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Aniversário*

- Vamos, menina, que a chuva só é chuva até que termine.

Eram vinte e cinco os dias de janeiro naquele ano de 2009 quando de repente não sabia para onde ir.

Chovia, que era São Paulo e janeiro, e ele não sabia para onde ir.

Resolveu deixar o hospital e caminhar, sem rumo. À deriva. Pensava em pessoas e datas, e lugares, e cheiros.

Assim foi, e a chuva de janeiro deixou a cidade mas não seu coração. Caminhava e lembrava, e por vezes chovia no almoço, deixando a comida mais salgada e menos palatável.

De peito amortecido, passava por tudo como quem não passa nada, emocionalmente quase nulo. Havia vida, podia até sentir, mas nada que tocasse ou sentisse conseguia desentorpercer seus sentimentos.

Não sabia, era isso, não sabia abandonar a tristeza. Encerrar o luto. E seguia vivendo porque, oras, não podia seguir de outra forma. Existir não há sem viver.

Então se foi a década, e veio outra. E de repente era janeiro e chuvas, mas diferente do primeiro ano dessa vez não adentro. São Paulo era mar como sempre, mas ele, sertão. Secara.

E ali vinte dias, e um, e dois, e de dois para quatro numa intensidade que há tempos, e de repente vinte e cinco.

Eram vinte e cinco os dias de janeiro naquele ano de 2011 quando percebeu que havia esquecido do aniversário de sua tristeza.

Dois anos, fazia, e ele não lhe havia comprado presente algum.

Então parou de andar e caiu em si.

Pegou a cachorra, subiu o viaduto e ficou a observá-la a correr, liberta que estava da coleira e das paredes do apartamento.

E montado no alto de todo aquele concreto e cinza sentiu que naqueles dois anos nunca estivera sozinho.

Nem ao sol, nem à sombra, muito menos à chuva.

Olhou para cima, e vendo o céu de janeiro carregado como sempre, jogou fora o guarda-chuvas.

Porque tinha sede.

Dois anos depois, outra vez tinha sede.

- Que venha a chuva! – desafiou.

De boca aberta, e língua de fora.

*Dedicado a Cleber Cajazeira, que em 25 de janeiro de 2009 deixou a história para estar diariamente na minha vida. Pai, tua chuva me alaga e me seca, mas nunca, nunca, nunca me afoga.

Presente de aniversário

Completo hoje meu primeiro aniversário órfão. Mas não, esse não será um texto lamentando isso.

Ao contrário.

Será um texto tentando aprender a lidar com isso.

Pra ajudar, como sempre, há o Corinthians.

Que completou 99 anos dois dias antes de mim e que, fazendo escadinha, teve jogo ontem em casa, contra o Santos.

Um Corinthians que não é mais o mesmo de três meses atrás, é verdade. Mas que continua tendo a mesma raça e espírito de Corinthians que o Mano Menezes recuperou desde que chegou por estes lados.

E como aniversário a gente comemora em casa e com quem se gosta, fui ao Pacaembu mais uma vez encontrar a “família”.

Dadas as circunstâncias, era um jogo diferente, pra mim. Mais inflexivo, reflexivo, contemplativo. De tal forma que não me importou muito o gol do Santos aos 5 minutos do segundo tempo. Alguma coisa me dizia que aquele jogo era meu – nosso, pai.

Aos 13, perdemos Mano, expulso por reclamação. Olhei para o banco do time mandante no Pacaembu e percebi o vazio que tomava conta daquele espaço. Em campo, o time refletia a perda, e relembrava 2007, com bicos para o alto para um desesperador Souza, jogando com seu pai internado em estado grave, tentar fazer o que até hoje não fez: resolver.

Mirei mais uma vez o banco de reservas do Corinthians e percebi uma movimentação diferente. Talvez fosse o álcool das duas latinhas de cerveja consumidas de estômago quase vazio antes do jogo, não sei. Mas o fato é que eu via subir do pequeno jardim atrás do banco uma estranha nuvem, que formava uma imagem, ainda indecifrável. Súbito, passei também a escutar uma voz familiar, gritando, esbravejando com o time. E então tudo fez sentido:

meu pai assumira o comando.

Das cinzas ali esparzidas meses atrás, erguia-se a memória de um gigante em minha vida.

Alguém que me ensinou a torcer apaixonadamente, a pular e gritar nas vitórias, mas também a aprender com o sofrimento nas derrotas.

Que me ensinou que um estádio de futebol comporta muito mais que partidas. Celebra festas, encontros, desencontros. Comemora a vida.

O Corinthians percebeu que o comando, agora, não vinha mais do banco, vinha das arquibancadas. Da história. Da mística. E a fez valer.

De virada, no finalzinho, com um gol chorado e outro improvisado – mas de uma improvisação perfeita.

Daquelas que fazia meu pai correr à janela e soltar um raro “goool!”, numa alegria meio contida, de quem sabe que festa, mesmo, só depois do apito final.

A nação alvinegra, em êxtase, explodia em mais um “parabéns pra você”.

Mas eu não conseguia me mexer.

Abraçado à bandeira, olhava para o banco. Para a história. A minha história.

Que corria alegre à minha frente, em preto e branco, desde o primeiro bolo de aniversário, com a velinha que eu quis apagar com a cabeça.

O jogo acabou, e tomei o rumo de casa. Por mais que casa, desde 25 de janeiro, nunca mais tenha significado o mesmo.

Nos arredores do Pacaembu, ao som do buzinaço alegre da família que comemorava, a voz que tantas vezes tive ao meu lado quando era difícil até mesmo respirar me dizia, tranquila:

“Parabéns”.

E me fazia adentrar meu 28º ano de vida com aquela sensação de quem sabe algo que ninguém mais pode saber, algo só seu: meu pai ganhou esse jogo pra gente.

Meu melhor presente de aniversário.

Sessenta

Hoje meu pai completaria 60 anos.

Amanhã completam-se 3 meses de sua morte.

Hoje eu faço 60 anos.

Amanhã, 59 e 9 meses.

Noventa dias parecem pouco perto de sessenta anos.

Mas casa segundo sem meu pai é uma eternidade. 

Tanto não dito nesses três meses…

Fui pra Argentina, pai. Duas vezes.

Assinei Corinthians no RG.

Ronaldo finalmente jogou. E como jogou.

Estamos na final do Paulista.

Não jogamos mais no Morumbi, só como visitantes. E nos dão apenas 10% dos ingressos.

Estou solteiro de novo.

Tenho mais uma filha, a Boquita. Achei ela na rua.

E hoje eu me formo.

Pra lembrar de você, e de quanto de você esteve e está em minha tese.

Sinto saudades demais. 

Às vezes choro no almoço. 

Não um choro desalentador, mas um choro ao mesmo tempo doído e gostoso.

Dos chutes na janela em Pirituba.

Das idas ao terrão do Corinthians – lembra quando joguei de meia-esquerda e ganhei a camisa de melhor em campo?

Do Pacaembu – embora lá você esteja sempre que eu vou.

Do boa noite de todos os dias.

Eu poderia escrever muito mais do que as 198 páginas da minha tese, só de lembranças suas. Mas prefiro guardá-las, pra revê-las aos poucos.

A cada beijo em você no braço direito antes de cada jogo.

A cada gol sem abraços, sem telefonemas, sem “você viu, que golaço?”.

A cada dia sozinho neste mundo.

Mas, apesar das palavras tristes, não se preocupe, pai. Estou bem.

Completando alguns sonhos, destruindo alguns outros, criando outros novos. 

Importando alguns seus.

Não sei direito se você pode me ver, ouvir ou escutar. 

Mas se puder, olhe pela janela no dia 31 de dezembro.

Estarei lá, como a gente combinou e não cumpriu.

Correndo a São Silvestre.

E vou chegar ao fim. Duas vezes.

Uma por mim, e outra por você.

Porque você sempre foi minha mão, meus olhos, minhas pernas, meu sangue quando precisei.

Nada mais justo do que eu agora ser seus pulmões.

Parabéns, pai.

Nos encontramos nos sessenta.

Todo dia.

Beijos,

Dan.

***

P.S.: Lu, chorar de saudade não é vergonha alguma. Mas lembre sempre que o pai tá aí, tá aqui, tá em todo lugar. E sempre vai estar. Espero te ver em muito breve, quem sabe eu não vou pra Austrália em julho?

Te amo, irmãzona!

Cuecas de marca

Não é de hoje, nem de depois da crise financeira, que o comércio ambulante em São Paulo cresce a passos largos.

É quase impossível sentar num barzinho na Vila Madalena ou na Augusta sem ser abordado por vendedores de flores, de trufas e de DVD’s – o que pode acabar sendo uma boa saída pra quem passa da hora e deixa a mulher em casa, porque o trio combinado gera uma arma e tanto:

- ONDE VOCÊ TAVA?

- Calma amor, hic… olha… hic… trouxe bombons e… hic… flores pra você.

Se não der certo, sempre dá pra apelar usando a carta do “e-ainda-comprei-um-DVD-romântico-pra-assistirmos-juntinhos”.

Mas ontem, quando fui a um bar na cada vez mais classe média alta Vila Romana comemorar os 88 anos de minha avó, não esperava encontrar ambulantes.

Pouco tempo depois de escolher a antropofagia e pedir uma porção de mandioca, já que vegetarianos não se dão bem em relação a petiscos de bar e que eu não queria ser paulista-mêo igual ao resto da mesa que havia pedido “dois pastel e um chopps”, eis que aconteceu.

- Olha a trufaaaa! A trufaaa! Tem de maracujá-côco-cereja, alguém vai quereeer?

Ninguém quis.

Não muito depois, o segundo ambulante teve mais sorte, apesar do enunciado horrível.

- Olha o DVD, nacional e internacional, SÓ FILÉ.

O sogro da minha irmã resolveu presentar o filho com DVD’s nacionais, já que ele está na Austrália (pra onde minha irmã volta hoje) e por lá é difícil encontrar filmes brasileiros – o que na maioria das vezes não faz grnde diferença dadas as merdas produções ruins que rolam por aqui.

Só faltavam, portanto, as flores. E pra não dizer que não falei delas, chegou o terceiro ambulante.

Uma senhora de mais de 60 anos.

Só que ela não carregava buquês, e sim uma sacolinha.

Se aproximou exatamente do meu lado da mesa enquanto eu discursava sobre a empáfia do jogador do Colo-Colo que colocou na camisa o apelido, “Chamagol”, ao invés do nome (é como se Ronaldo colocasse na sua “Fênomeno” ao invés de Ronaldo) e soltou:

- OLHA A CUECA DE MARCA!

O mundo parou.

Pensei estar por um instante num episódio do Hermes e Renato. 

Perdi a fala.

A sogra da minha irmã, meio que não querendo acreditar no que tinha ouvido, disse:

- O quê? Torta de marca?

A senhora, que já havia percebido que ninguém compraria nada, nem respondeu.

- Ninguém quer, né? Tudo bem.

E continuou seu caminho.

Sem saber se ria ou chorava, a mesa se entreolhava, meio chocada.

Respondi à sogra, meio sem certeza: 

- Não, CUECA de marca… é isso né?

- É… – várias vozes trêmulas retrucaram.

Cuecas de marca.

Nunca na minha vida me imaginei em uma situação onde uma senhora de mais de 60 anos me ofereceria cuecas de marca.

A divagação coletiva sobre o acontecido só não continuou muito mais porque Chamagol resolveu chamar um gol na sua primeira participação no jogo e aí o papo voltou pro meu encontro causal com torcedores do Colo-Colo horas antes – o melhor presente da noite segundo minha avó.

Horas mais tarde, em casa, pensei que até que não era má idéia vender cuecas de marca na noite paulistana.

Um ótimo quarto elemento pro trio trufas-flores-DVD’s.

Como que um D’Artagnan para Athos, Porthos e Aramis.

Porque se por acaso o rapaz da situação do começo do post não se safar nem com o filme romântico, se ele tiver feito besteiras que sua cueca possa sinalizar, está ali o perfeito porto seguro pra uma pulação de muro sem pistas: é só trocar de cueca.

Então, cuecas de marca.

E aí, quem vai querer?

Beth, A Meia XIII

A Beth de hoje é presente de aniversário pra Mayumi, que completa 26 anos domingo mas bebemora a data hoje.

Como a May adooooooura fazer amigos, estão TODOS convidados. NÉ MAY?

(clique na imagem para ampliar)

beth131

A paz verde e o furor alvinegro

Segunda foi aniversário do Felipão, e teve mais bebemoração.

(É, setembro sempre tem um monte de aniversário porque em janeiro a galera tá de férias e de ressaca das festas de fim de ano e faz sexo com, digamos, menos cuidado do que deveria.)

Durante a velha e boa conversa-de-bar-em-dia-de-aniversário, que também é dia de reunir a galera que não se vê faz um tempinho em pleno dia de semana, três assuntos foram dominantes: o Autônomos, já que o Felipão é o camisa 6 do Auto A; o Corinthians, já que o Felipão é corinthiano; e a sustentabilidade, já que a mesa só tinha geógrafos nerds e dois deles – Júnior e Rê – tinha ido a um show lindjo no fim de semana, “About us”, onde artistas bacanérrimos ensinavam a moçada a “consumir sustentavelmente”. 

Teve também o Paulão contando as peripécias dele como padrinho de um casamento que contava até com um Timmy, o que foi bem engraçado.

Mas essa enrolação toda é só o contexto pra dizer que nessa onda de fazer tatuagens novas eu acabei tendo um momento nostalgia punk e terça vim pro trabalho ouvindo Dead Fish.

Dead Fish que é uma banda interessante.

Primeiro porque, na minha opinião, é uma das melhores bandas punks do Brasil.

Segundo porque eu sou amigo do Rodrigo, o vocalista, e isso já causou muuuuuuita confusão. 

Uma vez, uma amiga veio em casa me cumprimentar no meu aniversário. Eu morava ‘cos punk’, e o Rodrigo volta e meia tava lá. Daí que nesse dia ele chega e me cumprimenta, dá uma zoada, eu devolvo e percebo que a mina tá pálida de susto.

Ele vira as costas e vai embora e ela balbucia:

- É… o… o… 

- É.

- Nossa…

- Ih, relaxa, é um cara como qualquer outro.

Mas não adiantou, a cara dela continuou de susto até ir embora, algo como “nossa, o Rodrigo do Dead Fish vem aqui nessa casa tosca e ainda é amigo do Mandioca???”.

Porra, eu conheço o cara bem antes da fama toda. Vira e mexe vou em jogo do Corinthians com ele (ou melhor, ele vai comigo), fui num jogo do Flamengo – o time dele – também, e quando a gente se encontra na rua pára (ei, Houaiss, você já sabe a rima) pra bater um papo.

Então, pra mim, ser amigo dele não é nem motivo pra contar pra todo mundo, “olha que legal, sou amigo de um cara famoso”, e nem motivo pra esconder de todo mundo, “putz, que merda, vão achar que eu lambo o saco do cara só porque ele é famoso”.

Aliás, isso dele ser famoso é meio que algo não-processado na minha mente. Eu vejo ele na TV e não encaixa, é bizarro. Mas enfim, dá sempre pra zoar com ele, como quando alguém pede autógrafo na rua ou quando estávamos conversando no ponto de ônibus e um bando de emos punks mirins ficou olhando e apontando e ele ficou todo sem graça. Divertido.

(OK, eu também já fui punk mirim, mas sei lá se sou eu ou se “na minha época” a  relação entre o cara que toca e o que assiste era muito mais de igual pra igual e menos espetaculosa do que hoje dentro do punk. 

Tá, 10 anos atrás não é tanto tempo assim, mas na “modernidade líquida” tudo voa muito rápido – diz aí, você se lembra o que tinha antes no lugar desse prédio bacana que construíram no seu bairro?)

Enfim, eu curto Dead Fish e acho as letras, principalmente do “Sonho Médio”, muito boas.

Daí que vim escutando e quando chegou em “Paz Verde” eu não pude deixar de lembrar da sustentabilidade de segunda:

(…)

Não me venha com retórica terceiro mundista 
seu incompetente miscigenado, 
a culpa não é do capital! 
O meu império ecologista sabe lucrar, 
sabe vender e o que é melhor, 
a selva foi internacionalizada. 
Índio iludido pensou que fosse melhorar, 
todas as bandeiras (do G7) estavam lá! 
Mas o que se viu foi mais uma divisão,
os índios tiveram que financiar suas ocas em bancos silvestres. 

(…)

E aí vieram outras músicas e eu fui reparando, ou melhor, lembrando de como as letras são muito bem construídas e tem mensagens bem claras e, o que é melhor, elaboradas – não são aquela velha fórmula punk do “foda-se o sistema, abaixo a igreja”.

Só que antes, nos meus 18 aninhos, eu escutava e pensava, “gênios!”. Hoje eu escuto e penso, “é, eles souberam fazer algo minimamente bem feito, que fica na cabeça e ao mesmo tempo é forte”.

Tudo bem, tem horas que o Rodrigo dá uma forçada – “sooooou um cidadãããããão” e coisas assim – mas no geral a banda é boa e desperta um sentimento revoltado de classe média legal de “vambora fazer alguma coisa”.

O problema é quando esse sentimento é despertado em um virginiano paranóico impulsivo que sempre às vezes perde o bom senso, como eu.

Então, no meio disso tudo, me veio um insight que me disse o que eu devo ser na vida:

presidente da Gaviões da Fiel.

Não porque eu sou o gênio que vai revolucionar a torcida, mas porque… sei lá, porque eu sou pró-ativo, gosto de manipular organizar as coisas e acho que seria um bom presidente, sendo que por presidente eu não entendo o cara que tem privilégios sobre o resto, e sim o cara que tem a maior responsa de todas, um mediador de conflitos, um relações públicas que só se fode.

Empolgado, fui correndo contar a novidade pra minha futura assessora de imprensa, a Lelê.

Liguei pra ela – a cobrar, lógico, que presidente pode – e contei da minha nova ambição. 

Primeiro ela riu, mas depois que viu que eu estava falando sério me chamou de doido e disse que vai tentar me apoiar. 

Que bom, uma das dez blogueiras mais bonitas do Brasil-il-il tá do meu lado, já é um começo.

Fora que eu posso usar ela como musa da torcida corretora ortográfica – apesar do Houaiss ter fodido a bagaça geral e liberado o ‘é nóis’ – e, quem sabe, rainha da bateria.

O que uma tatuagem, uma bebemoração sustentável e algumas musiquinhas encanta-garotinho-punk somadas à total falta de bom senso e incapacidade geral de discernimento não fazem com a gente, né?

Ainda bem que eu tenho amigos na Gaviões e quando fui contar pra eles me encheram tanto a paciência me chamando de presidente e pedindo solução pros milhões de problemas internos da quadra que quase me fizeram desistir do meu sonho.

Mas não conseguiram.

Sabe como é, I have a dream e coisa e tal.

Aliás, me ajudaram a perceber que eu preciso bolar um passo-a-passo “como ser presidente da Gaviões”.

Depois deixo de tutorial pra quem eu achar que merece.

Mas como sou bonzinho e a favor da informação livre, libero já o primeiro passo, imprescindível, que serve pra fazer o sonhador pisar de novo no chão e encarar a necessidade de ser pragmático – coisa que eu ainda não fiz.

Passo 1: ficar sócio da Gaviões…

Futebol ama a dor

Jogador de futebol amador é uma categoria ímpar.

A única que pode sair de um fim de semana com 3 jogos na bagagem. Ou seja, sempre há uma chance de vitória, de alegria, de achar que joga muito e se lamentar de não ter tentado ser profissional – se o Rafael Moura pode, porque eu não?

Fim de semana que começou na sexta, já com futebol.

Fui ao Bar do Zé, palco da minha bebedeira festa de aniversário, bebecomemorar o aniversário do Gabriel, o 10 do Auto, grande corinthiano e grande jornalista. Não bebi, porque tinha pintado minha tatuagem do peito na segunda e o álcool estava proibido, ou quase.

Falamos e falamos do Auto, do Corinthians, do MACD, da vida.

E eu consegui a proeza de lembrar que os uniformes do Auto estavam com o Felipão e ele precisava ter deixado com alguém que fosse ao jogo de sábado.

15 minutos depois dele me deixar no ponto de ônibus.

Resultado: sábado acabei tendo que acordar cedo pra ir com ele levar o uniforme  para o Auto B enfrentar o Pinguim, lá na zona leste, no nosso campo, antes de ir pra USP jogar com o MACD.

O jogo do Auto B era 10h.

O do MACD, meio-dia, na USP.

Preciso dizer que tinha trânsito na Marginal, na Salim, aonde quer que fôssemos?

O resultado foi que chegamos lá e tivemos que sair correndo pra USP.

Era o primeiro jogo do MACD na Copa FFLCH 2008, contra o Sai da Frente, equipe que tem um homem e o resto de mulheres em seu elenco.

Jogávamos desfalcados de nosso dono do time capitão Júnior e de nosso mentor intelectual, chefe e patrão técnico Paulão.

Porém, jogo é jogo, campeonato é campeonato, e, apesar de começarmos estranhando a situação, no segundo tempo resolvemos jogar e enfiamos 10 a 0. Não porque elas eram mulheres, mas porque o time era fraco mesmo.

O time que jogou esse primeiro jogo:

Mandioca, Vevé, Chico e Bona.

Em pé: Ribas, Caio, Diogo, Kaká, Baldraia e Felipão; Agachados: Mandioca, Vevé, Chico e Bona.

Finda a goleada, ainda dei entrevista pra imprensa jogando o favoritismo pra lá, como o Paulão me ensinou, e fui tomar banho.

Depois de almoçar, parti pra Penha, onde fui imortalizar a minha história.

Essa parte do fim de semana não precisa de palavras, só da imagem:

Quem é, é. Quem não é, cabelo avôa. Feita pelo Jonas, do Ink Tattoo. Corinthiano, é lógico.

Quem é, é. Quem não é, cabelo avôa. Feita pelo Jonas, do Ink Tattoo. Corinthiano, é lógico.

Domingo, mesmo de tatuagem nova no braço, fui jogar pelo Auto A em Guarulhos contra o Moleque Travesso - afinal, sou o dono e presidente lateral-direito do time, cargo posição que ninguém quer ocupar, e não faria sentido estampar o Corinthians no braço e no dia seguinte ficar de viadagem molho por conta de uma dorzinha no braço. 

Pra variar, nego faltou e tivemos apena 11 guerreiros pra jogar dois tempos de 40 minutos, sendo que 2 deles eram goleiros. Um teve que se sacrificar na linha.

No fim do primeiro tempo, os papéis pareciam ter se invertido e nós é que aprontamos a travessura: com um time bem pior e fora de casa, seguramos um 0 a 0 contra o melhor time que já enfrentamos na várzea.

Mas algum virginiano filho da puta cara legal lá na época da Revolução Industrial tinha que ter inventado que futebol tem que ter dois tempos quando foi definir as malditas 17 regras do jogo.

Maldita mania de padronização.

Maldito ideal babaca crente cristão mentiroso de igualdade de oportunidades.

Mas fazer o quê se, apesar de amador, apesar de nós mesmos definirmos a duração dos tempos, apesar de jogarmos em campos nos quais a linha lateral faz uma curva por conta do racionalismo frio do planejamento viário da cidade que mutila o campo, o nosso futebol de fim de semana também tem alguns tótens inquestionáveis?

É, Galvão, a regra é clara.

E lá fomos nós pra segunda etapa, capengas, com dores, honrando o hino do Auto.

E, é claro, não aguentamos a falta de fôlego  e a pior qualidade técnica e fomos impiedosamente goleados por 6 a 0.

O que, apesar de nos chatear por sabermos que poderíamos ter oferecido mais resistência com um time com menos desfalques, até que ficou de bom tamanho, já que o Moleque Travesso costuma vencer seus jogos em casa por esse placar mesmo.

Placar que, se somado com os 7 a 1 que o Pinguim enfiou no Auto B sábado, totaliza um total de 13 gols tomados e 1 feito pelo Auto no fim de semana.

Quer mais?

O gol a favor foi contra.

Numa jogada bizarra do goleiro, que furou uma bola recuada.

O Autônomos é o único time do mundo que sai de uma vitória heróica fora de casa para duas goleadas homéricas porque a galera simplemente vestiu o chinelinho e desapareceu.

Ainda bem que o futebol amador, além de te dar 3, 4, 5 chances por fim de semana pra cantar vitória, também te dá a liberdade de ter mais de um time* e de estar pouco ligando pra placares agregados.

A gente ama a dor da derrota tanto quanto a alegria da vitória, o sentimento de “valeu a pena” que bate quando a sua coxa aponta dores musculares múltiplas na segunda e a ansiedade deliciosa de esperar pelo próximo jogo.

De certa forma, é um jeito de ainda sermos crianças nesse mar de responsabilidades da morte vida adulta.

***

* não sem problemas, já que o pessoal do Auto B morreu de cíumes por 4 jogadores do Auto A terem “preferido” ir jogar com o MACD do que ficar por lá vendo eles apanharem ajudando eles contra o Pinguim…

Ainda a bebemoração

Como eu tenho amigos muito engraçadinhos e que levam as coisas por trás muito a sério, veja só que gracinha criaram:

Mandioca bêbado – eu fui!

Adicionem lá.

E me contem tudo que eu fiz e não quero lembrar lembro.

Desde que não envolva sexo anal com cavalos crimes passíveis de punição quando publicados na internet, por favor.

Bebemoramos!

A sexta-feira passou e a bebemoração também.

Mas não sem deixar algumas importantes lições.

A primeira delas é que é sempre bom encontrar seus amigos em um bar, bom demais. Diversão pura. Ainda mais quando se misturam amigos de vários círculos sociais da sua vida e acontecem os diálogos mais bizarros e surreais que você nunca poderia imaginar.

A segunda é que quando um amigo seu que você sempre pergunta “mas, ele bebe?” diz que vai pro bar bebemorar o aniversário, você tem que comparecer. Pode ser uma chance única.

Quem ficou o suficiente lá já tem as lembranças necessárias pra criar uma comunidade no Orkut “Mandioca bêbado – eu fui”.

E eu já consigo entender agora porque eu sempre dormia na balada: não tinha bebido o suficiente.

Vejam que galerinha bonita e animada, principalmente do lado direito da foto:

Em pé: Mau, Mariana, Piva, Marina, Júnior, Rodrigo Lusa, Davi, Mandioca, Jão e Mix. Caídos no chão: o resto.

É, pois é. Quem diria que um dia o Mandioca apareceria bêbado e o Piva apaixonadinho. Inversão de papéis total. E olha que aí ainda estávamos na metade das 47 Brahmas (não tinha cerveja, mas pelo menos não deu ressaca) e alguns destilados. E essa era só uma parte da galera – a outra já estava bêbada demais pra sair em pé nas fotos.

No fim da festa, depois de tudo isso, os que sobraram sem carro, mas vivos - eu, Camila, Chuchu e Sandro – resolveram ir pra casa a pé.

Às 3h da manhã.

Deu nisso:

- o Sandro estuprou lixeiras pelo caminho (infelizmente, sem dar tempo de tirar fotos);

- brincamos de andar no meio-fio:

- e seguimos à risca o lema:

beber…

metaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal cara!

metaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal cara!

cair…

e levantar.

Ops, levantar?

Mandioca diz:

- Duvida eu dar um carrinho neles?

Camila diz:

- Duvido!

Pronto:

"strike!" ou "é a primeira vez que eu vejo o pino derrubar a bola"

"é a primeira vez que eu vejo o pino derrubando a bola"

O mais incrível é que, nesse momento, um ônibus pára no sinal ao nosso lado.

São 3h30 da manhã e estamos bêbados e caídos no chão.

Mesmo assim, como todo bêbado é burro esperançoso, fizemos sinal.

E não é que o cara abriu?

Uma salva de palmas para a classe dos motoristas de ônibus.

É, gente. Um dos melhores aniversários que eu tive. Quem viu, viu, quem esteve lá, esteve, quem me deu cynar e bombeirinho e me viu virar de um gole, viu.

Quem não… aguarde as cenas do próximo capítulo. Se houver um.

E falando nas lições de aniversário, por fim, uma última, que serve pra toda a humanidade: sexo bêbado É UMA MERDA.

E pode causar filhos.

Quer dizer, isso se um dos meus meninos conseguir vencer a malvada pílula do dia seguinte.

E falando em dia seguinte: péssima idéia ir fazer a peneira do Volta Redonda no dia seguinte à bebedeira. Não joguei mal, mas com 15 minutos eu cobrei um escanteio e nunca mais fui visto no campo de defesa.

Acho que não passei.

E já sei como é ser um jogador baladeiro.

"eu sô lokão..."