É, enquanto a Grécia não manda mais notícias e eu não tenho inspiração de verdade pra novas historinhas da Beth, vamos de curtas novamente.
Até porque é fim de ano e as boas histórias acumulam rápido, rápido.
Boça strikes again
Estou na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, aquela coisa enorme e modernosa, tentando escolher um livro pra minha mãe de Natal.
Na mão tenho um Milan Kundera e um Ítalo Calvino. Estou quase percebendo já que ambos seriam presentes bons pra mim e não pra ela e desistindo de livros quando Boça – ele! – ataca de novo aos meus ouvidos:
- Mêêêo, muinto lôca essa livraria, mêo. Acho que é a melhor livraria do mundo! Nenhum outro país tem uma livraria dessa.
E eu fui embora sem livro e feliz por ser pelo menos metade carioca.
Trabalho
Eu e a minha Robofoot estamos à porta do consultório médico no trabalho esperando pra fazer perícia. Outras duas funcionárias também estão lá. E elas começam a conversar.
- Mas vou te dizer, esse povo é folgado. Quer ver que amanhã vai ter segurado na agência ainda?
- É, é complicado. E quando eles saem do consultório e falam que não entenderam o que o médico disse? E eu que vou saber?
- Ah, é tudo pilantra. Se eu fosse presidente, esse auxílio-reclusão aí, eu cortava na hora. Ficar pensando que a família do detento tem que comer? Porque ele não pensou nisso na hora que matou e roubou? Tem é que morrer de fome mesmo.
- É, pior são esses auxílios pra idoso. É tudo pilantragem. O povo fica acostumando com essas bolsas leite, bolsa escola, aí fica vagabundeando mesmo em casa.
Eu vou parar por aqui porque meu cérebro preferiu apagar o resto da conversa para o bem do meu estômago.
O governo dá dinheiro PRA BANQUEIRO e as mulheres reclamando que o povão pobre, fodido e ainda por cima DOENTE é “pilantra e vagabundo”.
Declarando a todos os ventos que atendem estes como se fossem lixo.
Eu sei que não deveria mais me assustar com isso, mas porra, eu queria sair dando bicudas robofooticas na cara das duas.
E não dá nem pra culpar a idade: uma era velha e a outra nova.
Vou te dizer, a queda do 15º andar onde estávamos não seria castigo suficiente pra esse tipo de traste.
25 milhões de março
Peguei um ônibus ontem que passou paralelamente à 25 de março.
Vou te dizer: CARALHO, QUANTO GENTE.
O mundo precisa de algum tipo de epidemia urgente.
Peste negra, febre amarela, peste bubônica, qualquer dessas serve.
Porque nem em final do Corinthians me senti tão apertado. E olha que eu tava no ônibus, de fora, só olhando.
Imagina lá no meio…
Troco
No mesmo ônibus, o cara, que ainda não passou a catraca, vira pro cobrador meio fanho e fala:
- Você não quer trocar três reais não?
Eu entendi que ele queria trocar as 6543634 moedas que tinha por uma nota de dois e uma de um.
Mas o cobrador achou que ele estava pagando a passagem.
Só sei que quando eu desci do ônibus a conversa entre os dois ainda era:
- Olha só, eu te dei três reais, você me devolveu só 0,70.
- Mas a passagem é 2,30 mesmo.
- Não, mas eu queria trocar o dinheiro, não pagar. Eu tenho bilhete.
- Ah, agora já passei o bilhete…
Como diz meu pai, comunicação é tudo.
Robofoot II
Quando eu acabar de usar a Robofoot no pé direito vou ter que passar ela pro esquerdo.
Porque, putapariu, essa merda tem um ferro que TODA HORA bate no calcanhar do outro pé quando eu ando.
Tá, a culpa é da minha falta de coordenação motora, mas mesmo assim, que merda.
Tô tendo que usar um naco de borracha dentro da meia pra evitar novas pancadas.
Ordem e caos
Aqui na São João entre minha casa e meu trabalho tem uma tiazinha meio doida que grita com os ônibus, os passageiros, os pedestres e tudo.
Eu ia escrever sobre ela, mas um amigo fez isso antes, então eu colo abaixo o texto dele, que é bom demais:
“Fazia já uns 4 meses que eu tava escutando uns gritos aqui no meu escritório, vindos da rua. Era uma voz de mulher, berrando coisas incompreensíveis, sempre na parte da tarde, do meio-dia às seis.
Eu achava que era alguma coisa de nigeriano, funk, travesti ou pivete, tipos urbanos que dão rolê aqui na minha vizinhança.
Até que um dia, encafifado, resolvi dar um rolê pra ver de onde vinham os gritos. E achei a origem na Av. São João, logo atrás do meu escritório. Pra ver o volume do bagulho: no centrão, uns cem, duzentos metros de distância, dez andares de altura, eu escuto a gritaria.
E a gritaria vem de uma tia, uma mendiga negona, que fica no ponto de ônibus na pracinha da São João logo atrás do meu escritório. A tia vai e vem no ponto, gritando com as pessoas, com os ônibus, com os carros, com as estátuas, com tudo.
Curiosão, me aproximei pra tentar distinguir o que a tia gritava, e era tipo uns chamamentos de atenção, umas broncas em tudo, a tia funcionava como um Jorel da rua, um fiscal do Sarney dos pedestres, veículos e estátuas, chamando a atenção das pessoas e coisas, dos elementos e gases, dos vapores e líquidos, botando ordem nas coisas, uma ordem imaginária, que existe apenas na sua cabeça e que não obedece às leis da química, da física e da matemática.
Cheguei mais perto, pra ver se a tia me dizia alguma coisa, me incluía na condução do caos urbano que ela tentava em vão ordenar. Pensei que ela podia dizer algo como “AÍ GORDINHO, FICA DE BESTEIRA PARADO NA CALÇADA? SE NÃO VAI PEGAR BUSÃO SAI ANDANDO!” ou “NÃO ACHA QUE TÁ NA HORA DE TOMAR VERGONHA NA CARA E PERDER ESSA PANÇA, MANO? OS PEDESTRE TÃO DANDO A VOLTA PRA PASSAR DO TEU LADO E ISSO TÁ ZOANDO ESSA CALÇADA!”
Mas a tia não prestou atenção nimim. Tava ocupada gritando com um busão bi-articulado e depois voltou sua atenção prum cachorro que inventou de atravessar a São João ao lado dela, fora da faixa.
Aí ela virou pro meu lado, e eu vi. Vi a razão da sua loucura, o motivo da sua raiva, o fundamento da sua dialética do nonsense: a tia era barbada. E pior, a barbinha dela fazia uma trança no queixo, tipo um faraó. O bagulho era grande, acho que uns dois ou três dedos, rivalizando e ganhando de uns 6 ou 7 cantores de new-metal.
Chocado com a constatação, humilhado pela superioridade capilar dela, e constrangido por não ser notado nem pela mendiga barbada, saí andando.
E enquanto teclo essas linhas aqui no meu escritório, ainda ouço a tia barbada gritando lá na São João. Hoje é ante-véspera de Natal, amanhã acho que ela não vem “trabalhar”, então acho que tá compensando o tempo, acumulando num banco de horas imaginário.
Vai, tia barbada! Põe ordem na São João! Põe ordem nesse caos!”
por Ruy Fernando
Ele só esqueceu de dizer que além da barba ela tem vitiligo em volta da boca, o que contribui para sua aparência, digamos, única.
Os bichos e a porta II
Além do judô noturno que os bichos lá de casa promovem todo dia, como eu contei no outro post, a porta de casa ocasiona outra relação bastante peculiar com eles.
Acontece que quando fomos levar a Preta pra passear pelas primeiras vezes, pensamos “porque não levar a Branca também? Gato também é gente”.
E ela foi toda faceira numa daquelas bolsas de pano pra transportar gato com a porta aberta, feito um gato egípcio. E nunca pulou da bolsa.
Só que aí, agora, toda vez que vamos levar a cachorra, a gata quer ir também.
E fica miando DESESPERADAMENTE na porta da hora em que saímos com a cachorra até a hora em que voltamos.
E fica pulando nas chaves no meio do dia, como que dizendo “quero passear porra”.
E corre porta afora quando vamos tirar o lixo, no melhor estilo “livre! livre! LIVREEEEE!” até chegar na porta do elevador e não saber o que fazer.
É, gente.
Democracia com animais dá nisso.
Camping
A política do grande queridão Kassab está trazendo todos os mendigos da cracolândia pros arredores da São João.
Ele deve achar que os homens de rua somem se você tira eles de um lugar.
E aí agora todo o comércio alimentício ambulante da região, que não é pouco, entra em conflito com eles. Eu outro dia comprei uma pizza brotinho pra levar pra casa lá na 24 de Maio e tive que pensar bem o caminho e a estratégia pra conseguir chegar com a pizza em casa – porque se algum deles pedisse, eu não ia conseguir negar.
Só espero que isso não acabe dando nisso.
Aliás, caralho, ainda não consegui esquecer esse vídeo.
Ainda bem.
Cartão de natal
É simplesmente impossível encontrar um cartão de Natal não-barango no centro.
Até aqueles fofinhos de bichinhos são estragados com alguma frase ridícula dentro.
É pedir demais encontrar cartões em branco?
Parece que meu amigo secreto vai ficar só com o presente mesmo.
Papel picado
E falando em centro e Natal, ontem alguém teve a brilhante idéia de jogar papel picado do último andar da Galeria do Rock.
MUITO papel picado.
Pra desespero da tiazinha terceirizada da limpeza da C&A, que lutava com sua vassoura são-jórgica contra o papel que o vento e as pessoas insistiam em levar pra entrada da loja.
Enquanto isso, pedestres super preocupados diziam “é por isso que dá enchente nessa merda”.
E nove passos depois atiravam o papel de seus chocolates no chão.
Taxista macabro
Fui voltar da casa dos meus pais ontem à noite e a minha mãe fez questão de que eu fosse de táxi – afinal, “já” era meia-noite e eu estava de Robofoot.
Aí peguei o táxi e a conversa inevitável com o taxista já começou com ele mandando bem.
Olhou pro meu pé e disse:
- E aí, chutou a namorada?
OK, ele tentou fazer uma piada entre a Robofoot e a expressão “chutar a namorada”, só que ela foi tão ao pé da letra que eu pensei em chutar literalmente, e já segurei o riso.
Aí fomos conversando de futebol, ele me contando que era goleiro do segundo quadro do time do Banco Itaú de futsal, eu falando do Autônomos, ele me mostrando os dedos quebrados.
Até que chegamos na rua paralela ao Terminal Amaral Gurgel que eu nunca lembro o nome e que é mais conhecida por ser a rua onde mora José Mojica Marins, o Zé do Caixão.
Comentei isso com o taxista.
Eram meia-noite e quarenta e três minutos.
Ele virou pra mim, uma luz vermelha acendeu dentro do táxi, seus dentes incisivos cresceram e gelo seco começou a subir.
Ele disse:
- Eu já participei de dois filmes dele.
Medo.
- Quais?
- Uns bem antigos, garoto…
Garoto. Não bastasse a palavra rimar com maroto, a expressão dele foi completamente… marota.
Pra não dizer macabra.
Sorte que minha casa fica dois minutos depois disso.
E sorte que não era meia-noite pra ele encarnar no meu cadáver.
Caminhão
E pra fechar o dia, desço do táxi e um caminhão daqueles que carrega caçambas está tentando estacionar em frente ao meu prédio.
Com, ao que parecia, um motorista bêbado descordenado.
Deu ré a primeira vez e a placa de trânsito que manda todos seguirem em frente entortou e ficou quase paralela ao solo.
Deu ré a segunda vez e a placa com o nome da rua passou raspando do mesmo destino.
Aí um cara que estava pela rua foi lá gritar com ele pra prestar atenção.
Não parecia que ele estava entendendo muito.
O que se confirmou quando na nova tentativa de dar ré a placa de trânsito ficou definitivamente paralela ao chão.
Maravilhoso.
Um milagre de Natal
Se um dia eu for levar meus filhos a uma igreja, o que só vai acontecer se Jesus aparecer em carne e osso na minha frente e disser “truta, leva os moleques agora ou vai todo mundo lá pra baixo”, vou levar nessa aqui.
Porque, vou te dizer, nada melhor pra fazer crianças acreditarem em algo que não existe (deus) do que ser pragmático e destruir a crença delas em algo que também não existe (Papai Noel).
Será esse o início de uma nova linhagem de padres materialistas?
Imagina só, a Bíblia numa mão e o Capital na outra…