kadj oman

Repartição pública

janeiro 27, 2010 · 1 Comentário

Quando João chegou, Zé Roberto já estava lá. Havia voltado das férias.

- Fala Zé! Como é que tá, rapaz!
- Fala João…
- A mesma coisa de sempre, trabalho, trabalho…
- É fogo…

Cumprimentou-o com as duas mãos, uma por cima, outra por baixo. Daqueles cumprimentos falsamente carinhosos.

Na verdade, não gostava muito dele. O cara era meio maluco. Não tomava banho, não escovava os dentes. Tinha pulgas. Dizia que passava cândida em casa, que cândida “mata até Aids”, mas as pulgas estavam lá, saltando, como que num parque de diversões. Às vezes ligava para o filho. Era estranho. Não parecia conseguir cuidar nem de si próprio e tinha um filho.

Zé Roberto colocou a pasta sobre a mesa e abriu a Bíblia. Todo dia, ao chegar, lia um trecho. Era pastor. Antes, era Billy. Do samba. Segurança. Basicamente, aquele que administrava confusão. Tinha cansado daquilo. A igreja lhe apresentou outra vida, mais traquila. E com mais dinheiro. Não pedia muito em troca. Pra quem acreditava nos patrões das empresas de segurança, ex-policiais, acreditar em Deus era mole. Deus não atrasava o salário. E tinha resposta pra tudo.

Depois da igreja, sossegou. Casou de novo, adotou uma criança. Era uma forma de compensar os sentimentos ruins que tinha quando lembrava do que passara. Daquilo, principalmente. Aquilo sempre voltava à mente. Diariamente. Ele apagava recitando mentalmente qualquer coisa da Bíblia.

A menina era uma graça. Curiosa, inteligente. Entendia tudo. Não sabia ainda que era adotada. Pegaram ela bem pequena, meses de idade. Ainda não era hora de dizer. Um dia diriam. Os pais sempre tem medo de dizer algumas coisas. Medo dos filhos partirem. Mesmo que ainda perto. Partirem do alcance das asas, buscando encontrar a verdade. Outra verdade.

João estava quieto aquele dia. Era melhor. Não tinha muita paciência com ele. Começava a falar bobagens, todo dia. Ria sozinho. Às vezes pensava que ele tinha algum tipo de retardamento mental leve. Ou um distúrbio. Não era normal, a falta de senso. De tudo. Zé Roberto tentava ter paciência, pedia a Deus uma forma de encarar aquilo sem agir errado. Era difícil. Por vezes quase voltava a ser Billy. Não, não. Billy não.

De manhã, quando chegavam, a repartição pública era tranquila. Pouca gente, poucas vozes. Só os ônibus lá embaixo faziam algum barulho. Os ônibus e os malucos que habitam o centro. São muitos. Gritam. Todos os dias. Às vezes se debruçava na janela e procurava a origem dos gritos. Tentando entender, visualizar. Às vezes imaginava os loucos na cabeça. Criava histórias para eles. Histórias de vida. Com situações extremas, de fazer qualquer um perder a cabeça. Ninguém nasce maluco. Não completamente.

- Alô, Valter! E aí, e a doença?

João ligava para o filho.

Imaginava a vida dos loucos e tinha João à sua frente. Um deles?

- Computador eu sou um fracasso viu… até no rádio…

João tentava mexer no aparelho celular. Não conseguia. Zé Roberto fingia estar concentrado em qualquer coisa na tela. Era mentira. Há semanas haviam cortado o acesso à internet de todos ali. Até do chefe. Só Marcos tinha senha para alguns sites. Não era pra ter. Erro da informática. Mais um. Incrível como a área de tecnologia da informação, em todo canto, errava. Dava informações equivocadas. Como senhas. Tinham controle da tecnologia mas não sabiam porra nenhuma sobre o conteúdo. É o mundo das formas. Das dormas transformadas em conteúdo.

Marcos era gago. Fumava bastante. Mais novo, guitarrista. Passava os dias garimpando na internet novos compressores, mesas, pedais. Tinha muitos. O dinheiro que ganhava na repartição ia quase todo para aquilo. Sua maior paixão. Chegou a tocar com alguns famosos. Mas era confuso. Se perdera. Em várias coisas. Algumas, viciosas.

Quando chegava, imprimia seu ritmo ao trabalho que até então quase não havia começado. Não à toa, a essa hora, João já tinha sumido. Fugia de Marcos. Das broncas. Arranjava qualquer documento para entregar e saía. Marcos não tinha paciência com ele. Ninguém tinha. Mas Marcos era cruel nos comentários.

- Na hora de receber você não é maluco, né? Lava essa boca, porra! E faz alguma coisa! A gente aqui trabalhando e você pagando de maluco!

João ria. Os doidos sempre riem. Mais uma prova.?

“Condenamos os loucos às risadas”, pensava. Porque fomos condenados à ausência delas. Daí que quando alguém ri, deve estar maluco. Vai ver, enxergam o ridículo que passamos, todos. Submissos à essas merdas de trabalho. Atividades sem sentido, que executamos como se delas dependesse a vida no planeta. Riem de nós.

Os loucos riem de nós.

Colocou a Bíblia na pasta e começou a trabalhar.

***

O trabalho criava uma hierarquia estranha. Entrecortada por várias outras. Tinha a “lei do mais velho”, que era como que um respeito imposto à sabedoria adquirida por aqueles que ali estavam havia mais tempo. Muitas formas de proceder eram baseadas nisso. Perpetuavam, por vezes, rotinas idiotas. E ensinamentos errados, em desacordo com o que dizia a lei que valia mesmo, aquela escrita, normativa. Era assim em toda repartição pública.

Atravessando a lei do mais velho, vinha a do mais esperto. Aquele que sabia lidar melhor com as situações. Que antevia, que via a estrutura e sabia manejá-la. Muitas vezes, o mais esperto era dos mais novos. Muitas vezes, o mais esperto não era o mais esperto. Porque os mais velhos sabiam o suficiente para deixar os mais novos pensarem que eram espertos. Era melhor. Comandar criava problemas. E no trabalho, a missão principal sempre era fugir dos problemas.

Tinha, ainda, a lei do certinho. Do ingênuo, que cumpre tudo à risca. Esse era às vezes interpretado por um dos mais espertos ou dos mais velhos. Os falsos certinhos, que a maioria sabia identificar depois de algum tempo. Porque os certinhos mesmo desenvolviam manias. Respostas às frustrações que encaravam por fazer tudo certo e se foder mais que os outros. As manias eram um jeito de entortar o certo na prática enquanto se auto-engavam falando que aquilo agilizava o procedimento. Porra nenhuma. Tinham cansads de ser certinhos. Os falsos certinhos nunca tinham manias.

O chefe era quase sempre um dos mais velhos que sabia muito bem ser um falso certinho. Era o melhor ator. O que cobrava mais em público, mesmo sem saber direito o que estava cobrando. Quase sempre, era temido pelos certinhos e facilmente dobrado pelos espertos e pelos mais velhos. Não sem saber que o estava sendo. O segredo do bom chefe é se deixar dobrar sem perder publicamente a imagem de comando. Porque o chefe ditador, aquele que quer cobrar os mais velhos e os mais espertos, quase sempre acaba rodando.

Zé Roberto era dos mais velhos. No trabalho e na vida, que a vida também dá trabalho, muito mais que o trabalho. Era incrivelmente hábil na tarefa de procrastinar. Adiava sempre, sem parecer que estava adiando. De repente, era fim do dia, e tinha feito nada ou quase nada. Mas parecia que tinha feito muito. Era justo. Os anos de Billy já tinham sugado energia suficiente daquele corpo. Daquela mente. Agora, era de Deus. E ser de Deus era abraçar a ignorância consentida. Como uma benção.

Como uma benção.

Nunca perdia o controle. Só os mais espertos sabiam como fazê-lo deixar ser dobrado. Exercia a função de falso chefe, fiscal de porra nenhuma. Cobrava delicadamente sem cobrar. Na verdade, colocava os certinhos pra fazer o que ele deveria estar fazendo. Sem perceberem. Às vezes, os mais espertos e os mais velhos entravam na dança, pra se ocupar com qualquer tarefa fácil de ser arrastada pelo dia adentro. Era um acordo entrelinhas. Um acordo de olhares e de não-falas subentendidas. Um acordo que mantinha o equilíbrio da repartição, quase sempre funcionando no limite mínimo.

Havia também as moças da limpeza. Que não faziam parte, eram terceirizadas. Como uma paisagem animada. Limpavam a todo momento, a todo canto, sem quase ninguém a dirigir-lhes um olhar sequer. Eram quase nada. Às vezes, eram nada, quando algum dos certinhos resolvia rebaixá-las pra se sentir, por no mínimo um instante que fosse, num degrau mais alto da hierarquia. Era tudo que podiam, tudo que conseguiam: subjugar quem já estava subjugado. Ridículo.

Por fim, haviam os estagiários. A quem se culpava por tudo que acontecesse de errado. Na verdade, eram os mais livres de todos.

A culpa que a repartição jogava sob os estagiários era a culpa que sentiam por se deixarem estar submissos à estrutura.

Os estagiários cagavam e andavam para a estrutura.

Daí serem sempre o mordomo da história.

***

(continua)

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Um

janeiro 25, 2010 · 2 Comentários

Um ano.

Faz um ano.

Quem nunca quis morrer?

***

Quando se é novo, os problemas sempre aumentam. A juventude é como uma lupa ao contrário: quanto menos idade, maiores se tornam as coisas. Aquela pessoa sempre é o maior amor da sua vida. Aquela prova, a mais difícil. O melhor amigo. Os 2 pivetes que tentaram te roubar se tornam 10 brutamontes, e quando você conta a história você não correu. E eles não levaram nada.

De repente, então, o maior amor se vai. O melhor amigo trai. Você perde a prova, e os 2 pivetes tomam seu boné e ainda te deixam um olho roxo, que é pra não poder mentir. Nessas horas, você quer morrer. Todo mundo já quis.

O desejo pela saída fácil da situação difícil é comum. Mas ele sempre passa. Com o ano, vem as derrotas e as vitórias, e a lupa diminui. Você aprende que nada precisa ser tão grande. Quer dizer, uma parte aprende. E pra essa parte o desejo de morrer nunca passa de uma idéia boba que se teve.

A outra parte, bem, a outra parte ultrapassa uma linha que eu desconheço. E muitas vezes tenta morrer mesmo, e consegue. Mas eu não posso falar disso. Não posso falar do que não sei direito como é.

Eu nunca quis, mesmo, morrer.

Bem… quase nunca.

***

Há um ano, o time júnior do Corinthians chegava à final do mais famoso torneio de futebol júnior do país. O jogo começaria 11 da manhã. Exatamente o horário da visita à UTI. Naqueles já quase 20 dias de entubação, meu pai passara por altos e baixos. Algumas vezes chegamos a pensar que sairia do tubo, ao menos. Mas de repente a situação começou a piorar. O corpo humano não aguenta sempre o quanto a gente quer. Mesmo assim, mantínhamos na mente a idéia de que ainda dava.

2009 seria um ano novo mesmo. O Corinthians voltara da Série A. Contratara Ronaldo. Meu pai veria Ronaldo jogar. Nós veríamos. A torcida inteira esperava por redenção, depois de um ano no inferno. E naquele 25 de janeiro, a cidade aniversariava com a possibilidade do Corinthians já campeão.

Fui ao hospital, como quase sempre, com a camisa do time. Aquela, com a foto dele. A bandeira, já estava pendurada dentro do quarto. Diferente do meu costume, estava ansioso pra entrar na UTI. Ver aquele jogo. A UTI tinha TV também. Costumávamos pedir pra deixá-la ligada no canal de esportes, ou de documentários. Meu pai gostava de dormir com a TV ligada.

Minha irmã é são-paulina. Pra ela o jogo não significava muito. Mas significava pra mim, e ela sabia que pro meu pai também, então ela conseguia transmitir alguma solidariedade.

Quando a lista de parentes começou a ser chamada, entrei quase como uma flecha porta adentro. Eu, minha mãe e minha irmã.

Ao entrar no quarto, repeti o que sempre fazia: olhar os monitores. Já sabia lê-los. Eles diziam como ele estava, antes do médico responsável passar.

Naquele dia, meu pai tinha a pressão em 4 x 3 e os batimentos por volta de 30.

Minha mãe e eu nos olhamos. Já sabíamos o que aquilo significava. Minha irmã também.

Foi difícil conter o choro até o médico chegar. Tão difícil como está sendo agora.

Meu pai era uma pessoa comunicativa.

Pelo monitor, ele dizia adeus.

***

A visita do médico foi só pra confirmar o óbvio. Algumas horas. Meu pai tinha algumas horas.

Alguém já experimentou a sensação de ter uma parede desabando sobre?

Àquela altura, eu já tinha deixado a camisa sobre a bancada. Quase esquecido do jogo. Saí do quarto. Não queria chorar na frente da minha irmã. Precisava ligar pra namorada. Caí aos prantos no telefone. Ela voou até o hospital. Naquele meio tempo, lembrei do jogo.

A visita à UTI costuma durar uma hora. O jogo levaria duas. Pedi ao médico responsável para ficar ali até o fim do jogo. Seria nosso último jogo. Fui atendido.

Durante duas horas, pela primeira vez na minha vida, eu quis morrer.

O Corinthians jogava e meu pai ficava mais e mais gelado. Eu esfregava minhas mãos sobre seu corpo compulsivamente. O choro e o riso por estar de novo vendo um jogo com ele se intercalavam. Eu queria que ele falasse. Qualquer coisa. Que levantasse e gritasse com os jogadores. Que fingisse ser um zumbi e de repente nos desse um susto. Tentava passar meu calor para ele. Sentia o cheiro de seu sangue, as veias rompendo. Em silêncio, pedia, por favor. Que aquilo desse certo. Foda-se, queria que a minha energia vital passasse pra ele. Não me importava.

O Corinthians venceu aquele jogo. Fez dois gols. Nos dois gols, abracei meu pai.

Nos dois gols, meu pai me abraçou.

***

Na sala de espera, junto ao coffe shop, esperávamos. Os amigos chegavam, aos poucos. Esperávamos, e eu queria estar lá dentro. Odiava a medicina por não me deixar estar lá dentro. Meu pai ia morrer sozinho. Esperar sempre foi uma merda. Ainda mais quando se espera o que não se quer e quando não se quer esperar.

Quem, puta merda, quem gosta de esperar?

Eu sempre tive todos os meus documentos na carteira. Minha mãe ficava louca. Pra quê? Eu não sei pra quê. Mas eu nunca perdi uma carteira na vida. Ela ficava no bolso, atrapalhava na hora de sentar. Então nessas horas eu a carregava na mão. Ficava vulnerável. Sentado no sofá daquele coffe shop, olhando pra televisão, eu tinha a carteira nas mãos. Minha mãe me chamou. Fui até ela. Quando percebi, tinha perdido a carteira.

Obviamente, naqueles momentos, a razão tinha ido pro espaço. Não sabia mais nem se tinha trazido a carteira. Eu, minha mãe, minha irmã e minha namorada começamos a buscá-la. No carro, no coffe shop, no andar de baixo. Eu achei que tinha esquecido no quarto da UTI. Na verdade, eu sempre fui muito ansioso. Aquilo era pretexto pra talvez poder entrar no quarto para procurar e ver meu pai. Toquei a campainha. A enfermeira atendeu. Claro que eu não pude entrar. Merda de medicina. Ela foi olhar. Voltou. Disse que não estava. Dei mais uma volta e nada. Tinha certeza que estava lá. Na verdade, minha certeza era de que precisava entrar lá. Toquei de novo. Outra enfermeira veio. Repetiu o mesmo procedimento. Enquanto ela procurava, minha mãe ligou. Quase ao mesmo tempo, ela me dizia que achara a carteira e a enfermeira dizia que não achara nada mas que a médica precisava falar com a minha mãe.

A carteira, que minha mãe trouxe correndo, estava vazia. Com documentos, mas sem dinheiro. Não tinha muito, mas estava vazia.

A enfermeira, que voltou com a médica em pouco tempo, também estava vazia. Seu olhar era morto.

Meu pai era morto.

Minha mãe e minha irmã se abraçaram aos prantos. Eu abracei minha namorada, que chorava. Eu não. Ainda precisava fazer uma coisa.

Do corredor, liguei para meu tio, e dei a notícia. Seu irmão mais velho não tinha aguentado.

Foi exatamente essa a frase: ele não aguentou, tio.

Ele não aguentou.

***

Alguém tinha que ir até em casa buscar uma roupa para o velório. Fui eu. Acho que minha irmã também. Minha mãe ficou cuidando do corpo.

Antes de ir, fui ver meu pai. Não vi nada. Aquilo sobre a mesa do necrotério não era ele. Talvez seja um tabu falar disso, mas foda-se. Meu pai não existia mais. Não existe mais.

No caminho para casa, choveu muito. Como vem chovendo esse ano, também. Daquelas chuvas que parecem lavar. Eu queria ter tomado aquela chuva. Não tomei.

Esse ano, tomei todas as chuvas que pude até agora. Que merda é uma chuva? É água. Dizia uma banda de amigos, nada mais tranquilo que a água. Nunca entendi gente que foge de chuva. Como se fosse ferir.

Hoje, quase nada consegue me ferir. Às vezes, eu gostaria que conseguisse. Que conseguissem.

Em casa, escolhemos uma roupa que ele gostava de vestir. Meu pai tinha costumes pra se vestir. Quem não tem? Pra sair ou não, adorava roupa velha. Adorava se sentir confortável. Eu também. Ele ficava em casa sempre com um calção velho e rasgado. Demos alguns calções novos pra ele. Nunca usou. Hoje estão no meu armário.

Voltamos ao hospital, entregamos a roupa ao serviço que resolvemos contratar para desinchar ele e colocar formol. Cacete, formol. Aquilo era mesmo só um corpo. Um objeto. Cheio de formol, vestido como meu pai.

Quando terminaram o serviço, tinham exagerado um pouco. O corpo fazia biquinho. Puta que pariu. Meu pai ainda teve forças pra fazer a gente rir uma última vez.

***

Toda relação humana deixa algum rastro. Uns mais fortes, outros menos. Alguns quase imperceptíveis. Quando uma acaba, depende de como lidamos com esse rastro, do que ele nos deixou, pra que a relação seja lembrada ou esquecida.

Meu pai deixou muitas coisas. Uma, em especial, interminável: a paixão pelo Corinthians.

Na cremação de meu pai, dois hinos de futebol foram ouvidos.

O do Flu, num arranjo em violino, abriu a cerimônia.

O do Corinthians, tocado no saxofone, fechou.

Porque no coração do meu pai cabiam muitas paixões. Muitas pessoas. E muito poucas mágoas.

Pai: obrigado.

Você sempre será o meu timão.

“Salve o Corinthians
O campeão dos campeões
Eternamente
Dentro de nossos corações

Salve o Corinthians
De tradições e glórias mil
Tu és o orgulho
Dos desportistas do Brasil

Teu passado é uma bandeira
Teu presente, uma lição
Figuras entre os primeiros
Do nosso esporte bretão

Corinthians grande
Sempre altaneiro
És do Brasil
O clube mais brasileiro”

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Dois

janeiro 24, 2010 · 2 Comentários

Tivemos um bom Natal aquele ano. Não que Natal significasse muito. Pro meu pai e pra mim ainda mais. A família dele estava no Rio e eu nunca fui muito de celebrar datas inventadas pra gastar dinheiro.

Natal era juntar a família. Mas naquele ano foi mais que isso. Porque abrimos para os amigos, então o apartamento onde normalmente não cabiam mais de 10 pessoas contava com 20 e poucas.

Tinha sido um ano difícil, 2008. Corinthians na Série B e meu pai bastante tempo no hospital. Os dois superaram. Gastei um dinheiro que não tinha no cartão de crédito pra colocar o rosto dele naquela camisa que o time lançou com fotos de torcedores. Marcando a volta.

No Natal, sempre fazemos amigo secreto. Que acaba sendo uma palhaçada. A maioria já sabe quem tirou quem e a hora da entrega é quase formalidade. Sempre fui contra isso. Sempre fiz questão de manter a brincadeira. Acho que sou metódico demais. Meio ridículo.

Naquele ano, quando chegou minha vez, pedi licença pra quebrar o protocolo. O pior é que eu falei assim mesmo, “quebrar o protocolo”. Que merda. Geração escritório. Pedi licença e falei que além do presente de amigo secreto eu tinha outro presente, pra um amigo nem um pouco secreto. Que tinha tido tempos difíceis e teve forças pra superá-los. Minha mãe já sabia o que era. Meu pai não. Peguei ele de surpresa. Entreguei a camisa.

O resto da noite, meu pai passou com aquela camisa gigante por cima da roupa de Natal.

***

Ano novo é quase emenda do Natal. Podiam decretar férias coletivas pro mundo inteiro entre os dois dias. Tem lugar que decreta.

Em 2008, passamos o ano novo na praia mais uma vez. Com os amigos da família, quase todos militantes contra a ditadura. A praia ficava cheia de uma gente meio estranha. Estava sendo valorizada. Destruída por gente rica. Yuppies. Nunca estão satisfeitos em foder os lugares onde moram. Precisam ir à praia.

Pensando bem, aquela casa cheia de gente de esquerda é que era estranha àquele lugar.

Meu pai não saía da casa. Estava sempre com oxigêno nas narinas, não dava. Sempre ficava alguém lá com ele. Conversando. Isso estava longe de ser um castigo. Era divertido. Ele observava todo mundo e tirava uns sarros muito bem sacados. Tocava violão. Discutia política. Seis anos antes, naquela mesma casa, assistimos juntos ao agora presidente Lula tomar posse. A casa dividia-se entre os que quase choravam de emoção e os que quase lamentavam que o final da luta que empreenderam durante décadas fosse aquele circo.

No dia 31, de noite, havia sempre outra divisão, entre os que queriam ir à praia e os que preferiam ficar em casa. Meu pai não tinha escolha. Eu e minha mãe ficamos. Nunca imaginaria que aquele seria meu último ano novo com ele. Nada indicava isso. Soubesse, e meu abraço teria sido dois milhões de vezes mais forte.

Dois trilhões.

Nada dizia que dali meu pai iria pro hospital pra não mais sair. Talvez não tenha sido prudente ir com ele à praia. Foda-se. Não dá pra ser prudente o tempo todo. O melhor fim de ano que tivemos em anos. Melhor que ficar em casa e morrer vendo o céu cinza dessa cidade escrota.

Pra mim, a imagem daquele fim de ano será, para sempre, meu pai tocando violão com a perna apoiada sobre uma cadeira, a camisa do Corinthians com a foto dele atrás, pendurada no encosto da cadeira. Acho que tenho uma foto disso.

***

Meu pai começou a ter uma crise de falta de ar no dia 1º. Pensamos que podia ser só uma gripe. Ele também. Precisamos ficar de olho, porque ele costumava diminuir os sintomas.

Daquela vez não deu.

Lá pelo dia 4, disse que não aguentava mais. Naquele dia, eu e minha namorada iríamos voltar pra São Paulo. Eu tinha que trabalhar. Ela nunca foi a maior entusiasta de praia. Pra falar a verdade, eu também. Voltaríamos de carona com um amigo da minha mãe, sua namorada e a filha.

Por volta de 7 da noite, eu e minha namorada esperávamos no ponto o ônibus para São Paulo. À nossa frente, passava o carro onde pegaríamos carona, com meus pais dentro. Dali, direto para o hospital.

Meu pai pediu desculpas por ter roubado nossa carona.

Eu quis pedir desculpas por não estar no carro com ele.

***

É difícil descrever a sensação de estar naquele hospital. Aquela rampa que insolitamente leva ao coffe shop e à UTI ao mesmo tempo. Você pode esperar a morte de seu familiar comendo uma deliciosa broa de milho com um cappuccino descafeinado.

Meu pai ficou pouco tempo no quarto. Logo foi pra UTI, dia 6 ou 7 de janeiro, eu acho. Minha mãe e eu discutíamos se devíamos chamar minha irmã da Austrália. Decidimos que sim.

Antes de vir, minha irmã chorou muito. Acho que de alguma forma todos nós já sabíamos. Inclusive ele. Um dia antes de ser entubado, da UTI, contrariando as normas sobre uso de telefones celulares, me mandou uma mensagem. Não a tenho mais para transcrever literalmente. Mas dizia que me amava. Como se precisasse.

Podíamos visitá-lo duas vezes por dia. Ele lutou muito contra a entubação. Queria ver minha irmã ao menos uma vez antes. Sabia que dali a volta era muito difícil. Todos sabíamos.

Não deu.

No dia em que minha mãe ligou pra dizer que ele seria entubado, eu estava trabalhando. Sinceramente, não lembro como cheguei ao hospital. Só lembro de estar lá.

Quando minha irmã chegou, ele já estava inconsciente. Sedado. Falávamos com ele. Os médicos diziam que não se sabe se podem ouvir ou não. Eu achava aquilo meio ridículo. Meu pai me criou materialista. Talvez demais. Talvez não.

Gente que gosta de assumir culpa e responsabilidade dos outros sofre sem sentido. Eu me sentia mal. De não estar com ele na hora da entubação. Não tinha como, os médicos não permitiram. E não houve tempo de chamar ninguém. Talvez se eu tivesse ficado naquele maldito coffe shop. Dormido lá, como cogitei. Foda-se o trabalho. Foda-se o trabalho? Quem eu queria enganar?

Um dia, diminuíram a sedação o máximo possível. Eu não estava lá. Estava trabalhando. Minha mãe e minha irmã puderam se comunicar com ele. Fiquei feliz, os dois mereciam aquilo. Minha irmã e ele. Precisavam. Mas eu não estava lá.

Porque eu não estava lá?

Foda-se o trabalho.

***

Se eu dissesse que 2009 foi um ano ruim, além de estar parodiando descaradamente John Fante, estaria mentindo.

Porque eu não posso dizer se 2009 foi bom ou ruim.

Em 2009, eu não estive aqui.

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Três

janeiro 23, 2010 · 2 Comentários

Ter perdido meu pai não me torna um herói. Nem um coitado. Longe disso, bem longe. Todo dia pessoas perdem pessoas. Às vezes sem morte. Isso sim é triste.

Não sou de vidro. Talvez escrever tudo isso faça parecer com que seja. Não quero olhares de dó nem perguntas “você está bem”. Socorro. Isso não é um pedido de socorro.

Meu pai era um cara engraçado.

***

Quando eu era pequeno, não gostava muito de Chaves. Queria ver Globo Esporte. Tinha que ver no quarto. A sala era dele. Tudo ao contrário. Normalmente as crianças é que querem ver programas infantis. Depois fui descobrir que Chaves não é exatamente um programa infantil. Quando cresci um pouco mais, meu pai me mostrou Monty Python, Caça-Fantasmas, Loucademia de Polícia, Trapalhões quando ainda era bom. Ele gostava de dar risada. De fazer os outros rirem.

Todo amigo meu que passava lá em casa ganhava um apelido. A maioria vinha do Chaves. Alguns de Carrossel, que minha irmã adorava. Ele tirava as pessoas do lugar de respeito pelo ambiente alheio e as colocava em casa. Um mecanismo interessante: desconcertar para desconcentrar. Dá pra usar isso numa guerra, se bobear. Se é que já não usaram. O que já não usaram numa guerra?

Uma coisa que herdei de meu pai muito bem foi a capacidade de observar e escutar o entorno. Pra fazer piada. Você estava conversando com alguém e de repente ele entrava no meio com alguma piada. No tempo certo, quase sempre. Uma vez minha mãe e minha irmã gritavam uma com a outra pela casa até que foram cada uma para seu quarto e minha mãe gritou, por final: “autoritária é a sua vó!”. Não deu outra: meu pai esperou menos de 1 minuto pra abrir a porta do quarto da minha irmã e dizer, tentando imitar o Chaves: “Luciana, sua avozinha era parente do Mussolini?”. Minha irmã não sabia se ria ou gritava.

Minha irmã, aliás, adorava fazer brigadeiro. Daqueles leite condensado com nescau mesmo. Nos lambuzávamos de comer. Era meio absurdo, até: mal o doce saía do fogo e já estavam 3 ou 4 crianças queimando a língua. Dava briga, às vezes. Os pais tentavam controlar daquele jeito observador, só pra garantir que ninguém se machuque. Meu pai nem tanto. Ele se preocupava mais com outra coisa: a tigela.

A tigela do brigadeiro sempre era largada em algum canto. Suja. Com o doce impregnando no vidro de forma a exigir água quente pra sair. Uma vez a tigela ficou em cima da pia. Meu pai pediu à minha irmã que lavasse. Um dia. Dois. Três. Cinco. Sete dias depois, minha irmã foi acordada às 7 da manhã por ele cantando “parabéns” com a tigela suja na mão, uma velinha em cima.

Mas meu pai sabia rir dele mesmo também. Contava de quando foi acampar na praia e se meteu a nadar no mar bravo pela manhã. Quase se afogou. Gritou por socorro. Os amigos fizeram uma corrente, dando as mãos uns aos outros, e chegaram até ele. O trouxeram para fora do mar e, quando ele abriu a boca, o primeiro deles começou a rir descontroladamente. Meu pai ficou sem entender. Pôs a mão na boca e… tinha perdido a dentadura.

Haviam em casa ainda as piadas prontas. Como quando minha mãe ia tomar banho. Era certeza que ela gritaria do banheiro para pedir algo. Ou para dizer algo. Quase sempre algo que poderia ser dito depois, ou pedido depois. Uma dessas vezes meu pai estava deitado vendo TV e ela chamou. Ele resmungou, mas foi lá. Era qualquer coisa inútil. Voltou puto da vida. Mal encostou a cabeça no travesseiro e ela chamou de novo. Ele voltou lá semi-enfurecido. Discutiram. Quando ele voltou, ficou andando de um lado pro outro. Eu prestava atenção na TV. Percebi que ele não se sentava, nem deitava, e perguntei porquê. Ele respondeu, “se eu deitar ela vai me chamar de novo”. Comecei a rir. Ele também. Esperou mais uns 2 minutos e deitou. Quer dizer, tentou: enconstou a bunda no colchão e veio o grito: “Cleeeeeeeeber”. Caímos na gargalhada.

Outra vez, minha namorada tinha dormido em casa e, de manhã, estávamos todos na sala, conjecturando sobre o café. Meu pai dormia. Ao menos parecia. Minha mãe pediu à minha namorada, brincando, que fizesse café. Ela respondeu que não sabia. Minha mãe questionou “como assim, você não sabe fazer café?”. Minha irmã fez o mesmo. Eu também. De repente meu pai levanta do colchão como um zumbi e quase grita, “COMO ASSIM VOCÊ NÃO SABE FAZER CAFÉ?”. O filho da puta sabia esperar a hora exata pra fazer graça.

Minha avó sempre me diz que eu sou meu pai escrito. Acho que ela quer dizer que me pareço muito com ele no jeito de agir.

Não sei.

Preciso conseguir fazer rir mais do que chorar pra isso.

***

Além do cigarro, meu pai era viciado em café. Um café nojento: no bar, quando pedia, ele jogava metade fora, completava com água fria e colocava, sem exagero, no mínimo um terço do copo de açúcar. Em casa, fazia o mesmo, com o agravante de deixar o copo sobre a geladeira por dias, tomando de gole em gole.

Era irritante quando ele me levava pra jogar no Corinthians. Ele tomava café no bar entre nossa casa e o ponto de ônibus. Pegávamos o ônibus, descíamos na avenida Celso Garcia e tínhamos que descer toda a rua São Jorge a pé. A rua São Jorge tem uns quatrocentos botecos. Meu pai tomava café em metade deles. Às vezes isso fazia com que eu chegasse atrasado, ou em cima da hora do jogo, o que significava ser reserva. Eu odiava aquilo. Um dia, com 13 anos, me revoltei. Já estávamos em cima da hora e ele parou no bar perto de casa. Fiquei puto, discuti com ele e saí andando. Peguei o ônibus e fui sozinho pro jogo. Cheguei em cima da hora. O filho da puta já estava lá me esperando. Tinha pego um táxi.

Meu pai nunca estava errado.

***

Em termos financeiros, meus pais formavam um equilíbrio arriscado. Fácil de ser rompido. Minha mãe sempre foi contida e precavida, pagando as contas em dia, guardando dinheiro pra eventuais emergências. Meio paranóica até. Meu pai era o oposto. Se empolgava com novidades e comprava. Até hoje temos trocentas peças de computador sem uso em casa.

Eu não reclamava muito. Pedia 5 reais pro meu pai e ganhava 10. Com a minha mãe era igual, só que ela me dizia pra gastar direito. Pra guardar o que sobrasse.

Quando eles se casaram, deram entrada em um apartamento no Piqueri. Anos depois, venderam a parte que já estava paga e compraram duas bancas de jornal. As bancas não deram certo, foram vendidas. Com o dinheiro, meu pai comprou um videocassete.

Minha mãe tinha um apartamento e acabou com um videocassete.

***

O Abu adorava minha irmã, mais do que eu. Era o cão dela. Depois, minha irmã foi pra Austrália. Eu já morava fora da casa dos meus pais. Minha mãe trabalhava. Meu pai, doente, em casa, virou seu companheiro de todos os dias.

Me lembro de quando chegamos da cremação de meu pai, exaustos. Física e emocionalmente. Abrimos a porta e não tivemos muitas forças pra fazer festa pro cão. Ele pulou um pouco em cada um. No meio da sala, ficava a cama onde meu pai dormia. Fomos nos trocar.

Quando voltei, Abu estava deitado sobre aquela cama, olhando pra porta. Não tinha chegado todo mundo. Faltava seu companheiro.

Não há palavras no mundo que possam expressar o vazio que vi em seus olhos.

Lembro que naquela noite dormi naquela cama. Abu, que nunca foi muito de colo, dormiu comigo, aos meus pés.

Sempre com os olhos virados para a porta.

Até hoje.

Como dizer a um cachorro que ele não vem mais?

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Quatro

janeiro 22, 2010 · 2 Comentários

Uns dois anos atrás, corri uma prova dessas de rua, 5 km. Não tinha feito preparação nenhuma, nunca. Só jogo bola aos fins de semana mesmo. Mas sempre quis correr uma merda dessas. Meu pai e eu sempre combinávamos de correr a São Silvestre um dia. Nunca fizemos.

No dia da prova, que começava de manhã, cheguei meio em cima da hora. Com uma guitarra na mão, ainda. Tinha ensaio depois. Sorte que tinha guarda volume pros atletas. Pra mim também.

A São Silvestre tem 21 km. Uma maratona, 42. Cinco devia ser moleza. Não foi. Lá pelo segundo meu corpo já pedia arrego. Os pulmões ainda não, mas os músculos sim. Terminei a prova querendo me deitar imediatamente. Me deitar e não me mexer nas próximas horas. Um 40 minutos depois, já estava melhor. E com o corpo todo relaxado. Os músculos soltos. Uma sensação foda.

Isso foi o mais perto que consegui chegar da agonia de não respirar direito. Meu pai não respirava direito. Foram seis anos nessa. Com a diferença de que nos últimos anos a sensação de querer se deitar era constante. E nada boa.

***

Meu pai foi internado três vezes. Duas delas, chegou a ir pra UTI. Na UTI conheci o Bipap. O Bipap é um aparelho que ajuda a respirar. Fiz uma letra de música sobre o Bipap. Nunca usei. Era aterradora demais.

No quarto do hospital tinha televisão e internet. Víamos bastante TV. De vez em quando eu pegava no sono e acordava com algum barulho. A teimosia e o orgulho faziam meu pai não me acordar se precisava de algo. Tentava se virar sozinho. Sempre foi assim. Eu ficava meio puto, mas entendia. Não dá pra tirar de alguém a vontade de ser livre. De se virar sozinho. Ir ao banheiro. Qualquer doença que restringe as atividades motoras é como uma prisão sem paredes. Eu não queria ser uma parede.

Da primeira vez que ele teve uma apnéia, foi assustador. Minha mãe tinha saído do quarto. Estávamos conversando. Meu pai começou a ficar azul, mas ainda ria. Tentava controlar a falta de ar. Percebi que algo não ia bem. Não queria ser parede, mas também não podia ser janela. Levantei pra chamar a enfermeira. Ele não queria. Ele nunca queria. Puta que pariu, o desgraçado estava morrendo e não queria incomodar as enfermeiras. Como se aquilo fosse incomodar. Era o trabalho delas, caralho!

Acabou se rendendo, e depois da enfermeira veio minha mãe, e depois o médico e a UTI. A maca entrou pela porta e ficamos, minha mãe e eu. Minha mãe sempre se proibiu de ficar doente. Não podia. O resto da família sempre estava. Ela tinha que cuidar de todos. Nosso anjo da guarda. E anjos da guarda tem que ser fortes. Naquela hora, ela passou a tarefa adiante. Virou pra mim e disse, chorando, que “agora não saberíamos que tipo de sobrevida ele vai ter”. Meus olhos apertaram, mas consegui segurar. Abracei-a e fingi ser homem. Nunca fui. Agora era preciso. Queria mandar ela à merda, sobrevida porra nenhuma, eu ainda ia correr a São Silvestre com meu pai. Ela saiu pra telefonar pra alguém. Pude chorar um pouco. Bem pouco, que mãe percebe fácil essas coisas.

A UTI é uma coisa estranha. Não tem janelas, não tem conexão alguma com o mundo lá fora. Como um shopping. Puta merda, que analogia bizarra. UTI e shopping. Mas faz sentido. O shopping também abriga pacientes terminais. A diferença é que o shopping te quer lá o tempo todo, se possível com toda a família. Na UTI a família só entra duas vezes por dia. Compreensível, mas ainda assim detestável. Seu parente está morrendo lá dentro e ainda tem que ficar sozinho. A sorte é que meu pai sempre foi muito bem humorado. Conquistava as enfermeiras. Os médicos também. Alguns. Porque a maioria faz questão de se sentir supra-humano. Acima. Vão à merda.

Sempre que eu ia dormir com meu pai no hospital, ele repetia a mesma ladainha. Que não precisava, que eu trabalhava cedo, que era desnecessário, que já tinha enfermeiras lá pra isso. Porra, ele não chamava as enfermeiras! E como se trabalhar fosse importante. Fosse melhor que estar lá com ele. Mas fazia parte de tentar manter seu orgulho, sua dignidade. A teimosia do meu pai era foda. Transformava a fantasia em realidade. Fazia ele acreditar que um dia tudo ia voltar ao normal. Não cumpria as etapas do tratamento direito. Apostava em uma cirurgia que revertesse o quadro. Nem dava pra culpar ele pela ingenuidade forçada. O tratamento era uma merda. Quase uma tortura. Agoniava só de olhar. Em um determinado ponto, ele parou. Parou de acreditar, de se enganar. Voltou a fumar. A cena era insólita: 24 horas por dia no oxigênio, e fumando. Mentia para os médicos, ainda querendo a cirurgia. Precisava estar bem pra cirurgia. Sabia que não estaria.

Dizem que alguns animais sentem quando estão prestes a morrer e se afastam do grupo. Sabem que chegou a hora. Vão pra bem longe. Meu pai era um desses animais. Mas não se foi, ficou com a gente. Fazia alguma fisioterapia, pra confortar a gente. Tenho certeza. Ele gostava da fisioterapeuta. A gente também. E ela da gente. Até hoje nos falamos. É como se fosse da família.

Da última vez que esteve na UTI, meu pai me pediu pra anotar alguns nomes num caderninho. Eram os nomes das enfermeiras e médicos que o atendiam. Nunca me disse pra quê. Sempre achei que era pra agradecer por tudo. Da vez anterior, ele reclamara com a gente de que estava sendo mal-tratado. Dizia que reclamava de dores e ninguém lhe atendia. Ficamos preocupados, o hospital era muito bom, sempre tinha sido. Conversamos com alguns médicos e enfermeiras. Era possível que as drogas estivessem alterando seu estado psíquico. Eram fortes demais. Mais do que aquilo seria perigoso. Quando saiu, achei que se sentiu um pouco culpado das acusações. Em dúvida sobre o que tinha acontecido. Era o limite, para ele: já não tinha controle físico sobre o corpo, perder o controle mental era demais.

Da última vez, meu pai sabia que se ia.

E eu perdi a merda do caderninho.

***

Quando eu penso na UTI, o que eu mais lembro são cheiros.

No final, meu pai tinha as veias do corpo todas arrebentando. Estavam fracas. Não seguravam mais.

Nunca vou esquecer o cheiro do sangue do meu pai.

***

Era raro, muito raro mesmo, ver meu pai chorar. Quando minha avó morreu, eu estava na rua. Ele me ligou. Disse que ela tinha morrido. Minha reação foi parar imediatamente. Não acreditava. Perguntei se estava brincando. Ele respondeu, meio puto, que não brincaria com isso. Voltei pra casa correndo. O encontrei no computador, como sempre. Perguntei se estava bem. Disse que sim. Entendi que ele precisava de espaço. Fui para a sala.

Uma meia hora depois, voltei ao quarto. Meu pai chorava um choro contido. Tinha perdido a mãe, que não via havia alguns anos. Ela morava no Rio, ele em São Paulo. Ambos doentes, sem poder viajar.

No dia seguinte, pela manhã, fomos de ônibus pro Rio. Mesmo sabendo do risco. Ele precisava.

No enterro da minha avó, chorei mais pelo meu pai do que por ela.

***

Sempre ouvi, e ainda ouço, muita gente reclamar dos pais. Da relação com eles. Diriam os psicólogos que é normal, faz parte dos estágios que eles gostam de traçar pra nossa vida. A psicologia é divertida.

Claro que eu já reclamei também. Porra, eu já fui adolescente. Eu disse que a infância foi a pior merda que a humanidade já inventou, mas foi só porque eu esqueci da adolescência.

Me disseram esses dias que esses textos fazem chorar ao ler. Também fazem ao escrever, se isso serve de consolo. A grande coisa é que meu pai não era só meu pai, era um amigo. O mais antigo de todos. O mais sábio. O mais acolhedor. A humanidade define e redefine alguns papéis sociais, faz isso o tempo todo. Meu pai pegou o de ser pai e o fez do jeito dele. Fez mais do que pediam. Muitas vezes, mais do que podia.

Um desses clichezinhos babacas que as pessoas gostam de repetir diz que amigos são a família que você escolhe.

Que merda.

Eu não escolhi meu pai.

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Cinco

janeiro 21, 2010 · 8 Comentários

Devo ter perguntado milhões de vezes pros meus pais como eles se conheceram. Nunca lembro a história completa, que já ouvi deles e dos amigos. Mas lembro que meu pai sempre falava que se apaixonou pelos pés da minha mãe, “tão pequenos”.

Uma relação que dura tanto tempo obviamente vai ter altos e baixos. Muitas vezes acaba só com baixos. Mas quem está vendo de fora consegue perceber que ainda há respeito e carinho. Meu pai tinha um respeito enorme pela minha mãe. E carinho também. Eu sei disso, eu via nos olhos dele. Não só nos olhos, nos atos também. Muitos dos quais ele praticava em silêncio, ou só com os filhos, mas que tinham como alvo principal a minha mãe.

Fico imaginando os dois jovens. Os tenho nessa época, talvez pouco antes de se conhecer, tatuados no braço. Meu pai sempre tocou violão. Aprendeu sozinho quando era moleque e teve hepatite. A obrigação de ficar em casa o levou a comprar aquelas revistinhas que ensinam a tocar. Talvez por não ter tido professor nunca soube ser um. Queria me ensinar mas não tinha paciência alguma. Virei baterista. Hoje toco guitarra sem saber fazer um único acorde. Não propositalmente. Não tenho orgulho disso. Mas em compensação consigo “inventar” um acorde e saber se ele soa bem ou não. Que coisa mais simiesca.

Com certeza a música ajudou meu pai com a minha mãe. Ele tocava bem, cantava legal. Tinha conhecimento e bom gosto pras coisas. As festas dos amigos de militância lá em casa, ou na praia, ou na casa dos outros, sempre o tinham como DJ. E como músico ao vivo, dependendo da quantidade de álcool. Era uma autoridade conquistada com o tempo. Às vezes um pouco imposta demais. Ainda temos em casa centenas de discos de vinil, sobreviventes de uma das enchentes por que passamos em Pirituba.

Apesar disso, meu pai sempre foi um faminto por novas tecnologias. Não era um saudosista do vinil. Quando eu tinha 12 anos comprou um XT. Provavelmente os gênios que hoje trabalham com informática nem saibam direito o que é um XT, ou nunca tenham visto um. Daí pra frente foram vários computadores. O resultado é que no fim da vida meu pai gravava CD’s e DVD’s mil. Os DVD’s eram de filmes que ele considerava excepcionais, e de séries de comédia. Muita coisa boa. Os CD’s eram de música. Meu pai adorava gravar música para os outros. Era uma forma de dizer coisas. Música é linguagem universal. Quase todo mundo que era mais próximo tinha um CD do meu pai com o nome “Procês”.

Meu pai tinha uma música para cada pessoa da família, até pro cachorro. Ele mesmo compunha. Cantarolava pela casa. Pra minha mãe, ele tinha várias. Nunca me disse isso, mas eu sei. Era pra ela.

“Se você vier
Pro que der e vier comigo
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco

Se branco ele for
Esse tanto esse canto de amor
Se você quiser e vier
Por que der e vier comigo”

***

Sempre tive a mania de olhar, e julgar, as pessoas pelo tênis. Pelo tênis porque moro em São Paulo, fosse no Rio e seria pelos pés. Quer dizer, não é um julgamento moral, bom ou ruim, certo ou errado, maniqueísta assim. É um julgamento de se a pessoa me interessa, me passa através da escolha do que colocar nos pés algo interessante. Claro que isso não define nada. Mas faço, e por isso tem esse nome, mania. Um estudante chato de psicologia iria me dizer que faço isso por causa da história dos pés da minha mãe. Que estou buscando os pés dela. Repito: ninguém precisa de um psicólogo.

Eu nunca fui muito bom com as mulheres. Quer dizer, isso é relativo. Provavelmente eu tenho mais amigas com quem consigo conversar e ir além do superficial do que amigos. Provavelmente. Mas às vezes eu queria ter menos amigas. Ou amigas mais coloridas. Ao menos uma.

Uma vez eu tive uma namorada. Uma vez. Durou bastante, acho, 3 anos e meio. Meu pai a conheceu. Quando ele morreu, ainda estávamos juntos. Ele adorava ela. Era outra das receptoras das mensagens de texto. Sempre lembro de uma: “Faço  saber a todas que à mulher que acompanha e aquece o meu filho querido, eu me curvo, pois é para mim uma rainha”. Não sei se é alguma citação, pra mim é uma mensagem de texto. Das mais bonitas que eu já enviei para uma mulher. Mesmo que tenha sido ele.

Quando namoros terminam, as pessoas costumam dizer que perderam umas às outras. Eu não perdi nada. Se há beijos e sexo ou não, pouco importa.

***

No velório de meu pai, um CD “Procês” tocava ao fundo no rádio velho da minha irmã. Tinha músicas calmas, mas de repente entrava uma marchinha de carnaval que constrangia os presentes. Aquilo me divertia. Tinha certeza que meu pai daria risada também.

Fechamos o velório à noite. Em casa, tive que escolher três músicas pra tocar durante a cremação. Escolhi quatro. Não sozinho.

O último ato de comunicação de meu pai com o mundo passou pela minha mãe. Que nunca soube tocar violão.

Não precisava.

“Eu venho das dunas brancas
Onde eu queria ficar
Deitando os olhos cansados
Por onde a vida alcançar
Meu céu é pleno de paz
Sem chaminés ou fumaça
No peito enganos mil
Na Terra é pleno abril
Eu tenho a mão que aperreia, eu tenho o sol e areia
Eu sou da América, sul da América, South America
Eu sou a nata do lixo, eu sou o luxo da aldeia, eu sou do Ceará

Aldeia, Aldeota, estou batendo na porta prá lhe aperriá
Prá lhe aperriá, prá lhe aperriá
Eu sou a nata do lixo, eu sou o luxo da aldeia, eu sou do Ceará
A Praia do Futuro, o farol velho e o novo são os olhos do mar
São os olhos do mar, são os olhos do mar
O velho que apagado, o novo que espantado, vento a vida espalhou
Luzindo na madrugada, braços, corpos suados, na praia falando amor”

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Seis

janeiro 20, 2010 · 4 Comentários

Fiquei com a impressão ontem de ter estragado o texto com aquele poema final. Que nem é meu, diga-se, só adaptei. Não que eu ache o poema ruim, mas ficou meio fora de lugar.

Fora de lugar. Quem nunca se sentiu fora de lugar?

***

“No tengo bandera ni nación
no hablo tu idioma, soy un animal.
Vivo y muero en cualquier lugar
tengo sexo con quien quiero, si se da

Porque yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral

Con el corazón abierto voy
corro el riesgo si me quieren lastimar
veo el aura, leo tu intención
tengo instinto y se cuando debo ladrar

Por que yo soy una especie diferente a vos
y cuando quiero me voy sin una explicación
no necesito reglas, no necesito moral.
No puedo entender a esta humanidad
seres racionales y el poder los hace matar

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque amo como perro
y te huelo como perro
y te cojo como perro, soy un perro

Porque tengo ojos de perro
porque veo como perro
porque pienso como perro, soy un perro
porque siento como perro
mis amigos son los perros
y me junto con los perros soy un perro
soy un perro…”

Quando eu era bem pequeno, meus pais me levavam pros comícios do PT. E pras bocas de urna, também. Os dois faziam parte dos movimentos de esquerda que acabaram gerando o partido. Não me lembro de muita coisa, só de bastante vermelho. Desde criança minha cor preferida é vermelho. Vai ver é por isso.

Mais tarde um pouco, comecei a me interessar por música. Não pagode, axé, essas merdas. Música. Entrei pelo rock brasileiro farofa, Titãs, Skank. Depois fui pro rap de playboy, Gabriel O Pensador, e pro rap de verdade, com Racionais. Me interessava mais as letras do que a música. E nesse caminho encontrei o punk.

O punk sempre rendeu discussões inflamadas com meu pai. Ele tinha na cabeça aquela imagem de punk fazendo merda, sendo estúpido, quebrando, cuspindo, enchendo o saco. E eu entrei no punk por outro caminho, mais moderno, mais pela atitude do que pela música ou pelo visual. A atitude punk era ter orgulho de estar fora de lugar. Eu estava fora de lugar. Mesmo com meu pai, que defendia idéias trotskistas quase sempre, enquanto eu me interessava pelo anarquismo, mais livre, menos programático. Não fosse isso, não fosse esse conflito, e talvez o punk tivesse se tornado pra mim só a estética. Mas pra contrariar meu pai tive que ir atrás de informação, explicar aquele A na jaqueta, o cabelo ridículo, a roupa militaresca rasgada. Também porque os amigos dos meus pais eram todos dessa esquerda que se fodeu com a ditadura, então os encontros de família e amigos sempre traziam conversas de esquerda, e pra participar – e adolescente virgem deslumbrado sempre quer participar – eu precisava saber contrariar.

Algo que eu considero uma das coisas mais realmente revolucionárias do punk é a liberdade que ele te dá pra fazer parte dele. Parte de qualquer parte dele. Você pode tocar bateria sem nem saber o nome das peças. Organizar shows sem saber como ligar o amplificador. Ser a banda, o público, o produtor, tudo ao mesmo tempo. No lugar dos lugares estritamente delimitados, das tarefas restritas e restritivas, o caos de se fazer, de ter que fazer tudo por conta própria. Porque era isso ou não era. Não era punk. Ao invés de depositar dinheiro e confiança em organizações estranhas com estruturas definidas, o punk te encorajava a construir a sua própria. Falo no passado porque hoje já não sei mais, não participo tanto. Não que seja algo de época, não sou tão velho e recalcado ainda pra dizer que punk era o que eu fiz e o que eu vivi e não o que há agora. Mas talvez as oportunidades, as portas de entrada pra coisa toda sejam outras, tenham mudado, e esteja mais difícil de se encontrar quem passe pela porta do fazer você mesmo tudo, tudo mesmo.

Nunca houve tanto espaço e tanta condição material pra se ter show punk e ao mesmo tempo tão pouca gente fazendo a coisa acontecer lá de baixo. Vai ver o punk ficou fora do lugar de menos.

***

Lembro da primeira vez que vi aquela massa negra ensurdecedora. Lembro perfeitamente. Ali virei corinthiano. Ali resolvi tocar bateria.

Diferente da maioria das histórias de futebol, eu não torço pro time do meu pai. Meu pai aprendeu a torcer para o meu. Carioca, Fluminense desde pequeno, se casou com uma paulista e se viu frente ao problema quando o filho nasceu: pra que time o moleque vai torcer? Resolveu da forma mais democrática que conhecia, herdeira do passado de militância. Me apresentou aos times da cidade e me levou em um jogo de cada. Não precisei ir além do segundo. Nem ele, aliás.

Numa coisa meu pai destoava dos comunistas irritantes que conheci na universidade: ele adorava futebol. Adorava mesmo. Contava histórias muito boas, de Castilho, goleiro mítico do Fluminense; da vez que se viu abraçando loucamente uma torcedora que estava com o namorado botafoguense vendo a final no estádio enquanto este se sentava pra lamentar o gol sofrido no último minuto; de Pelé; da Copa de 58 ouvida no rádio, com 9 anos; de vários jogadores que a mídia esportiva faz questão de não lembrar. Me levou a jogar bola desde cedo. Bola e tudo que envolve futebol. Uma das coisas que mais me arrependo é de ter perdido nas mudanças de casa um saco enorme com times de botão que ele guardava desde a infância. Eram botões feitos por ele mesmo, com casca de côco, tampas de relógio, fichas de ônibus que se usava na época. Todos tinham nome.

Desde pequeno, desde 1990 pra ser mais exato, eu decidi que seria jogador de futebol. Vi minha mãe chorando com o gol de Cannigia nos tirando da Copa do Mundo e prometi vingança. Naquele mesmo ano, o Corinthians levou o Brasileirão, com Neto, Ronaldo, Wilson Mano e Tupãzinho. Eu não precisava daquilo, a torcida já tinha me conquistado. Mas ganhar aquele título e daquele jeito com certeza ajudou a solidificar meu corinthianismo e meu jeito de jogar bola dando muito mais importância pra vontade e pra raça do que pra habilidade. Ironicamente, o amigo mais próximo de meu pai tinha feito o caminho inverso: palmeirense, paulistano, casou com uma flamenguista. Os filhos, todos palmeirenses, meus quase-irmãos, um pouco mais novos que eu, cresceram com a geração Parmalat, que montou supertimes no rival. Não por acaso, jogavam muita bola, muita mesmo. Jogam ainda. Mas nenhum de nós virou jogador. Eu porque não era bom o suficiente. Eles porque tinham escrúpulos o suficiente.

Meu pai era um filho da puta com futebol. Em 1986, com o Palmeiras na final do Paulistão contra a surpresa Inter de Limeira, a torcida alviverde tinha certeza de que a fila, que já chegava aos 10 anos, iria acabar. Esse amigo do meu pai também. Deu Inter. Morando no mesmo prédio, meu pai não teve dúvida: desceu até o 3º andar. Chegou lá e a conterrânea carioca abriu a porta já começando a rir, mas implorou por bondade, como se carioca conhecesse bondade na hora de cutucar o rival no futebol. O amigo estava prostrado em frente à TV, desolado. Meu pai resolveu que “só queria uma xícara de açúcar pra Célia terminar o bolo”. A carioca jogou o jogo segurando o riso, sabendo que não podia ser só aquilo. E não era: fechada a porta, açúcar na mão, da janela do corredor meu pai gritou: “CORINTER!”. Não contente, datilografou depois uma carta “consoladora” em que usava todos os nomes dos jogadores da Inter em trocadilhos. Nunca enviou. Teve piedade.

Não que o amigo não merecesse. Em 1984, na primeira rodada do campeonato, o jornal televisivo anunciava que o rival do Fluminense estava preocupado com o ataque tricolor. Era o Casal 20, Washington e Assis. O amigo palmeirense ridicularizou, meu pai ouviu calado. Meses depois, calhou de haver uma festa em casa no dia da final. O Flu levou o título. E o amigo teve que escutar o hino na vitrola pelo menos umas 20 vezes no repeat.

O dono santista da banca de jornal também sofria. Era o Santos perder e meu pai ligava pra banca. O cara atendia e ele não dizia nada, só soltava um risinho sacana. Anos e anos a fio. Se o santista descobriu, sempre fingiu que não sabia de nada. Meu pai era um dos melhores clientes. O dinheiro venceu mais uma vez.

Lembro também de que eu tinha um amigo são-paulino, um gordinho folgado canhoto, habilidoso. Ia lá em casa e meu pai repetia o mesmo ritual que tinha com todos os meus amigos: tirar um sarro, deixar o cara se sentir à vontade. Depois de um tempo, os moleques ficavam ousados, começavam a tirar uma com o Fluminense, que nos anos 90 não teve lá muitas glórias. O camisa 9 tricolor, Ézio, era sempre alvo de piadas. Meu pai então fazia os moleques cantarem o hino do Flu. Um teve que repetir cinco vezes do lado de fora de casa até ter permissão pra entrar.

Esse amigo gordinho acompanhava meu pai e eu quando ele me levava pra jogar. Morávamos já na Lapa, e o Palmeiras era bem perto; mas o coração era alvinegro, e o Corinthians ficava na zona leste. Meu pai resolveu a questão se associando aos dois clubes. Eu ia pro Palmeiras de dia de semana, depois da aula, várias vezes com o gordinho como convidado. Jogava futebol de salão. Certa vez fui assaltado na entrada: levaram meu uniforme da escolinha. Nunca fiquei tão pouco puto de ter sido roubado.

No Corinthians, jogava futebol de campo, aos fins de semana. O gordinho lá também ia de convidado. Um dia se esqueceu e foi com um calção do São Paulo. Achamos que pudesse acontecer algo, mas ninguém falou nada. Essa geografia do clube duplo levava meu pai a exercitar sua raiva do rival. Comparava sempre as situações vividas dentro dos dois clubes. O Palmeiras não deixava meu primo entrar no clube com uma camiseta do Flu. No Corinthians, o gordinho ia de calção do São Paulo. No Palmeiras, um diretor berrava pra seu filho de 8 anos quebrar a perna do rival num jogo de futsal.  O Corinthians era o time da Democracia Corinthiana. Não deve ter sido uma escolha difícil pra quem militou contra a ditadura. Sem falar que a trimensalidade no Corinthians era mais barata que a mensalidade no Palmeiras.

Mais velho e doente, começou a ter que ficar sempre em casa. Assistia documentários e mais documentários. Fazia questão de me contar os mais interessantes, o que me irritava às vezes. Era uma alma comunicativa presa em um corpo já débil. No intervalo dos documentários, havia Chaves, as séries de comédia e os programas esportivos. Todo dia então vinham as mensagens de texto pelo celular: “Vai passar na TV um filme chamado Seres Rastejantes; deve ser sobre o Palmeiras…”, ou “Apelido do Cristiano Ronaldo em Portugal: Puto Maravilha!”, ou ainda “A goleira da seleção paraguaia é da altura da sua mãe, hehehe… ela deveria tentar o futebol pebolim”.

Quando eu era mais novo, tinha asco da idéia de ter um filho. Não queria. Não nesse mundo.

Hoje, a cada mensagem de texto que eu não recebo mais, cresce a minha vontade de ser pai.

***

“Pai
02-Dez-07 19:22

A mente aberta, a palavra certa e o coração esperto!
Força, Timão! Glória Timão!!!”

Uma vez, em 1991, entrei de mascote com o time, mãos dadas com Ronaldo. Eu ainda queria ser goleiro. Meu pai chutava uma bola de plástico pra que eu defendesse. A enorme janela da sala da casa em Pirituba era o gol.

Dezoito anos depois, pisei o gramado outra vez. O estádio estava tão vazio quanto meu coração. Os gols nem sequer tinham rede. Carregava meu pai nas mãos. O deixei ali, no banco de reservas, pra sempre. O hino, cantei em silêncio.

Hoje tem jogo. Vou lá.

Ver meu pai.

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Sete

janeiro 19, 2010 · 4 Comentários

Às vezes é preciso escrever. Preciso, mesmo. Essa é uma dessas vezes.

Já faz quase um ano. Parece muito mais. Talvez eu nunca tenha conseguido de verdade pensar sobre isso, fazer o que eu faço de melhor e de pior: racionalizar. Bater de frente com as emoções e colocá-nas numa coleirinha, por mais que ela vá arrebentar uma hora. Há um certo mecanismo que atrai e repulsa quase que no piloto automático sempre que o assunto me vem, e não há dia que não venha.

Sempre tive problemas de ansiedade, então eu faço listas – e não, não digo isso pra parecer que quero fazer referência ao Alta Fidelidade. Foda-se o Alta Fidelidade. É bom pra caralho, mas foda-se, não tenho nada a ver com isso. Minhas listas são bem mais banais e chatas. São pra lembrar o que tenho que fazer – como se eu fosse esquecer. Eu nunca esqueço nada quando se trata de coisas que tenho que fazer. Isso cansa. Responsabilidade cansa. E vicia. Você acaba pegando a dos outros pra si.

Mas voltemos às listas. Eu as faço, primeiro mentalmente, muitas e muitas vezes, até chegar num ponto em que me sinto agoniado por estar repetindo a mesma merda em silêncio na cabeça como se fosse um mantra e passo pro papel. O papel vai pro bolso, e depois outro e mais outro, até que o bolso fique cheio demais e comece a me incomodar na hora de sentar no ônibus. Caralho, que coisa mais escritório: listas, repetição mental e pilhas de papéis inúteis. Geração Coca-Cola merda nenhuma, geração escritório. Que merda. Mas comigo sempre foi assim, provavelmente sempre será. No último Natal, tentei comprar um caderninho pra anotar as coisas, deixar de juntar papel no bolso, mas minha cachorra comeu antes que eu escrevesse qualquer coisa. Cachorros são assim, sempre guardando seus donos pra não deixar eles fugirem do que realmente são. E eu sou meus papéis, também. Meus papéis, minhas listas, minhas responsabilidades aumentadas. Cacete, já fui de novo pra longe.

Repito às coisas mentalmente, já disse. Sempre repeti. Mas nesse ano essa ação obssessiva-compulsiva veio acompanhada de uma auto-sabotagem frequente. Qualquer lista que eu crie ou repita começa sempre igual, com a mesma palavra, a mesma lembrança. No começo, pensava que não era nada demais. Resquício do número de vezes que as três letras apareceram no papel antes, era algo frequente, por isso sempre volta à tona agora. Tento me convencer disso, mas o fato da palavra em questão vir sempre acompanhada da idéia de um telefonema me incomoda. Um telefonema é um ato de comunicação, então talvez não seja só ato falho, talvez seja um recado do fundo da minha mente, me dizendo olha, não vou te deixar esquecer, você precisa entrar em contato. Acontece que o contato é impossível agora, então eu auto-saboto esse eterno primeiro item da lista e vou pro segundo, sempre algo mais prático como comprar comida pra cachorra.

Porra, isso ficou confuso demais. Preciso deixar de encher o meu próprio saco. Escrevo, releio e penso, que merda, pra que tudo isso pra dizer algo tão simples? Aí vou e apago. Mas dessa vez não vou apagar. Chega de apagar.

O lance é que nesse ano quase inteiro que se passou desde aquela chuva o mesmo nome me vem a cabeça. O mesmo nome ligado ao mesmo ato. É algo mais ou menos assim, o que preciso fazer hoje… bom, tenho que ligar para… não, porra, não dá. Não mais. Vamos em frente, antes que eu me deixe convencer de que preciso de um psicólogo.

Ninguém precisa de um psicólogo.

***

Sempre que eu me encho de um assunto, coloco três asteriscos e passo pra outra coisa. Não sei onde aprendi isso, se é que isso é algum tipo de aprendizado, mas faço isso. E aqui vou eu.

Escrever na primeira pessoa do singular, contando fatos da própria vida, é o jeito mais fácil de prender a atenção de alguém. Fica parecendo que é algo único, olha só o que esse cara fez/passou/viveu, quando na verdade é na maior parte do tempo uma enrolação em cima de idiotices e banalidades. Pensa bem, que grande coisa eu disse aí em cima? Porra nenhuma, fala sério. As pessoas vem me falar que eu escrevo bem e eu sempre fico pensando que elas precisam ler mais. Mais livros, menos manuais. Mas tá certo, elogios são sinceros às vezes. Às vezes.

Eu pensei em enrolar até o fim do texto sem dizer exatamente sobre o que eu quero falar, mas essa idéia de manipular os poucos coitados que vão chegar a ler isso aqui me torna um filho da puta, e eu nem sempre quero ser um filho da puta, então vou ser direto: faz quase um ano que meu pai morreu. Faz quase um ano que eu morri, de fato. O que existe depois de 25 de janeiro de 2009 é no máximo um simulacro do que existiu antes. Como aquela luz de gerador que acende meio esquálida quando a luz elétrica acaba. Só que o gerador tá indo pro saco e a luz ainda não voltou, então é bom ir acendendo as velas. Por mais exagerado e catastrófico que isso pareça.

De certa forma, este texto é pra mim a caixa de fósforos. Preciso ser honesto e dizer que eu não sei o que eu quero dele. Não sei se será melancólico ou superador. Eu não sei. Se você já encheu o saco de ler, esquece, pode parar, eu não sei se no final a caixa vai pra gaveta junto com as velas, a luz volta e nós vamos jogar videogame ou se risco o fósforo e ponho fogo em tudo de uma vez.

Meu pai gostava de jogar videogame, desde a época do Atari. Eu tenho um Atari até hoje, que dei de presente pra ele uns anos atrás. Me lembro dos sacos de controles quebrados e dos milhões de fitas empoeiradas que fomos até a Lapa trocar por poucos e míseros jogos de Super Nintendo. Caralho, aquilo deve ter doído nele, imagino. Toda uma história trocada por uma merda de videogame novo pro filho mimado. Mas sem essa de martírio, ele fez por que quis. Me fez por que quis. E eu tenho certeza de que morreu feliz de ter feito. Pelo menos um pouco.

Lembro de que quando eu era bem pequeno meu pai ligava o Atari com o Chess antes de ir trabalhar. Fazia uma jogada contra “a máquina” e trocava o chaveamento de volta pra TV. De noite, quando chegava da merda do banco, ligava o videogame de novo e fazia mais alguns movimentos. O jogo durava dias. Eu não entendia porra nenhuma. Mais pra frente ele tentou me ensinar xadrez, me falou das grandes jogadas, dos tipos de saída, dos grandes jogadores, do Casablanca (era esse o nome?) que aprendeu a jogar bem moleque só observando o pai. Mas xadrez requer paciência e concentração, e eu sempre fui ansioso, já disse isso. Meu pai também não tinha muita paciência, então eu nunca passei de saber mexer as peças. Uma época aprendi aquela saída em que você dá cheque-mate em três jogadas, e aí parecia criança com piada nova, queria fazer toda hora. É, eu era uma criança com piada nova.

Na verdade é uma mentira dizer que meu pai não tinha muita paciência. Ele não tinha paciência nenhuma. Era o cara mais turrão e teimoso que eu já vi. Mas nunca deixou de ouvir, mesmo que inventasse argumentos esdrúxulos pra não dar o braço a torcer. Nossas conversas quase sempre acabavam em discussão, e depois de meia hora ele vinha dizer alguma coisa que, tortuosamente, nas entrelinhas, significava “ok, entendi seu ponto, ele tem alguma validade”. Era o máximo que eu conseguia tirar dele. Mas tinha vezes em que eu estava indo dormir e aproveitava pra dizer alguma coisa, e aquilo virava uma conversa até quatro da manhã. Daquelas que você nunca esquece e que eu fiz questão de esconder por todo esse ano.

Pensando bem, o fato é que eu era um cagão pra expor meus conflitos e pedir ajuda e ele fazia pose demais pra escutá-los e dar algum conselho. Mas funcionava.

Não sei se devo tornar isso aqui público. Acho que devo. Porque que coisa mais idiota é escrever pra você mesmo. Coisa de adolescente que tem diário. Ou melhor, nem isso, porque tudo que adolescente quer é que a pessoa certa leia seu diário. O problema é que quem lê é sempre a errada, o irmão mais novo que faz questão de ser um imbecil e espalhar pra todo mundo os podres, ou a amiga que agora é ex-amiga por motivos óbvios. Amizade de criança é uma coisa curiosa, completamente interesseira. Até cachorro é mais leal. A infância é uma das piores merdas que a humanidade já inventou.

Sim, eu gosto de cachorros, talvez num nível um tanto doentio. Meu pai também gostava. Fingia que não, dava bronca, mas no final da vida o que ele mais curtia era nosso cachorro pedindo comida e carinho pra ele. Era a companhia mais fiel que ele tinha. Porque por mais que a gente também estivesse lá, não dava pra estar sempre lá. A humanidade insiste em arranjar compromissos chatos e entediantes pra poder se sentir sozinha e escrever textos enfadonhos sobre a ausência da vida em família. Ausência que projetamos nos cachorros e gatos, que um dia morrem, como se isso fosse algo muito inesperado, e nos proporcionam boas oportunidades de ganhar dinheiro contando histórias de quão fiéis eram nossos companheiros.

Cacete, que coisa triste nos tornamos: dependentes químicos de afeto animal instintivo. Exploradores cínicos disso. Pobres cachorros.

“Na hora de por a mesa, éramos cinco: meu pai, minha mãe, minha irmã, nosso cachorro e eu. Depois, minha irmã casou-se. Depois, meu pai morreu. Hoje, na hora de por a mesa, somos cinco. Menos minha irmã que está na casa dela, menos meu pai, menos minha mãe viúva, menos nosso cachorro velho e solitário dormindo em qualquer canto, cada um deles é um lugar vazio nesta casa onde como sozinho, mas estaremos sempre ali. Na hora de por a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco.”

***

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SS Decontrol*

outubro 27, 2009 · 8 Comentários

Terça-feira, 27 de outubro de 2009.

Após um agradável final de semana estendido, saio – atrasado – para trabalhar.

O relógio marca já 7h25.

Ao fechar a porta de meu apartamento, no primeiro andar, começo a escutar ao longe gritos de desespero.

Apuro a audição para descobrir de onde vem. Parecem vir de cima, e se aproximando.

Passo pelo elevador para pegar a escada – afinal, só imbecis descem do 1º andar ao térreo de elevador – e percebo que é de lá que vem os sons de desespero.

Ainda não são cognitíveis as palavras berradas por, ao que parecia, uma mulher.

Num timing perfeito, chegamos ao hall de entrada do prédio juntos. Vejo a porta do elevador se abrir e de lá sair a dita cuja, 30 anos no máximo, aos berros:

- AAAAAAAAAAAAAAARGH! QUEM FEZ ISSO EM VOCÊ??? QUEM FEZ?!?!?! VAMOS PRA POLÍCIA AGORA!!!

Imagino a cena: a namorada – afinal, vivo próximo ao Largo do Arouche, casais gays são tão comuns quanto os héteros – chegando em casa cheia de hematomas.

O porteiro se aproxima, assustado.

De dentro do elevador, uma voz de criança quase chora:

- Não, mãe, vamos subir, mãe!

Teria sido o pai o espancador?

A mãe, em profundo desespero, deixa o celular cair no chão. Em dúvida entre apanhá-lo e tentar puxar a filha para fora do elevador, esta escapole e, com a ajuda do hábil porteiro, fecha a porta do mesmo. A mãe se vira para ele:

- QUAL O TELEFONE DA POLÍCIA? QUAL O TELEFONE DA POLÍCIA???

- Não sei, não sei.

Então, ela se vira para mim:

- QUAL O TELEFONE DA POLÍCIA, MOÇO?

O porteiro me olha com uma cara de “não faça isso, amigo”:

Eu:

- Não sei… não sei.

A mulher se volta pro porteiro, e de repente a tragédia familiar se desfaz:

- ELA COLOCOU UM ALARGADOR!!! ESSA MENINA TEM SÓ 12 ANOS, DAQUI A POUCO APARECE GRÁVIDA!!! ELA VAI PRA FEBEM!!!

- Mas quem deixou?

- AH, EU NÃO SEI! ESSA MENINA VAI APANHAR! EU VOU ESPANCAR ELA! VOU MATAR!!!

Então, tentando estabelecer a ligação entra um alargador, a FEBEM e a polícia em meio ao costumeiro sono matinal, desço as escadas com certa dose de desdém e vergonha alheia por tamanho ESCARCÉU ÀS 7H DA MANHÃ.

Não sem lamentar antecipadamente pela surra que a pobre menina estava prestes a tomar simplesmente por querer ser como as outras de sua idade, o provável escândalo na loja do irresponsável que colocou o alargador – se é que ela não o fez sozinha em casa com a ajuda de algum/a amigo/a ou da internet – e o desconforto vindouro nas próximas vezes em que cruzar com a mãe pelo prédio.

E me vou para o trabalho.

Desvinculado da necessidade do café para acordar depois daquilo tudo, tomo o ônibus para o Vale do Anhangabaú ao som de Cartola imaginando a cena:

- Alô, e da Polícia? Minha filha de 12 anos colocou um alargador, vocês poderiam por gentileza vir até aqui e levá-la para a FEBEM depois que eu terminar de espancá-la?

Pensando bem, eu deveria ter dado o telefone. Vai que a polícia, num (raro) ato de bom senso, não leva a mãe pra arejar a cabeça…

Tem gente – muita – que não deveria reproduzir.

***

*SS Decontrol, ou SSD, ou ainda Society System Decontrol, foi uma banda punk que tocava hardcore em Boston na década de 80 cujo nome e a agressividade da música foram as primeiras coisas que me vieram à cabeça ao sair pela portaria do prédio.

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É sábado!

outubro 22, 2009 · Deixe um comentário

Amigos e amigas,
é sabado o primeiro show da Cinco, a banda meio guitar, meio punk em que toco guitarra, depois de anos de projeto indo e vindo!
Tocaremos com o Siete Armas e o Ordinaria Hit no Espaço Impróprio. O evento contará ainda com uma intervenção de pintura ao vivo da Mandy Mussi.
E olha só: SEREMOS A PRIMEIRA BANDA!
Portanto, cheguem cedo!
O show está marcado pra 18h, então no máximo às 19h estaremos no palco. E isso é muito sério! Atraso de cinco horas em show é coisa que ninguém merece.
Pra quem não conhece o som das bandas (a gente ainda não tem nada gravado):
Ordinaria Hit – www.myspace.com/ordinaria
Siete Armas – www.myspace.com/sietearmas
Pra quem não conhece a Mandy Mussi: www.flickr.com/thedrummaqueen
O cartaz do show você pode ver aqui: http://img.photobucket.com/albums/v415/mandioca/cartaz2410.jpg
Resumindo:
Cinco | Siete Armas | Ordinaria Hit (tocando nessa ordem!)
+ intervenção de Mandy Mussi
sábado – 24/10 – 18h
R$ 5,00
Espaço Impróprio – Rua Dona Antônia de Queiroz, 40 – próximo ao Shopping Frei Caneca
Venda de comida vegan e bebidas
Vejo vosês lá!
Abraços,
Danilo (ou Mandioca).

Amigos e amigas,

é sabado o primeiro show da Cinco, a banda meio guitar, meio punk em que toco guitarra, depois de anos de projeto indo e vindo!

Tocaremos com o Siete Armas e o Ordinaria Hit no Espaço Impróprio. O evento contará ainda com uma intervenção de pintura ao vivo da Mandy Mussi.

E olha só: SEREMOS A PRIMEIRA BANDA!

Portanto, cheguem cedo!

O show está marcado pra 18h, então no máximo às 19h estaremos no palco. E isso é muito sério! Atraso de cinco horas em show é coisa que ninguém merece.

Pra quem não conhece o som das bandas (a gente ainda não tem nada gravado):

Ordinaria Hit – www.myspace.com/ordinaria

Siete Armas – www.myspace.com/sietearmas

Pra quem não conhece a Mandy Mussi: www.flickr.com/thedrummaqueen

O cartaz do show você pode ver aqui: http://img.photobucket.com/albums/v415/mandioca/cartaz2410.jpg

Resumindo:

Cinco | Siete Armas | Ordinaria Hit (tocando nessa ordem!)

+ intervenção de Mandy Mussi

sábado – 24/10 – 18h

R$ 5,00

Espaço Impróprio – Rua Dona Antônia de Queiroz, 40 – próximo ao Shopping Frei Caneca

Venda de comida vegan e bebidas

Vejo vocês lá!

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