kadj oman

Entradas do Novembro 2008

Fim de temporada

Novembro 21, 2008 · 5 Comentários

Feriado, joguinho marcado pras 11h30.

Antes, jogo da molecada, eu de juiz. Tudo firmeza, a molecada ganhou no finzinho, 5 x 4.

Aí chega a vez de entrar em campo.

E na primeira corrida que dou, jogo de corpo no cara e… dor.

Dor bizarra, nova, que não me deixa pisar o chão.

Onde? 

NO GLÚTEO.

Isso mesmo, eu DISTENDI O GLÚTEO.

Ou seja, machuquei a bunda.

Teimoso que sou, joguei até o final do primeiro tempo ainda. E voltei nos 15 minutos finais do segundo a pedido do nosso volante.

Só pra fazer número e bater dois escanteios, porque correr mesmo, sem chance.

De volta em casa, é difícil sentar, deitar, andar.

E pior, é difícil contar pros outros porque estou mancando.

Dor na bunda dói o orgulho.

Felizmente não é grave e já tá 70% melhor hoje, mas mesmo assim, me levou a pensar que jogador de futebol trabalha que nem um condenado desde os 13, 14 anos pra chegar aos 35 com o corpo todo fodido.

E só uma minoria ínfima ganha uma grana que “compense” isso.

Se eu tivesse a chance, negaria uma carreira profissional?

Claro.

Que não.

O futebol ama a dor.

Mesmo quando ela fere por dentro (só pra não perder a piada).

 

PS.: acho que tô ficando velho: num fim de semana o tornozelo, no outro a coxa, agora o glúteo. Deve ser isso que chamam de “fim de temporada”…

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Resposta do Nordeste

Novembro 18, 2008 · 1 Comentário

Resposta ao post “Corinthians mais paulista do que nunca”:

***

Oman, suas preocupações são justas, mas nós daqui do Nordeste, de início, só queríamos uma arbitragem mais imparcial e uma tabela menos sacana com nossas torcidas. Olha aí os horários dos jogos da gente… Nem ligamos se a imprensa não conhece o nome dos nossos jogadores, basta que denunciem os erros da arbitragem. Esse ano beirou ao ridículo. Só vou dar um dado pra você suspeitar do que acontece. Durante todo o campeonato só marcaram dois pênaltis a favor do Vitória, ambos no primeiro turno. Sendo que contra o Vitória já marcaram 7. Agora, o Vitória é um dos times mais leves do campeonato brasileiro, que joga com maior velocidade e é, ao mesmo tempo, o time menos violento, com menor número de faltas. Não é de estranhar não? Só não levanto os erros de arbitragem aqui pra não parecer ridículo, coisa de torcedor chorão. E o site globo.com ainda teve a cara de pau de fazer uns cálculos doidos para mostrar que o Vitória foi beneficiado pelos erros de arbitragens e, claro, os times do Rio os mais prejudicados. Agora, os dois erros a favor do Vitória, um contra o Flamengo e outro contra o Fluminense, os árbitros dessas partidas foram suspensos [todos esses dados precisam ser confirmados]. Desse jeito o Campeonato Brasileiro vai se tornar um campeonato paulista ampliado mesmo, com até os times do Rio sendo secundários e o time shopping center (São Paulo) levanto três a cada cinco. Esse ano deu vontade de voltar pra Série B, pq lá o campeonato é mais emocionante, mais justo, mais equilibrado. Não é à toa que todo mundo que desce, quando volta a torcida está mil vezes mais apaixonada. A série B faz bem ao futebol!

Outra coisa é que os campeonatos regionais são uma droga, um grande lixo, ao contrário do que vocês aí do sul e sudeste pensam. A gente aqui do nordeste quer mesmo jogar o Nordestão, que era um campeonato lindo, sempre com arquibancadas cheias – o que a gente sabe fazer melhor do que ninguém – mas a CBF proibiu a existência desse torneio. Prefiro mil vezes o Nordestão que o Brasileirão!

Portanto, a melhor fórmula para o Campeonato Brasileiro não é impor um “sistema de cotas”. Isso é besteira. É importante para as universidades, não para o futebol. A melhor coisa é tirar da TV o poder sobre o campeonato e priorizar as arquibancadas, e os torcedores que as freqüentam. Voltar a colocar os jogos aos domingos pra que a gente contagie nossos times. Não é só a torcida do Flamengo e a do Corinthians que sabe fazer festa não! E garantir que percamos na bola, mesmo tendo times inferiores, e não por causa da interferência das arbitragens. Pq a gente vai ao estádio pra ver nossos times mesmo eles sendo tecnicamente inferiores, e aplaude até quando perde, mas perdemos todo o ânimo quando sabemos que o “apito amigo” vai nos levar sempre à derrota, não interessa o quanto o time jogue com a raça que a gente pediu.

O tipo de justiça que a gente quer é essa. O capital não vai se justo com a gente nunca, nunca vamos ter os mesmos recursos que os times do sul e sudeste. Ninguém se ilude com isso por aqui. Mas se os juízes conseguirem se submeterem menos à essa lógica e deixarem a torcida da gente fazer o que ninguém mais faz por nós, que é torcer por nós mesmo, então a gente volta a se apaixonar por esse campeonatozinho.

É isso. Quem fala aqui é um torcedor indignado com os rumos desse futebol brasileiro.

Abraços!!

DanCaribé

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Corinthians mais paulista do que nunca

Novembro 18, 2008 · Deixe um comentário

A rodada de sábado na Série B fez do Corinthians mais paulista do que nunca.

Não pelo resultado.

Nem pelo adversário.

Mas pelo resultado contra esse adversário.

Fazer 3 x 1 no Vila Nova significou não só subir o Santo André como deixar os goianos praticamente fora da briga pela última vaga, agora nas mãos de Barueri ou Bragantino.

Serão ao menos 5 paulistas na Série A do ano passado. Número que sobe para 7 se Santos e Lusa não caírem.

Enquanto isso, o Vila, que sonhava repetir um clássico de Goiânia na Série A após muitos anos, vai ter que se contentar com fazer outro clássico da cidade na Série B, já que o Atlético Goianiense já subiu, com campanha impecável, na Série C.

E o Corinthians ainda pode deixar a Série B ainda mais paulista se vencer o Avaí e ajudar o Santo André a chegar ao vice.

Algo anunciado desde o começo dos pontos corridos, mas que mesmo assim não deixa de ser lamentável.

Não que eu tenha algo contra Santo André ou Bragantino (já o Barueri, bem, de time de empresários com público de 230 pagantes em cada jogo já bastaram São Caetano e Ipatinga), mas ter no campeonato nacional sete equipes do mesmo estado – pior, sete equipes da Grande São Paulo – só ajuda a transformar centro em mais centro ainda e deixar a periferia cada vez mais distante.

Se o Náutico cair, ano que vem teremos na Série A, do Nordeste, apenas Sport e Vitória. Do Norte, ninguém. Do Centro-Oeste, só o Goiás. Juntos, menos do que os já citados sete – ou mesmo cinco – paulistas.

E no país onde a concentração de renda é provavelmente a maior do mundo, a desigualdade econômica e social entre pessoas – e clubes – promoverá cada vez mais a transformação do Campeonato Brasileiro em Campeonato Paulista, ou Rio-São Paulo com convidados Sul-Minas.

Nesse cenário, defender o campeonato de pontos corridos é, antes de qualquer argumento de “justiça esportiva”, de “regulamento que premia o mais constante”, uma postura de injustiça econômica. 

Não tem como deixar de ser. 

É fácil ser mais constante quando se é um gigante do centro.

Difícil é trazer um Campinense da Paraíba – ou mesmo um antigo gigante América do Rio! – para a Série B, que dirá para a A.

Então talvez exista a possibilidade de um regulamento “menos justo” esportivamente ser “mais justo” socialmente.

E se há algo irrefutável por aqui é que nada é mais urgente no Brasil do que justiça social. 

O que fazer, então?

Voltar para o mata-mata?

Brasileirão com 100 clubes?

Classificação partindo dos Estaduais (como acreditava ser o que acontecia um ingênuo e metódico inglês que conheci por aqui)?

Sinceramente, não sei.

Não porque tenho preguiça de pensar em outro modelo.

Mas porque é difícil ter alguma esperança de mudança no futebol, logo o futebol onde o ranço coronelista tipicamente brasileiro é ainda tão forte, e onde a via alternativa que se coloca é de um capitalismo ainda mais concorrencial entre os clubes.

Nessas horas, me pergunto para que serviram tantos anos de estudo e profissão de alguns jornalistas se o máximo que conseguem fazer é “denunciar” o que não está de acordo com o modelo de sucesso europeu.

O mesmo modelo de sucesso que, ao chegar por aqui em fins do século XIX, encontrou uma sociedade rural cheia de negros, pobres e imigrantes prontos à subvertê-lo e criar Garrinchas e Pelés.

Me parece que pensar saiu de moda.

O lance agora é brincar de seguir o mestre.

Mesmo que o mestre nos guie para um futuro do qual, contraditoriamente, não poderemos participar.

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A nerdice é genética

Novembro 13, 2008 · 5 Comentários

Ontem foi aniversário do Lucas, filho da Lelê, e isso me fez lembrar da minha infância nerd.

Aprendi a ler e escrever em casa, antes de entrar no prezinho.

Conseqüentemente (sim, com trema), já comecei sendo nerd.

Na 1ª série escrevi um “livro”. Sobre futebol, lógico.

Na 2ª, escrevi “outro”. Sobre a minha irmã e suas “loucuras” (tipo comer uma cartela inteira de ácido acetil-salicílio – AS – ou entrar de roupa na banheira e comer o sabonete).

Isso continuou pela 3ª, 4ª, 5ª série. Só lá pela 6ª que eu percebi que o resto fazia muito menos esforço que eu e passava do mesmo jeito. Então, pra que se matar?

Começou a época boa da vagabundagem.

Essa nerdice precoce minha eu sempre associei à minha mãe.

Porque, assim, não que meu pai seja burro, pelo contrário. É tão nerd e chato quanto eu. 

Só que minha mãe ganhou medalhinha de melhor aluna da classe durante todo o primário (hoje 1ª a 4ª do fundamental) e o ginasial (hoje 5ª a 8ª do fundamental). Participou de concurso de redação com 10 anos e ganhou, sendo o prêmio participar de um programa de TV – vestida de Roy Rogers.

Então pra mim era daí que vinha minha vontade extraordinária de estudar nerdice.

Até que semana passada meu tio, irmão do meu pai, veio do Rio passar uma semana aqui.

E trouxe um “presentinho” pra ele.

Era uma redação de um concurso que ele fez no ginasial, e que está reproduzida mais abaixo.

Tirou 1º lugar.

Só que o prêmio era ser sacaneado pela editora que fez a “promoção”, que depois visitou os ganhadores oferecendo o “prêmio” – a aquisição de lindos livros para dar início à sua biblioteca, mediante pagamento, que podia ser em 5432534 vezes, mas que tinha de ser feito.

Acontece que meu pai cresceu na Favela da Maré, em Bonsucesso. E nem em todas essas vezes tinha como pagar.

Já tava achando meu pai nerd, mas não pude deixar de zoá-lo comparando isso com as medalhas da minha mãe.

Aí é que veio a surpresa MESMO.

Meu tio:

- Pô, tu nunca viu as medalhas dele não? De campeão da OLIMPÍADA DE MATEMÁTICA do Estado da Guanabara?

E eu:

- !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E meu pai:

- De matemática, não, peraí. Era matemática, português, história e geografia.

E eu:

- !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E meu pai:

- Eles escolheram um aluno de cada ano do ginasial de cada escola participante e todos competiram juntos. Eu era do 1º ano.

Ou seja, ele era da 5ª série e ficou EM PRIMEIRO. 

É.

Não tinha como eu NÃO SER nerd.

Tudo bem, não tão nerd quanto a Lelê, que entrou na 1ª série aos 5 anos (coitada).

Mas porra, depois disso fiquei me sentindo até meio fracassado.

Sou filho de dois campeões da nerdice voluntária e o máximo que eu consegui foi ser orador da turma na formatura do prezinho e ter um blog metido a engraçadinho.

Mas tá valendo.

Um dia eu escrevo outro “livro” e ganho o Nobel de Literatura concurso de redação da Editora Pagou-Publicou.

Aí, pais, vocês vão ter orgulho de verdade.

***

Ah, é.

A redação do meu pai (algo FE-NO-ME-NAL, as melhores partes eu deixei em negrito e comentei):

Departamento Educacional de Pesquisas e Estatística

Cleber Cajazeira – 16 anos – Colégio Ginásio Capitão Lemos Cunha

Professor Sérgio

Data: 25/08/1965

“Devo formar uma biblioteca?”

Na minha opinião, qualquer pessoa deve formar uma biblioteca. Tenho imensa vontade de formar uma, mas até agora não foi possível. 

Uma biblioteca em casa representa uma segurança para seus moradores, pois nos momentos de lazer, basta escolher um livro e as horas passarão sem que nos apercebamos. Além disso, uma biblioteca ajuda a sanar as dúvidas em relação à matéria didática, política ou até mesmo moral.

Há ocasiões em que uma biblioteca é indispensável tal como no lar de um advogado, um escritor, um médico, um professor ou um aluno.

Por estas razões, é que num futuro breve talvez eu já esteja possuindo [meu pai adiantando em décadas o gerundismo?)] uma biblioteca. Para isso, basta que eu tenha possibilidades de formá-la, o que até agora não foi possível. Aí então, eu me considerarei mais poderoso do que aquêles que não têm uma biblioteca [aaah, a sede pelo poder... aposto que o Obama tem uma biblioteca], pois nos momentos duvidosos, nos momentos difíceis ou nos momentos de lazer eu terei a meu lado uma conselheira, uma educadora e uma distração, tudo isto resumido na minha biblioteca [gosto tanto de você, leãozinho... de te ver ao pôr-do-sol...].

[Comentário do professor Sérgio:]

Muito bem, Cleber! Continue lendo e estudando, portanto, o mais que puder.

Parabéns e sucesso!

[Impresso no fim da página:]

“Uma casa sem livros é como um corpo sem alma”.

Promoção da livraria e editôra Norma.

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De arrepiar

Novembro 12, 2008 · 2 Comentários

Inacreditável.

Eu sempre fui contra o futebol espetáculo no sentido de consumo.

Sempre achei absurdo o nível de controle que existe nos estádios ingleses.

Mas há cinco minutos acabei de presenciar pela televisão algo arrepiante.

Jogavam Tottenham e Liverpool, pela Copa da Liga Inglesa. O Liverpool com um time reserva, o Tottenham nem tanto.

O placar era de 4 a 2 para o Tottenham quando o goleiro brasileiro Gomes saiu corajosamente em uma bola rasteira aos pés de um atacante do Liverpool, que se chocou contra a cabeça do goleiro.

Goleiro que do jeito que caiu, ficou.

Um jogador do Tottenham, seu companheiro, se aproximou e imediatamente tentou segurar sua língua, num sinal claro de que ele estava tendo convulsões. Os médicos chegaram correndo.

E a TV, afeita ao ideal do espetáculo, de não mostrar nada que rompa sua continuidade semi-divina, passou a mostrar a torcida.

Apreensiva torcida, de ambas as equipes.

Alguns minutos depois, vemos Gomes cercado por 6 paramédicos, aparelhos de respiração ao seu lado. E ele sai numa maca, sem podermos ver seu rosto.

Afora a agonia que dá em não saber o que há com ele, tudo feito para que o espetáculo, ó grande deus espetáculo, não se manche, das arquibancadas, talvez o local mais atingido por esse controle ostensivo dentro do espaço do estádio, vem uma reação que eriça todos os pêlos do meu corpo.

As duas torcidas batem palmas para a saída do goleiro.

Não importava naquele momento o jogo, importava a vida.

Por mais que alguns dos aplausos, atravessados que são pelo sir espetáculo, possam ter cara de “tira logo esse cara daí e recomeça o jogo”.

Em um mundo com valores morais tão deteriorados, certamente um exemplo, ainda mais dentro de um esporte que já gerou tantas cenas lastimáveis nas arquibancadas.

Ver a torcida dos Reds aplaudindo efusivamente o goleiro do rival foi algo de belo em meio à tanta manipulação televisiva.

Espero realmente que Gomes esteja bem antes mesmo de terminar de escrever este texto.

Que sua família fique tranquila.

E que um dia não escutemos mais pelos estádios brasileiros coisas como este canto, entoado pela torcida do Santo André nos jogos contra o rival São Caetano:

“Ó São Caetano, porque estás tão triste?

Mas o que foi que te aconteceu?

Foi o Serginho que caiu no campo

Deu dois suspiros

E depois morreu?”

Porque entre o controle ostensivo e a liberdade permissiva, eu fico com os aplausos das arquibancadas.

E torço pra que eles sejam cada vez mais contra a imbecilidade – da violência e do controle ostensivo, casal que forma um par mais-que-(im)perfeito.

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Futebol anarquista nos EUA

Novembro 12, 2008 · 1 Comentário

A mais espetacular jogada pela esquerda desde George Best  


Por todo os EUA, hordas de comunistas e anarquistas estão começando a jogar futebol. Alguém aí pensou em “sem juízes e sem mestres”?

Quatro anos atrás eu troquei a quebrada, paroquial e entediantemente Blair-iluminada Bretanha pela super-reluzente América. E assim como milhares de refugiados ingleses antes de mim, fiquei chocado de encontrar os americanos não nos ranchos, mas em campos de futebol.  Campos que existem aos milhares, interligados, de oceano a oceano – tantos que alguém pode começar driblando em New York e terminar em Los Angeles sem ter tirado as chuteiras uma vez sequer. Ou quase.

E quem joga nesses campos? Milhares de machos sujos e bêbados de 200 quilos como na Inglaterra? Não muitos. Mulheres? Sim. Crianças? Sim. Comunistas – meu deus, sim. Incontáveis hordas deles.

Em Duluth, Minnesota, você encontra a Commie Soccer League, liga comunista de futebol (“todas as regras são democraticamente votadas”). Em Chicago um time anarquista chamado Arsenal organiza anualmente um torneio de futebol chamado “Matches and Mayhem” (algo como Confrontos e Desordem). Baltimore é abençoada por um “time de futebol punk-rock” chamado CCCP FC (uma vez que a sigla significa “Charm City Cunt Punchers”, algo como “Charmosos Socadores de Buceta da Cidade”, as credenciais políticas do clube podem ser consideradas um pouco suspeitas por aqueles que tiverem alguma inclinação feminista).

Em Portland, há um jogo organizado pelos auto-intitulados “hippies de esquerda preguiçosos e fedidos”, enquanto em Cape Cod a Socialist Saturday Morning Sandy Pond Soccer League (Liga Socialista de Sábado de Manhã de Futebol no Tanque de Areia) tem um website que toca o antigo hino nacional soviético. E eu pessoalmente joguei um futebol de salão “20 pra cada lado” entre os Philadelphia’s RASH (Red Action Skinheads, os skinheads comunistas) e os SPAR (Skins and Punks Against Racism, os punks e skins contra o racismo). 

Há jogos esquerdistas em Winnipeg (“sem juízes, sem mestres!”), Calgary (casa do Calgary Libre! FC), Wilmington e Austin. E em New Brunswick, Denver, Seattle, East Lansing, San Diego, Maine e Washington DC (onde há um jogo de Halloween com jogadores fantasiados todo outubro). E há um jogo anarco-comunista de domingo que acontece no New York’s Tompkins Square Park há anos.

Mas é San Francisco que o futebol anarco-comunista americano realmente tomou. Desde 2002, o comunista Left Wing Futbol Club tem regularmente tido suas bundas rosas servidas em um prato pelos anarquistas do todo-negro Krondstadt FC, e mais recentemente ambos participaram do anual BADASS (Bay Area Direct Action Soccer Series, ou Liga de Futebol de Ação Direta de Bay Area), parte integrante do BASTARD (Berkeley Anarchist Students of Theory And Research&Development, ou Estudantes Anarquistas de Teoria, Pesquisa e Desenvolvimento de Berkeley), uma conferência anarquista.

O primeiro jogo da história entre Left Wing e Krondstadt foi interrompido por um policial solitário quando um mascote anarquista correu pela linha de fundo carregando uma enorme bandeira negra e entoando “Agitate! Agitate! Score a goal and smash the state!” (algo como Agite! Agite! Marque um gol e esmague o estado!”). O tipo de coisa que faz parte do conteúdo do futebol esquerdista americano.

A competição anual então se transformou em um tipo de instituição esportiva bizarro-americana. Em um jogo, a banda de marchas Brass Liberation Orchestra tocou A Internacional enquanto jogadores que pogavam socavam o ar e anarco-cheerleaders todas de negro e com botas de ciclista agitavam pompons feitos de saco de lixo e gritavam “Me dê um A! A! A de Anarquia!”

E não, isto não é o entediante futebol patriarcal do seu avô. “Eu cresci na Argentina, onde o melhor jogador faz uma dancinha com a bola e só a passa se for para outro melhor jogador por perto”, disse para o West Bay Express a jogadora do Left Wing Marie Poblet. “Se nós queremos mudar o mundo, nós temos que mudar o jeito que jogamos”.

Há também por lá alguns cantos de torcida engraçados, sendo o melhor: “Você diz que se espelha no Mao para a salvação? E o que me diz sobre a situação dos trabalhadores de Xinjiang?!”. E substituições a todo tempo são permitidas, ao menos parcialmente, para assegurar que “mulheres, gays e pessoas de cor etc” estejam todos representados (embora essa afirmação possa ser uma brincadeira, é difícil dizer).

Porque futebol? “A natureza do jogo permite que pessoas com diferentes técnicas e habilidades joguem ao mesmo tempo”, diz Paul Royal, do anarquista Detroit Riot FC. “Isso é importante porque nós da esquerda tentamos sempre ser inclusivos e apaixonados por nossos princípios políticos. E também porque não há jeito melhor de bloquear uma rua durante uma manifestação do que com um jogo de futebol instantâneo, improvisado na hora”.

O curioso caso de amor entre os esquerdistas dos EUA e o futebol pode ter começado em 2000, quando a liga anarquista baseada em Washington intitulada Anarchist  Soccer League desafiou o Banco Mundial para um “contra”. Os cachorros fujões capitalistas não apareceram e perderam por W.O. Anti-desportivamente, eles também falharam em cancelar a dívida mundial. Desde então, jogos de futebol instantâneos passaram a pipocar em manifestações anti-capitalistas e anti-guerra por todo os EUA.

Mas você vai perceber que a maior parte deste artigo foi escrita no passado. Há uma razão para isso. Quando eu recomecei minha pesquisa sobre o futebol anarco-comunista americano (que vai fazer parte do livro A Revolução do Futebol: A Ameaça Futebolística Gay, Feminina e Comunista ao “American Way of Life” – editores e agentes, peguem o caminho da minha casa agora!), eu dei de cara com uma escura, desestimuladora, selvagem explosão de links quebrados, websites desativados e esvaziadas e antigas salas de bate-papo, comunidades virtuais e proto-blogs sobre futebol anarco-comunista. A maioria não era atualizada há meses (e em alguns casos, anos).

Tinha o futebol anarco-comunista americano sido uma mera moda-de-virada-do-século da ala radical-chique? Ou essa falta de atividade era algo mais sinistro? Tinha a cena sido destruída pelo vicioso aparato neocon dirigido pela opressão estatal? Tinha o futebol anarco-comunista caído nas garras dos esquadrões sujos da CIA, dos agentes infiltrados do FBI, dos patrulheiros reformistas e dos hackers do Departamento de Segurança Nacional?

Eu telefonei. Eu mandei emails. Eu colei panfletos nos postes de luz. Eu escondi mensagens criptografadas nos buracos das árvores. E então – tão vagarosamente quanto o primeiro floco de neve trilhando seu caminho e determinando o fim da primavera – as respostas começaram a chegar. De maoístas e trotskistas e anarquistas e feministas, ativistas anti-guerra, anti-racismo, anti-imperialismo e anarquistas de todas as tendências. E todos eles diziam a mesma coisa: “Estamos aqui, camarada! E prontos pra jogar! Mas assim que estver um pouquinho mais quente. Você saiu de casa ultimamente? O tempo lá fora ainda está congelante”.

O futebol anarco-comunista americano está vivo e bem. Esteve apenas hibernando. Nesta primavera eles estarão novamente a mudar a América – jogo democraticamente arbitrado (com substituições livres) a jogo. 

Steven Wells

Fonte: The Guardian (Inglaterra) – 14 de março de 2007
Tradução: Kadj Oman

Krondstadt 2 x 1 Left Wing (2008)

Krondstadt 2 x 1 Left Wing (2008)

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Torcida do Krondstadt

 

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Seu Cido

Novembro 12, 2008 · 2 Comentários

Aqui onde trabalho tem um senhor, o Seu Cido, que vem de vez em quando.

Deveria estar aposentado já, mas aposentar significa perder quase metade do salário, então…

Aí esses dias ele começou a falar de futebol.

Do time que tinham por aqui quando eram do FUNRURAL (aquela instituição feita pra aposentar cabos eleitorais com doze aposentadorias diferentes, uma por cada cidade em que atuava, que funcionou de 76 a 79, lembram?).

E não é que o seu Cido era meia-esquerda, dos bons?

Fiquei quase 30 minutos ouvindo as suas histórias.

Histórias de um outro tempo, do trabalho e do lazer, que permitiam outras relações.

Histórias apaixonantes, que me lembram as da minha avó – como podemos deixar nossos idosos abandonados como deixamos quando são eles a nossa história viva, muito mais que os livros institucionais das escolinhas da vida?

Seu Cido, quando jovem, lá em São José do Rio Preto, chegou a treinar com os profissionais do Rio Preto. “Mas eu gostava era de jogar bola, aquilo era muito rígido, tinha massagem nos joelhos, laranjinha” (pra chupar antes dos jogos). E de ir aos jogos do América, na primeira divisão, “pra ver o Santos, o Palmeiras, o Corinthians” – e ainda tem gente que defende o fim dos estaduais… 

Deviam propor é o fim do profissional logo, “que isso aí, hoje, com essas bolas levinhas, essas chuteiras coloridas, isso virou palhaçada”.

Seu Cido gostava mesmo é da várzea.

De bater faltas da meia-lua, que ele treinava desde criança, com traves de zinco que improvisava no muro de casa – “escolinha de futebol? Eu aprendi a chutar com os dois pés no muro de casa e essa molecada hoje não sabe nem cruzar uma bola”…

Faltas que surpreenderam o goleiro do Brasil da Mooca, melhor time da várzea na época, quando o time do FUNRURAL, com seu uniforme alviverde (“mas a camisa era branca, que verde eu não usava”, disse o corinthiano Seu Cido), foi visitá-los e acabou vencendo por 2 x 1.

“Um grande time, a gente tinha”. 

O mesmo do ex-profissional Toninho Vanusa e do grande central Waldemar com suas bombas de falta.

Que jogava de segunda a sábado, entre o campo e o salão. “Eu macetava melhoral com café pra aguentar, mas não faz isso não, que é ruim pro coração”.

Que enfrentou e venceu o Botafogo da Penha, com mais um gol de falta do Seu Cido, que contou com a honestidade do goleiro, já que a bola passou por um buraco da rede “e o juiz não quis dar o gol não”.

Mas lembrança mesmo Seu Cido tem dos jogos de semana à noite, “os refletores todos ligados”, principalmente contra o time do INPS, “que tinha um uniforme azulão”. Ganharam deles “duas vezes, uma no campo deles na Mooca, 1 x 0, e outra lá em Interlagos, que eles não quiseram jogar na Mooca, 5 x 1, o Waldemar fez até um gol de pênalti, que ele adorava fazer gol de pênalti e falta”. 

É, zagueiro, quando tem chance, tem que aproveitar.

Aliás, zagueiro dos bons, “que era difícil passar daquela zaga viu, e sem apelar eles jogavam”.

E não jogavam em casa?

“Não, a gente gostava mesmo era de rodar”.

Até que aos 45 (cabalisticamente), Seu Cido parou. Suas pernas já não aguentavam mais. 

A conversa acabou e eu fiquei aqui imaginando Seu Cido jovem, com o uniforme “que eu mesmo desenhei o escudo, devo ter em casa, vou trazer pra você”, jogando contra o time dos funcionários da FEBEM, “num campo bonito, gramado, grande”, ao lado do meia-direita “inteligente, envolvido com esses negócios de greve, mas que usava muita bolinha viu, mas a gente fez ele parar”, ganhando “uns troféus grandes, viu, bonitos, tenho foto lá em casa, você vai ver”.

Época em que a vida de trabalhador era dura, mas era vida, e o futebol era rude, mas era festa pra todos, e não só pra alguns.

Quando o time do FUNRURAL, indo jogar salão de terça-feira contra o Primeiro de Maio do Tatuapé, escutava sempre dos adversários, ao fim do jogo, perdendo ou ganhando:

- Amanhã vocês vem de novo, né?

Saudades românticas do que eu nunca vivi?

Não, não.

Inspiração pro que eu ainda tenho por viver.

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Miau

Novembro 12, 2008 · Deixe um comentário

DENTRO DE UM SANATÓRIO…
Um palmeirense sádico, um são-paulino masoquista, um corinthiano assassino,
um santista necrófilo, um flamenguista zoófilo e um vascaíno piromaníaco
estão sentados num banco de jardim dentro de um sanatório, sem saber como
ocupar o tempo…
Diz o flamenguista zoófilo:
- E aí, vamos transar com um gato?
Então diz o palmeirense sádico:
-Vamos transar com um gato e depois torturá-lo!
E diz o corinthiano assassino:
- Vamos transar com um gato, torturá-lo e depois matá-lo!
Diz o santista necrófilo:
- Vamos transar com um gato, torturá-lo, matá-lo e depois transamos com ele
de novo!
E diz o vascaíno piromaníaco:
- Vamos transar com um gato, torturá-lo, matá-lo, transar com ele de novo e
atear-lhe fogo!
Segue-se um silêncio, todos olham para o
são-paulino masoquista e
perguntam:
- E aí?
E diz o são-paulino:
- Miiiiiaaaaauuuuu!!!


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Entrevista do Auto para a ANA

Novembro 11, 2008 · Deixe um comentário

Entrevista concedida pelo Autônomos FC para a ANA, Agência de Notícias Anarquistas.

 

Autônomos FC: “futebol com alegria, mais espontâneo, menos mercadológico”  

 

 

Criado por punks e anarquistas, desde 1º de maio de 2006, existe na Grande São Paulo um time de futebol autogestionado, com espírito anárquico.  O Autônomos Futebol Clube, ou “Auto”, como é carinhosamente chamado por seus “fãs”. “Um time com ideal autogestionário, anti-racista, anti-fascista, contra o futebol mercadoria”, explica Kadj Oman, um dos fundadores do clube. Na entrevista a seguir, ele fala, com a espontaneidade e malandragem libertária de um bom boleiro varzeano, do Autônomos FC e do esporte mais popular do país, cada vez mais industrializado e burocratizado pelos interesses materiais. Mas que, também, sob sol e chuva, terra batida, bola improvisada, descalços, resiste, alegra e encanta nas mais diversas “peladas” das periferias e rincões miseráveis do Brasil. Confira o bate-bola:

Agência de Notícias Anarquistas > Fale um pouco sobre o Autônomos Futebol Clube, sua organização e objetivos, em que contexto ele surge…

Kadj Oman < Bom, no fim de 2005, eu comecei a organizar um campeonato de futebol de salão que se chamava Copa Autonomia. Nele, não havia juiz e as regras eram poucas. Fizemos 10 edições dessa copa sem nenhum problema. Mulheres jogavam, crianças, a gente se divertia (inclusive, dá pra ver o vídeo da 1ª edição do torneio procurando pelo nome no YouTube). Aí, no Carnaval Revolução de 2006, em Belo Horizonte (MG), acabei participando de uma palestra/bate-papo sobre futebol e revolução, e conheci o Mau, o Jão e a Mix, do Ativismo ABC. Compartilhando um pouco das nossas angústias sobre o punk e o futebol, tivemos a idéia de fazer algo nesse sentido quando voltássemos. Aí eu aproveitei que na Copa Autonomia tinha um pessoal interessado na idéia e fundamos o time, pra jogar futebol society, no início. Foi uma época de muitas alegrias e muitas derrotas, tirando as amizades que surgiram. Jogaram suíços (5 ao mesmo tempo, de uma banda de ska), argentinos, australianos, canadenses, colombianos. E muitos brasileiros, punks ou não, afeitos ao ideal de autogestão. Mas o societyera mercadológico demais pra gente, e então fomos pra várzea, onde mais e mais gente foi se interessando pelo time e ele cresceu. Hoje temos dois quadros e um time “júnior”, composto por alunos de um dos zagueiros do time. Sobre a organização, bem, a gente divide tudo, desde lavar os uniformes até ficar de gandula nos jogos, passando pela vaquinha pra pagar o campo em que jogamos, que é alugado. E os objetivos sempre foram o de resgatar o futebol com alegria, mais espontâneo, menos mercadológico, sem se fechar a qualquer um que concordasse com a idéia de autogestão. Faz pouco mais de um mês, traçamos um estatuto, já que o time está cada vez maior e a gente não quer perder o objetivo principal dele, que é se divertir. Lógico que jogamos pra ganhar, até porque fazer as coisas você mesmo pra gente significa fazer o melhor possível, mostrar o quão bom se pode ser assim. Mas não colocamos a vitória acima de tudo – aliás, só nos últimos 4 meses que o time passou a ganhar mais do que perder mesmo. 

ANA > E que história é essa de futebol autogestionado?

Oman < Pra ser justo, toda a várzea é meio que autogestionada. Surgem campos onde quer que haja um pedacinho de terreno, por mais que a metrópole engula espaços e vomite de volta o futebol society e o futsal, além do profissional, é claro. Mas no nosso caso, a autogestão passa por uma questão estrutural, de não ter presidente, diretor, tesoureiro, nada. Temos sim capitão, técnico, goleiros, laterais-direitos, porque isso não tem a ver com hierarquia necessariamente, e sim com aptidões ou gostos pessoais por jogar aqui ou ali, ou fazer essa ou aquela função. E divulgamos essa idéia de autogestão por onde jogamos, distribuindo panfletos ou no boca-a-boca mesmo. Alguns jogadores que estão com a gente, inclusive, eram de times que enfrentamos e que gostaram do nosso jeito de lidar com as coisas. Então a nossa autogestão é tentar ser o mais livre possível dentro do que se quer ser, mas respeitando os princípios básicos e as responsabilidades inerentes a todo projeto coletivo, como chegar na hora, colaborar com a grana sempre que necessário etc. Claro que no meio disso tudo às vezes surgem conflitos, mas o que seria a vida sem conflitos?

ANA > E qual a relação do Autônomos FC com o anarquismo? A cor do uniforme é mera coincidência? (risos)

Oman < (risos) É não é não. Acontece que o time foi fundado por punks e anarquistas, então na hora de escolher o escudo e as cores do uniforme isso contou. Mas conforme foi crescendo, o Auto (apelido carinhoso do time) foi se abrindo. Nunca foi um time explicitamente anarquista, mas sempre foi um time com ideal autogestionário, anti-racista, anti-fascista, contra o futebol mercadoria. Na verdade, os fundadores e boa parte do time, hoje, é de românticos, que ainda enxerga o futebol como uma crônica continuamente narrada a muitas vozes sobre a vida. Até banda de “rock’n'gol” o time gerou, a Fora de Jogo, que toca trajada com os uniformes do time e fala de futebol (sob uma ótica política) em todas as suas músicas. Além de que, convenhamos, preto e vermelho é uma combinação de cores das mais bonitas que existe. Os anarquistas, além de tudo, sempre tiveram bom senso estético. (risos)

ANA > Como explicar um anarquista ser fanático por futebol, por um time profissional, que cada vez mais são verdadeiros instrumentos capitalistas de manipulação, consumo e controle social? Ou assim como o amor não tem explicação? (risos)

Oman < Olha, explicação mesmo acho que não tem. A gente cresce gostando de futebol, aprende nele e com ele a se expressar, a se entender no meio de um coletivo (a torcida), acaba virando um dos nossos primeiros lugares de socialização. E como é o único que é contínuo pela vida toda, difícil se desligar dele. Até porque existiram muitos times anarquistas na história, o começo do futebol é operário, e ele é mais do que tudo uma festa popular. No início do século anarquistas aqui em São Paulo nomeavam suas equipes de “Flor” ou “Estrela”. Então, sempre que você encontrar um boteco ou padaria com esse nome, são grandes as chances de ele ter um passado anarquista. (risos)

E se o profissional é cada vez mais instrumento de controle, ele permite também nas suas brechas diversos tipos de encontros essencialmente anti-capitalistas, pró-ócio, pró-festa. A Gaviões da Fiel, torcida do Corinthians, por exemplo, se aproximou do MST nos últimos anos, dos Sem-Teto, promove festivais de cinema político, entre outras coisas. Temos que tomar cuidado pra não tomar a festa do povo por ópio, esse velho clichê, porque não é simples assim. O futebol foi apropriado pelo capital, assim como todo o resto, mas o próprio capital, contraditório que é, recria possibilidades dentro do profissional mesmo de ir contra ele (um bom exemplo, embora já meio distante temporalmente, é a Democracia Corinthiana). Cabe encontrar essas brechas, aproveitá-las, aprofundá-las. Durante toda a sua história o futebol opôs controle à festa, foi usado para dominar de um lado e para contra-atacar o domínio de outro. São tantas as histórias possíveis de serem contadas dentro do futebol… Um livro legal sobre isso é o “A Dança dos Deuses – Futebol, Sociedade, Cultura”, do historiador Hilário Franco Júnior. O que podemos e devemos fazer é continuar a contá-las, do nosso jeito, sem deixar que as vendam como mero produto descartável.

ANA > Será mesmo que o futebol profissional recria possibilidades de ir contra ele mesmo? Não acredito. O futebol profissional brasileiro está tomado pela maracatuia, pelo mercado, pelo negócio, vide Rede Globo, CBF´s, Trafic´s, Adidas e por aí vai. E por outro lado, os jogadores profissionais, na sua maioria, são despolitizados, sem atitude, vão à mercê dos dirigentes, cartolas.  E no grosso as torcidas organizadas não são muito diferentes disso tudo não, também vão a reboque de políticos, dirigentes, cartolas… Na Itália, e em outras partes da Europa, que foi criado um movimento interessante por vários grupos “Ultras”, chamado “Contra o Futebol Moderno”, que luta contra as condições precárias dos estádios, ingressos caros, partidas sendo jogados em horários não-tradicionais, jogadores sendo vendidos como mercadoria, a comercialização excessiva no futebol etc. As torcidas uniformizadas do Brasil poderiam seguir esse exemplo, não?

Oman < Não vou te dizer que o profissional dá possibilidades o tempo todo de se ir contra ele, mas as recria vez ou outra sim. Se está envolto em tudo isso que foi mencionado, me diga, em que é diferente de qualquer outra esfera da sociedade? Tudo foi apropriado pelo capital, as relações sociais baseadas na venda são quase totalitárias, então as brechas são mesmo pequenas, ainda mais em um país onde as organizações sociais são tão marginalizadas e politicamente tão superficiais (não todas). As organizadas seguem o mesmo caminho. Não dá pra esperar delas uma postura que nenhum (ou quase nenhum) outro movimento organizado da sociedade toma, como essa de ir contra o futebol moderno. As poucas torcidas que vejo tentando seguir algum exemplo de fora acabam copiando as formas estéticas, as faixas, os gritos de guerra, mas não o conteúdo das reivindicações. Mas mesmo assim há organizadas indo contra sim. Um exemplo é a Resistência Coral, do Ferroviáio do Ceará, abertamente anti-capitalista, que leva faixas com dizeres como “paz entre as torcidas, guerra ao Estado”. Normalmente são torcidas menores, frutos de movimentos pequenos, como em geral é o anarquismo e o anti-capitalismo no Brasil. Mesmo assim, nas grandes torcidas aparecem às vezes manifestações nesse sentido. Já citei a Gaviões, que este ano levou faixas contra o preço dos ingressos nos jogos fora de casa do Corinthians. A Mancha Verde, do Palmeiras, também recentemente protestou contra o preço dos ingressos no estádio do clube. Eu acredito que os próprios constrangimentos que o capital imprime junta pessoas em direção a lutas por direitos básicos. Essa história da Copa 2014 e seus estádios a la européia vai dar pano pra manga. Já dá, aliás. Ano passado, acompanhando a final da Taça Brahma no estádio do Palmeiras, vi um monte de gente de Itapevi, cidade periférica da Grande São Paulo, se deslumbrando com o Setor Visa, pedaço do estádio com preços altos e cheio de mordomias. Outras pessoas, ao mesmo tempo, achavam aquilo absurdo, porque elitizava o estádio. A força das organizadas, que a mídia insiste em colocar na violência e na coerção, na verdade reside no fato de que elas são aglutinadoras de gente da periferia, que é quem mais sofre com as restrições do capital. Disso sempre pode surgir algo. E há de lembrar também que na mesma Europa contra o futebol moderno estão torcidas neonazistas, que também são contra o futebol moderno, obviamente por outros motivos. A Eurocopa desse ano mostrou neonazistas croatas com faixas com esses dizeres. Então, temos sempre que pensar as possibilidades dentro das realidades históricas, sociais, políticas de cada lugar. Não dá pra querer no Brasil a força de um movimento anarquista organizado como o grego, por exemplo, do dia pra noite. Mas nem por isso não existem possibilidades ou se deve jogar fora o que há.

ANA > Num papo sobre “Cultura e Futebol”, um crítico de arte e amante do futebol disse: “Anabolizado ao máximo pelas táticas e pelo preparo físico, o jogo vem mudando um pouco de figura, atenuando seus componentes anárquicos e tendendo à exacerbação de seus aspectos mais previsíveis. No fundo, o desafio aqui é o mesmo da arte. Disfarçada de permissiva, vivemos uma época obsessiva pelo controle, ainda que o nome do controle, muitas vezes, seja obediência tática, desempenho, pró-atividade, boa administração.” E aí, a indústria do futebol está matando a criatividade, espontaneidade do futebol? O que pensa disso tudo?

Oman < Isso é verdadeiro se falamos de futebol profissional, e em boa parte do amador, também, que acaba se tornando cada vez mais um “espelho quebrado” disso tudo. Mas o futebol sempre se reinventou a todo tempo, independentemente do tanto de controle (tecnológico ou não) que o capital tentou impor sobre ele. No começo ele era um jogo de drible de nobres ingleses. Os operários o transformaram em um jogo de passe, e assim ele chegou aqui. Com esse jogo de passe o Uruguai, viajando de forma precária, conquistou duas Olimpíadas na Europa na década de 20. Por aqui, estudantes e a elite começaram a jogar só entre si, mas não demorou para a maioria de negros, caipiras, indígenas e trabalhadores rurais adaptar o jogo pra sua realidade, cheia de entreveros a serem “driblados”. E surgiu o futebol brasileiro, baseado no drible, cujos expoentes máximos são Pelé e Garrincha. Garrincha que já se tentou domar desde a Copa de 58, inclusive, mas a quem tiveram de se render depois do insosso empate em 0 a 0 com a Inglaterra na segunda rodada. Se formos falar de várzea, então, veremos que o próprio capital recria o futebol. Acaba com os campos no centro da metrópole pra urbanizá-la. Expulsa trabalhadores e pobres para as periferias não-urbanizadas. E lá os campos pipocam novamente. E assim vai. Já nos estádios a coisa não vai tão bem, com a vigilância ostensiva cada vez maior, querendo transformar torcedor em mero consumidor e torcida organizada em bandido violento, quando se é muito mais que isso. A Copa 2014 vai representar um momento drástico nesse embate. Torço para que até lá estejamos fortes o suficiente pra ao menos sermos ouvidos contra essa transformação do estádio em shopping center.

ANA > Falando em arte. No Brasil há poucos livros abordando o futebol. Vocês não projetam lançar algo neste sentido?

Oman < Pessoalmente estou terminando um trabalho acadêmico sobre o futebol contemporâneo na metrópole de São Paulo, mas isso não tem a ver com o time, embora eu fale dele na pesquisa. E na verdade a produção de livros (e filmes) sobre o futebol tem crescido no país, está se re-descobrindo que o esporte é uma expressão da própria sociedade, às vezes artística, às vezes não. Porém, no time, temos algumas pessoas que não só gostam de escrever como fazem isso regularmente acerca do futebol. Quem sabe você mesmo não está lançando uma idéia muito boa pra gente? Por exemplo, costumamos noticiar nossos jogos na lista de e-mails como se fossem notícias de jornais inventados, “A Plebe”, “O Povo” e coisas assim. Isso pode dar coisa boa, rapaz! Inclusive, no site que sempre projetamos e nunca fazemos, essas coisas vão constar com certeza.

ANA > Recentemente quando esteve em São Paulo, John Zerzan comentou que tinha sido lançado um livro nos Estados Unidos que abordava “anarquismo, comunismo e futebol”. Se eu não estou equivocado, o título do livro é “Revolution: The Girly Gay Commie Soccer Threat To The American Way Of Life“.

Oman < É que o “soccer” nos EUA tem outra perspectiva. É esporte da classe média, das mulheres, dos gays, dos latinos. Das minorias. O povão lá acompanha os esportes de pontuação alta, basquete, futebol americano, hóquei. Isso gera bizarrices como mães que obrigam seus filhos a jogar futebol de capacete porque cabecear a bola pode machucar. Não é coincidência que nesses seriados de TV paga feitos pra classe média as mães sempre levem seus filhos para o futebol, ou que tantos filmes infantis sejam feitos sobre futebol onde uma menina ou um cachorro são os protagonistas principais e os filmes sempre são leves, pretensamente divertidos. Já os filmes sobre basquete ou futebol americano envolvem histórias viris, de superação a todo custo, de exaltação do amor à camisa (ou a pátria), temas muito mais povão por lá. Os Simpsons têm um episódio em que sacaneiam o futebol, mostrado como um jogo em que se fica passando a bola e não acontece nada e no final as torcidas vandalizam o estádio. Então por lá pode ser que os anarquistas ou comunistas vejam no esporte algo mais “libertário” simplesmente por ser contra os valores esportivos tradicionais. Mas isso está longe de ser necessariamente verdadeiro. Tem um livro de um jornalista americano apaixonado por futebol chamado “Como o Futebol Explica o Mundo” em que em um dos capítulos ele fala dessa coisa do “soccer” por lá, a discriminação, esse tratamento como esporte de filhinho-de-mamãe e de latinos, de inimigos da pátria. Vale conferir.

ANA > Você sabia que o libertário Albert Camus, teve uma breve carreira de goleiro de futebol, interrompida aos 17 anos quando contraiu tuberculose nas ruas de Argel? Uma vez perguntado por um jornalista sobre a importância do futebol em sua vida, ele respondeu: “O que eu sei sobre a moral e as obrigações de um homem devo ao tempo em que joguei futebol…”

Oman < Sim, inclusive esse assunto esteve em pauta entre a gente faz pouquíssimo tempo. A Argélia tem também, inclusive, uma outra história sobre futebol muito bacana: quando da guerra pela independência, um grupo de jogadores argelinos, alguns profissionais em clubes franceses, abandonaram suas equipes e fizeram amistosos pelo mundo em prol da causa argelina. Essa “seleção” foi até reconhecida pela FIFA, antes mesmo do país, assim como acontece com a Palestina hoje. Ficaram conhecido como “Revolutionnáire XI“, ou “Revolucionário Onze”, numa tradução livre. O Camus com certeza devia andar lado a lado com eles. E essa frase dele sintetiza muito bem como o futebol é representação da vida, da guerra, da arte, da sociedade.

ANA > Há algum filme sobre futebol que você goste, destacaria?

Oman < Olha, eu particularmente sou muito deslumbrado com filmes de futebol, mesmo os bobos. Tem um patrocinado pela Adidas que chama “Gol! O Sonho Impossível”, onde um mexicano ilegal nos EUA consegue ir jogar pelo Newcastle, da Inglaterra. É bem bobo, mas me diverte. Já filmes sérios, acho o do Garrincha bom, e os dois “Boleiros” interessantes. Mas não destacaria nenhum deles em especial, são mais crônicas apaixonadas do que qualquer coisa. Legais pra se apaixonar, nem tanto pra fazer uma crítica sobre o futebol. Deixo claro que essa é a minha opinião, não sei se outras pessoas do time pensam assim. Tem gente que gostou desse filme novo aí, “Linha de Passe”. Eu não assisti, tenho um certo ranço com essa coisa de cineasta brasileiro que faz filme do tipo “vejam a nossa pobreza, que sofrida, que bonita, que romântica” pra europeu ver, filme que sempre tem um final poeticamente feliz. Já documentários, tem um que eu acho muito bom, argentino, que chama “A Outra Copa” e mostra todas as dificuldades da equipe de “futebol de rua” (ou seja, moradores de rua que jogam) da Argentina em ir para a Copa do Mundo da “categoria” na Suécia (site do torneio:http://homelessworldcup.org). Um detalhe desse campeonato é que a Itália ganhou duas ou três vezes. Só que o time italiano é formado por latinos (brasileiros, argentinos, uruguaios), que foram pra lá e viraram moradores de rua. E tem também filmes bons onde o futebol é pano de fundo: “Fora do Jogo”, do Irã, sobre mulheres que querem assistir a um jogo da seleção e são barradas; “Crônicas de Uma Fuga”, argentino, muito bom, sobre um goleiro que é preso pela ditadura confundido com um militante político e elabora um jeito de fugir (o final é dos mais lindos que já vi em filmes); “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, pra mim um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos, que tem tanto o futebol profissional como o futebol de várzea como pano de fundo, com um negro como goleiro do time dos judeus no bairro do Bom Retiro; e tem um que o Jão citou mas eu nunca vi que chama “Pra frente Brasil”. Por fim, tem um documentário uruguaio não tão bom chamado “Aparte”, sobre moradores das periferias que, entre outras coisas, são catadores de latinhas, onde há uma presença do futebol muito forte, tendo inclusive imagens de um jogo de várzea só de mulheres, coisa rara de se ver na vida e na arte.

ANA > É cada vez maior a presença feminina no universo do futebol, assim como a violência no futebol, entre as torcidas, ou grupo de torcedores pressionando agressivamente dirigentes, técnicos, jogadores… Contudo, raramente vemos mulheres nessas brigas, confusões. O fato é que os homens são um bando de idiotas mesmo? (risos)

Oman < (risos) Creio que a cultura masculina é mais permeada de agressividade e babaquices do que a feminina, mas de uma forma geral essa violência é resultado de muitas outras violências anteriores, como o preço dos ingressos, dos alimentos, o tratamento dispensado pela polícia, a localização dos estádios em centros nobres onde a entrada dos torcedores não é permitida em dias comuns. Já a entrada das mulheres no jogo não é bem uma entrada, é uma volta, pelo menos em alguns lugares. Aqui em São Paulo, por exemplo, no começo do futebol de várzea os clubes de bairro tinham departamentos femininos constituídos que eram responsáveis pela confecção e manutenção de bandeiras e troféus, ensino e execução do hino do clube, organização das festas que aconteciam junto aos jogos… O futebol era pano de fundo pra festa popular, muito mais do que um mero jogo. Festa feita por comunidades organizadas, que serviram de base para as próprias torcidas contemporâneas. E falando nelas, é importante também lembrar que a violência desses grupos organizados é só uma parte do que eles representam, a parte que serve pra mídia e pras instituições do futebol enfiarem goela abaixo a transformação do futebol em mercadoria, do torcedor em consumidor, cada um sentadinho quietinho na sua cadeira ou em frente à TV, consumindo. Um mecanismo de controle sobre uma das poucas coisas que o trabalhador, o pobre, o povo, enfim, tem como sendo dele, como intocável, independente de qualquer situação social ou econômica – até por isso a agressividade nas cobranças a dirigentes e jogadores, cobrança que às vezes lembra mesmo a de consumidores, mas que na maioria das vezes é a voz de quem está descontente com o tratamento dado a algo coletivo, um sentimento mesmo, aliás, dos poucos sentimentos que permanece num mundo onde tudo muda tão rápido.

ANA > Você acha que o futebol feminino não cresce no Brasil por causa do machismo, do preconceito? Como você diz, as mulheres historicamente sempre foram tratadas como subalternas, com papeis bem definidos, raramente como protagonistas do futebol, do jogo… Homem é uma desgraça mesmo. (risos)

Oman < (risos) É, não dá pra descartar a imbecilidade masculina nesse processo, mas acho que é algo mais econômico do que só cultural. Não dá dinheiro, então não cresce. O futebol feminino profissional é amador, na verdade. Mas por incrível que pareça no começo do futebol na Inglaterra existiam ligas de futebol feminino! Sumiram logo, mas existiram. No Brasil, eu acho que ao menos ultimamente a seleção feminina trouxe mais orgulho pros torcedores do que a masculina, até porque ela é mais humana, mais sofrida, mais cheia de sentimentos. O grande problema é que o crescimento que se espera do futebol feminino é o crescimento econômico, da profissionalização, da mercadoria. E esse não vai acontecer tão cedo – e eu, particularmente, nem sei se seria algo completamente bom. Mas se o tênis virou moda depois do Guga, tudo pode acontecer. Até porque em todos os esportes a presença feminina cresce e a distância entre os recordes masculinos e femininos diminui.

Mas voltando pro futebol, um dos zagueiros do time, que é professor, ficou sabendo que há um projeto pra 2009 de começar times de futebol feminino em todas as escolas estaduais de São Paulo. E no Auto, nossa mascote é a Mafalda, do Quino, pela postura contestadora dela e porque a maioria da nossa “torcida” acaba sendo das namoradas, mulheres, irmãs, então a homenagem a elas é mais do que justa. E se tiver meninas querendo formar um quadro feminino do Auto, por favor, apresentem-se! Nas poucas vezes em que jogamos futebol de salão houveram meninas jogando conosco. Não fazemos um time misto só porque isso é impossível na várzea. Mas um dia, quem sabe, dá pra tentar sim!

ANA > Como você vê essa história dos jogadores profissionais, em sua maioria, rezarem aos gritos um “Pai Nosso” antes dos jogos? Vocês do Autônomos FC fazem isso também? (risos)

Oman < (risos) Bom, eu vejo como um ritual herdado da várzea, onde todo time faz isso também. No Autônomos não fazemos isso, embora já tenhamos feito de sacanagem umas duas vezes, tentando ver se assim a gente não perdia. Não adiantou, parece que Deus não gosta muito de nós. (risos) No lugar de rezar a gente entoa um canto em homenagem à torcida. Dá pra ver isso nesse vídeo aqui, uma espécie de mini-documentário sobre o time:http://fiztv.uol.com.br/f/Video/assista/16751/0  

ANA > Vocês já se imaginaram participando de um “Mundialito de Futebol Anti-Racista”, desses que acontece na Europa, que reúne times de várias partes do mundo? (risos)

Oman < Cara, conhecemos isso esse ano através de uma equipe amadora anti-fascista inglesa que nos mandou um e-mail! Morremos de vontade de ir, mas não há condições financeiras pra isso. Em compensação, chamamos essa equipe pra jogos por aqui e eles aceitaram, agora estamos vendo quando eles poderão fazer isso, se poderão mesmo, como faremos. Com certeza se eles vierem será um momento único por aqui, novo, até uma oportunidade de encontro com organizadas, equipes amadoras, torcedores pra uma troca de experiências.

ANA > Uma coisa que sempre me chamou a atenção no futebol profissional é o fato de muitos jogadores negros, com “cara de nordestinos”, se casarem com loiras, mulheres brancas. Quem exemplifica isso muito bem é o maior astro do futebol de todos os tempos, Pelé. Aliás, a única filha que ele teve com uma mulher negra até hoje ele não assumiu, muito pelo contrário, sempre se esquivou da história. É um mito dizer que no futebol brasileiro não há racismo?

Oman < Está longe de ser mito, muito longe mesmo! O futebol faz parte da sociedade, e se a sociedade é racista, é claro que no futebol isso vai aparecer. Não tem Obama ou Hamilton que mudem isso. (risos) Só pra dar um exemplo mais recente, o Felipe, goleiro do Corinthians, quando foi rebaixado pelo Vitória-BA foi chamado de macaco preguiçoso por um dirigente do time, que ele processou (o caso, até onde sei, está na Justiça ainda). Isso sem falar nas histórias passadas, de jogador negro passando pó-de-arroz na cara. É claro que o capital não vê cor quando o jogador dá lucro, mas ali no cotidiano dos jogadores, no dia-a-dia, rola racismo o tempo todo. Na Copa de 1958 o time que jogou os dois primeiros jogos só tinha brancos, fruto do preconceito adquirido na Copa de 50 quando o goleiro negro Barbosa foi culpado pela perda do título. Então isso vem de longe, desde o começo da bola rolando por aqui, do embate entre times da elite e times da várzea, que opunham fundamentalmente brancos a negros, pobres, mestiços, caipiras. Isso foi inclusive usado de desculpa pelos times da elite para não mais disputar jogos contra os times que aceitavam esses jogadores. O que acabou sendo mau negócio pra eles, porque perderam qualidade técnica e público (que na época eram a maior fonte de renda) e acabaram falindo. Veja só que coisa, o próprio processo capitalista no futebol fez os times pobres falirem os ricos. Mas o racismo continuou, está aí até hoje. O Pelé, pra mim, em termos raciais, é um Michael Jackson que não tentou se pintar de branco, nada mais do que isso. Sou Maradona mil vezes. (risos)

ANA > Para finalizar, quais os projetos futuros? Pretendem organizar algum evento com exposições, debates e palestras em torno do futebol?

Oman < Então, a vinda dos ingleses (a equipes se chama Easton Cowboys&Cowgirls, existe há mais de década e tem vários esportes, não só futebol, com participação feminina) nos deu a idéia e a vontade pra algo nesse sentido. Queremos chamar o pessoal da Resistência Coral e quem mais se sinta interessado pra participar também. Mas mesmo que eles não venham, acho que em 2009 devemos fazer algo nesse sentido. Esse ano fizemos um debate no Ativismo ABC sobre futebol e política, mas teve muito pouca gente. Queremos repetir isso em breve sim. Enquanto isso continuamos jogando na várzea, conhecendo e sendo conhecido. E quem sabe mais pra frente não conseguimos marcar uns jogos interestaduais? Soubemos que aí na Baixada Santista o pessoal libertário joga na praia às vezes, em Santa Catarina o pessoal do Passe Livre tem um time também… quem sabe uma liga de futebol autogestionário não se configura daqui uns anos? (risos) E tem também o “Auto Júnior”, que acabamos de formar com a molecada, todos da extrema zona sul. Queremos levar eles pra outras coisas além de jogos, é um projeto que está começando e no qual estamos bastante empolgados. Por fim, temos o sonho de um dia ter um campo nosso, um terreno baldio qualquer, comprado ou cedido, pra poder fazer as coisas ainda mais do nosso jeito, levar os projetos adiante e colocar o time numa situação de maior presença no tempo e no espaço da cidade. Se alguém que estiver lendo isso tiver como e quiser ajudar, entre em contato!

ANA > Alguma coisa mais? Valeu!

Oman < Cara, queria agradecer muito em nome do time por esse espaço. O movimento anarquista no Brasil sempre teve muito preconceito com o futebol, é muito bom ter um espaço desse pra falar. O futebol sempre foi do povo por aqui, o capital destruiu isso e encobriu a história. É importante pra qualquer movimento que se pretende social se aproximar e entender melhor as coisas do povo, então que o futebol possa ser visto com mais carinho no meio libertário. E desculpa se eu falei demais, mas é que o tema propicia muita conversa… Por fim, um abraço pra todo mundo e quem se interessar pode entrar em contato com a gente, pra jogar, pra torcer, pra convidar ou planejar eventos, estamos aí! Abraços autogestionários!

Contato: autonomosfc@gmail.com  

Blogs: http://autonomosfc.10.forumer.com/ e http://autonomosfc.blogspot.com/   

Clipe da Banda Fora de Jogo: http://www.youtube.com/watch?v=uIg_tBadIvQ

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Andrés Sanchez

Novembro 10, 2008 · 3 Comentários

Retirado do blog do Juca Kfouri.

Tanto a carta quanto a resposta.

Um corintiano decepcionado com seu presidente

O blog recebeu a mensagem abaixo no domingo.

Checou hoje a veracidade e resolveu atender ao desejo do torcedor.

 Caro Juca,

Corinthiano como você, não sabia a quem recorrer.

Estive ontem em uma comemoração no bar Jacaré, em São Paulo, lugar alegre e descontraído da Vila Madalena.

Estava meio apreensivo pois era jogo do Timão e meus amigos haviam marcado bem no horário do jogo, por volta das 16h30.

Qual não foi minha surpresa quando lá encontrei Andrés Sanchez, presidente do nosso time.

Não só eu, mas mesmo o garçom corinthiano que nos servia estranhou, afinal era o jogo que valia titulo, independente de ser da Série B.

Pouco antes do término do jogo e de ele ir embora, eu o abordei no estacionamento, descontraidamente, perguntando porque ele não tinha ido ao jogo.

Nosso irônico presidente disse que não sabia de jogo algum e ficou meio constrangido com minha ousadia.

Sem titubear eu retruquei que estava desapontado, que nosso time já havia sido melhor representado.

Ele me perguntou se eu estava com saudades do Dualibi e se eu era sócio, pra lhe fazer cobranças.

Disse que não, que não tinha saudades nem era sócio, mas que era mais que isso; era torcedor, comprando camisas e ingressos dos jogos, infelizmente da mão de cambistas, dada a desorganização que os mesmos eram vendidos.

Perguntei ainda como era possível ele não saber do destino de 22 comandados do seu time, que haviam pego avião pra Criciuma, pra defender a liderança e o título do certame.

Finalmente, um amigo me retirou dali.

Foi melhor mesmo, não havia mais nada a dizer.

Posso estar errado ao abordar um cidadão e indagar-lhe de suas atribuições, sem que ele se reporte a mim ou me deva qualquer explicação, mas ele não é presidente do Comercial de Ribeirão Preto, é presidente da maior torcida do estado, segunda do Brasil.

É uma figura pública, tanto quanto um político, um artista ou um craque.

Infelizmente no nosso caso, ele está mais pra político de quinta que outra coisa, tanto pela falta de comprometimento quanto ética, sem falar de sua forma rudimentar de se expressar.

É por essas e por outras que o São Paulo tá na mira do tetra, tem estadio pra abrir Copa do Mundo e a gente está onde está.

Só com amor e fidelidade não dá, né?

Bem que a gente podia ser melhor representado…

Abraços,

WA

Se quiser fazer uso da história, sem problemas, só peço que omita meu nome e sobrenome.

***

O presidente do Corinthians responde
Prezado Juca,

A carta a meu respeito enviada por seu leitor que preferiu manter-se no anonimato merece alguns comentários.

Neste ano de 2008 deixei de acompanhar o Corinthians no estádio em apenas três oportunidades: no jogo contra o Paraná, em Curitiba, no dia 26 de julho; no jogo contra o Fortaleza, no Castelão, em 06 de setembro; e nesta partida contra o Criciúma, no último dia 08 de novembro. Em todas as demais estive presente.

As três ausências explicam-se pela necessidade da minha presença no clube, para tratar de outros assuntos relevantes.

Estive no clube na tarde do dia 07 de novembro, sexta-feira, e na manhã do dia 08 de novembro, sábado, dia do jogo, para tratar de assuntos de interesse do clube.

Dedico-me em tempo integral ao clube, todos os dias, de manhã cedo até o começo da noite. Dentro do possível, tenho conseguido conciliar a execução de todas as demais tarefas que me competem como Presidente do clube – e são muitas – com a minha presença nos estádios em que o time joga. Infelizmente, em apenas três oportunidades, esta conciliação não foi possível.

De qualquer forma, o time se fez acompanhar do Diretor de Futebol, Dr. Mário Gobbi e do Gerente de Futebol, Antônio Carlos Zago, responsáveis diretos pelo departamento.

No sábado, 08 de novembro, após resolver pela manhã os compromissos que tinha no clube, e considerando que não teria mais tempo de viajar até Criciúma, fui almoçar com meus dois filhos, com minha ex-esposa, e outros parentes, pessoas queridas e de quem tenho estado distante por conta dos afazeres do meu cargo, justamente para comemorar o aniversário do meu filho.

De fato, fui interpelado por um torcedor – como já fui infinitas vezes – que agora deduzo seja o seu leitor. Repito: não foi a primeira, nem será a última vez. Tenha absoluta consciência da relevância pública do cargo que hoje ocupo. E não registro histórico de outras pessoas insatisfeitas como o leitor em questão. Ao contrário.

Não avalio tenha sido irônico. Também acredito não ter sido agressivo. E se, inconscientemente, o fui, receba ele minha desculpas.

Sugeri ao torcedor, sim, como faço com qualquer corinthiano, tornar-se sócio do clube e participar da sua vida política, já que o novo Estatuto, recém aprovado, garante eleições diretas para Presidência.

Respeito a opinião do seu leitor. E para desfazer esta imagem, que me parece incorreta, convido-o para comparecer ao clube, onde terei o maior prazer em recebe-lo para conversarmos.

Um abraço a você e a todos os leitores,

Andrés Navarro Sanchez

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