Arquivo da tag: fim do mundo

Tortura chinesa

Quem me conhece sabe que eu adoro criança.

Adoro de afofar, dar risada e brincar, não de michaeljacksonear.

Mas ontem fui com a família e amigos comer num restaurante chinês e só tinha mesa pra dez no sexto segundo andar.

Onde em todas as outras mesas estavam famílias com suas crianças.

Até aí, sem problemas. Crianças quietinhas comendo sua comida ou no máximo tacando macarrão umas nas outras.

Só que na mesa do fundo estava a família classe A média.

Sabe, aquela que acha que todo o universo gira em torno dela?

Então.

Uma das crianças da família classe média, a menorzinha, era imparável.

Do alto dos seus 2 anos (no máximo) batia na mesa com os talheres com toda força.

O que, junto ao barulho infernal de crianças falando alto e rindo, dava uma atmosfera de Um Tira no Jardim da Infância.

Só que sem o governador da Califórnia pra impor respeito.

E infelizmente sem armas.

E o jantar em paz virou inferno inacabável. Era preciso gritar pra conversar, pior do que balada.

Então eu tive uma idéia.

Que tal se fizéssemos um protesto?

Quando a criança mimada começasse a bater na mesa e seu pai – um gordo careca que não sabe impor limites, ou melhor, não quer impor limites porque, afinal, o restaurante é só dele e não há ninguém à sua volta – não fizesse nada, bateríamos todos na mesa igualzinho.

E numa cena mágica daquelas que você guarda pra todo o sempre, o barulho da criancinha foi multiplicado por sete adultos com raiva (porque os outros três tiveram vergonha de protestar).

O andar tremeu.

A gente caiu no riso.

Os garçons também.

E aí, você pensa, a família se tocou e deu uns tapas na bunda um jeito do moleque ficar quieto, certo?

Errado.

A peste viu que encontrou amigos que falavam a sua linguagem e continuou mandando ver.

Até o fim da noite.

E a família classe média não se moveu pra impedir nem quando eu soltei um “joga do 6º andar” em alto e bom som.

Aí as outras crianças, que não eram tão insuportáveis, passaram e ser igualmente odiáveis.

E eu torci pra elas caírem da cadeira, da escada, da janela, de qualquer lugar.

Fiquei quase que feliz até quando uma delas, um gordinho com óculos e cara de nerd incorrigível, começou a chorar por qualquer motivo ignóbil.

Mas qualquer felicidade era passageira quando depois de alguns segundos de silêncio nos quais a gente pensava “agora parou” o som do metal na madeira voltava com tudo.

Quando finalmente a família classe média saiu (não antes de cantar “parabéns pra você” pra um dos pimpolhos, momento em que não me contive e soltei um “é hora, é hora, é hora de IR EMBORA”), o silêncio que reinou no restaurante foi tão grande que os garçons pareciam outras pessoas, com suas feições tranquilas e um sorriso de satisfação no canto da boca.

É a família classe média reinventando o significado de tortura chinesa.

Agulha debaixo da unha?

Rá.

Coisa de criança.

***

P.S.: OK, segundo minha mãe, eu era um inferno quando moleque. Mas ela sabia a hora de dar um “cala a boca e senta” pra me fazer parar. O problema do restaurante, portanto, não eram as crianças, eram os adultos. O que me lembra que Papai Noel ainda não me trouxe minha bazuca.

Velho safado.

Curtas II

É, enquanto a Grécia não manda mais notícias e eu não tenho inspiração de verdade pra novas historinhas da Beth, vamos de curtas novamente.

Até porque é fim de ano e as boas histórias acumulam rápido, rápido.

Boça strikes again

Estou na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, aquela coisa enorme e modernosa, tentando escolher um livro pra minha mãe de Natal.

Na mão tenho um Milan Kundera e um Ítalo Calvino. Estou quase percebendo já que ambos seriam presentes bons pra mim e não pra ela e desistindo de livros quando Boça – ele! – ataca de novo aos meus ouvidos:

- Mêêêo, muinto lôca essa livraria, mêo. Acho que é a melhor livraria do mundo! Nenhum outro país tem uma livraria dessa.

E eu fui embora sem livro e feliz por ser pelo menos metade carioca.

Trabalho

Eu e a minha Robofoot estamos à porta do consultório médico no trabalho esperando pra fazer perícia. Outras duas funcionárias também estão lá. E elas começam a conversar.

- Mas vou te dizer, esse povo é folgado. Quer ver que amanhã vai ter segurado na agência ainda?

- É, é complicado. E quando eles saem do consultório e falam que não entenderam o que o médico disse? E eu que vou saber?

- Ah, é tudo pilantra. Se eu fosse presidente, esse auxílio-reclusão aí, eu cortava na hora. Ficar pensando que a família do detento tem que comer? Porque ele não pensou nisso na hora que matou e roubou? Tem é que morrer de fome mesmo.

- É,  pior são esses auxílios pra idoso. É tudo pilantragem. O povo fica acostumando com essas bolsas leite, bolsa escola, aí fica vagabundeando mesmo em casa.

Eu vou parar por aqui porque meu cérebro preferiu apagar o resto da conversa para o bem do meu estômago.

O governo dá dinheiro PRA BANQUEIRO e as mulheres reclamando que o povão pobre, fodido e ainda por cima DOENTE é “pilantra e vagabundo”.

Declarando a todos os ventos que atendem estes como se fossem lixo.

Eu sei que não deveria mais me assustar com isso, mas porra, eu queria sair dando bicudas robofooticas na cara das duas. 

E não dá nem pra culpar a idade: uma era velha e a outra nova.

Vou te dizer, a queda do 15º andar onde estávamos não seria castigo suficiente pra esse tipo de traste.

25 milhões de março

Peguei um ônibus ontem que passou paralelamente à 25 de março.

Vou te dizer: CARALHO, QUANTO GENTE.

O mundo precisa de algum tipo de epidemia urgente.

Peste negra, febre amarela, peste bubônica, qualquer dessas serve.

Porque nem em final do Corinthians me senti tão apertado. E olha que eu tava no ônibus, de fora, só olhando.

Imagina lá no meio…

Troco

No mesmo ônibus, o cara, que ainda não passou a catraca, vira pro cobrador meio fanho e fala:

- Você não quer trocar três reais não?

Eu entendi que ele queria trocar as 6543634 moedas que tinha por uma nota de dois e uma de um.

Mas o cobrador achou que ele estava pagando a passagem.

Só sei que quando eu desci do ônibus a conversa entre os dois ainda era:

- Olha só, eu te dei três reais, você me devolveu só 0,70.

- Mas a passagem é 2,30 mesmo.

- Não, mas eu queria trocar o dinheiro, não pagar. Eu tenho bilhete.

- Ah, agora já passei o bilhete…

Como diz  meu pai, comunicação é tudo.

Robofoot II

Quando eu acabar de usar a Robofoot no pé direito vou ter que passar ela pro esquerdo.

Porque, putapariu, essa merda tem um ferro que TODA HORA bate no calcanhar do outro pé quando eu ando.

Tá, a culpa é da minha falta de coordenação motora, mas mesmo assim, que merda.

Tô tendo que usar um naco de borracha dentro da meia pra evitar novas pancadas.

Ordem e caos

Aqui na São João entre minha casa e meu trabalho tem uma tiazinha meio doida que grita com os ônibus, os passageiros, os pedestres e tudo.

Eu ia escrever sobre ela, mas um amigo fez isso antes, então eu colo abaixo o texto dele, que é bom demais:

“Fazia já uns 4 meses que eu tava escutando uns gritos aqui no meu escritório, vindos da rua. Era uma voz de mulher, berrando coisas incompreensíveis, sempre na parte da tarde, do meio-dia às seis. 

Eu achava que era alguma coisa de nigeriano, funk, travesti ou pivete, tipos urbanos que dão rolê aqui na minha vizinhança. 

Até que um dia, encafifado, resolvi dar um rolê pra ver de onde vinham os gritos. E achei a origem na Av. São João, logo atrás do meu escritório. Pra ver o volume do bagulho: no centrão, uns cem, duzentos metros de distância, dez andares de altura, eu escuto a gritaria. 

E a gritaria vem de uma tia, uma mendiga negona, que fica no ponto de ônibus na pracinha da São João logo atrás do meu escritório. A tia vai e vem no ponto, gritando com as pessoas, com os ônibus, com os carros, com as estátuas, com tudo. 

Curiosão, me aproximei pra tentar distinguir o que a tia gritava, e era tipo uns chamamentos de atenção, umas broncas em tudo, a tia funcionava como um Jorel da rua, um fiscal do Sarney dos pedestres, veículos e estátuas, chamando a atenção das pessoas e coisas, dos elementos e gases, dos vapores e líquidos, botando ordem nas coisas, uma ordem imaginária, que existe apenas na sua cabeça e que não obedece às leis da química, da física e da matemática. 

Cheguei mais perto, pra ver se a tia me dizia alguma coisa, me incluía na condução do caos urbano que ela tentava em vão ordenar. Pensei que ela podia dizer algo como “AÍ GORDINHO, FICA DE BESTEIRA PARADO NA CALÇADA? SE NÃO VAI PEGAR BUSÃO SAI ANDANDO!” ou “NÃO ACHA QUE TÁ NA HORA DE TOMAR VERGONHA NA CARA E PERDER ESSA PANÇA, MANO? OS PEDESTRE TÃO DANDO A VOLTA PRA PASSAR DO TEU LADO E ISSO TÁ ZOANDO ESSA CALÇADA!” 

Mas a tia não prestou atenção nimim. Tava ocupada gritando com um busão bi-articulado e depois voltou sua atenção prum cachorro que inventou de atravessar a São João ao lado dela, fora da faixa. 

Aí ela virou pro meu lado, e eu vi. Vi a razão da sua loucura, o motivo da sua raiva, o fundamento da sua dialética do nonsense: a tia era barbada. E pior, a barbinha dela fazia uma trança no queixo, tipo um faraó. O bagulho era grande, acho que uns dois ou três dedos, rivalizando e ganhando de uns 6 ou 7 cantores de new-metal. 

Chocado com a constatação, humilhado pela superioridade capilar dela, e constrangido por não ser notado nem pela mendiga barbada, saí andando. 

E enquanto teclo essas linhas aqui no meu escritório, ainda ouço a tia barbada gritando lá na São João. Hoje é ante-véspera de Natal, amanhã acho que ela não vem “trabalhar”, então acho que tá compensando o tempo, acumulando num banco de horas imaginário. 

Vai, tia barbada! Põe ordem na São João! Põe ordem nesse caos!”

por Ruy Fernando

Ele só esqueceu de dizer que além da barba ela tem vitiligo em volta da boca, o que contribui para sua aparência, digamos, única.

Os bichos e a porta II

Além do judô noturno que os bichos lá de casa promovem todo dia, como eu contei no outro post, a porta de casa ocasiona outra relação bastante peculiar com eles.

Acontece que quando fomos levar a Preta pra passear pelas primeiras vezes, pensamos “porque não levar a Branca também? Gato também é gente”.

E ela foi toda faceira numa daquelas bolsas de pano pra transportar gato com a porta aberta, feito um gato egípcio. E nunca pulou da bolsa.

Só que aí, agora, toda vez que vamos levar a cachorra, a gata quer ir também.

E fica miando DESESPERADAMENTE na porta da hora em que saímos com a cachorra até a hora em que voltamos.

E fica pulando nas chaves no meio do dia, como que dizendo “quero passear porra”.

E corre porta afora quando vamos tirar o lixo, no melhor estilo “livre! livre! LIVREEEEE!” até chegar na porta do elevador e não saber o que fazer.

É, gente.

Democracia com animais dá nisso.

Camping

A política do grande queridão Kassab está trazendo todos os mendigos da cracolândia pros arredores da São João.

Ele deve achar que os homens de rua somem se você tira eles de um lugar.

E aí agora todo o comércio alimentício ambulante da região, que não é pouco, entra em conflito com eles. Eu outro dia comprei uma pizza brotinho pra levar pra casa lá na 24 de Maio e tive que pensar bem o caminho e a estratégia pra conseguir chegar com a pizza em casa – porque se algum deles pedisse, eu não ia conseguir negar.

Só espero que isso não acabe dando nisso.

Aliás, caralho, ainda não consegui esquecer esse vídeo.

Ainda bem.

Cartão de natal

É simplesmente impossível encontrar um cartão de Natal não-barango no centro.

Até aqueles fofinhos de bichinhos são estragados com alguma frase ridícula dentro.

É pedir demais encontrar cartões em branco?

Parece que meu amigo secreto vai ficar só com o presente mesmo.

Papel picado

E falando em centro e Natal, ontem alguém teve a brilhante idéia de jogar papel picado do último andar da Galeria do Rock.

MUITO papel picado.

Pra desespero da tiazinha terceirizada da limpeza da C&A, que lutava com sua vassoura são-jórgica contra o papel que o vento e as pessoas insistiam em levar pra entrada da loja.

Enquanto isso, pedestres super preocupados diziam “é por isso que dá enchente nessa merda”.

E nove passos depois atiravam o papel de seus chocolates no chão.

Taxista macabro

Fui voltar da casa dos meus pais ontem à noite  e a minha mãe fez questão de que eu fosse de táxi – afinal, “já” era meia-noite e eu estava de Robofoot.

Aí peguei o táxi e a conversa inevitável com o taxista já começou com ele mandando bem. 

Olhou pro meu pé e disse:

- E aí, chutou a namorada?

OK, ele tentou fazer uma piada entre a Robofoot e a expressão “chutar a namorada”, só que ela foi tão ao pé da letra que eu pensei em chutar literalmente, e já segurei o riso.

Aí fomos conversando de futebol, ele me contando que era goleiro do segundo quadro do time do Banco Itaú de futsal, eu falando do Autônomos, ele me mostrando os dedos quebrados.

Até que chegamos na rua paralela ao Terminal Amaral Gurgel que eu nunca lembro o nome e que é mais conhecida por ser a rua onde mora José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Comentei isso com o taxista.

Eram meia-noite e quarenta e três minutos.

Ele virou pra mim, uma luz vermelha acendeu dentro do táxi, seus dentes incisivos cresceram e gelo seco começou a subir. 

Ele disse:

- Eu já participei de dois filmes dele.

Medo.

- Quais?

- Uns bem antigos, garoto…

Garoto. Não bastasse a palavra rimar com maroto, a expressão dele foi completamente… marota.

Pra não dizer macabra.

Sorte que minha casa fica dois minutos depois disso.

E sorte que não era meia-noite pra ele encarnar no meu cadáver.

Caminhão

E pra fechar o dia, desço do táxi e um caminhão daqueles que carrega caçambas está tentando estacionar em frente ao meu prédio.

Com, ao que parecia, um motorista bêbado descordenado.

Deu ré a primeira vez e a placa de trânsito que manda todos seguirem em frente entortou e ficou quase paralela ao solo.

Deu ré a segunda vez e a placa com o nome da rua passou raspando do mesmo destino.

Aí um cara que estava pela rua foi lá gritar com ele pra prestar atenção.

Não parecia que ele estava entendendo muito.

O que se confirmou quando na nova tentativa de dar ré a placa de trânsito ficou definitivamente paralela ao chão.

Maravilhoso.

Um milagre de Natal

Se um dia eu for levar meus filhos a uma igreja, o que só vai acontecer se Jesus aparecer em carne e osso na minha frente e disser “truta, leva os moleques agora ou vai todo mundo lá pra baixo”, vou levar nessa aqui.

Porque, vou te dizer, nada melhor pra fazer crianças acreditarem em algo que não existe (deus) do que ser pragmático e destruir a crença delas em algo que também não existe (Papai Noel).

Será esse o início de uma nova linhagem de padres materialistas?

Imagina só, a Bíblia numa mão e o Capital na outra…

Viva Luquinhas!

Em homenagem ao retorno do Luquinhas à sua casa, (não falei, Lelê?), vou contar uma ou duas histórias engraçadas sobre o meu segundo lar, o hospital.

Eu tenho uma doença congênita herdada do meu pai chamada microesferocitose. Basicamente, meu baço estúpido destruía meus glóbulos vermelhos só porque estes eram menores (micro) e mais esféricos (esferocitose) do que o normal. 

Com isso, o corpo ficava aberto à doenças mil. Pneumonia tive várias. Transfusão de sangue, fiz algumas. E, como consequência, tinha cálculos na vesícula, o que rendia uma dor que me fez respeitar mais do que tudo a dor do parto nas mulheres: aguda, vinha e voltava em intervalos cada vez menores, eu ficava pálido, suava frio, e sem ar.

Tudo isso antes dos 10 anos. Com 10, operei – a única coisa a se fazer pra quem tem a minha doença – e tirei fora o baço e a vesícula, que a essa altura tinha o tamanho quase que de uma manga, de tão cheia de cálculos. 

Minha irmã foi ainda pior: operou com 6, de emergência, pois estava com uma penumonia gravíssima.

Já meu pai é praticamente um herói, um mito, um totem para os microesferocitósicos (hehe): operou SÓ DEPOIS DOS 30. Socorro, só de me imaginar até hoje com aquela dor… sai fora.

Depois de operar, sem baço, órgão de defesa do organismo, uma criança precisa de proteção extra. E no nosso caso – meu e da minha irmã – essa proteção foi tomar Benzetacyl de 21 em 21 dias até os 18 anos. 

Com tudo isso, adquiri uma resistência à dor enorme. Tanto que nunca saí de um jogo de futebol por pancada, e olha que sou magrelíssimo – 1,75m, 52kg.

E aprendi a respeitar experiências dolorosas como momentos de crescimento, de aprendizado sobre o corpo e a mente.

Como se pode perceber, sobrevivi e depois da operação nunca mais fui internado – a não ser para fechar novamente um dos pontos internos da mesma, que se abriu cerca de 7 anos depois e que dava passagem a uma alça do intestino quando eu fazia certos movimentos e podia estrangular essa alça e causar coisa pior.

Até aí, tudo “tranquilo”, dentro do possível, tirando a minha necessária dependência da halopatia. 

Eis que então, uns dois anos atrás, estou eu no Kazebre, uma funesta casa de shows na zona leste, pra assistir a um show dos Los Hermanos – tá, podem zoar, eu mereço. Mas hippie é a mãe!

Chovia, o lugar era de terra, que a essa altura já era barro. O palco estava posicionado em um lugar bizarro onde várias pilastras te impediam de ver os barbudos a não ser que você se espremesse no meio da multidão.

Eu estava de saco cheio, puto, sujo de barro querendo ir embora antes do show começar quando, de repente, sinto uma pontada entre as costelas.

Dor.

Dor aguda, fininha, que tinha reflexos de acordo com a minha respiração.

Em nome dos companheiros que se divertiam com as músicas mesmo sem ver o palco, aguentei a tortura do show da dor até o fim e fui pra casa.

A dor não passava mas, como eu disse, sou teimoso bastante tolerante e me recusava a visitar minha segunda casa ir ao hospital.

Até que um dia, indo pro trabalho, corri pra pegar o ônibus e… quase desmaiei. 

Tava foda, não tinha jeito, e fui pro pronto-socorro.

Crente de que era uma fratura na costela ou algo do tipo, passei por um ortopedista. Ele me mandou pro raio-X. Quando voltei, ele disse que não tinha fratura nenhuma, mas que desconfiava de algo.

Foi falar com o clínico geral.

E voltou todo contente pela minha dor por ter descoberto algo que ele não via há anos, desde que se especializou em ortopedia: um pneumotórax.

Passei então pelo clínico geral, que decidiu me internar – não sem antes me botar medo dizendo que podia ser necessário operar.

Uma vez no quarto, aguardo com a Camila a chegada da minha mãe, a essa altura já histérica passagem de um pneumologista, especialista na área. Demora um pouco, mas o cara vem, faz algumas perguntas e me explica da doença. Diz que é típico de pessoas magras como eu e que da primeira vez costuma fechar sozinho. Caso aconteça uma segunda, aí tem que operar. E as chances de uma outra vez vão aumentando pouco a pouco: 40% de ter uma segunda, 60% uma terceira, 80% uma quarta…

Antes de sair do quarto, ele percebe que se “esqueceu” de perguntar algumas coisas. E manda:

- Você é astronauta?

- !!?!?!?!?!?!?!

- Ou piloto de avião?

- !?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!

- Mergulhador?

A essa altura, já acho que ele está brincando, mas respondo:

- Não, doutor, porque? Tenho cara?

- Não não, é que se fosse, você não poderia mais exercer sua profissão por conta do penumotórax.

PUXA VIDA, que pena. Lá se foi meu sonho de ser astronauta, hein? 

Por favor né, chega um MOLEQUE com cara de 17 anos (apesar de ter uns 24), de tênis velho, mochila rasgada, roupa largada e ele pergunta se é ASTRONAUTA? Isso que é seguir o procedimento à risca… valeu, Descartes!

Enfim, fiquei de observação, o pneumotórax fechou sozinho, nunca mais tive outro e acho difícil que volte a ter no que resta de vida pra todos nós – 53 dias.

E pelo menos posso dizer que tive a mesma doença do Manuel Bandeira – viu só, que chique, que boêmio, que elegante, que… merda.

É isso aí. Viver é correr riscos. 

E saber vencê-los, como fez o Luquinhas.

Saúde, moleque. E vê se pára de dar sustos na sua mãe – quer dizer, sustos de saúde, porque aqueles envolvendo orientação sexual são bem divertidos…

Adiós, amigos

Me lembraram ontem que o mundo acaba amanhã.

E eu nem terminei meu TGI, que merda.

Não teremos mais futebol, também.

Mas pelo menos acabaremos o mundo na frente da Argentina. E atrás do Paraguai, é claro – afinal, eles tem Cabañas.

Fiquei pensando ontem e hoje sobre porque escolheram essa data pra terminar com o mundo.

E é tão óbvio!

Tanto quanto o 11 de setembro, que “em inglês” é 9/11 e remete ao telefone da emergência estadunidense.

Seguinte: amanhã é 10/09/08.

É só continuar a contagem regressiva: 7, 6, 5…

Uma data simbólica e tal.

Mas enfim, já que o mundo acaba amanhã, vou contar dos meus últimos dias.

Morar em São Paulo é tudibom. No centro, então, é maravilindo.

Domingão, pego o busão pra voltar pra casa. Tô quase dormindo quando escuto:

- ÔRRA MÊO, VAZIOZÃO ESSE, VOU PEGAR SEMMMPRE!

Penso: que é isso, Hermes e Renato? O Boça entrou no ônibus? 

Praticamente.

E pra minha sorte, claro, sentou atrás de mim.

E eu sozinho. Sacanagem, como o Boça entra no ônibus, senta atrás de mim e eu não tenho ninguém pra comentar e rir junto?

E ele tinha um amigo. Que passou a catraca, viu que tinha sido cobrado em R$ 1,35 e indagou ao Boça sobre o assunto.

O querido Boça, prestativo como não poderia deixar de ser, perguntou:

- QUE HORAS VOCÊ PEGOU O METRÔ, MÊO?

- Duas e meia.

- AAAH, ENTÃO. HOJÉ É DOMINNNGO, TEM AQUELE BILHETE AMIGÃO, MÊO. NÉ NÃO, COBRADOR? COBRADOR! Ô, COBRADOR!

E o cobrador, com aquela cara de não-bastasse-trabalhar-de-domingo-ainda-tenho-que-pegar-o-Boça-no-caminho, acenou com a cabeça afirmativamente sem emitir uma palavra. 

Boça ainda se lamentou que não tinha visto a mulher naquele domingo, mêo. E então eu desci.

Cheguei em casa e vi na Internet o caso Isabelo. É, o bebê que caiu do 6º andar na avenida Rio Branco. E que foi visto por um transeunte que passava e avisou “olha, caiu um negócio ali” pra mãe da criança, achando que tinham jogado lixo da janela.

Avenida Rio Branco, excrusive, por onde passo todos os dias pra ir e voltar do trabalho. Fiquei me imaginando vendo um bebê caindo ali. Surreal.

Então desligo o micro e vou dormir, que segunda é dia de acordar cedo.

E quando passo pelo saguão pra ir trabalhar na segundona, a zeladora me pede desculpas.

Nem deu tempo de pensar perguntar “pelo quê?” e ela já foi falando:

- Aquele barulho ontem a noite, é que tinha um cara no quinto andar querendo se jogar, mó fuzuê.

Legal. Eu não ouvi nada. Mas mesmo que o fracassado tivesse conseguido me acordar, seria fichinha perto do prédio em que a Camila morou na esquina da São João com a Duque de Caxias, onde um cara esquartejou a mulher e guardou no freezer, ou algo assim.

Aí vem a terça-feira e preciso ir ao hospital de manhã pegar um atestado pro meu pai. Em pleno horário de trabalho, frio pra porra. 

E o médico, representante da típica classe eu-sou-foda-pra-caralho-e-faço-você-esperar-quanto-eu-quiser-seu-merda me deixa 40 minutos aguardando uma assinatura.

Até que eu invadi o consultório dele e dei um “empurrãozinho”. 

Enquanto esperava, começou a chover. Lindjo. Mas parou 1min37seg depois. Recorde que nem o Phelps bateria. Uma chuva de verão. Em pleno inverno.

E não era o bastante: indo do hospital pro trabalho, o ônibus parado na 23 de maio e, quem eu vejo?

O Sol.

Sim, o grande fornecedor de energia para o planeta.

Em menos de 2 horas, verão, outono, primavera e inverno. Valeu, São Paulo. Aula prática sobre as estações do ano.

E pra completar o relato com chave de merda ouro, na porta do trabalho tem um cara tocando violão, gaita e meia-lua. Ao mesmo tempo. Com um chapeuzinho de caubói e uma foto de Cissuis dentro.

O que ele tocava?

Creedence Clearwater.

“I wanna know: have you ever seen the rain?”

Olha, seu Creedence, eu vi, mas foi tão rápido que acho que a maioria não viu não, viu.

Já o sol, taí, me fazendo de trouxa com esse casaco enorme.

Loucura, loucura.

Vai ver eu que estou ainda sob os efeitos de sexta-feira.

Bom, pelo menos o mundo começa a acabar na Europa. Vamos ter um tempinho pra gritar “ih, se fodeu”, “ei, gringo, vai tomar no cu” e “é penta” antes de virarmos matéria estranha.

Tchau, mundo.

Beijomeliga.

PS.: já pensou que legal se o mundo acaba no meio do jogo do Brasil, com o Galvão narrando? “…e lá vem o Brasil! Bola pra Rrrrrobinho, DO JEITO QUE ELE GOSTA! Segura que eu quero ver, amigo… EPA! O Rrrobinho vinha com a bola, o buraco negro não quis nem saber: sugou ele pra dentro! Pra mim isso é pênalti! ARRRNALDO CÉSAR COEL… shhhhhhhhhhh rapwrooooooooom zuinzuinzuin hraaaaaaaaaaaaam bipbipbipbip…” (vazio) (anti-matéria) (nada) (inexistência) (vácuo)