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SS Decontrol*

Outubro 27, 2009 · 6 Comentários

Terça-feira, 27 de outubro de 2009.

Após um agradável final de semana estendido, saio – atrasado – para trabalhar.

O relógio marca já 7h25.

Ao fechar a porta de meu apartamento, no primeiro andar, começo a escutar ao longe gritos de desespero.

Apuro a audição para descobrir de onde vem. Parecem vir de cima, e se aproximando.

Passo pelo elevador para pegar a escada – afinal, só imbecis descem do 1º andar ao térreo de elevador – e percebo que é de lá que vem os sons de desespero.

Ainda não são cognitíveis as palavras berradas por, ao que parecia, uma mulher.

Num timing perfeito, chegamos ao hall de entrada do prédio juntos. Vejo a porta do elevador se abrir e de lá sair a dita cuja, 30 anos no máximo, aos berros:

- AAAAAAAAAAAAAAARGH! QUEM FEZ ISSO EM VOCÊ??? QUEM FEZ?!?!?! VAMOS PRA POLÍCIA AGORA!!!

Imagino a cena: a namorada – afinal, vivo próximo ao Largo do Arouche, casais gays são tão comuns quanto os héteros – chegando em casa cheia de hematomas.

O porteiro se aproxima, assustado.

De dentro do elevador, uma voz de criança quase chora:

- Não, mãe, vamos subir, mãe!

Teria sido o pai o espancador?

A mãe, em profundo desespero, deixa o celular cair no chão. Em dúvida entre apanhá-lo e tentar puxar a filha para fora do elevador, esta escapole e, com a ajuda do hábil porteiro, fecha a porta do mesmo. A mãe se vira para ele:

- QUAL O TELEFONE DA POLÍCIA? QUAL O TELEFONE DA POLÍCIA???

- Não sei, não sei.

Então, ela se vira para mim:

- QUAL O TELEFONE DA POLÍCIA, MOÇO?

O porteiro me olha com uma cara de “não faça isso, amigo”:

Eu:

- Não sei… não sei.

A mulher se volta pro porteiro, e de repente a tragédia familiar se desfaz:

- ELA COLOCOU UM ALARGADOR!!! ESSA MENINA TEM SÓ 12 ANOS, DAQUI A POUCO APARECE GRÁVIDA!!! ELA VAI PRA FEBEM!!!

- Mas quem deixou?

- AH, EU NÃO SEI! ESSA MENINA VAI APANHAR! EU VOU ESPANCAR ELA! VOU MATAR!!!

Então, tentando estabelecer a ligação entra um alargador, a FEBEM e a polícia em meio ao costumeiro sono matinal, desço as escadas com certa dose de desdém e vergonha alheia por tamanho ESCARCÉU ÀS 7H DA MANHÃ.

Não sem lamentar antecipadamente pela surra que a pobre menina estava prestes a tomar simplesmente por querer ser como as outras de sua idade, o provável escândalo na loja do irresponsável que colocou o alargador – se é que ela não o fez sozinha em casa com a ajuda de algum/a amigo/a ou da internet – e o desconforto vindouro nas próximas vezes em que cruzar com a mãe pelo prédio.

E me vou para o trabalho.

Desvinculado da necessidade do café para acordar depois daquilo tudo, tomo o ônibus para o Vale do Anhangabaú ao som de Cartola imaginando a cena:

- Alô, e da Polícia? Minha filha de 12 anos colocou um alargador, vocês poderiam por gentileza vir até aqui e levá-la para a FEBEM depois que eu terminar de espancá-la?

Pensando bem, eu deveria ter dado o telefone. Vai que a polícia, num (raro) ato de bom senso, não leva a mãe pra arejar a cabeça…

Tem gente – muita – que não deveria reproduzir.

***

*SS Decontrol, ou SSD, ou ainda Society System Decontrol, foi uma banda punk que tocava hardcore em Boston na década de 80 cujo nome e a agressividade da música foram as primeiras coisas que me vieram à cabeça ao sair pela portaria do prédio.

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Centro em chamas

Julho 31, 2009 · 4 Comentários

Estou mudando de casa e hoje fui limpar o apartamento novo, que fica no prédio em frente.

Aproveitei pra trocar o segredo da fechadura.

Deixei no chaveiro ali em frente aos Correios da São João e, quando fui buscar, notei algo estranho: todos os homens e mulheres de rua daquela região do centro estavam juntos na frente da agência.

Primeiro achei que estavam planejando alguma coisa, talvez um protesto, depois vi que estavam mesmo é tensos com o redor.

O chaveiro, que tinha esquecido de fazer o meu trampo, começou a fazer ali na hora e, enquanto eu esperava, entrou uma tiazinha já conhecida dele e fez uma piada com os moradores de rua.

O que se seguiu foi um pito monstruoso do chaveiro.

Ele disse pra tiazinha que era fácil brincar, mas que “a comunidade ali do bairro” estava fazendo protestos contra aquilo. Porque não aguentavam mais a Polícia empurrando eles de um lado pro outro ali na farsa da “Nova Luz”, e queriam uma solução digna pra todos. Começou a tirar jornais e flyers noticiando e chamando pra manifestações. Disse que outro dia o comércio todo ali da região fechou as portas em protesto no meio da tarde e fez passeata.

Aí os dois ficaram discutindo, a tiazinha falando “eu alcancei meu sonho trabalhando, ninguém me deu nada, a prefeitura não tem dinheiro pra dar casa e comida pra essa gente” e o chaveiro anarquizando no “isso porque a senhora acredita na prefeitura, tem muita cidade americana que inveja o caixa que o Kassab tem, ele gasta bilhões naquela ponte ali da Berrini e deixa esse povo todo na miséria” e eu só de canto de olho nos jornais e de ouvido na conversa, pensando “eu bem que desconfiava da boininha che-guevárica que esse chaveiro sempre usa”.

Eu não tava sabendo de nada, só do fechamento das portas porque minha ex me falou, mas ela também não sabia o porquê daquilo. Parece que a TV tem passado reportagens sobre a cracolândia, que a tiazinha disse “que tem a 1 e a 2, eu vi no Datena”, e que por isso a prefeitura fica mandando a polícia empurrar os moradores de rua pra lá e pra cá.

O chaveiro dischavou (hehehe) a tiazinha até não poder mais, só no “é por isso que o Brasil é assim, ninguém sabe viver em sociedade, tem que se ajudar, essa gente tem problemas, eles também tem os sonhos deles assim como eu e a senhora”, e a tiazinha na lenga-lenga do “eu trabalhei pra ser o que sou e eu vou é mudar daqui, quem tem que fazer alguma coisa é o pessoal que vive aqui desde que nasceu, eu tô aqui só há um ano”.

Acabei voltando pra casa com a cabeça da tiazinha numa bandeja um recorte de jornal e um flyer da manifestação que rolou, e no ponto de ônibus que fica na praça da São João ali entre a Aurora e a Vitória que eu sempre esqueço o nome estavam aqueles agentes da prefeitura que limpam as ruas com aquelas mangueiras de jato ultra-forte, de cara amarrada, pouco se fodendo e molhando todo mundo no ponto, meio que numa vibe “tenho que limpar essa merda dessa praça nesse frio porque essa porra desses mendigos ficam sujando”. O recorte de jornal tinha uma foto com uma faixa onde podia-se ler “DESTINO DIGNO JÁ À POPULAÇÃO DE RUA – CADÊ O CONSELHO TUTELAR???”.

Segue abaixo a transcrição ipsis literis do chamado pra manifestação que rolou, com as partes que me chamaram a atenção em negrito:

“COMUNICADO

MORADORES – PROPRIETÁRIOS – FUNCIONÁRIOS

Você que mora na Rua dos Gusmões – Av. Rio Branco – R. Timbiras – Av. São João e adjacências, convidamos para uma manifestação, nesse quadrilátero, dia 28/07/2009 às 16:00 horas – terça-feira.

Nessa manifestação, o qual deverá durar 1 (uma) hora, em caráter pacífico e sem envolvimento político partidário, NÓS, cidadãos que conhecemos os problemas sociais existentes aqui, devemos dedicar um pouco de nosso tempo, enriquecendo-o com idéias, sugestões e atuar como um canal de negociação entre a comunidade e o poder público, para cobrar soluções e tornar a região mais agradável, valorizando assim, sua história e ocupantes.

Vamos fechar as portas de nossos comércios, apartamentos e sair às ruas ou permanecer em frente aos nossos estabelecimentos com faixas, apitos ou cartazes de cartolinas com reivindicações, em busca de melhor qualidade de vida em NOSSA REGIÃO!!!

VENHAM!!!

“ARREGACEM AS MANHAS E VENHAM TAMBÉM FAZER A DIFERENÇA!!!!!!”

Informações/ sugestões comunidadesantaefigenia@yahoo.com.br ou (11) 85128198 Rita”

Melhor que o Viva o Centro, com certeza.

E, aproveitando o post anterior sobre os af(r)etados neo-Cansei da Marginal Pinheiros esquina com a Berrini, uma iniciativa muito melhor e mais profunda no sentido de pensar o problema como um todo e não só quando a água bate na bunda.

É só comparar:

“A gente não quer empurrar eles pros vizinhos, não. Três anos atrás o pessoal ali do fundo se manifestou e a prefeitura tirou eles de lá e mandou pra cá. A gente não quer fazer a mesma coisa, a gente quer solução pra eles, eles estão na maioria doentes, vivendo na rua, não queremos que sumam com eles, queremos que eles tenham dignidade”.

(Chaveiro indignado, Santa Efigênia)

“A gente não é favelado nem estudante da USP. A maioria aqui votou no Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

(Robson Estevão Baptista, adminitrador de website(?), Movimento dos Sem-Fretado da Berrini)

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Você que é o Corinthians? ou O coração da metrópole

Abril 28, 2009 · 6 Comentários

Dez minutos atrás, estou almoçando pizza em pedaço.

Quase no fim do último pedaço, um gordinho de azul senta do meu lado com seu amigo e fica me encarando.

Não dou bola. Ele levanta, olha pra mim e pergunta:

- Você que é o Corinthians?

- !?!? …oi???

- O Corinthians, que passou na RedeTV?

- É… sou eu.

- Também sou Corinthians, mano!!!

O amigo não entende, ele explica baixinho:

- Ele assinou Corinthians no RG.

O amigo sorri.

Levanto, rápido, que a pizza acabou mas a vergonha não, e me vou, tomando o resto da Coca-Cola.

Não sem antes dizer:

- Domingo “é nóis”, hein?

- É nóis, família!

Somos todos Corinthians, independentemente de ter um pedaço de papel escrito isso ou não.

***

Três minutos depois, voltando ao trabalho, um moleque de rua gordinho na Conselheiro Crispiniano levanta e vem na minha direção.

Estende a mão, cara de bravo, em direção à minha Coca. Ele não tem um braço.

- Vai, mano, dá essa Coca aí.

Meio perplexo e meio puto, paro, olho nos olhos dele e digo, com aspereza:

- Vamos com calma aí? 

O  moleque meio que se assusta e se rende, quase se desculpa:

- Vamos com calma. É que eu tô na maior neurose…

- Tranquilo. O lance é ter respeito, dos dois lados. Toma aí – e dou a Coca ainda pela metade pra ele.

- Valeu.

Almoçar – e viver, e trabalhar – no centro de São Paulo é sempre imprevisível, errante, quase uma aventura.

Cheia de situações complicadas como essa.

Dá pra falar em certo e errado? Politicamente correto, incorreto? Sentir culpa, dó, qualquer merda?

Só sei que eu dei a Coca não por ele ser um moleque de rua, nem por não ter um braço. Mas porque ele topou olhar nos meus olhos e trocar idéia, mesmo que tenham sido 10 segundos de idéia.

Aqui, no coração da metrópole, a gente aprende a desentupir as artérias um pouco a cada dia.

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O absurdo da lei, a ironia do acaso e o sabor da vingança

Março 11, 2009 · 95 Comentários

Estou indo pra Argentina no próximo dia 14 e o meu RG está aberto. Pra evitar problemas, então, segunda-feira fui ao Poupa-Tempo da Luz fazer uma segunda via.

Como lá mesmo dá pra tirar foto, não me importei em fazer isso antes. Aproveitei também o fato de ter um amigo que trabalha lá pra ir no melhor horário, entre 18h e 19h da tarde/noite. 

Então, por volta de 18h10, trajando uma camisa do Corinthians, como quase sempre, deixei minha casa rumo ao desafio.

Que já começou a encrencar logo de cara.

- Oi, quanto é a foto pra documento?

- 6 fotos, 5 reais.

- Tá, quero tirar.

- Não pode.

- Porque?

- Não pode tirar com camisa de time.

- Mas porque não?

- Não sei, moço, mas não pode.

Pronto. Se eu tivesse que voltar pra casa pra trocar de camisa, além de ficar muito puto, não daria tempo de completar a missão. Felizmente, pensei rápido e fui falar com o amigo que por lá labuta.

- Por favor, onde encontro o Felipe?

- Nas mesas.

Fui até as mesas.

- Fala Sema!

- E aí, mêo!

- Cara, seguinte, tem uma camisa pra me emprestar? Não pode tirar foto com camisa de time pra documento.

- Putz, mêo, a única camisa que tenho na mala também é do Corinthians. Mas ó, eu já peguei várias fotos com camisa de time, vê direito isso lá na frente.

Voltei à moça das fotos.

- Oi, então, falei com um colega que trabalha aqui…

- Que colega?

- O Felipe, e ele…

- Um magrelo altão?

- Esse.

- Adoro ele, sempre pentelho ele.

- Então, mas acontece que ele não tem uma camisa pra me emprestar, mas disse que já pegou gente com foto com camisa de time várias vezes.

- Olha, moço, se eu tirar e não te deixarem fazer você vai ficar bravo comigo… você não quer falar com a supervisora antes?

- Ahn… tudo bem.

E lá fui eu falar com a supervisora.

- Oi, boa tarde. Eu queria tirar uma segunda via de RG e não estão me deixando tirar foto porque estou com camisa de time. Não pode mesmo?

- Não.

- Mas porquê não?

E ela, com uma cara de “que pergunta absurdamente inconveniente”:

- Porque é DOCUMENTO!

- Que que tem?

- Documento é coisa séria, meu filho!

- Meu time é coisa séria pra mim.

- Mas não pode, antigamente tinha que tirar até de gravata!

- Só se for antigamente nos tempos do meu avô, porque meu pai tá de regata e black power no RG dele. Tem alguma lei que diga isso?

- Tem…

- Qual? 

- Não sei, mas não pode.

E virou as costas.

Inconformado, falei com um amigo meu que é advogado.

- Me diz uma coisa, estou aqui no Poupa-Tempo tentando tirar RG e não estão me deixando tirar foto com a camisa do Corinthians. Tem alguma lei que diga que não pode tirar foto pra documento com camisa de time de futebol?

- Olha, que eu me lembre a lei sobre documentos diz que tem que ter fundo branco e não pode ter nenhuma manifestação ideológica.

- E time é manifestação ideológica?

- Pode ser entendido como.

- Beleza, valeu.

Que maravilha. Se a minha camisa dissesse “Deus é Fiel”, duvido que me impediriam de tirar foto. E se “Deus é Fiel” não é ideológico, não sei mais o que é. Não à toa  Bob Dylan disse que pra ser honesto você tem que andar fora da lei.

Mas voltando, 18h30, meu tempo se esgotava. Resolvi forçar a barra. Voltei pra moça das fotos.

- Oi… olha, e se eu colocar a camiseta ao contrário?

- O que a supervisora disse?

- Que não pode camisa de time, mas não disse nada ao contrário.

- Olha, moço, é melhor eu não fazer, se não vai sobrar pra mim.

Ciente de que tanto ela quanto a supervisora só cumpriam alguma determinação esdrúxula vinda de cima, segurei minha raiva e tentei pensar.

Lembrei que tenho um amigo que trabalha na Galeria do Rock, aonde daria pra ir e voltar a tempo.

Restava torcer pra que ele estivesse lá e pra que tivesse uma camisa pra emprestar.

- Fala Didi.

- Fala Mandioca, tudo bem?

- Tudo. Rapaz, me diz uma coisa, você tem uma camisa pra me emprestar? Não estão me deixando tirar foto pro RG lá no Poupa-Tempo com essa do Corinthians.

- Pô, cara, só se for uma da loja.

- Mas eu não tenho grana pra comprar…

- Não esquenta, vai lá, tira a foto e depois me devolve.

- Não vai ficar ruim pra você?

- Não, vai lá.

Agradeci e fui, correndo, que já eram 18h45.

Cheguei e a moça da foto sorriu.

- Conseguiu?

- Consegui.

- Então vamos rápido que eu já tô pra fechar.

Entrei na cabine, tirei a camisa preta e… surpresa.

A estampa, na frente, era… VERDE.

Muita sacanagem.

Estiquei a camisa pra baixo o máximo que pude e tirei a foto mesmo assim.

Das 6, uma saiu sem o verde. Era essa.

Dei entrada no pedido e me sentei pra esperar. Rapidamente, fui chamado para ser atendido.

No guichê 24.

Não era possível, os deuses da bola estavam de armação pra mim. Só faltava o Pedro aparecer e dizer “é uma cilada, Bino!” a atendente ser santista.

Não era.

Mesmo assim, depois de tudo, resolvi que era hora da vingança.

Coloquei minhas impressões digitais, confirmei os dados e esperei pela hora da assinatura.

- Assina aqui do jeito que vai ficar no RG.

- Precisa ser igual ao antigo?

- Não.

Não tive dúvidas.

A mulher olhou para o papel.

Olhou pra mim.

Olhou para o papel.

Olhou pra mim.

Olhou para o papel mais uma vez.

E perguntou:

- Você escreveu… Corinthians?

- Sim.

- Olha, não sei se pode.

- Pode sim, a assinatura é minha, faço como quiser.

- Pera que eu vou perguntar.

Já imaginei ela mostrando pra mesma supervisora de antes e pronto, iam achar que eu tava de sacanagem com as tradições e os bons costumes desse país tão sensato chamado Brasil onde usar a camisa de seu time pra tirar foto pro seu próprio documento é quase um crime.

Mas tive sorte finalmente, e o outro atendente, a quem ela tinha consultado, confirmou que podia.

Hoje, voltei ao Poupa-Tempo pra buscar meu novo RG.

Que tem uma foto com o cabelo desarrumado e um sorriso cansado e uma assinatura com letra de criança.

Mas no qual, assim como domingo, deu Corinthians*.

Mesmo que aos 47 do segundo – ou melhor, às 19h20 de segunda.

DHVCorinthians

DHVCorinthians

 

*OK, o dérbi empatou, mas o RG também: eles ganharam na foto, eu na assinatura. No placar moral, deu Corinthians.

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Boquita

Fevereiro 18, 2009 · 5 Comentários

Ontem fui passear a Preta com o Jão e a Mix, amigos que deram uma passada de surpresa aqui em casa.

Eram mais ou menos sete e meia da noite.

Logo na calçada do prédio, começamos a ouvir um miado fininho, sem parar.

Eu e a Mix achamos que vinha de um carro estacionado e ficamos procurando com a lanterna dos celulares embaixo dele.

Chegou o dono do carro, abriu o capô, e uma coisinha preta minúscula miava em cima do motor.

Peguei ela na mão e imediatamente ela grudou na minha camiseta.

Aí, não teve jeito. Tive que trazer pra casa.

Fiquei com medo da Branca maltratá-la. Que nada, só estranhou um pouco e ficou na dela.

A Preta, curiosa e estabanada, é que ficou querendo cheirar e lamber a gatinha (descobrimos depois que é fêmea).

Só que a pequena é brava, e espanta a cachorra dez vezes maior com uma abertura de boca engraçada.

Daí que, juntando as coisas, depois de pensar em chamar ela de Pantera, de Viola e de Nêga, acabamos por nomeá-la Boquita.

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Boquita

O mais novo membro do meu harém da família.

Preta e Branca

Preta e Branca

Irresistível.

Come, pequena!

Come, pequena!

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A fome

Janeiro 15, 2009 · 5 Comentários

Hoje, por volta de onze e meia da noite, eu voltava de um passeio com a minha cachorra pelo Largo do Arouche quando, a poucos metros de casa, um senhor barbado, negro, mancando de uma perna, me chamou.

- Ei, amigo, por favor.

Parei pra escutar.

Ele queria comida.

Pedia arroz e feijão, estava “com muita vontade” de comer arroz e feijão.

Andava a duas horas, mancando, pedindo comida, e nada.

O homem chorava.

Não, não foi a primeira vez que me aconteceu isso.

Nem a primeira vez que neguei por estar de bolsos vazios – passear a cachorra não demanda dinheiro.

Mas fazia tempo que alguém não olhava nos meus olhos implorando comida.

Que eu não pude dar.

Cheguei em casa e, num impulso, enchi um recipiente com arroz e feijão, esquentei no micro-ondas, peguei um garfo e desci correndo pra ver se o homem ainda andava pela minha rua.

Procurei pelo entorno do Largo do Arouche por cerca de 15 minutos.

Não o encontrei.

Haviam muitas outras pessoas procurando comida pelos lixos.

Mas eu não procurava alguém pra expiar um sentimento de culpa.

Procurava eu mesmo.

Poucas sensações neste mundo podem ser piores do que não poder ajudar uma pessoa com fome.

Não importa se aquele prato nem salvaria o mundo, nem resolveria o problema da fome daquele senhor pra todo o sempre.

O fato é que, por mais assistencialista, excuso de consciência ou altruísmo burguês que possa parecer, me senti impelido a ajudar um homem que olhou nos meus olhos e implorou por comida.

E eu não pude dar.

E se o fato de isso me incomodar tanto a ponto de marejar os olhos não deve ser tomado como motivo de orgulho, também não deve passar despercebido.

Há mais entre duas pessoas que se cruzam numa rua deserta do centro à noite do que qualquer discurso ideológico sobre a fome pode dizer.

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Curtas II

Dezembro 24, 2008 · 3 Comentários

É, enquanto a Grécia não manda mais notícias e eu não tenho inspiração de verdade pra novas historinhas da Beth, vamos de curtas novamente.

Até porque é fim de ano e as boas histórias acumulam rápido, rápido.

Boça strikes again

Estou na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, aquela coisa enorme e modernosa, tentando escolher um livro pra minha mãe de Natal.

Na mão tenho um Milan Kundera e um Ítalo Calvino. Estou quase percebendo já que ambos seriam presentes bons pra mim e não pra ela e desistindo de livros quando Boça – ele! – ataca de novo aos meus ouvidos:

- Mêêêo, muinto lôca essa livraria, mêo. Acho que é a melhor livraria do mundo! Nenhum outro país tem uma livraria dessa.

E eu fui embora sem livro e feliz por ser pelo menos metade carioca.

Trabalho

Eu e a minha Robofoot estamos à porta do consultório médico no trabalho esperando pra fazer perícia. Outras duas funcionárias também estão lá. E elas começam a conversar.

- Mas vou te dizer, esse povo é folgado. Quer ver que amanhã vai ter segurado na agência ainda?

- É, é complicado. E quando eles saem do consultório e falam que não entenderam o que o médico disse? E eu que vou saber?

- Ah, é tudo pilantra. Se eu fosse presidente, esse auxílio-reclusão aí, eu cortava na hora. Ficar pensando que a família do detento tem que comer? Porque ele não pensou nisso na hora que matou e roubou? Tem é que morrer de fome mesmo.

- É,  pior são esses auxílios pra idoso. É tudo pilantragem. O povo fica acostumando com essas bolsas leite, bolsa escola, aí fica vagabundeando mesmo em casa.

Eu vou parar por aqui porque meu cérebro preferiu apagar o resto da conversa para o bem do meu estômago.

O governo dá dinheiro PRA BANQUEIRO e as mulheres reclamando que o povão pobre, fodido e ainda por cima DOENTE é “pilantra e vagabundo”.

Declarando a todos os ventos que atendem estes como se fossem lixo.

Eu sei que não deveria mais me assustar com isso, mas porra, eu queria sair dando bicudas robofooticas na cara das duas. 

E não dá nem pra culpar a idade: uma era velha e a outra nova.

Vou te dizer, a queda do 15º andar onde estávamos não seria castigo suficiente pra esse tipo de traste.

25 milhões de março

Peguei um ônibus ontem que passou paralelamente à 25 de março.

Vou te dizer: CARALHO, QUANTO GENTE.

O mundo precisa de algum tipo de epidemia urgente.

Peste negra, febre amarela, peste bubônica, qualquer dessas serve.

Porque nem em final do Corinthians me senti tão apertado. E olha que eu tava no ônibus, de fora, só olhando.

Imagina lá no meio…

Troco

No mesmo ônibus, o cara, que ainda não passou a catraca, vira pro cobrador meio fanho e fala:

- Você não quer trocar três reais não?

Eu entendi que ele queria trocar as 6543634 moedas que tinha por uma nota de dois e uma de um.

Mas o cobrador achou que ele estava pagando a passagem.

Só sei que quando eu desci do ônibus a conversa entre os dois ainda era:

- Olha só, eu te dei três reais, você me devolveu só 0,70.

- Mas a passagem é 2,30 mesmo.

- Não, mas eu queria trocar o dinheiro, não pagar. Eu tenho bilhete.

- Ah, agora já passei o bilhete…

Como diz  meu pai, comunicação é tudo.

Robofoot II

Quando eu acabar de usar a Robofoot no pé direito vou ter que passar ela pro esquerdo.

Porque, putapariu, essa merda tem um ferro que TODA HORA bate no calcanhar do outro pé quando eu ando.

Tá, a culpa é da minha falta de coordenação motora, mas mesmo assim, que merda.

Tô tendo que usar um naco de borracha dentro da meia pra evitar novas pancadas.

Ordem e caos

Aqui na São João entre minha casa e meu trabalho tem uma tiazinha meio doida que grita com os ônibus, os passageiros, os pedestres e tudo.

Eu ia escrever sobre ela, mas um amigo fez isso antes, então eu colo abaixo o texto dele, que é bom demais:

“Fazia já uns 4 meses que eu tava escutando uns gritos aqui no meu escritório, vindos da rua. Era uma voz de mulher, berrando coisas incompreensíveis, sempre na parte da tarde, do meio-dia às seis. 

Eu achava que era alguma coisa de nigeriano, funk, travesti ou pivete, tipos urbanos que dão rolê aqui na minha vizinhança. 

Até que um dia, encafifado, resolvi dar um rolê pra ver de onde vinham os gritos. E achei a origem na Av. São João, logo atrás do meu escritório. Pra ver o volume do bagulho: no centrão, uns cem, duzentos metros de distância, dez andares de altura, eu escuto a gritaria. 

E a gritaria vem de uma tia, uma mendiga negona, que fica no ponto de ônibus na pracinha da São João logo atrás do meu escritório. A tia vai e vem no ponto, gritando com as pessoas, com os ônibus, com os carros, com as estátuas, com tudo. 

Curiosão, me aproximei pra tentar distinguir o que a tia gritava, e era tipo uns chamamentos de atenção, umas broncas em tudo, a tia funcionava como um Jorel da rua, um fiscal do Sarney dos pedestres, veículos e estátuas, chamando a atenção das pessoas e coisas, dos elementos e gases, dos vapores e líquidos, botando ordem nas coisas, uma ordem imaginária, que existe apenas na sua cabeça e que não obedece às leis da química, da física e da matemática. 

Cheguei mais perto, pra ver se a tia me dizia alguma coisa, me incluía na condução do caos urbano que ela tentava em vão ordenar. Pensei que ela podia dizer algo como “AÍ GORDINHO, FICA DE BESTEIRA PARADO NA CALÇADA? SE NÃO VAI PEGAR BUSÃO SAI ANDANDO!” ou “NÃO ACHA QUE TÁ NA HORA DE TOMAR VERGONHA NA CARA E PERDER ESSA PANÇA, MANO? OS PEDESTRE TÃO DANDO A VOLTA PRA PASSAR DO TEU LADO E ISSO TÁ ZOANDO ESSA CALÇADA!” 

Mas a tia não prestou atenção nimim. Tava ocupada gritando com um busão bi-articulado e depois voltou sua atenção prum cachorro que inventou de atravessar a São João ao lado dela, fora da faixa. 

Aí ela virou pro meu lado, e eu vi. Vi a razão da sua loucura, o motivo da sua raiva, o fundamento da sua dialética do nonsense: a tia era barbada. E pior, a barbinha dela fazia uma trança no queixo, tipo um faraó. O bagulho era grande, acho que uns dois ou três dedos, rivalizando e ganhando de uns 6 ou 7 cantores de new-metal. 

Chocado com a constatação, humilhado pela superioridade capilar dela, e constrangido por não ser notado nem pela mendiga barbada, saí andando. 

E enquanto teclo essas linhas aqui no meu escritório, ainda ouço a tia barbada gritando lá na São João. Hoje é ante-véspera de Natal, amanhã acho que ela não vem “trabalhar”, então acho que tá compensando o tempo, acumulando num banco de horas imaginário. 

Vai, tia barbada! Põe ordem na São João! Põe ordem nesse caos!”

por Ruy Fernando

Ele só esqueceu de dizer que além da barba ela tem vitiligo em volta da boca, o que contribui para sua aparência, digamos, única.

Os bichos e a porta II

Além do judô noturno que os bichos lá de casa promovem todo dia, como eu contei no outro post, a porta de casa ocasiona outra relação bastante peculiar com eles.

Acontece que quando fomos levar a Preta pra passear pelas primeiras vezes, pensamos “porque não levar a Branca também? Gato também é gente”.

E ela foi toda faceira numa daquelas bolsas de pano pra transportar gato com a porta aberta, feito um gato egípcio. E nunca pulou da bolsa.

Só que aí, agora, toda vez que vamos levar a cachorra, a gata quer ir também.

E fica miando DESESPERADAMENTE na porta da hora em que saímos com a cachorra até a hora em que voltamos.

E fica pulando nas chaves no meio do dia, como que dizendo “quero passear porra”.

E corre porta afora quando vamos tirar o lixo, no melhor estilo “livre! livre! LIVREEEEE!” até chegar na porta do elevador e não saber o que fazer.

É, gente.

Democracia com animais dá nisso.

Camping

A política do grande queridão Kassab está trazendo todos os mendigos da cracolândia pros arredores da São João.

Ele deve achar que os homens de rua somem se você tira eles de um lugar.

E aí agora todo o comércio alimentício ambulante da região, que não é pouco, entra em conflito com eles. Eu outro dia comprei uma pizza brotinho pra levar pra casa lá na 24 de Maio e tive que pensar bem o caminho e a estratégia pra conseguir chegar com a pizza em casa – porque se algum deles pedisse, eu não ia conseguir negar.

Só espero que isso não acabe dando nisso.

Aliás, caralho, ainda não consegui esquecer esse vídeo.

Ainda bem.

Cartão de natal

É simplesmente impossível encontrar um cartão de Natal não-barango no centro.

Até aqueles fofinhos de bichinhos são estragados com alguma frase ridícula dentro.

É pedir demais encontrar cartões em branco?

Parece que meu amigo secreto vai ficar só com o presente mesmo.

Papel picado

E falando em centro e Natal, ontem alguém teve a brilhante idéia de jogar papel picado do último andar da Galeria do Rock.

MUITO papel picado.

Pra desespero da tiazinha terceirizada da limpeza da C&A, que lutava com sua vassoura são-jórgica contra o papel que o vento e as pessoas insistiam em levar pra entrada da loja.

Enquanto isso, pedestres super preocupados diziam “é por isso que dá enchente nessa merda”.

E nove passos depois atiravam o papel de seus chocolates no chão.

Taxista macabro

Fui voltar da casa dos meus pais ontem à noite  e a minha mãe fez questão de que eu fosse de táxi – afinal, “já” era meia-noite e eu estava de Robofoot.

Aí peguei o táxi e a conversa inevitável com o taxista já começou com ele mandando bem. 

Olhou pro meu pé e disse:

- E aí, chutou a namorada?

OK, ele tentou fazer uma piada entre a Robofoot e a expressão “chutar a namorada”, só que ela foi tão ao pé da letra que eu pensei em chutar literalmente, e já segurei o riso.

Aí fomos conversando de futebol, ele me contando que era goleiro do segundo quadro do time do Banco Itaú de futsal, eu falando do Autônomos, ele me mostrando os dedos quebrados.

Até que chegamos na rua paralela ao Terminal Amaral Gurgel que eu nunca lembro o nome e que é mais conhecida por ser a rua onde mora José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Comentei isso com o taxista.

Eram meia-noite e quarenta e três minutos.

Ele virou pra mim, uma luz vermelha acendeu dentro do táxi, seus dentes incisivos cresceram e gelo seco começou a subir. 

Ele disse:

- Eu já participei de dois filmes dele.

Medo.

- Quais?

- Uns bem antigos, garoto…

Garoto. Não bastasse a palavra rimar com maroto, a expressão dele foi completamente… marota.

Pra não dizer macabra.

Sorte que minha casa fica dois minutos depois disso.

E sorte que não era meia-noite pra ele encarnar no meu cadáver.

Caminhão

E pra fechar o dia, desço do táxi e um caminhão daqueles que carrega caçambas está tentando estacionar em frente ao meu prédio.

Com, ao que parecia, um motorista bêbado descordenado.

Deu ré a primeira vez e a placa de trânsito que manda todos seguirem em frente entortou e ficou quase paralela ao solo.

Deu ré a segunda vez e a placa com o nome da rua passou raspando do mesmo destino.

Aí um cara que estava pela rua foi lá gritar com ele pra prestar atenção.

Não parecia que ele estava entendendo muito.

O que se confirmou quando na nova tentativa de dar ré a placa de trânsito ficou definitivamente paralela ao chão.

Maravilhoso.

Um milagre de Natal

Se um dia eu for levar meus filhos a uma igreja, o que só vai acontecer se Jesus aparecer em carne e osso na minha frente e disser “truta, leva os moleques agora ou vai todo mundo lá pra baixo”, vou levar nessa aqui.

Porque, vou te dizer, nada melhor pra fazer crianças acreditarem em algo que não existe (deus) do que ser pragmático e destruir a crença delas em algo que também não existe (Papai Noel).

Será esse o início de uma nova linhagem de padres materialistas?

Imagina só, a Bíblia numa mão e o Capital na outra…

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Oba-Obama

Outubro 29, 2008 · 3 Comentários

Hoje eu vi um maluco no centro com uma camiseta “BARACK OBAMA – VOTE”.

Procurei por todos os lados da camiseta pra ver se não era alguma piada suuuuper engraçada do tipo símbolo-da-Adidas-folha-de-maconha.

Não.

Era propaganda pró-Barack mesmo.

Caralhos alados, que que tá acontecendo?

A eleição pra presidente dos EUA virou abertamente eleição pra presidente do mundo ou o cara tropeçou e o cérebro saiu voando pelo nariz?

Pior que pela cara de Stephen Hawking misturado com Bill Gates que o cara tinha é capaz dele ser um estadunidense eleitor do Obama no Brasil orgulhoso do seu futuro presidente.

Imaginei ele em frente ao Teatro Municipal, ao lado dos simpáticos homens-de-branco da Cultura Racional e daquela dupla infantil que eu nunca lembro o nome e apelidei de Jennifer & Anniston, com uma faixa do Obama e um megafone, gritando:

“Hey, macácows, este ser o cara que vai exxxplorarrr vocêzz nas próximas anos! APLAUDE HIM! Ele serr pretow como vocêzz!”

Socorro.

Alguém pára o mundo que eu quero descer.

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Toninho Vanusa – II

Outubro 2, 2008 · 7 Comentários

E não é que saindo pra almoçar encontro o Vanusa de novo?

Só que dessa vez foi ainda melhor: ele veio me cumprimentar, trocar idéias.

Mostrou o tornozelo fraturado, falou do drible mágico que faz, disse que ia jogar bola sábado com “uma mulecada” da zona leste.

Perguntei aonde, e ele disse “na Salim, quer dizer, Anhaia Melo”.

Aí não pude deixar de falar do Auto e de que jogamos na Salim, no “campo do Mixto”.

E ele não me vira e diz que jogou no Mixto?

E no Vila Paulina também!

Falei que eu conhecia o Fernando, ele mandou um abraço.

E foi indo embora junto comigo até a rua, perguntando no caminho umas 5 vezes que horas jogávamos.

- Das 10h às 13h.

- Olha, rapaz, se eu puder eu dou uma passadinha lá, hein?

- Passa sim, Toninho [olha a intimidade já], que aquele meu amigo palmeirense vai ficar muito feliz em te ver! Ele é nosso zagueiro lá.

- Legal, como é o nome dele? 

- Leandro.

- Leandro… fala pra ele que vou estar orando por ele. Ele é meio nervosinho, não?

- Não, até que é calmo. É daqueles zagueiros que tem categoria.

- Olha, rapaz, que bom. Que horas que vocês jogam mesmo?

- 10h, Toninho. Se você aparecer, pode até jogar conosco!

- É, aí eu brinco um pouquinho, né?

E se foi.

Prometendo que volta semana que vem.

Enquanto isso, fico torcendo pra ele aparecer sábado, conhecer o Auto, comer um churrasco.

Quem sabe não ganhamos um novo meia-esquerda?

E com passagem pela seleção brasileira ainda!

Grande Toninho, companheiro de trabalho, meu amigo Toninho, hehehe.

E assim meu rol de amizades subcélebres cresce a cada dia…

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Romaria do car… cavalo.

Setembro 22, 2008 · 2 Comentários

Domingão, dia de dormir até tarde. Algo sabido por todo ser de bom senso do planeta.

Mas acontece que bom senso hoje em dia é igual música boa: coisa rara.

Daí que inventaram de todo ano fazer uma feira do interiorrrrr no Parque da Água Branca.

E pra fechar a feira com chave de ouro merda, organizam uma romaria de burros, éguas e jumentos do centro até o Parque.

Todos eles puxados por cavalos.

E com imagens de santas padroeiras.

Até aí tudo bem, legal, bonito, todo mundo expressando seus valores culturais pela cidade, retomando as ruas, desfazendo a dicotomia campo/cidade, mostrando pro povo da capitar como é a vida na roça e todas essas coisas que me fazem lembrar do Marcovaldo, livro muito bom do Ítalo Calvino.

Mas, PORRA, PRECISAVA SER DOMINGO DE MANHÃ?

Ano passado essa marcha já me fodeu: tinha jogo do Autônomos, de campeonato, e o trânsito da São João parado TOTALMENTE pra romaria passar.

A 2 km/h.

Algo tão inacreditável que fez até o motorista do ônibus perder o rumo e CORTAR CAMINHO.

É, gente, ônibus cortando caminho.

Aí esse ano eles resolveram melhorar, e me acordar às 9h da madrugada.

Causando um trânsito monstro na Duque de Caxias, o que levou ao uso comedido e bem aplicado das buzinas pelos donos de cérebros diminutos automóveis, que sempre pensam que o som irritante de seus preciosos carros vai fazer desaparecer aquilo que empaca sua sagrada passagem.

Por isso que eu digo, na minha democraturacia as pessoas vão ter que fazer teste de QI pra usar buzina, câmera digital e celular.

E quem usar errado VAI PRA SIBÉRIA.

Passados todos os caipiras, volto pra cama pra tentar dormir mais um pouco. 

Mas não sem antes ver o melhor de tudo: atrás da romaria, vinha um carro da CET e mais dois funcionários a pé com… um carrinho de mão e uma pá.

Pra recolher a merda que os cavalos faziam conforme iam passando.

Literalmente, fiscais de cocô.

Veja só que mundo injusto: tanta gente tirando foto inútil de cavalo passando na rua e eu sem uma câmera disponível pra registrar esse momento lindjo.

4o minutos depois, já debaixo do edredon, naquele estágio de pré-sono, começo a escutar de novo buzinas e um carro de som com sotaque.

Pesadelo?

Não.

A romaria, que deu a volta no centro e pegou a São João.

“Pamonhas, pamonhas, pamonhas. Pamonhas de Pirrracicaba”.

Aiaiai, Papai Noel, cadê minha bazuca?

Já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem…

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