempre esteve aqui com o Corinthians.

Comigo e com o Corinthians.

Um abraço eterno.

Em nossos corações, em nossos corpos, em nossas memórias.

Ali, às 18h07 de 03 de maio último, eu sabia que mais de 25 milhões de pessoas estavam em êxtase.

Que os jogadores ergueriam a taça em instantes.

Que a torcida rumaria para a Praça Campos de Bagatelle.

Mas meus olhos não conseguiam sair do banco de reservas.

O mesmo, pai, onde você descansa.

O um a mais sempre que o placar anuncia o público presente.

O um a menos sempre que há jogo. Ou vida.

Faltou pouco para que eu pulasse o alambrado…

Domingo, o Corinthians ganhou seu 26° título paulista. O primeiro que assisti de forma invicta.

Nenhuma derrota.

Domingo, eu ganhei meu primeiro título órfão.

Nenhum abraço.

E todos eles juntos.

Domingo, voltei a ser criança.

E saí correndo pelas ruas de Pirituba, gritando “é campeão, pai!”.

Somos.

Invictos… e inseparáveis.

Inesgotáveis.

Como um abraço de campeão.

Eu, o RG e a TV

E quando eu achava que tinha acabado a onda do RG Corinthians, recebi mais um convite:

participar do programa “Pra Você”, na TV Gazeta, segunda-feira, às 10h30, junto ao Cacá Rosset e à Andrea Pasquini (diretora do filme “Fiel”).

O tema do programa?

Corinthians, lógico. Campeão paulista, esperamos.

Assistam, gravem pra mim. É ao vivo, então a chance de falar coisas legais aumenta exponencialmente.

E vai Corinthians!

Você que é o Corinthians? ou O coração da metrópole

Dez minutos atrás, estou almoçando pizza em pedaço.

Quase no fim do último pedaço, um gordinho de azul senta do meu lado com seu amigo e fica me encarando.

Não dou bola. Ele levanta, olha pra mim e pergunta:

- Você que é o Corinthians?

- !?!? …oi???

- O Corinthians, que passou na RedeTV?

- É… sou eu.

- Também sou Corinthians, mano!!!

O amigo não entende, ele explica baixinho:

- Ele assinou Corinthians no RG.

O amigo sorri.

Levanto, rápido, que a pizza acabou mas a vergonha não, e me vou, tomando o resto da Coca-Cola.

Não sem antes dizer:

- Domingo “é nóis”, hein?

- É nóis, família!

Somos todos Corinthians, independentemente de ter um pedaço de papel escrito isso ou não.

***

Três minutos depois, voltando ao trabalho, um moleque de rua gordinho na Conselheiro Crispiniano levanta e vem na minha direção.

Estende a mão, cara de bravo, em direção à minha Coca. Ele não tem um braço.

- Vai, mano, dá essa Coca aí.

Meio perplexo e meio puto, paro, olho nos olhos dele e digo, com aspereza:

- Vamos com calma aí? 

O  moleque meio que se assusta e se rende, quase se desculpa:

- Vamos com calma. É que eu tô na maior neurose…

- Tranquilo. O lance é ter respeito, dos dois lados. Toma aí – e dou a Coca ainda pela metade pra ele.

- Valeu.

Almoçar – e viver, e trabalhar – no centro de São Paulo é sempre imprevisível, errante, quase uma aventura.

Cheia de situações complicadas como essa.

Dá pra falar em certo e errado? Politicamente correto, incorreto? Sentir culpa, dó, qualquer merda?

Só sei que eu dei a Coca não por ele ser um moleque de rua, nem por não ter um braço. Mas porque ele topou olhar nos meus olhos e trocar idéia, mesmo que tenham sido 10 segundos de idéia.

Aqui, no coração da metrópole, a gente aprende a desentupir as artérias um pouco a cada dia.

Lelê

Às vezes a gente conhece umas pessoas na vida e nem percebe o quanto elas são foda.

Aí um belo dia elas passam 15 minutos contigo e desenham uma linha, “antes de conhecer” e “depois de conhecer”.

No meu caso, ultimamente, tive sorte: presentearam-me com duas pessoas dessas no mesmo ano.

As duas de apelido Lelê.

As duas de aniversário em 08/10.

Uma de cada sexo.

Lelê, o palmeirense fantástico, zagueiro do Autônomos;

Lelê, a corinthiana fanática, a mãe espetacular, a blogueira sensacional, a amiga que vai te buscar no aeroporto numa segunda-feira chuvosa à meia-noite a troco de nada.

Pessoas daquelas que você, com 15 anos, colocaria na lista de quem levaria pra uma ilha deserta.

No caso da Lelê, eu não sou o único a pensar assim.  Tanto é que a TPM percebeu que ela é uma em um trilhão e contratou o blog dela.

Minha amiga mais famosa. 

Que mesmo que ninguém conhecesse seria minha amiga mais famosa.

Porque eu falo dela e do blog dela pra todo mundo. 

Porque ela merece.

Por mais que algumas chefes de ONG sem senso de humor, ou melhor, com senso de humor aristocrático, não a entendam.

A essas, o futuro dará a mesma lição que vem dando em alguns “jornalistas” esportivos por aí: mais vale um gênio na mão do que dois atacantes-fulanos.

Lelê é gênio. Isso eu posso dizer.

E sabe que estamos aí pro que der e vier.

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Sessenta

Hoje meu pai completaria 60 anos.

Amanhã completam-se 3 meses de sua morte.

Hoje eu faço 60 anos.

Amanhã, 59 e 9 meses.

Noventa dias parecem pouco perto de sessenta anos.

Mas casa segundo sem meu pai é uma eternidade. 

Tanto não dito nesses três meses…

Fui pra Argentina, pai. Duas vezes.

Assinei Corinthians no RG.

Ronaldo finalmente jogou. E como jogou.

Estamos na final do Paulista.

Não jogamos mais no Morumbi, só como visitantes. E nos dão apenas 10% dos ingressos.

Estou solteiro de novo.

Tenho mais uma filha, a Boquita. Achei ela na rua.

E hoje eu me formo.

Pra lembrar de você, e de quanto de você esteve e está em minha tese.

Sinto saudades demais. 

Às vezes choro no almoço. 

Não um choro desalentador, mas um choro ao mesmo tempo doído e gostoso.

Dos chutes na janela em Pirituba.

Das idas ao terrão do Corinthians – lembra quando joguei de meia-esquerda e ganhei a camisa de melhor em campo?

Do Pacaembu – embora lá você esteja sempre que eu vou.

Do boa noite de todos os dias.

Eu poderia escrever muito mais do que as 198 páginas da minha tese, só de lembranças suas. Mas prefiro guardá-las, pra revê-las aos poucos.

A cada beijo em você no braço direito antes de cada jogo.

A cada gol sem abraços, sem telefonemas, sem “você viu, que golaço?”.

A cada dia sozinho neste mundo.

Mas, apesar das palavras tristes, não se preocupe, pai. Estou bem.

Completando alguns sonhos, destruindo alguns outros, criando outros novos. 

Importando alguns seus.

Não sei direito se você pode me ver, ouvir ou escutar. 

Mas se puder, olhe pela janela no dia 31 de dezembro.

Estarei lá, como a gente combinou e não cumpriu.

Correndo a São Silvestre.

E vou chegar ao fim. Duas vezes.

Uma por mim, e outra por você.

Porque você sempre foi minha mão, meus olhos, minhas pernas, meu sangue quando precisei.

Nada mais justo do que eu agora ser seus pulmões.

Parabéns, pai.

Nos encontramos nos sessenta.

Todo dia.

Beijos,

Dan.

***

P.S.: Lu, chorar de saudade não é vergonha alguma. Mas lembre sempre que o pai tá aí, tá aqui, tá em todo lugar. E sempre vai estar. Espero te ver em muito breve, quem sabe eu não vou pra Austrália em julho?

Te amo, irmãzona!

Seu Cido

Em razão do falecimento, na noite desta quarta-feira, aos 61 anos e em razão de um derrame, de Seu Cido, colega de trabalho bastante querido, reproduzo aqui novamente o texto sobre ele postado em 12 de novembro do ano passado.

Cido, todos se vão um dia; só aqueles com caráter e carisma ficam pra sempre.

Saudades de seu colega de trabalho e de histórias da várzea.

***

Seu Cido

Aqui onde trabalho tem um senhor, o Seu Cido, que vem de vez em quando.

Deveria estar aposentado já, mas aposentar significa perder quase metade do salário, então…

Aí esses dias ele começou a falar de futebol.

Do time que tinham por aqui quando eram do FUNRURAL (aquela instituição feita pra aposentar cabos eleitorais com doze aposentadorias diferentes, uma por cada cidade em que atuava, que funcionou de 76 a 79, lembram?).

E não é que o seu Cido era meia-esquerda, dos bons?

Fiquei quase 30 minutos ouvindo as suas histórias.

Histórias de um outro tempo, do trabalho e do lazer, que permitiam outras relações.

Histórias apaixonantes, que me lembram as da minha avó – como podemos deixar nossos idosos abandonados como deixamos quando são eles a nossa história viva, muito mais que os livros institucionais das escolinhas da vida?

Seu Cido, quando jovem, lá em São José do Rio Preto, chegou a treinar com os profissionais do Rio Preto. “Mas eu gostava era de jogar bola, aquilo era muito rígido, tinha massagem nos joelhos, laranjinha” (pra chupar antes dos jogos). E de ir aos jogos do América, na primeira divisão, “pra ver o Santos, o Palmeiras, o Corinthians” – e ainda tem gente que defende o fim dos estaduais… 

Deviam propor é o fim do profissional logo, “que isso aí, hoje, com essas bolas levinhas, essas chuteiras coloridas, isso virou palhaçada”.

Seu Cido gostava mesmo é da várzea.

De bater faltas da meia-lua, que ele treinava desde criança, com traves de zinco que improvisava no muro de casa – “escolinha de futebol? Eu aprendi a chutar com os dois pés no muro de casa e essa molecada hoje não sabe nem cruzar uma bola”…

Faltas que surpreenderam o goleiro do Brasil da Mooca, melhor time da várzea na época, quando o time do FUNRURAL, com seu uniforme alviverde (”mas a camisa era branca, que verde eu não usava”, disse o corinthiano Seu Cido), foi visitá-los e acabou vencendo por 2 x 1.

“Um grande time, a gente tinha”. 

O mesmo do ex-profissional Toninho Vanusa e do grande central Waldemar com suas bombas de falta.

Que jogava de segunda a sábado, entre o campo e o salão. “Eu macetava melhoral com café pra aguentar, mas não faz isso não, que é ruim pro coração”.

Que enfrentou e venceu o Botafogo da Penha, com mais um gol de falta do Seu Cido, que contou com a honestidade do goleiro, já que a bola passou por um buraco da rede “e o juiz não quis dar o gol não”.

Mas lembrança mesmo Seu Cido tem dos jogos de semana à noite, “os refletores todos ligados”, principalmente contra o time do INPS, “que tinha um uniforme azulão”. Ganharam deles “duas vezes, uma no campo deles na Mooca, 1 x 0, e outra lá em Interlagos, que eles não quiseram jogar na Mooca, 5 x 1, o Waldemar fez até um gol de pênalti, que ele adorava fazer gol de pênalti e falta”. 

É, zagueiro, quando tem chance, tem que aproveitar.

Aliás, zagueiro dos bons, “que era difícil passar daquela zaga viu, e sem apelar eles jogavam”.

E não jogavam em casa?

“Não, a gente gostava mesmo era de rodar”.

Até que aos 45 (cabalisticamente), Seu Cido parou. Suas pernas já não aguentavam mais. 

A conversa acabou e eu fiquei aqui imaginando Seu Cido jovem, com o uniforme “que eu mesmo desenhei o escudo, devo ter em casa, vou trazer pra você”, jogando contra o time dos funcionários da FEBEM, “num campo bonito, gramado, grande”, ao lado do meia-direita “inteligente, envolvido com esses negócios de greve, mas que usava muita bolinha viu, mas a gente fez ele parar”, ganhando “uns troféus grandes, viu, bonitos, tenho foto lá em casa, você vai ver”.

Época em que a vida de trabalhador era dura, mas era vida, e o futebol era rude, mas era festa pra todos, e não só pra alguns.

Quando o time do FUNRURAL, indo jogar salão de terça-feira contra o Primeiro de Maio do Tatuapé, escutava sempre dos adversários, ao fim do jogo, perdendo ou ganhando:

- Amanhã vocês vem de novo, né?

Saudades românticas do que eu nunca vivi?

Não, não.

Inspiração pro que eu ainda tenho por viver.

Ainda a assinatura-Corinthians

É, a história de assinar Corinthians no RG deu pano pra manga mesmo.

Virou até matéria no G1, o portal de notícias da Globo. Leiam.

Graças à Débora Miranda, corinthiana como eu e inconformada como eu com a proibição da foto com a camisa do time.

Espero que agora a cambada que achava que a história era inventada passe a acreditar que eu sou louco mesmo.

Como todo o bando.

Loucura que rendeu essas três fotos fantásticas, tiradas pra entrevista pelo Daigo Oliva, amigo são-paulino que faz ótimas fotos da comunidade punk de São Paulo e mantém o Fodido e Xerocado, foto-fanzine exatamente com essa temática.

Crônicas portenhas – parte I

Voltei da terra da prata fazem uns dias já, mas só agora consegui me recompor para contar alguma coisa.

E como não dá pra ir à Argentina sem pensar em futebol, a saga começa com ele.

Então, senhoras e senhores, entra em campo a Seleção Brasileira que vai à Argentina defender as cores canarinhas.

Vamos à escalação do time.

No meio campo, organizando as jogadas com maestria, Leonor Macedo.

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No ataque, leve, feliz e saltitante como bom bambi que é, Alejandro Cuesta.

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Na defesa, cuidando para que o time esteja sempre seguro de sua posição (ou seja, o responsável pelos bilhetes do metrô), eu.

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E no gol, não deixando passar desaforo nenhum, Wandeko.

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Pois é, foram doze dias em terras hermanas. Doze dias de férias, azaração e uma galerinha da pesada aprontando muuuuita confusão… ou não.

Cerveja, isso sim, com certeza teve. Quilmes e Stella Artois de um litro mais calor: faça as contas.

E argentinos e argentinas, também, teve aos montes. Desfilando pelas ruas, uma verdadeira fashion week permanente. Haja olho azul nesse mundo. Embora parando pra pensar com calma tenha sido com eles que menos conversei – ao mesmo tempo em que quando encontrei uma argentina pra conversar… bem… maldito castellano-com-a-língua-entre-os-dentes, irresistível.

Mas o que importa é que foi divertido, um monte. Mesmo com alguns estresses. E tem tanta coisa pra contar que nem sei por onde começar… mentira, sei sim: La Bombonera.

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O estádio do Club Atletico Boca Juniors poderia ser resumido numa Rua Javari de três andares. O que, em jogo importante com casa cheia, deve ser monumental – com perdão do trocadilho. 

Mas, sinceramente, o que eu vi naquele Boca 3 – 0 Argentinos Juniors não foi muito diferente do que vejo por aqui num Corinthians 3 – 0 Marília no Pacaembu: uma hinchada que canta o tempo todo e o resto que sobe e desce junto com o jogo.

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E falando em Corinthians…

Parede da Bombonera

Parede da Bombonera

Fora do estádio, aí sim, outra história. Muito mais organização, ruas no entorno fechadas bem antes da hora do jogo, divisão de quem entra por qual portão sem haver tumulto, nem sequer um policial intimidador – ok, não estávamos no setor da La Doce, então isso conta – e muito comércio. O entorno do estádio do Boca é um típico lugar pra turista otário, onde você pode comprar mais caro a mesma coisa que compraria no centro de Buenos Aires três vezes mais barato. Aliás, toda Buenos Aires – capital federal – é um grande pega-turista.

Do jogo, ficaram duas impressões fortes: o respeito que se tem com o minuto de silêncio – a hinchada toda simplesmente cala por completo – e a adoração à Riquelme, preferido todo o tempo em relação ao deus maior xeneize Maradona.

Maradona, inclusive, que encontramos dando uma volta pelo Caminito, espécie de centro antigo do bairro da Boca:

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E já que saí do estádio pra falar do Caminito, vamos a ele.

Encantador, assim posso resumi-lo.

Uma rua antiga com casinhas coloridas, muito comércio de rua, restaurantes, estatuetas (aliás, estátua é o que não falta em Buenos Aires, lado a lado com bosta de cachorro). E muita adoração ao Boca Juniors:

Por lá tiramos muitas fotos, até uma com o Cartola:

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E encontramos um argentino que fez questão de homenagear o São Paulo (o vídeo não é nosso, mas ele fez igualzinho com a gente):

Agora, uma dica boa pra quem quer ir à Boca e à Bombonera sem se foder é chegar no estádio umas 5 horas antes do jogo, comprar seu ingresso na bilheteria normal sem superfaturamento, dar uma volta pela Boca ou por algum bairro próximo e voltar uma ou duas horas antes do jogo. Isso, claro, se tratando de um jogo sem maior relevância como esse Boca – Argentinos Juniors a que fomos.

E como esse post já tá grande demais, vamos parar por aqui.

Não sem um vídeo final pra ilustrar o espírito Xeneize:

E não sem cenas dos próximos capítulos:

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