kadj oman

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Acontece

Março 6, 2009 · 5 Comentários

Na Inglaterra dos anos 70, um jovem amante de música chamado Ian tinha como costume perambular pelas lojas de discos e sebos em Manchester atrás de novidades.

Um dia, no centro da cidade, o rapaz mexia em alguns discos estrangeiros quando se deparou com um LP que continha uma etiquetinha escrito “samba – Brazil”. 

Curioso em saber como era aquele ritmo de um povo que sabia ser festivo, o qual porém apenas imaginava, comprou o disco, até pra ver se o ajudava a se animar – Ian deprimia-se facilmente.

Qual não foi sua surpresa, entretanto, ao colocar o LP na vitrola e ver sair dali notas melancólicas, tristes e bonitas, acompanhadas de uma voz que expressava  sabedoria, como de quem viveu uma vida cheia de obstáculos. Havia também ali uma percussão ritmada que dava às canções um certo equilíbrio de alegria dançante. Era uma combinação perfeita, mesmo com ele não entendendo nada do que diziam as letras. 

Em pouco tempo, Ian fez daquele disco seu preferido.

A capa do LP trazia uma figura enigmática, negra, com um chapéu-côco branco e um sorriso misto de satisfação e cansaço. Expressava ao mesmo tempo prazer e melancolia. Em seus sonhos, repetidamente, aquela imagem tão completa vinha fácil à mente do rapaz.

Em 1976, então, após ver um show que lhe deixou maravilhado, Ian resolveu que queria ele também estar nos palcos. Virou vocalista de uma banda local que rapidamente se destacou no cenário inglês. Arranjaram uma gravadora e resolveram mudar de nome.

Lembrando mais uma vez da capa daquele disco, o jovem resolveu transformá-la em representação da banda, ou a banda em representação da imagem: sob um nome alegre, músicas tristes.

Porque triste era a atormentada vida de Ian.

Seu coração sofria colisões mais fortes do que ele conseguia aguentar.

Tanto que dois anos depois, com a banda prestes a realizar uma primeira turnê internacional, Ian foi encontrado morto em sua casa.

Enforcou-se.

A mulher havia partido com outro faziam alguns dias.

Quando encontrado, na vitrola estava o disco de samba que comprara anos antes, com a capa pendurada em sua frente, na parede.

No bilhete de despedida, apenas uma palavra, o nome de sua música preferida naquele LP, a qual ele não sabia o que significava, mas compreendia perfeitamente:

“acontece”.

A paixão une;

o amor separa.

Acontece.

E naquele triste 1980, em um curto espaço de cinco meses, o mundo perdeu dois poetas tão distintos que, em certo ponto, encontraram-se quando resolveram dizer o óbvio tão óbvio que a maiora teima em não enxergar:

acontece.

Tudo na vida acontece.

Importante é saber o caminho entre o lamentar e o recomeçar, que faz a diferença entre ir até os 23 ou os 72.

***

PS.: esta é uma obra de ficção baseada na vida de Ian Curtis e Angenor de Oliveira, ou Cartola, como foi conhecido.

Dois poetas geniais.

Dois narradores da vida.

Que disseram, de jeitos tão diferentes, praticamente a mesma coisa:

love will tear us apart again.

Acontece.

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Curtas

Dezembro 23, 2008 · 3 Comentários

Estou amando a crise na Grécia, mas cansado de postar sobre ela aqui. Mesmo assim, vou continuar postando, porque acho fundamental que o que se passa por lá seja retransmitido por todos os meios possíveis.

Pra descontrair um pouco, entretanto, vai um post menos sério.

Robofoot

É, cinco dias de gesso não foram suficientes pro meu tornozelo.

Então, serão mais 15 dias com uma bota que imobiliza o pé mas me permite andar feito um idiota

O mais legal é o nome da bota: Robofoot.

robofoot

Os pés malfeitores se verão comigo.

Futurista. Tenho o pé do Robocop agora e mais uma personagem pra Beth, A Meia.

Essa contusão, aliás, me fez perceber que não damos muito valor às nossas articulações. 

Porque tente pegar a faca que caiu da pia enquanto você lavava louça usando Robofoot.

Ou estender a roupa.

Ou calçar o tênis no outro pé.

Subir os degraus do ônibus.

Trocar o jornal da cachorra.

Equilibar o prato de comida da cozinha até a sala enquanto você anda no melhor estilo piscina, “aqui tá fundo, aqui tá raso”.

Atravessar a rua fora da faixa e com o semáforo aberto para os carros (como todo bom paulistano).

Pegar alguma coisa em cima do armário.

Porque Robofoot melhora seu tornozelo, mas destrói completamente a sua já pouca coordenação motora.

Telefone

A pizzaria perto da casa dos meus pais é muito boa. Só que a atendente sofre de alguma disfunção cerebral.

- Boa noite, qual o telefone de cadastro, senhor?

- 3384-7633.

- Três três, oito quatro, sete cinco, dois dois?

- Não, não, 3384-7633.

- Seis seis oito…

- NÃO, três, três, oito, quatro, sete, meia, três, três!

- Três, três, oito, quatro, sete, sete, seis, seis?

- NÃO!!! Três-três-oito-quatro-sete-meia-três-três!!!

Mas nem dá pra reclamar, não é das piores coisas. Quem sofre mesmo é a Camila, que tem a língua um pouco presa.

Ela ligando pra UOL:

- Qual o email de cadastro?

- ikuta.se@uol.com.br

- ikuta, efe, ê?

- Não, ikuta, essfe, ê.

- Efe?

- Essfe!

- Efe???

- ESSFE!

- Efe??????

- ESSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSE!!!

Ufa.

Paulista

Andando que nem um idiota com a minha Robofoot pela Avenida Paulista ontem eu descobri duas coisas.

A primeira é a real função do horário de verão: repor toda a eletricidade gasta com iluminação baranga pela cidade.

A segunda é que a competição de pior tatuagem do mundo já tem vencedor: o rapaz que desfilava pelas calçadas à minha frente com as mesmas calçadas tatuadas no braço.

É, sabe aquela calçada com o desenho do mapa do Estado de São Paulo em preto e branco?

O cara tatuou no braço.

Torci tanto pr’aquele Terminal Princesa Isabel avançar o sinal vermelho…

Elevador

São cinco elevadores aqui no trabalho.

Só um funciona.

Dezessete andares.

Então, cada vez que você vai subir ou descer, pode colocar 10 minutos esperando o elevador e mais 10 dentro dele.

Porque ele pára em TODOS os andares.

Porque são dezessete, e sempre tem alguém em todos eles querendo descer ou subir.

Porque as pessoas querem descer e apertam os dois botões, pra subir e pra descer, aí pegam o elevador subindo e quando ele tá descendo ele pára de novo no mesmo andar.

Porque nego é PREGUIÇOSO e pega elevador pra ir do décimo primeiro pro décimo.

E eu com a Robofoot agora não posso mais tocar o foda-se e descer os dez andares de escada (eu trabalho no décimo primeiro e curiosamente o térreo é no primeiro).

Então, dá-lhe papo de elevador.

Vou pendurar uma plaquinha no pescoço escrito “sim, eu machuquei o pé e vou ficar com esta merda 15 dias explicando isso, e pra piorar só tem um elevador nessa joça e eu vou ser obrigado a contar essa história toda vez que pegá-lo, porque subitamente todos viraram meus amigos e se preocupam com a minha saúde”.

Os bichos e a porta

A Preta e a Branca ficam todo dia boa parte do dia sozinhas.

Então, quando eu e a Camila chegamos à noite, é hora delas gastarem energia, já que dormiram o dia inteiro.

Só que pra gente é hora de dormir, já que gastamos energia o dia inteiro.

Então é só arrumar a cama e deitar que começa a putaria.

A gata corre e se joga na porta, fazendo “bum” de levinho com seus quase três quilos.

Aí a cachorra vai atrás e se atira violentamente, fazendo “BOOOOM” com seus onze quilos bem pesados, atropelando a gata e provavelmente assustando e acordando os vizinhos (que não podem reclamar, porque tem um recém-nascido chorão).

E ficam nessa correria e tacação na porta uns bons 20 minutos. 

Depois vem as duas pra cama, e a gata quer dormir em cima da gente enquanto a cachorra quer ficar no meio, ou mais perto do que a gata.

E termina que vamos dormir sempre tarde, porque a casa é delas e só podemos dormir quando elas decidem parar de putaria.

Porque temos bichos, então?

Pô, olha pra elas:

branca

Branca, às 7h da manhã, na sua já famosa cena "agora que você acordou, vem aqui me fazer afago"

preta

Preta, às 7h da manhã, na sua famosa cena "foda-se que você acordou, eu vou continuar aqui deitada no seu, quer dizer, meu travesseiro até você ir comer alguma coisa que eu posso pedir", depois de 10 minutos de lambeção de rosto ao perceber que eu abri os olhos

Irrestíveis.

A Preta ainda tem olhos azuis lindíssimos que o flash teima em deixar vermelhos.

Vó, vó…

Abriu um supermercado Hirota ao lado da casa da minha vó.

Vó corinthianíssima que sempre me liga pra comentar do time e dos jogos.

Ela foi lá conferir, comprar qualquer coisa só pra ver qual era.

Descobriu que era o supermercado mais caro do quarteirão (tem três).

Chegando no caixa, virou pro atendente e disse:

- Escuta, porquê vocês não mudam o nome do mercado pra Takaro?

Vó!?

Aí depois disso ela pegou carona de carro com uma amiga da minha mãe e a minha mãe. E resolveu contar piada.

- Deitados na cama, a velhinha virou pro velhinho e disse: “meu bem, lembra de quando você mordiscava os meus peitinhos?”. E ele: “lembro, querida”. Ela: “era tão bom…”. Ele se levanta. Ela “aonde você vai, meu bem?”. Ele: “buscar minha dentadura…”

Desse jeito, vou ter que dar pra ela de Natal (é, gente, eu odeio Natal mas adoro agradar meus entes queridos) aquele livro da tiazinha de 67 anos que resolveu voltar a fazer sexo.

E um pote de Viagra.

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Amor em preto e branco

Setembro 2, 2008 · 2 Comentários

Continuando a série “feliz aniversário”, pro Corinthians e pra mim, conto a história de Preta e Branca, minhas filhotas queridas.

Em maio de 2007, eu e a Camila fomos morar juntos. É, casamos, isso aí, campeão. E é claro que a gente, como bons apaixonados por bichos e desgostosos de gente, fomos logo pegar animais de estimação.

Só que a Camila sempre foi adoradora de gatos e eu, de cães. Tem a ver com a nossa personalidade. Ela, quietinha, sutil, delicada, mas forte quando precisa e com a habilidade necessária pra dizer “deixa eu aqui sozinha no meu canto”. Eu, bobão, alegre, sem noção, mas fiel (vai, Corinthians!). Então precisávamos de dois bichos, mesmo isso sendo um absurdo pra quem vive numa quitinete. E fomos nós pra UIPA escolher dois filhotinhos – machos – que já tinham até nome: Neto e Viola.

Chegando lá, nada de filhotes machos. Aliás, nada de animais que nos interessassem e/ou fosse viáveis na quitinete. Até que adentramos o setor onde estavam as cadelas que haviam recém-parido. E eis que a Camila vê um filhotinho pequenino, quietinho, preto, de olhos azuis. Parecia um lobinho. Pegou ele no colo e aquele bicho era simplesmente irrestível. Estava feita a escolha – dele, ou melhor, dela, porque era uma fêmea.

Partimos pro balcão de adoção só com ela, porque gato que era bom não tinha nenhum filhote, e eu fiquei encafifado com uma gatinha branca já com uns 6 meses toda quietinha, mas que estava doente. A Camila não tinha gostado. Mas eu, como bom coração mole (outro dia conto quando fui pra praia de Pipa, próxima à Natal, e encontrei uma filhotinha quase morta caída no chão – resultado: todo mundo na praia e eu 3 dias cuidando da gatinha) fiquei pensando nela. E convenci a patroa a pegá-la também.

Sim, no final saímos com duas fêmeas. E eu tinha escolhido a gata e a Camila, a cachorra. Contrariando todas as expectativas.

Foi assim que surgiram a Preta e a Branca. Nomes óbvios, mas muito melhores do que as breguices que a gente cogitou antes: os nomes das nossas mães, dos nossos antigos prédios, de jogadores do Corinthians no feminino, Mara e Dona (tá, esse era um trocadilho legal, vai). E a família cresceu. E a bagunça também.

Diz uma frase de um livro: “Antes de adotar um cachorro, é bom ter em mente que ele lhe causará algum estrago”.

Sábias palavras que eu li, felizmente, tarde demais.

A lobinha de olhos azuis era um capeta. Destruía tudo. Mas era esperta, aprendeu a fazer as necessidades no lugar certo rapidinho. E era quieta, não latia quase nada. Provavelmente o pai tenha sido um husky, até pelos olhos azuis. Já a gata era quieta, pequena, delicada. Apanhava da cachorra nas brincadeiras, porque ficaram inseparáveis. Uma dupla a la sessão da tarde: pronta pra aprontar muuuuuuuita confusão.

Lá pelos 3 meses de casa, Preta já podia ir pra rua. E eu, um guardião da democracia e da igualdade para todos os seres que sou (punk de merda), pensei: porque não passear a gata também? Comprei uma bolsinha e iam as duas, a cachorra na coleira, a gata na bolsa. Com a porta aberta, lógico. Quase uma deusa egípcia.

Resultado: hoje, se eu levo só a cachorra pra rua (e ela precisa ir TODO dia, ultrahiperativa que é), a gata fica miando na porta enquanto eu não voltar.

A Preta na rua é uma figura. Os olhos azuis chamam atenção de todo mundo – tem gente que até pergunta se ela é cega. E ao contrário dos donos, ela gosta mais de gente do que de cães (coitada). O que significa querer pular em todo mundo. E como eu sou louco pra passear com cachorro sem coleira, vira e mexe ela me apronta alguma. Outro dia, pulou num policial pelas costas. Ontem, ficou latindo pros cavalos da polícia. A capeta é meio punk, igual o dono. Não gosta das “otoridades”.

Ter bicho dá um trabalho enorme. Mas vale a pena demais. Nada neste mundo pode pagar aqueles olhinhos no meu travesseiro quando eu acordo.

Eu não queria escrever um post tão fofo, mas fica difícil falando de bichos. Ainda mais dos meus.

Olha só que coisas fofas:

Antes de conhecer a Camila, eu tinha certeza de que ia ser um velho solitário que vive com 50 cachorros.

Agora tenho certeza de que vamos ser um casal solitário que vive com 25 cachorros e 25 gatos.

Ou quase isso.

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