Cuecas de marca

Não é de hoje, nem de depois da crise financeira, que o comércio ambulante em São Paulo cresce a passos largos.

É quase impossível sentar num barzinho na Vila Madalena ou na Augusta sem ser abordado por vendedores de flores, de trufas e de DVD’s – o que pode acabar sendo uma boa saída pra quem passa da hora e deixa a mulher em casa, porque o trio combinado gera uma arma e tanto:

- ONDE VOCÊ TAVA?

- Calma amor, hic… olha… hic… trouxe bombons e… hic… flores pra você.

Se não der certo, sempre dá pra apelar usando a carta do “e-ainda-comprei-um-DVD-romântico-pra-assistirmos-juntinhos”.

Mas ontem, quando fui a um bar na cada vez mais classe média alta Vila Romana comemorar os 88 anos de minha avó, não esperava encontrar ambulantes.

Pouco tempo depois de escolher a antropofagia e pedir uma porção de mandioca, já que vegetarianos não se dão bem em relação a petiscos de bar e que eu não queria ser paulista-mêo igual ao resto da mesa que havia pedido “dois pastel e um chopps”, eis que aconteceu.

- Olha a trufaaaa! A trufaaa! Tem de maracujá-côco-cereja, alguém vai quereeer?

Ninguém quis.

Não muito depois, o segundo ambulante teve mais sorte, apesar do enunciado horrível.

- Olha o DVD, nacional e internacional, SÓ FILÉ.

O sogro da minha irmã resolveu presentar o filho com DVD’s nacionais, já que ele está na Austrália (pra onde minha irmã volta hoje) e por lá é difícil encontrar filmes brasileiros – o que na maioria das vezes não faz grnde diferença dadas as merdas produções ruins que rolam por aqui.

Só faltavam, portanto, as flores. E pra não dizer que não falei delas, chegou o terceiro ambulante.

Uma senhora de mais de 60 anos.

Só que ela não carregava buquês, e sim uma sacolinha.

Se aproximou exatamente do meu lado da mesa enquanto eu discursava sobre a empáfia do jogador do Colo-Colo que colocou na camisa o apelido, “Chamagol”, ao invés do nome (é como se Ronaldo colocasse na sua “Fênomeno” ao invés de Ronaldo) e soltou:

- OLHA A CUECA DE MARCA!

O mundo parou.

Pensei estar por um instante num episódio do Hermes e Renato. 

Perdi a fala.

A sogra da minha irmã, meio que não querendo acreditar no que tinha ouvido, disse:

- O quê? Torta de marca?

A senhora, que já havia percebido que ninguém compraria nada, nem respondeu.

- Ninguém quer, né? Tudo bem.

E continuou seu caminho.

Sem saber se ria ou chorava, a mesa se entreolhava, meio chocada.

Respondi à sogra, meio sem certeza: 

- Não, CUECA de marca… é isso né?

- É… – várias vozes trêmulas retrucaram.

Cuecas de marca.

Nunca na minha vida me imaginei em uma situação onde uma senhora de mais de 60 anos me ofereceria cuecas de marca.

A divagação coletiva sobre o acontecido só não continuou muito mais porque Chamagol resolveu chamar um gol na sua primeira participação no jogo e aí o papo voltou pro meu encontro causal com torcedores do Colo-Colo horas antes – o melhor presente da noite segundo minha avó.

Horas mais tarde, em casa, pensei que até que não era má idéia vender cuecas de marca na noite paulistana.

Um ótimo quarto elemento pro trio trufas-flores-DVD’s.

Como que um D’Artagnan para Athos, Porthos e Aramis.

Porque se por acaso o rapaz da situação do começo do post não se safar nem com o filme romântico, se ele tiver feito besteiras que sua cueca possa sinalizar, está ali o perfeito porto seguro pra uma pulação de muro sem pistas: é só trocar de cueca.

Então, cuecas de marca.

E aí, quem vai querer?

4 respostas para Cuecas de marca

  1. Pingback: Dona Zica « Vai, lateral!

  2. essa eu nunca vi!
    já vi calcinhas, enroladinhas em forma de rosa (que é brega e nojento!), mas cueca! não vi dessa não.

  3. Me faz um bem danado te ler..

  4. Tem coisas (BUM!) que só São Paulo faz por você…

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