kadj oman

Entradas do Julho 2009

Centro em chamas

Julho 31, 2009 · 4 Comentários

Estou mudando de casa e hoje fui limpar o apartamento novo, que fica no prédio em frente.

Aproveitei pra trocar o segredo da fechadura.

Deixei no chaveiro ali em frente aos Correios da São João e, quando fui buscar, notei algo estranho: todos os homens e mulheres de rua daquela região do centro estavam juntos na frente da agência.

Primeiro achei que estavam planejando alguma coisa, talvez um protesto, depois vi que estavam mesmo é tensos com o redor.

O chaveiro, que tinha esquecido de fazer o meu trampo, começou a fazer ali na hora e, enquanto eu esperava, entrou uma tiazinha já conhecida dele e fez uma piada com os moradores de rua.

O que se seguiu foi um pito monstruoso do chaveiro.

Ele disse pra tiazinha que era fácil brincar, mas que “a comunidade ali do bairro” estava fazendo protestos contra aquilo. Porque não aguentavam mais a Polícia empurrando eles de um lado pro outro ali na farsa da “Nova Luz”, e queriam uma solução digna pra todos. Começou a tirar jornais e flyers noticiando e chamando pra manifestações. Disse que outro dia o comércio todo ali da região fechou as portas em protesto no meio da tarde e fez passeata.

Aí os dois ficaram discutindo, a tiazinha falando “eu alcancei meu sonho trabalhando, ninguém me deu nada, a prefeitura não tem dinheiro pra dar casa e comida pra essa gente” e o chaveiro anarquizando no “isso porque a senhora acredita na prefeitura, tem muita cidade americana que inveja o caixa que o Kassab tem, ele gasta bilhões naquela ponte ali da Berrini e deixa esse povo todo na miséria” e eu só de canto de olho nos jornais e de ouvido na conversa, pensando “eu bem que desconfiava da boininha che-guevárica que esse chaveiro sempre usa”.

Eu não tava sabendo de nada, só do fechamento das portas porque minha ex me falou, mas ela também não sabia o porquê daquilo. Parece que a TV tem passado reportagens sobre a cracolândia, que a tiazinha disse “que tem a 1 e a 2, eu vi no Datena”, e que por isso a prefeitura fica mandando a polícia empurrar os moradores de rua pra lá e pra cá.

O chaveiro dischavou (hehehe) a tiazinha até não poder mais, só no “é por isso que o Brasil é assim, ninguém sabe viver em sociedade, tem que se ajudar, essa gente tem problemas, eles também tem os sonhos deles assim como eu e a senhora”, e a tiazinha na lenga-lenga do “eu trabalhei pra ser o que sou e eu vou é mudar daqui, quem tem que fazer alguma coisa é o pessoal que vive aqui desde que nasceu, eu tô aqui só há um ano”.

Acabei voltando pra casa com a cabeça da tiazinha numa bandeja um recorte de jornal e um flyer da manifestação que rolou, e no ponto de ônibus que fica na praça da São João ali entre a Aurora e a Vitória que eu sempre esqueço o nome estavam aqueles agentes da prefeitura que limpam as ruas com aquelas mangueiras de jato ultra-forte, de cara amarrada, pouco se fodendo e molhando todo mundo no ponto, meio que numa vibe “tenho que limpar essa merda dessa praça nesse frio porque essa porra desses mendigos ficam sujando”. O recorte de jornal tinha uma foto com uma faixa onde podia-se ler “DESTINO DIGNO JÁ À POPULAÇÃO DE RUA – CADÊ O CONSELHO TUTELAR???”.

Segue abaixo a transcrição ipsis literis do chamado pra manifestação que rolou, com as partes que me chamaram a atenção em negrito:

“COMUNICADO

MORADORES – PROPRIETÁRIOS – FUNCIONÁRIOS

Você que mora na Rua dos Gusmões – Av. Rio Branco – R. Timbiras – Av. São João e adjacências, convidamos para uma manifestação, nesse quadrilátero, dia 28/07/2009 às 16:00 horas – terça-feira.

Nessa manifestação, o qual deverá durar 1 (uma) hora, em caráter pacífico e sem envolvimento político partidário, NÓS, cidadãos que conhecemos os problemas sociais existentes aqui, devemos dedicar um pouco de nosso tempo, enriquecendo-o com idéias, sugestões e atuar como um canal de negociação entre a comunidade e o poder público, para cobrar soluções e tornar a região mais agradável, valorizando assim, sua história e ocupantes.

Vamos fechar as portas de nossos comércios, apartamentos e sair às ruas ou permanecer em frente aos nossos estabelecimentos com faixas, apitos ou cartazes de cartolinas com reivindicações, em busca de melhor qualidade de vida em NOSSA REGIÃO!!!

VENHAM!!!

“ARREGACEM AS MANHAS E VENHAM TAMBÉM FAZER A DIFERENÇA!!!!!!”

Informações/ sugestões comunidadesantaefigenia@yahoo.com.br ou (11) 85128198 Rita”

Melhor que o Viva o Centro, com certeza.

E, aproveitando o post anterior sobre os af(r)etados neo-Cansei da Marginal Pinheiros esquina com a Berrini, uma iniciativa muito melhor e mais profunda no sentido de pensar o problema como um todo e não só quando a água bate na bunda.

É só comparar:

“A gente não quer empurrar eles pros vizinhos, não. Três anos atrás o pessoal ali do fundo se manifestou e a prefeitura tirou eles de lá e mandou pra cá. A gente não quer fazer a mesma coisa, a gente quer solução pra eles, eles estão na maioria doentes, vivendo na rua, não queremos que sumam com eles, queremos que eles tenham dignidade”.

(Chaveiro indignado, Santa Efigênia)

“A gente não é favelado nem estudante da USP. A maioria aqui votou no Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

(Robson Estevão Baptista, adminitrador de website(?), Movimento dos Sem-Fretado da Berrini)

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Colocando a classe média no lugar

Julho 29, 2009 · 10 Comentários

Classe média: gente que pensa e age como rico, mas recebe como pobre, se auto-negando, assim, duas vezes.

Geralmente culpada por todos, inclusive eles mesmos, pelos males do mundo.

Gente que não sabe educar suas crianças e que gosta de dar risada do povão que tem que pegar ônibus.

E que, quando tiram seus privilegiozinhos, fica atacada.

Agora, com essa lei dos fretados, colocaram os almofadinhas na mesma situação do povão, tendo que se foder pra pegar transporte coletivo.

Não que eu ache isso bom, melhor seria transporte decente e gratuito pra todo mundo, claro, mas não deixa de ter uma certa justiça poética.

Aí, essa gente, que não tem a mínima noção do que é um protesto coletivo ou do que é se organizar pra conseguir algum direito, mostra a sua cara sem pudor algum.

Vejam as pérolas que a situação provoca, em negrito:

Passageiros de fretados fecham marginal

No 1º dia da restrição, usuários com dificuldade para embarcar bloquearam também as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet

PM e CET tiveram de intervir para liberar as vias no horário de pico do trânsito, mas não houve confrontos; uma pessoa foi detida

Usuários de ônibus fretados protestam na marginal Pinheiros

DA REPORTAGEM LOCAL
DO “AGORA”
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O primeiro dia de restrição aos ônibus fretados terminou ontem com protestos e algumas das principais vias de São Paulo fechadas em pleno horário de pico do trânsito.

A marginal Pinheiros e as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet foram interditadas no final da tarde por passageiros dos fretados que enfrentavam dificuldades para embarcar. Não houve confrontos, mas uma pessoa, que estava no protesto na av. dos Bandeirantes, chegou a ser detida -foi liberada por volta das 20h.

De acordo com dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), ontem à tarde, apesar dos fechamentos de vias, o congestionamento médio foi menor do que em outras segundas.

Na Ricardo Jafet, por exemplo, o mapa da CET, órgão da Prefeitura de São Paulo, não apontava congestionamentos.

Em nota, a prefeitura e a Secretaria de Transportes atribuíram os protestos a “uma postura intransigente de setores que se recusam a cooperar”.

A previsão para hoje é de novas manifestações. Ontem, passageiros de diferentes linhas combinavam um “apitaço” na marginal Pinheiros.
O veto ao tráfego de fretados decretado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) vale de segunda a sexta, das 5h às 21h, em uma área de 70 km2.
A restrição inclui os centros financeiros das avenidas Paulista, Brigadeiro Faria Lima e Luiz Carlos Berrini.

Pistas fechadas

A PM e fiscais da CET tiveram de intervir nos três locais de protestos, mas encontraram resistência maior na manifestação da marginal Pinheiros, que durou quase duas horas.

As nove pistas, no sentido centro, chegaram a ser interditadas por 25 minutos. Depois, os passageiros concentraram-se nas faixas locais.

A reportagem presenciou o momento em que os próprios passageiros, irritados com a demora e a desorganização para embarcar, entraram na pista e pararam o trânsito, formando uma longa fila de fretados, ônibus municipais e carros.

Na Ricardo Jafet, em frente à estação de metrô Santos-Imigrantes, os manifestantes fecharam a pista sentido centro a partir das 18h10. O trânsito só foi liberado às 18h45.

Um homem que se identificou como Renato e se disse motorista desempregado pela medida da prefeitura chegou a simular um atropelamento para fechar a única faixa que a polícia e a CET conseguiram manter liberada.

Ele ficou cerca de cinco minutos no chão, mas saiu correndo quando percebeu que o motorista do ônibus que supostamente o teria atropelado iria ser interrogado pela polícia.

A invasão da pista, incentivada pelo mesmo Renato, começou após um grupo de cerca de mil pessoas se juntar na frente da estação para aguardar a chegada dos ônibus. Na avenida, uma fila de fretados aguardava a vez de encostar para pegar os passageiros -ao menos 200 passariam pelo local.

Aos gritos de “fretado, fretado”, um grupo invadiu a pista da avenida.

Kassab chegou a ser xingado, em coro.

No meio da confusão, a auxiliar administrativa Cinthia Mochida, 32, perdeu dois ônibus com destino a Santo André (Grande São Paulo), onde mora. “O Kassab prometeu não aumentar a passagem de ônibus e agora quer dinheiro dos passageiros dos fretados”, disse ela, que ontem teve que pegar metrô e ônibus para chegar ao escritório, em Perdizes.

***

Protesto na marginal une gerentes, secretárias e analistas

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Foi o protesto dos gerentes de marketing, das secretárias executivas, dos analistas financeiros e de RH. O que se viu ontem por volta das 18h, interrompendo o trânsito na via de acesso para a marginal Pinheiros, altura do Brooklin (zona sul), tinha aparência bem diferente do típico militante de passeata. Em vez de barbas por fazer, eram homens bem escanhoados, vestindo ternos. As mulheres, em cima de saltos 5, usavam tailleurs. A polícia, chamada para restabelecer o fluxo do trânsito, ficou de olho, perfilada, mas não encostou um dedo no pessoal corporativo.

“A gente não é favelado nem estudante da USP”, disse o administrador de website Robson Estevão Baptista, para explicar a inação da PM. “A maioria aqui votou no [Gilberto] Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

Ruth Silva, analista de recursos humanos, trabalha há mais de dez anos na avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, um dos polos financeiros e de serviços de São Paulo, vizinha dali de onde ocorreu o protesto. Moradora em Santana, na zona norte da cidade, ela demora em média uma hora para fazer o percurso casa-trabalho. Ontem, demorou duas horas.

“É uma palhaçada. Os usuários dos fretados são aqueles que sempre chegam na hora, faça chuva, faça sol, tenha greve de ônibus ou de metrô. E é essa confiabilidade que o prefeito Kassab quer que a gente perca.”

Empregos

Segundo a profissional de RH, muitas empresas da região da Berrini preferem candidatos ao emprego que declaram pretender usar ônibus fretados. “Agora, com a confusão que eles criaram, o que era um fator a favor, está se tornando contra. Quero ver qual a empresa que se disporá a contratar alguém de Guarulhos ou de São Bernardo, sabendo que esse profissional ficará à mercê do transporte coletivo comum e do trânsito de São Paulo. Até na empregabilidade essa lei ridícula vai influir.”

“Fretado! Fretado!”, chegou, gritando, Isilda Scabacino, profissional de marketing. Moradora em Santo André, ela paga R$ 250 mensais para ir e voltar ao trabalho todos os dias. Antes da restrição ao tráfego dos fretados, a viagem de ida demorava duas horas. A de volta, outras duas. Ontem, foram 3,5 horas para ir. Ela chegou atrasada.

À tarde, a profissional de marketing esquadrinhava a fila de ônibus fretados no meio da via de acesso à marginal. Procurava o dela, mas nem sinal -e ele estava atrasado duas horas.

O protesto começou porque todos os ônibus que servem o pessoal da Berrini, em vez de recolherem seus passageiros em vários pontos, como ocorria antes, foram concentrados em um único local, na rua Guilherme Barbosa de Mello.

Só que o tal “bolsão” -pequeno para a demanda- logo ficou lotado. Os fretados, que chegavam para recolher seus passageiros, não conseguiam estacionar. Os que, já tendo feito o embarque, tentavam sair do bolsão, não o conseguiam. Ficavam presos no trânsito intenso da marginal.
“Você acha que está ruim agora? Espera o fim das férias escolares. Aí sim, ninguém conseguirá embarcar”, desafiava Regina Cassia Agustini, do setor financeiro de uma empresa da região da Berrini.

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ScuG Manifesto

Julho 27, 2009 · 5 Comentários

Há uns 4 anos atrás, eu lancei o número zero de um zine que se chamava “Alice”.

O subtítulo era “masculino e feminista”.

A idéia era manter uma publicação independente feita por homens feministas.

Não saiu do lugar, porque não encontrei outros homens dispostos a escrever sobre isso.

Esses dias, estava dando uma olhada no meu email e não só achei o zine como um outro texto que escrevi à época e não publiquei.

Há um livro muito famoso entre xs feminstas chamado “SCUM Manifesto – uma proposta para a destruição do sexo masculino”. Um livro bom, aliás.

Foi baseado nele que escrevi o texto abaixo.

Um tema que, volta e meia, me incomoda novamente. Porque na verdade está sempre incomodando, mesmo quando eu não lhe dou atenção – na vã tentativa de sufocá-lo.

scuG manifesto – um esboço para uma proposta de destruição dos gêneros
Houve quem disse, quando o menino nasceu, que ele seria jogador de futebol. ‘Dá pra ver pelo jeito como ele chuta’, brincaram o médico, o tio, a
mãe, o pai. A menina, por sua vez, tão graciosa, com certeza seria bailarina. De olhos tão lindos…
Mas as crianças agora cresceram e se deparam com dificuldades. Ele, mais desengonçado que parto de girafa, não leva o mínimo jeito pro futebol
- nem ‘catar no gol’ consegue. Ela, desastrada como um búfalo manco, quebra pelo menos dois copos por mês – a mãe já não aguenta mais remendar suas
calças. São crianças, mas as broncas e as expectativas sobre elas já fazem com que se sintam meio desconfortáveis. Terão de aprender a seguir o modelo
de acordo com seus órgãos genitais, seus hormônios e seus (quase desconhecidos) corpos. São escravos de uma construção de gêneros que em nada tem
a ver com suas vontades, interesses, amizades, impulsos e mesmo sentimentos. As chances de serem adultos frustrados que repetem o ciclo são enormes – e
é aí que a reprodução da complexa estrutura de poder entre masculino e feminino se garante. Uma estrutura que se acomoda nas mais estreitas entranhas de
todo o ‘corpo social’ – ou, para sermos menos abstratos, que se coloca entre eu e você. A toda hora. A todo momento. A cada troca de olhares, a cada
coçadinha no saco, a cada unha pintada.
Se sentir mal por representar um papel forçado, uma camisa de força tida como natural, transforma qualquer possibilidade de ir além do outro
gênero uma viagem dolorosa. Cada espaço funcional da cidade espera de seus atores que declamem suas falas corretamente. As ações estão
devidamente engavetadas, coisas de homem e coisas de mulher, e quem as trespassa está agindo como uma bicha louca ou um sapatão. Mas, espere aí: se
é exatamente agir de acordo com o que queremos, o que sentimos e com o que e quem nos sentimos bem o que nos dá a sensação de sabermos nosso
lugar no mundo, então são os espaços que devem mudar, e não nós; quem deve ditar os papéis somos eu e você, e não nossos falos ou vulvas. Espaços
são também percepções individuais, o meu, o seu, o nosso; e se ser como e o que eu quero ser me deixa desconfortável em qualquer espaço, eles é que
devem ser destruídos, não eu.
O que estou tentando dizer é que todo espaço, desde a sua cama até uma rua qualquer, é um espaço de gênero. Uma afirmação um tanto forte,
mas de observações vazias e óbvias quem vive atualmente é a ciência, ou o que gosta de chamar de ciência aqueles que dela se utilizam para exatamente
manter esses espaços. A ‘cidade do capital’ é um espaço de gênero, e a MENTALIDADE do urbesino habitante dessa cidade segue a lógica espacial da
sua construção. Mais: todo espaço na cidade foi construído pela mão masculina do capital, embora muitos deles sejam subvertidos durante algum ou muito
tempo. Sim, existem subversões espaciais, e é basicamente através delas que eu acredito que pode existir uma desconstrução de gêneros.
Imagine como seria se você, ser humano com saco escrotal, fosse abordado por outro ser humano com a mesma peculiaridade biológica e não
soubesse se ele realmente só quer um cigarro ou se existem segundas intenções – mulheres, sigam a lógica trocando ’saco escrotal’ por ‘vulva’. Imagine se
essa sensação de não saber o que o outro realmente quer não lhe incomodasse, ao contrário: lhe trouxesse perspectivas e até, vez ou outra, te deixasse de
pinto duro. ‘Ah, mas isso já acontece em qualquer balada gay’; é verdade. Embora estas situações aconteçam também em espaços destinados a elas,
espaços onde são permitidas e absorvidas pela própria estrutura que as sufoca (a Parada Gay é o maior exemplo disso), não deixam de ser afrontas à regra.
Mas imagine se isso acontecesse em todo e qualquer lugar e a qualquer momento. Em qualquer espaço. Imagine homens se beijando ao seu lado no vagão
do metrô, e mulheres conversando sobre sexo anal. Filmes com transsexuais como personagens principais. Sua namorada te penetrando com um cinto de
borracha. Sexo no meio da rua. Se essa perspectiva superficial de uma outra realidade supostamente ’sem gênero’, ’sem moral’ e sem lugar já te deixa todx
embaralhadx, talvez até excitadx (não necessariamente num sentido sexual), pensar que HOJE essas coisas já acontecem (mesmo que em lugares
escondidos da ‘normalidade urbana’) nos leva ao (talvez central) ponto desta discussão: a identidade.
Valores, tradições, cultos e mitos nos servem para nos ajudar a descobrir o que somos. Ajudam a nos encaixar neste ou naquele grupo, mesmo
que hoje a tal da ‘pós-modernidade’ – ou os efeitos da transformação das culturas todas em mercadoria – tenha levado todos os conteúdos a se tornarem
formas quase sempre superficiais. Nos identificamos com este ou aquele grupo e, assim, passamos a pertencer a ele – e ele a nós. A questão do gênero não
deixa de seguir esta lógica. Só que a dicotomia/complementaridade homemXmulher carrega em si algo a mais, algo peculiar: JÁ NASCEMOS CONFINADOS
A SEGUIR ESTE OU AQUELE LADO. E é aí que a identidade começa a se partir, a conflitar, a se confundir. Eu tenho pinto, então devo jogar bola, mas todas
as imagens de bonecas e vestidinhos me deixam loucos de vontade de brincar com elas; pra que lado correr, se meu sexo, atrelado a uma concepção
‘universal’ de gênero, diz uma coisa, e minhas vontades dizem outra? Se meu cérebro, quimicamente, borbulha por um carrinho e não por dançar balé, devo
enfrentar a mim mesma ou aos meus pais, que me querem como uma menininha delicada? Se hoje, destruir completamente as noções de gênero nos deixaria
perdidos identitariamente, então o caminho para uma suposta liberdade passa também pela descontrução das identidades pré-concebidas. Dã, que
conclusão óbvia: o que seria o gênero, social, cultural e politicamente falando, senão um AGREGADO DE VALORES IDENTITÁRIOS CONSTRUÍDOS E
MUTADOS DE ACORDO COM A NECESSIDADE DE DEFESA DA ESTRUTURA DE PODER CRIADA COM BASE NESTES MESMO VALORES?
Acabar com os gêneros é acabar com séculos de história; HOJE, é acabar com a lógica da reprodução capitalista – das mercadorias e,
principalmente, dos valores. Reparem: estou propondo nada mais nada menos que o fim da cultura, ou pelo menos DESTA cultura – machista e falocêntrica. É
enfrentar espancamento e violência, separação, reclusão, exclusão. Tarefa que cada travesti, cada lésbica, cada gay acaba carregando com si, mesmo que
não perceba, mesmo que lute ‘apenas’ por poder comprar no shopping sem ser atacado – enquanto eu e você, amigo homem, estamos aqui sentados
pensando que estupro é questão de distúrbio psicológico apenas.

ScuG Manifesto – um esboço para uma proposta de destruição dos gêneros

Houve quem disse, quando o menino nasceu, que ele seria jogador de futebol. ‘Dá pra ver pelo jeito como ele chuta’, brincaram o médico, o tio, a mãe, o pai. A menina, por sua vez, tão graciosa, com certeza seria bailarina. De olhos tão lindos…

Mas as crianças agora cresceram e se deparam com dificuldades. Ele, mais desengonçado que parto de girafa, não leva o mínimo jeito pro futebol – nem ‘catar no gol’ consegue. Ela, desastrada como um búfalo manco, quebra pelo menos dois copos por mês – a mãe já não aguenta mais remendar suas calças. São crianças, mas as broncas e as expectativas sobre elas já fazem com que se sintam meio desconfortáveis. Terão de aprender a seguir o modelo de acordo com seus órgãos genitais, seus hormônios e seus (quase desconhecidos) corpos. São escravos de uma construção de gêneros que em nada tem a ver com suas vontades, interesses, amizades, impulsos e mesmo sentimentos. As chances de serem adultos frustrados que repetem o ciclo são enormes – e é aí que a reprodução da complexa estrutura de poder entre masculino e feminino se garante. Uma estrutura que se acomoda nas mais estreitas entranhas de todo o ‘corpo social’ – ou, para sermos menos abstratos, que se coloca entre eu e você. A toda hora. A todo momento. A cada troca de olhares, a cada coçadinha no saco, a cada unha pintada.

Se sentir mal por representar um papel forçado, uma camisa de força tida como natural, transforma qualquer possibilidade de ir além do outro gênero uma viagem dolorosa. Cada espaço funcional da cidade espera de seus atores que declamem suas falas corretamente. As ações estão devidamente engavetadas, coisas de homem e coisas de mulher, e quem as trespassa está agindo como uma bicha louca ou um sapatão. Mas, espere aí: se é exatamente agir de acordo com o que queremos, o que sentimos e com o que e quem nos sentimos bem o que nos dá a sensação de sabermos nosso lugar no mundo, então são os espaços que devem mudar, e não nós; quem deve ditar os papéis somos eu e você, e não nossos falos ou vulvas. Espaços são também percepções individuais, o meu, o seu, o nosso; e se ser como e o que eu quero ser me deixa desconfortável em qualquer espaço, eles é que devem ser destruídos, não eu.

O que estou tentando dizer é que todo espaço, desde a sua cama até uma rua qualquer, é um espaço de gênero. Uma afirmação um tanto forte, mas de observações vazias e óbvias quem vive atualmente é a ciência, ou o que gosta de chamar de ciência aqueles que dela se utilizam para exatamente manter esses espaços. A ‘cidade do capital’ é um espaço de gênero, e a MENTALIDADE do urbesino habitante dessa cidade segue a lógica espacial da sua construção. Mais: todo espaço na cidade foi construído pela mão masculina do capital, embora muitos deles sejam subvertidos durante algum ou muito tempo. Sim, existem subversões espaciais, e é basicamente através delas que eu acredito que pode existir uma desconstrução de gêneros.

Imagine como seria se você, ser humano com saco escrotal, fosse abordado por outro ser humano com a mesma peculiaridade biológica e não soubesse se ele realmente só quer um cigarro ou se existem segundas intenções – mulheres, sigam a lógica trocando ’saco escrotal’ por ‘vulva’. Imagine se essa sensação de não saber o que o outro realmente quer não lhe incomodasse, ao contrário: lhe trouxesse perspectivas e até, vez ou outra, te deixasse de pinto duro. ‘Ah, mas isso já acontece em qualquer balada gay’; é verdade. Embora estas situações aconteçam também em espaços destinados a elas, espaços onde são permitidas e absorvidas pela própria estrutura que as sufoca (a Parada Gay é o maior exemplo disso), não deixam de ser afrontas à regra. Mas imagine se isso acontecesse em todo e qualquer lugar e a qualquer momento. Em qualquer espaço. Imagine homens se beijando ao seu lado no vagão do metrô, e mulheres conversando sobre sexo anal. Filmes com transsexuais como personagens principais. Sua namorada te penetrando com um cinto de borracha. Sexo no meio da rua. Se essa perspectiva superficial de uma outra realidade supostamente ’sem gênero’, ’sem moral’ e sem lugar já te deixa todx embaralhadx, talvez até excitadx (não necessariamente num sentido sexual), pensar que HOJE essas coisas já acontecem (mesmo que em lugares escondidos da ‘normalidade urbana’) nos leva ao (talvez central) ponto desta discussão: a identidade.

Valores, tradições, cultos e mitos nos servem para nos ajudar a descobrir o que somos. Ajudam a nos encaixar neste ou naquele grupo, mesmo que hoje a tal da ‘pós-modernidade’ – ou os efeitos da transformação das culturas todas em mercadoria – tenha levado todos os conteúdos a se tornarem formas quase sempre superficiais. Nos identificamos com este ou aquele grupo e, assim, passamos a pertencer a ele – e ele a nós. A questão do gênero não deixa de seguir esta lógica. Só que a dicotomia/complementaridade homemXmulher carrega em si algo a mais, algo peculiar: JÁ NASCEMOS CONFINADOS A SEGUIR ESTE OU AQUELE LADO. E é aí que a identidade começa a se partir, a conflitar, a se confundir. Eu tenho pinto, então devo jogar bola, mas todas as imagens de bonecas e vestidinhos me deixam loucos de vontade de brincar com elas; pra que lado correr, se meu sexo, atrelado a uma concepção ‘universal’ de gênero, diz uma coisa, e minhas vontades dizem outra? Se meu cérebro, quimicamente, borbulha por um carrinho e não por dançar balé, devo enfrentar a mim mesma ou aos meus pais, que me querem como uma menininha delicada? Se hoje, destruir completamente as noções de gênero nos deixaria perdidos identitariamente, então o caminho para uma suposta liberdade passa também pela descontrução das identidades pré-concebidas. Dã, que conclusão óbvia: o que seria o gênero, social, cultural e politicamente falando, senão um AGREGADO DE VALORES IDENTITÁRIOS CONSTRUÍDOS E MUTADOS DE ACORDO COM A NECESSIDADE DE DEFESA DA ESTRUTURA DE PODER CRIADA COM BASE NESTES MESMO VALORES?

Acabar com os gêneros é acabar com séculos de história; HOJE, é acabar com a lógica da reprodução capitalista – das mercadorias e, principalmente, dos valores. Reparem: estou propondo nada mais nada menos que o fim da cultura, ou pelo menos DESTA cultura – machista e falocêntrica. É enfrentar espancamento e violência, separação, reclusão, exclusão. Tarefa que cada travesti, cada lésbica, cada gay acaba carregando com si, mesmo que não perceba, mesmo que lute ‘apenas’ por poder comprar no shopping sem ser atacado – enquanto eu e você, amigo homem, estamos aqui sentados pensando que estupro é questão de distúrbio psicológico apenas.

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Vídeos sensacionais e uma novela melhor ainda

Julho 24, 2009 · 1 Comentário

Fora de Jogo no RS: vídeo emocionante feito pelo Davi:

Ramones assim VOCÊ NUNCA VIU:


Tá endireitando com a idade? Tome DIREITIL:


O Tigre e O Dragão + Escrava Isaura =


Mar de Paixão, uma novela de André Dahmer e Arnaldo Branco:

http://www.oesquema.com.br/mauhumor/2009/07/24/mega-teaser-multiplus.htm

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A 2ª Guerra Mundial, resumida

Julho 24, 2009 · 3 Comentários

(depois da versão em inglês vem uma tradução espontânea minha feita para ser incluída em futuros livros escolares ou, quem sabe, na Wikipedia)

Fonte: Urban Dictionary

World War II

Germany invades Czechoslovakia.

Britain & France tell them to stop that bullshit.

Germany invades Poland.
(Russia also invades Poland from the other side: everybody forgets this.)

Britain & France declare war. This is the ‘official’ kick-off.

Italy, Bulgaria, Hungary, & Romania all join the German side. (Everybody forgets the last three.)

Axis forces go through Europe like vindaloo through a colostomy.

Nazis exterminate Jews, gays, gypsies, & the disabled. (everybody remembers the jews but forgets the rest.)

UK holds out.

Russia & the USA don’t do shit.

Entire divisions of Danish, Belgian, Dutch, Norwegian, French & Serbian volunteers join the Axis armies & SS. (everybody forgets this & to listen to them now, they were all in the fucking resistance, which must have been MASSIVE.)

Axis forces invade Russia. Suddenly the Russians don’t think it’s funny any more.

Japan joins the Axis & bombs Pearl Harbor.

Suddenly the US doesn’t think it’s funny any more.

The USA tools up the world, ’cause it’s got more factories than everybody else put together, & they’re out of bomber range.

Axis runs out of steam in Russia, cause Russia’s enormous & bloody freezing.

Allies invade on D-Day… 5 landings: 2 British, 2 American, 1 Canadian. (everybody forgets the Canadians.)

Hitler ends up smouldering in a ditch. Russians find the body & confirm he only had one ball. Seriously.

The US decides invading stuff is a pain in the ass and invents the atom bomb instead. Drops two buckets ‘o sunshine on Japan.

Russians steal half of Europe.

UK’s spent almost every penny it had.

US starts telling everybody how it was all about them, & 64 years later is still doing so.

“Some of the World War II guys in ‘Call of Duty’ have, like, foreign accents… what’s up with that?”

***

Segunda Guerra Mundial

A Alemanha invade a Tchecoslováquia.

A Grã-Bretanha e a França dizem à eles para parar de fazer merda.

A Alemanha invade a Polônia.
(A União Soviética invade também, pelo outro lado: todo mundo esquece disso.)

A Grã-Bretanha e a França declaram guerra. Esse foi o começo “oficial” da guerra.

Itália, Bulgária, Hungria e Romênia se juntam à Alemanha e formam o Eixo. (Todo mundo esquece os últimos três.)

As forças do Eixo avançam sobre a Europa como vatapá numa hemorróida*.

Os nazistas exterminam judeus, gays, ciganos e deficientes. (Todo mundo lembra dos judeus mas esquece o resto).

A Grã-Bretanha se põe fora disso.

A União Soviética e os Estados Unidos não fazem merda nenhuma.

Divisões inteiras de voluntários dinamarqueses, belgas, holandeses, noruegueses, franceses e sérvios se juntam aos exércitos do Eixo e à SS. (Todo mundo esquece disso e se você for perguntar hoje, todos eles dirão que estavam na porra da resistência, que precisa parecer MASSIVA.)

As forças do Eixo invadem a União Soviética. De repente, os soviéticos deixam de achar tudo aquilo engraçado.

O Japão se junta ao Eixo e bombardeia Pearl Harbor.

De repente os Estados Unidos deixam de achar tudo aquilo engraçado também.

Os Estados Unidos armam e abastecem o mundo inteiro, porque tem mais fábricas do que todos os outros juntos, e estão fora do alcance das bombas.

O Eixo vira fumaça na União Soviética, porque a União Soviética é enorme e fria pra caralho.

Os Aliados invadem no Dia D… 5 aviões pousam: 2 americanos, 2 ingleses e 1 canadense. (Todo mundo esquece os canadenses).

Hitler termina se suicidando e o corpo é atirado numa vala. Os soviéticos encontram o corpo e confirmam que ele só tinha uma bola. Sério.

Os Estados Unidos decidem que esse negócio de invadir é um saco e inventam a bomba atômica. Pegam duas delas e promovem um pôr-do-sol inesquecível no Japão.

Os soviéticos roubam metade da Europa para si.

A Grã-Bretanha gasta praticamente todos os centavos que tinha.

Os Estados Unidos começam a contar para o mundo todo como foram eles o centro de toda a guerra, e 64 anos depois ainda estão fazendo isso.

“Alguns dos soldados da Segunda Guerra em ‘Call of Duty’** tem, tipo, sotaques estrangeiros… que porra é essa?”, pergunta um americano em 2009.

* Vindaloo é uma comida indo-portuguesa picante que, ao passar pelo organismo de um cidadão colostomizado (ou seja, que caga numa bolsinha pendurada na barriga porque teve o cu costurado por problemas intestinais ou não), é um verdadeiro arregaço, como foi a expansão hitlerista na Europa no começo da II Guerra Mundial. Valeu Felipe Madureira, Fábio Snorks e Pedro Carvalho pelo toque. Na tradução, a opção pelo uso do vatapá foi também sugestão do Felipe Madureira.

** Call of Duty é um jogo de guerra online para computadores onde cada jogador comanda um soldado em cenários bélicos históricos, como a Segunda Guerra. Americano, por sua vez, na imensa maioria das vezes significa ser humano desprovido de visão periférica. E cultura. E História. E Geografia. E, em matéria de guerra, qualquer coisa que não tenha sido aprendida em filmes do Rambo.

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Vovô-príncipe vira sapo

Julho 22, 2009 · Deixe um comentário

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Voltando

Julho 19, 2009 · Deixe um comentário

Depois de meses sem postar aqui, volto.

Primeiro só pra dar uma palhinha e mostrar pra vocês o comercial da Sprite banido na Alemanha.

Precisamos de mais comerciais assim no mundo!

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