kadj oman

SS Decontrol*

Outubro 27, 2009 · 5 Comentários

Terça-feira, 27 de outubro de 2009.

Após um agradável final de semana estendido, saio – atrasado – para trabalhar.

O relógio marca já 7h25.

Ao fechar a porta de meu apartamento, no primeiro andar, começo a escutar ao longe gritos de desespero.

Apuro a audição para descobrir de onde vem. Parecem vir de cima, e se aproximando.

Passo pelo elevador para pegar a escada – afinal, só imbecis descem do 1º andar ao térreo de elevador – e percebo que é de lá que vem os sons de desespero.

Ainda não são cognitíveis as palavras berradas por, ao que parecia, uma mulher.

Num timing perfeito, chegamos ao hall de entrada do prédio juntos. Vejo a porta do elevador se abrir e de lá sair a dita cuja, 30 anos no máximo, aos berros:

- AAAAAAAAAAAAAAARGH! QUEM FEZ ISSO EM VOCÊ??? QUEM FEZ?!?!?! VAMOS PRA POLÍCIA AGORA!!!

Imagino a cena: a namorada – afinal, vivo próximo ao Largo do Arouche, casais gays são tão comuns quanto os héteros – chegando em casa cheia de hematomas.

O porteiro se aproxima, assustado.

De dentro do elevador, uma voz de criança quase chora:

- Não, mãe, vamos subir, mãe!

Teria sido o pai o espancador?

A mãe, em profundo desespero, deixa o celular cair no chão. Em dúvida entre apanhá-lo e tentar puxar a filha para fora do elevador, esta escapole e, com a ajuda do hábil porteiro, fecha a porta do mesmo. A mãe se vira para ele:

- QUAL O TELEFONE DA POLÍCIA? QUAL O TELEFONE DA POLÍCIA???

- Não sei, não sei.

Então, ela se vira para mim:

- QUAL O TELEFONE DA POLÍCIA, MOÇO?

O porteiro me olha com uma cara de “não faça isso, amigo”:

Eu:

- Não sei… não sei.

A mulher se volta pro porteiro, e de repente a tragédia familiar se desfaz:

- ELA COLOCOU UM ALARGADOR!!! ESSA MENINA TEM SÓ 12 ANOS, DAQUI A POUCO APARECE GRÁVIDA!!! ELA VAI PRA FEBEM!!!

- Mas quem deixou?

- AH, EU NÃO SEI! ESSA MENINA VAI APANHAR! EU VOU ESPANCAR ELA! VOU MATAR!!!

Então, tentando estabelecer a ligação entra um alargador, a FEBEM e a polícia em meio ao costumeiro sono matinal, desço as escadas com certa dose de desdém e vergonha alheia por tamanho ESCARCÉU ÀS 7H DA MANHÃ.

Não sem lamentar antecipadamente pela surra que a pobre menina estava prestes a tomar simplesmente por querer ser como as outras de sua idade, o provável escândalo na loja do irresponsável que colocou o alargador – se é que ela não o fez sozinha em casa com a ajuda de algum/a amigo/a ou da internet – e o desconforto vindouro nas próximas vezes em que cruzar com a mãe pelo prédio.

E me vou para o trabalho.

Desvinculado da necessidade do café para acordar depois daquilo tudo, tomo o ônibus para o Vale do Anhangabaú ao som de Cartola imaginando a cena:

- Alô, e da Polícia? Minha filha de 12 anos colocou um alargador, vocês poderiam por gentileza vir até aqui e levá-la para a FEBEM depois que eu terminar de espancá-la?

Pensando bem, eu deveria ter dado o telefone. Vai que a polícia, num (raro) ato de bom senso, não leva a mãe pra arejar a cabeça…

Tem gente – muita – que não deveria reproduzir.

***

*SS Decontrol, ou SSD, ou ainda Society System Decontrol, foi uma banda punk que tocava hardcore em Boston na década de 80 cujo nome e a agressividade da música foram as primeiras coisas que me vieram à cabeça ao sair pela portaria do prédio.

→ 5 ComentáriosCategorias: centro · cotidiano · trabalho
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É sábado!

Outubro 22, 2009 · Deixe um comentário

Amigos e amigas,
é sabado o primeiro show da Cinco, a banda meio guitar, meio punk em que toco guitarra, depois de anos de projeto indo e vindo!
Tocaremos com o Siete Armas e o Ordinaria Hit no Espaço Impróprio. O evento contará ainda com uma intervenção de pintura ao vivo da Mandy Mussi.
E olha só: SEREMOS A PRIMEIRA BANDA!
Portanto, cheguem cedo!
O show está marcado pra 18h, então no máximo às 19h estaremos no palco. E isso é muito sério! Atraso de cinco horas em show é coisa que ninguém merece.
Pra quem não conhece o som das bandas (a gente ainda não tem nada gravado):
Ordinaria Hit – www.myspace.com/ordinaria
Siete Armas – www.myspace.com/sietearmas
Pra quem não conhece a Mandy Mussi: www.flickr.com/thedrummaqueen
O cartaz do show você pode ver aqui: http://img.photobucket.com/albums/v415/mandioca/cartaz2410.jpg
Resumindo:
Cinco | Siete Armas | Ordinaria Hit (tocando nessa ordem!)
+ intervenção de Mandy Mussi
sábado – 24/10 – 18h
R$ 5,00
Espaço Impróprio – Rua Dona Antônia de Queiroz, 40 – próximo ao Shopping Frei Caneca
Venda de comida vegan e bebidas
Vejo vosês lá!
Abraços,
Danilo (ou Mandioca).

Amigos e amigas,

é sabado o primeiro show da Cinco, a banda meio guitar, meio punk em que toco guitarra, depois de anos de projeto indo e vindo!

Tocaremos com o Siete Armas e o Ordinaria Hit no Espaço Impróprio. O evento contará ainda com uma intervenção de pintura ao vivo da Mandy Mussi.

E olha só: SEREMOS A PRIMEIRA BANDA!

Portanto, cheguem cedo!

O show está marcado pra 18h, então no máximo às 19h estaremos no palco. E isso é muito sério! Atraso de cinco horas em show é coisa que ninguém merece.

Pra quem não conhece o som das bandas (a gente ainda não tem nada gravado):

Ordinaria Hit – www.myspace.com/ordinaria

Siete Armas – www.myspace.com/sietearmas

Pra quem não conhece a Mandy Mussi: www.flickr.com/thedrummaqueen

O cartaz do show você pode ver aqui: http://img.photobucket.com/albums/v415/mandioca/cartaz2410.jpg

Resumindo:

Cinco | Siete Armas | Ordinaria Hit (tocando nessa ordem!)

+ intervenção de Mandy Mussi

sábado – 24/10 – 18h

R$ 5,00

Espaço Impróprio – Rua Dona Antônia de Queiroz, 40 – próximo ao Shopping Frei Caneca

Venda de comida vegan e bebidas

Vejo vocês lá!

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A igualdade legal enquanto retórica da exploração

Outubro 19, 2009 · 1 Comentário

A pedido de uma amiga, escrevi um comentário sobre coluna do ministro da Igualdade Racial Edson Santos publicada no jornal O Globo de hoje.

Meu comentário foi publicado no excelente blog “Universidade para Quem?”.

Reproduzo abaixo.

A igualdade legal enquanto retórica da exploração
por Kadj Oman
Edson Santos, ministro da Igualdade Racial, não peca por algum tipo de ingenuidade em seu texto “Nabuco errou”, publicado na edição de 17 de outubro deste ano no jornal O Globo. Ao contrário: o discurso embutido em sua análise da desigualdade racial no Brasil desde a abolição da escravatura até hoje é exatamente o esperado de um representante do governo.
O texto, bem escrito e fundamentado, aponta para as brechas históricas dos antigos governos em resolver ou diminuir o problema do racismo no Brasil. E faz isso muito bem. Seu problema consiste na análise final de que o atual debate sobre o Estatudo da Igualdade Racial, projeto de lei que tramita há mais de década pelas diversas instâncias do Legislativo, é “a mais importante ferramenta” para alcançar “não apenas a igualdade formal dos direitos, mas a igualdade real das oportunidades”. A começar por acreditar – propositalmente – que uma medida legal, de cima para baixo, em forma de lei, sobre a qual a imensa maioria da população tem informação ou acúmulo de debate nulo, pode realmente por fim à prática do racismo.
É claro que, se por um lado, a aprovação do Estatuto colocaria à disposição da população negra – e cigana, indígena, oriental… – um importantíssimo dispositivo legal para combater judicialmente a discriminação, colocar tal dispositivo como determinante para o fim de uma prática que faz parte de relações centenárias cristalizadas cotidianamente só não é ilusão por estar vindo de alguém que representa o discurso oficial parlamentar e institucional. Se as leis fossem cumpridas no Brasil, há muito teríamos uma reforma agrária real e profunda, pra dizer um mínimo – e sabemos que não é isso que acontece.
Mas o pior na argumentação do texto do ministro não é nem essa crença legalista. É a idéia de que pode haver uma “igualdade real de oportunidades” em uma sociedade de classes baseada na exploração do trabalho. A aprovação e posterior cumprimento do que está disposto no Estatuto da Igualdade Racial levaria as empresas à obrigação de respeitar igualmente os direitos de trabalhadores negros e brancos, mas não acabaria com a tensão social entre estes – continuariam em uma luta mortal pela manutenção de seu posto de trabalho, ou seja, pela manutenção de sua condição de explorado. A igualdade de oportunidades, então, não passa de retórica que serve para naturalizar a competição por emprego como intrínseca à vida social. Ao colocar o respeito legal igual a cidadãos de todas as etnias, coloca-se o foco em um conflito que iguala a todos na miséria, e não na fortuna.
Um Estatuto da Igualdade Racial que buscasse realmente qualquer igualdade real, portanto, só poderia partir de quem sofre com a desigualdade. O que não nos impede de dizer que, hoje, a aprovação do Estatuto tal como é significa um avanço – mesmo que esse avanço seja do capital em direção a outro território onde os imperativos legais ainda lhe permitam explorar os “diferentes” – imigrantes ilegais, por exemplo – ainda mais profundamente do que explora os “normais”.

A igualdade legal enquanto retórica da exploração

por Kadj Oman

Edson Santos, ministro da Igualdade Racial, não peca por algum tipo de ingenuidade em seu texto “Nabuco errou”, publicado na edição de 17 de outubro deste ano no jornal O Globo. Ao contrário: o discurso embutido em sua análise da desigualdade racial no Brasil desde a abolição da escravatura até hoje é exatamente o esperado de um representante do governo.

O texto, bem escrito e fundamentado, aponta para as brechas históricas dos antigos governos em resolver ou diminuir o problema do racismo no Brasil. E faz isso muito bem. Seu problema consiste na análise final de que o atual debate sobre o Estatudo da Igualdade Racial, projeto de lei que tramita há mais de década pelas diversas instâncias do Legislativo, é “a mais importante ferramenta” para alcançar “não apenas a igualdade formal dos direitos, mas a igualdade real das oportunidades”. A começar por acreditar – propositalmente – que uma medida legal, de cima para baixo, em forma de lei, sobre a qual a imensa maioria da população tem informação ou acúmulo de debate nulo, pode realmente por fim à prática do racismo.

É claro que, se por um lado, a aprovação do Estatuto colocaria à disposição da população negra – e cigana, indígena, oriental… – um importantíssimo dispositivo legal para combater judicialmente a discriminação, colocar tal dispositivo como determinante para o fim de uma prática que faz parte de relações centenárias cristalizadas cotidianamente só não é ilusão por estar vindo de alguém que representa o discurso oficial parlamentar e institucional. Se as leis fossem cumpridas no Brasil, há muito teríamos uma reforma agrária real e profunda, pra dizer um mínimo – e sabemos que não é isso que acontece.

Mas o pior na argumentação do texto do ministro não é nem essa crença legalista. É a idéia de que pode haver uma “igualdade real de oportunidades” em uma sociedade de classes baseada na exploração do trabalho. A aprovação e posterior cumprimento do que está disposto no Estatuto da Igualdade Racial levaria as empresas à obrigação de respeitar igualmente os direitos de trabalhadores negros e brancos, mas não acabaria com a tensão social entre estes – continuariam em uma luta mortal pela manutenção de seu posto de trabalho, ou seja, pela manutenção de sua condição de explorado. A igualdade de oportunidades, então, não passa de retórica que serve para naturalizar a competição por emprego como intrínseca à vida social. Ao colocar o respeito legal igual a cidadãos de todas as etnias, coloca-se o foco em um conflito que iguala a todos na miséria, e não na fortuna.

Um Estatuto da Igualdade Racial que buscasse realmente qualquer igualdade real, portanto, só poderia partir de quem sofre com a desigualdade. O que não nos impede de dizer que, hoje, a aprovação do Estatuto tal como é significa um avanço – mesmo que esse avanço seja do capital em direção a outro território onde os imperativos legais ainda lhe permitam explorar os “diferentes” – imigrantes ilegais, por exemplo – ainda mais profundamente do que explora os “normais”.

Kadj Oman, 27, é professor de Geografia e militante anarquista

→ 1 ComentárioCategorias: anarquismo · política
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Aqui tem um bando de louco

Outubro 2, 2009 · 4 Comentários

Repartição pública é uma coisa linda.
Agora há pouco o louco aqui do meu setor*, que entre outras coisas perambula pelas imediações do Anhangabaú entre 7h e 8h com uma maleta na mão e tem o dom de deixar TUDO que toca engordurado, estava colocando as cartas num saco plástico pra levar ao Correio.
Enquanto isso, ele gemia sozinho falando “vamos colocar a camisinha”.
“Devagar senão estoura, e aí AS CARTAS VIRAM JORNAL”.
Sério.
Muito sério.
Nem com terapia eu esqueço essa cena.
Aí a tia crente que lava as mãos 15x por minuto ficou reclamando “que é isso, João, fala sério, FICA FALANDO PORNOGRAFIA aqui dentro”.
E pra completar os estagiários racham o bico e ficam imitando com processos na mão o louco gemendo.
Dentro dos processos, as carteiras de trabalho de gente que trabalhou a vida toda pra… isso.
Mas voltemos ao louco.
Passou a vida sendo chutado de um lado pro outro aqui dentro.
No pouco tempo que está aqui no meu setor (menos de um mês), já realizou proezas como ficar clicando incessantemente no ícone da impressora no Internet Explorer SEM SABER PRA QUÊ SERVIA, o que resultou em 210 páginas impressas com… a capa do site da Previdência Social, e quase sair na mão com o segurança do posto bancário que tem aqui porque este o chamou de corinthiano, sendo que ele É CORINTHIANO “mas não admite que chamem ele de corinthiano fora do jogo, porque ele sabe o que quer dizer, e que o Ronaldo jogou mal ontem, mas ele não tem culpa, cê tá me entendendo?”.
Conta sempre uma história de que ele ia fazer Medicina, mas teve que fazer uma operação e FALTOU OXIGÊNIO NO CÉREBRO e aí ficou assim.
Dizem que já morou dentro do carro uma época.
E às 8h da manhã hoje estava conjecturando sobre ele ser como o Cassius Clay, que “luta sorrindo”, porque ele “tem 25 anos de serviço e nunca brigou com ninguém, cê tá me entendendo?”.
O pior é que ele não é daqueles loucos engraçados, é dos loucos chatos. Então a gente manda ele fazer serviço externo toda hora.
No dia que eu disse “amanhã você vai no Correio”, ele ficou meio transtornado, meio excitado. Voltou no dia seguinte com uma sacola plástica do Extra dizendo “eu trouxe isso pra carregar as cartas, PRA VOCÊ VER O MEU PERFIL, cê tá me entendendo?”.
Sacola que virou saco plástico que virou camisinha.
Que é pras cartas não virarem jornal.
“Devagar, ouuun, devagar… assiiiiiiim…”
Socorro.

Repartição pública é uma coisa linda.

Agora há pouco o louco aqui do meu setor, que entre outras coisas perambula pelas imediações do Anhangabaú entre 7h e 8h com uma maleta na mão e tem o dom de deixar TUDO que toca engordurado (o que leva as tias do trabalho a andarem pra lá e pra cá com um álcool em gel em mãos a toda hora limpando teclado, mouse, maçaneta da porta, telefone, tudo), estava colocando as cartas num saco plástico pra levar ao Correio.

Enquanto isso, ele gemia sozinho falando “vamos colocar a camisinha”.

“Devagar senão estoura, e aí AS CARTAS VIRAM JORNAL”.

Sério.

Muito sério.

Nem com terapia eu esqueço essa cena.

Aí a tia crente que lava as mãos 15x por minuto (lavava “só” 5 antes do louco chegar) ficou reclamando “que é isso, João, fala sério, FICA FALANDO PORNOGRAFIA aqui dentro”.

E pra completar os estagiários racham o bico e ficam imitando com processos na mão o louco gemendo.

Dentro dos processos, as carteiras de trabalho de gente que trabalhou a vida toda pra… isso.

Mas voltemos ao louco.

Passou a vida sendo chutado de um lado pro outro aqui dentro.

No pouco tempo que está aqui no meu setor (menos de um mês), já realizou proezas como ficar clicando incessantemente no ícone da impressora no Internet Explorer SEM SABER PRA QUÊ SERVIA, o que resultou em 210 páginas impressas com… a capa do site da Previdência Social, e quase sair na mão com o segurança do posto bancário que tem aqui porque este o chamou de corinthiano, sendo que ele É CORINTHIANO “mas não admite que chamem ele de corinthiano fora do jogo, porque ele sabe o que quer dizer, e que o Ronaldo jogou mal ontem, mas ele não tem culpa, cê tá me entendendo?”.

Conta sempre uma história de que ele ia fazer Medicina, mas teve que fazer uma operação e FALTOU OXIGÊNIO NO CÉREBRO e aí ficou assim.

Dizem que já morou dentro do carro uma época.

E às 8h da manhã hoje estava conjecturando sobre ele ser como o Cassius Clay, que “luta sorrindo”, porque ele “tem 25 anos de serviço e nunca brigou com ninguém, cê tá me entendendo?”.

O pior é que ele não é daqueles loucos engraçados, é dos loucos chatos. Então a gente manda ele fazer serviço externo toda hora.

No dia que eu disse “amanhã você vai no Correio”, ele ficou meio transtornado, meio excitado. Voltou no dia seguinte com uma sacola plástica do Extra dizendo “eu trouxe isso pra carregar as cartas, PRA VOCÊ VER O MEU PERFIL, cê tá me entendendo?”.

Sacola que virou saco plástico que virou camisinha.

Que é pras cartas não virarem jornal.

“Devagar, ouuun, devagar… assiiiiiiim…”

Socorro.

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Basílio lá em casa

Setembro 29, 2009 · Deixe um comentário

Achei a reportagem em que levaram o Basílio na minha casa. Mostram meus bichos (Preta, Branca e Boquita), falam das cinzas de meu pai que joguei no Pacaembu e depois ele aparece de surpresa lá.

Tem também um cara que tatuou o Túlio Maravilha (e levaram o Túlio no estúdio de surpresa enquanto ele tatuava) e outro que tatuou o Rogério Ceni.

E tem ainda um que ia tatuar o Fernandão mas desistiu porque ele foi pro Goiás, hahaha.

Vejam:

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A Zica do Pacaembu

Setembro 22, 2009 · Deixe um comentário

Domingo, saindo do Pacaembu com uma amiga com a cabeça cheia pela goleada sofrida, coisa que há muito não via acontecer em casa, reparamos num amontoado de gente apontando pra um cantinho junto à parede. Passo olhando pra ver o que é e qual não foi minha surpresa ao constatar que havia um pequeno gato acuado junto a uma dobra no muro.

Agachei e tentei tocá-lo, mas o bichano estava com muito medo e tentava me atacar. Aos poucos, fui ganhando sua confiança, e fiquei ali uns bons 15 minutos sentado no chão fazendo-lhe carinho. Enquanto isso, esperava o estádio esvaziar e protegia o pequeno animal da curiosidade de crianças pequenas – que poderiam facilmente ter tomado uma bela unhada – e de marmanjos e donzelas que exprimiam, cada qual a seu tom de voz, “oooooooun, um gatinho”.

Uma delas, inclusive, alertou para o fato de que provavelmente era uma gatinha, uma vez que tinha três cores e machos com três cores são raríssimos. Pedi a minha amiga para encontrar uma caixa de papelão em alguma das lanchonetes do estádio e, com o Pacaembu já quase vazio, me arrisquei para pegar a gatinha pelo cangote e colocá-la na caixa.

Rumando com a bichana em direção ao último portão aberto do estádio, disse à minha amiga:

- Essa já tem nome: Zica. Tirei a Zica do Pacaembu.

Cheguei em casa com minha nova companheira e tive que trancá-la no banheiro, uma vez que não sabia a reação que teriam Branca e Boquita, as gatas, e Preta, a cachorra que já tenho por aqui. Tratei de arrumar-lhe uma caixinha com pano, comida, água e um pouco da areia das outras gatas, e fui ao computador ver se encontrava algum amigo veterinário online para umas dicas.

Nesse meio tempo, nenhum veterinário online, consegui, mesmo sem ter a intenção definida de doá-la, duas potenciais donas para a Zica. E já planejava o atraso no trabalho no dia seguinte para levá-la ao veterinário.

Só que, como todo torcedor apaixonado está cansado de saber, zica não se controla tão fácil assim.

Do quarto, ouvi um barulho na área e fui ver o que passava. Era ela.

Tinha forçado o trinco quebrado da janela do banheiro, a qual eu tinha deixado meio aberta para que entrasse ar, e fuçava pela área amedrontada pela Preta, que não queria mais do que cheirá-la, e pela novidade do lugar desconhecido.

Me aproximei e a Zica pulou na janela. Como já tenho animais em casa, entretanto, as janelas tem rede. Mas Zica é pequena e esguia e se enfiou entre o vidro e a rede propriamente dita. Tive que abrir a janela para tentar pegá-la, e com o movimento, por mais que eu tenha me esforçado em ser sutil, ela se assustou e passou a cabeça pela rede. Ao sentir-se presa, forçou o resto do corpo e foi-se telhadinho afora. Entrou pela janela do depósito da loja de peças automotivas que fica ao lado do meu prédio, a única saída possível daquele telhado.

Aborrecido, dormi mal, pensando apenas em bater na loja ao lado no dia seguinte pela manhã na esperança de reaver a Zica. Não poderia deixá-la correndo o risco de retornar às ruas – vai que ela volta pro Pacaembu…

Mas pela manhã descobri que o depósito tinha trocentas caixas e que a Zica provavelmente estaria perdida ali no meio. Deixei meu telefone e fui trabalhar. Só conseguia pensar na pobre gatinha assustada.

Quase no final do expediente, meu telefone toca e, pela primeira vez nas últimas 6 ligações, não é minha mãe: é o porteiro do prédio dizendo que encontraram a Zica, mas que esta fugiu de volta pro telhado e se enfiou numa caixa d’água abandonada.

Voei pra casa para ver aonde tinha se enfiado a gatinha e constatei que dali era impossível tirá-la. Por onde entrara não cabia um corpo humano, nem o meu, magro que sou. E me resignei a esperar que saísse, talvez retornasse à loja, e finalmente fosse capturada.

Até que a amiga que encontrou a Zica junto comigo ligou e disse que sua mãe tinha uma armadilha para gatos. Consistia numa gaiola em que jazia dependurado um pequeno gancho onde se podia prender um pedaço de carne de modo que, quando o gato o mordesse e puxasse, a gaiola se fecharia. Içei a armadilha terraço do prédio abaixo até o telhadinho e deixei ela lá.

De 17h30 até 22h ouvia a gata miar. Devo ter incomodado o porteiro pedindo para entrar no porão do prédio, onde ela dificilmente estaria mas podia estar, umas quinze vezes, e nada. De 20 em 20 minutos olhava pela janela e a carne estava lá, pendurada. Precisava me distrair.

Fui ver televisão, entoando mentalmente como se fosse escanteio para o adversário no Pacaembu:

- Sai, Zica! Sai daí!

Até que, telefone em punhos, enquanto conversava com uma amiga aniversariante*, vejo a Preta correr até a área e escuto um miado mais forte. Fui olhar e era a Zica: tinha caído na armadilha!

A fome havia vencido o medo da bichana, assim como a fé da torcida (quase)sempre vence as cabeçadas à meta de nosso arqueiro durante os jogos.

Subi com ela de volta ao banheiro e dessa vez fechei bem a janela. Não só a de lá mas todas as da casa. E tratei de alimentar a danada, que com a comida ficou um pouco menos arisca e até me deixou pegá-la no colo.

DSC04827

Ainda não sei se vou ficar com ela, vai depender da aceitação do resto da população animal que comigo habita. De certa forma seria interessante que fosse domada e por aqui ficasse. Conviver com a Zica antecipadamente seria um bom treinamento prévio para a Libertadores 2010. Mas caso não dê certo, com certeza a gatinha irá para as mãos de alguma companheira de arquibancada, das duas que já se interessaram pela bichana.

Porque com a Zica, você sabe, tem-se que ter muito cuidado.

Ainda mais às vésperas do centenário.

E ninguém melhor pra cuidar da Zica do que quem já está mais do que acostumado com isso, anos e anos fazendo parte da massa sofredora que não à toa é conhecida a todo lado por Fiel Torcida.

***

*A Zica do Pacaembu, em homenagem à aniversariante Renata, que comigo falava ao telefone quando a bichana finalmente caiu na armadilha, levará seu nome como sobrenome. De forma que nos próximos jogos, no lugar do “sai, zica!” de sempre, gritarei com toda a certeza do mundo de que a bola irá pela linha de fundo:

- Sai, Renata!

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Presente de aniversário

Setembro 3, 2009 · 13 Comentários

Completo hoje meu primeiro aniversário órfão. Mas não, esse não será um texto lamentando isso.

Ao contrário.

Será um texto tentando aprender a lidar com isso.

Pra ajudar, como sempre, há o Corinthians.

Que completou 99 anos dois dias antes de mim e que, fazendo escadinha, teve jogo ontem em casa, contra o Santos.

Um Corinthians que não é mais o mesmo de três meses atrás, é verdade. Mas que continua tendo a mesma raça e espírito de Corinthians que o Mano Menezes recuperou desde que chegou por estes lados.

E como aniversário a gente comemora em casa e com quem se gosta, fui ao Pacaembu mais uma vez encontrar a “família”.

Dadas as circunstâncias, era um jogo diferente, pra mim. Mais inflexivo, reflexivo, contemplativo. De tal forma que não me importou muito o gol do Santos aos 5 minutos do segundo tempo. Alguma coisa me dizia que aquele jogo era meu – nosso, pai.

Aos 13, perdemos Mano, expulso por reclamação. Olhei para o banco do time mandante no Pacaembu e percebi o vazio que tomava conta daquele espaço. Em campo, o time refletia a perda, e relembrava 2007, com bicos para o alto para um desesperador Souza, jogando com seu pai internado em estado grave, tentar fazer o que até hoje não fez: resolver.

Mirei mais uma vez o banco de reservas do Corinthians e percebi uma movimentação diferente. Talvez fosse o álcool das duas latinhas de cerveja consumidas de estômago quase vazio antes do jogo, não sei. Mas o fato é que eu via subir do pequeno jardim atrás do banco uma estranha nuvem, que formava uma imagem, ainda indecifrável. Súbito, passei também a escutar uma voz familiar, gritando, esbravejando com o time. E então tudo fez sentido:

meu pai assumira o comando.

Das cinzas ali esparzidas meses atrás, erguia-se a memória de um gigante em minha vida.

Alguém que me ensinou a torcer apaixonadamente, a pular e gritar nas vitórias, mas também a aprender com o sofrimento nas derrotas.

Que me ensinou que um estádio de futebol comporta muito mais que partidas. Celebra festas, encontros, desencontros. Comemora a vida.

O Corinthians percebeu que o comando, agora, não vinha mais do banco, vinha das arquibancadas. Da história. Da mística. E a fez valer.

De virada, no finalzinho, com um gol chorado e outro improvisado – mas de uma improvisação perfeita.

Daquelas que fazia meu pai correr à janela e soltar um raro “goool!”, numa alegria meio contida, de quem sabe que festa, mesmo, só depois do apito final.

A nação alvinegra, em êxtase, explodia em mais um “parabéns pra você”.

Mas eu não conseguia me mexer.

Abraçado à bandeira, olhava para o banco. Para a história. A minha história.

Que corria alegre à minha frente, em preto e branco, desde o primeiro bolo de aniversário, com a velinha que eu quis apagar com a cabeça.

O jogo acabou, e tomei o rumo de casa. Por mais que casa, desde 25 de janeiro, nunca mais tenha significado o mesmo.

Nos arredores do Pacaembu, ao som do buzinaço alegre da família que comemorava, a voz que tantas vezes tive ao meu lado quando era difícil até mesmo respirar me dizia, tranquila:

“Parabéns”.

E me fazia adentrar meu 28º ano de vida com aquela sensação de quem sabe algo que ninguém mais pode saber, algo só seu: meu pai ganhou esse jogo pra gente.

Meu melhor presente de aniversário.

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Aniversário do Mandioca vol. II – MICARETA PUNK!

Agosto 28, 2009 · 1 Comentário

Alô você!

Aqui quem vos fala é seu querido amigo Mandioca, como vai?

Cansado do trabalho? Entediado? Torcendo pra pegar uma gripe suína e ter dez dias de folga? De saco cheio mesmo?

Não fique assim, está chegando a melhor semana do ano: a semana do ANIVERSÁRIO DO MANDIOCA!

Pra quem não lembra, o Mandioca não costuma beber muito durante o ano. Sabem como é, um cara sério, honesto, trabalhador, CENTRADO NA VIDA e nas suas muuuuuuitas (ir)responsabilidades.

Mas é só chegar setembro que esse garotinho maroto se solta todinho!

E se no ano passado ele tomou AQUELE porre – se você foi, você lembra e provavelmente faz parte da comunidade do Orkut “Mandioca bêbado – eu fui!’; se não foi, pode ler e ver fotos sobre aqui: http://manihot.wordpress.com/2008/09/07/bebemoramos/ – esse ano ele promete repetir a dose em escala 7 (sete) vezes maior!

COMO ASSIM, MANDIOCA? VOCÊ VAI ENTRAR EM COMA ALCOÓLICO???

Não, gente. Lembrem-se, eu sou geógrafo, e como bom geógrafo eu sei PLANEJAR. E planejando eu descobri que eu não preciso beber só no dia do meu aniversário, eu posso estender isso por toda uma semana! Sendo assim, você terá 7 (sete) dias pra me cumprimentar, então não vai ter desculpa que cole caso isso não aconteça – até porque, como eu não sou moderno nem preibói, não marquei nada em nenhum lugar caro ou, como diria o amigo Boça, “cheio de gente que penteia o cabelo igual pêlo de cachorro”.

Então, vamos lá. Prestem atenção na agenda do Aniversário do Mandioca vol. II – A MICARETA PUNK (a.k.a. visita monitorada aos bares do centro de São Paulo):

- Na terça, dia 1º de setembro, a comemoração já começa estendida: 25 MILHÕES DE PESSOAS estarão comemorando o Dia da Criação do Mundo, a.k.a ANIVERSÁRIO DO SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA. Como além de geógrafo eu sou professor (sim, eu trabalho, eu não “só” dou aula), terça estarei na USP lecionando. Finda a aula, no entanto, me encaminharei à lanchonete da FFLCH (onde se vende cerveja) e de lá pro Chivito, na Vila Madalena, pra depois ir pra onde me levarem (de preferência, pra casa, por favor).

- Na quarta, dia 02, véspera da data oficial mesmo, a comemoração ainda estará ecoando o Dia da Criação do Mundo: comparecerei ao Pacaembu para ver mais um baile doCORINTHIANS sobre o santos. Pena que o Fábio Costa não vai estar lá pro Ronaldo tirar o chapéu pra ele (ahn? ahn? sacaram?). O jogo é 21h50, mas às 21h já estarei na porta do templo orando (ou seja, bebendo).

- Na quinta, dia 03, completo 27 invernos (porque a primavera só começa dia 21 e é coisa de florzinha). E pra celebrar, estarei no bar Cuca Ideal, aquele  na Rua Augusta na frente do Ibotirama que não é o Vitrine, enchendo a cara de leve – que sexta eu trabalho E dou aula, né, gente.

- Na sexta, dia 04, DIA DE CONSOLIDAR A TRADIÇÃO: TODOS ao bar do Zé, na Vila Madalena, para RELEMBRAR os acontecimentos do ano passado, ou seja, o Mandioca caindo pelas tabelas em Pinheiros (como, repetindo, você pode ler e ver aqui: http://manihot.wordpress.com/2008/09/07/bebemoramos/).

- No sábado, dia 05, é dia de Brasil x Argentina. E como Mandioca e futebol são indissociáveis, aguardo a todos para HINCHAR pelo lado que for (confesso que estou indeciso) no The Pub, um pub (dã!) que fica na Rua Augusta e é decorado com apetrechos de Liverpool – afinal, quer lugar mais propício pra assistir football do que um pub inglês?

- No domingo, dia 06, se você pensava que não rolaria encher a cara porque afinal segunda é dia de trabalhar, LEDO ENGANO: 2009 me brindou com um feriado emendado e, sendo assim, PODEREI CONTINUAR O ESTADO DE EMBRIAGUEZ COMEÇADO NO DIA 01 (depois de almoçar com a família, claro). Para tanto, lá pelas 21h estarei no A Gruta bar, que fica ali do lado daquele Holiday Inn onde antes era o Estadão, no metrô Anhangabaú, um bar descendo as escadas ali no começo da Major Quedinho onde de domingo rola um blues ao vivo, sinuca e XADREZ – acreditem, xadrez bêbado é tão bom que deveria ser esporte olímpico.

- E no dia 07 de setembro, segunda, FERIADO, Dia da Lavadeira (só tem tanque e trouxa na rua), honrando a data, estarei no Espaço Impróprio, na Rua Dona Antônia de Queiroz, ali perto do Shopping Frei Caneca, porque afinal o Mandioca é punk e isso tem que ficar claro. Talvez a semana de comemoração termine, aliás, com um show da Fora de Jogo (a banda de punk rock’n'gol em que eu insisto em achar que canto - http://www.myspace.com/foradejogo) ali mesmo – falta convencer o resto da banda.

Então, amiguinhos e amiguinhas, reabasteçam o estoque de Engov porque a primeira semana de setembro promete!

E nem precisam se preocupar com presente: O MEU PRESENTE SÃO VOCÊS, AMIGUINHOS!

(momento emo)

Compareçam!

Segue a programação resumida dessa verdadeira Micareta Punk:

*terça – 01/09 - SALVE O CORINTHIANS! – USP – FFLCH – 20h – depois Chivito (Av. Heitor Penteado, 1565 – metrô Vila Madalena)

*quarta – 02/09 – Pacaembu – Corinthians x Santos – 21h

*quinta – 03/09 – Cuca Ideal – R. Augusta, 1216 – bar em frente ao Ibotirama – 20h

*sexta – 04/09 – Bar do Zé – Cardeal Arcoverde x Simão Álvares – 21h

*sábado – 05/09 – The Pub – Rua Augusta, 576 – com Brasil x Argentina na telinha! – 20h

*domingo – 06/09 – almoço com a família + A Gruta Bar – Major Quedinho, 112 – do lado do Holiday Inn onde antes era o Estadão, ali no metrô Anhangabaú – 20h

*segunda – 07/09 – Impróprio – Fora de Jogo? – 19h

Beijos NO CORAÇÃO,

Mandioca (ou Danilo para os menos íntimos).

P.S.: SIM, você pode levar quem você quiser. Não há intrusos no mundo do Mandioca. E chamem quem eu esqueci SEM REMORSOS.

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Centro em chamas

Julho 31, 2009 · 4 Comentários

Estou mudando de casa e hoje fui limpar o apartamento novo, que fica no prédio em frente.

Aproveitei pra trocar o segredo da fechadura.

Deixei no chaveiro ali em frente aos Correios da São João e, quando fui buscar, notei algo estranho: todos os homens e mulheres de rua daquela região do centro estavam juntos na frente da agência.

Primeiro achei que estavam planejando alguma coisa, talvez um protesto, depois vi que estavam mesmo é tensos com o redor.

O chaveiro, que tinha esquecido de fazer o meu trampo, começou a fazer ali na hora e, enquanto eu esperava, entrou uma tiazinha já conhecida dele e fez uma piada com os moradores de rua.

O que se seguiu foi um pito monstruoso do chaveiro.

Ele disse pra tiazinha que era fácil brincar, mas que “a comunidade ali do bairro” estava fazendo protestos contra aquilo. Porque não aguentavam mais a Polícia empurrando eles de um lado pro outro ali na farsa da “Nova Luz”, e queriam uma solução digna pra todos. Começou a tirar jornais e flyers noticiando e chamando pra manifestações. Disse que outro dia o comércio todo ali da região fechou as portas em protesto no meio da tarde e fez passeata.

Aí os dois ficaram discutindo, a tiazinha falando “eu alcancei meu sonho trabalhando, ninguém me deu nada, a prefeitura não tem dinheiro pra dar casa e comida pra essa gente” e o chaveiro anarquizando no “isso porque a senhora acredita na prefeitura, tem muita cidade americana que inveja o caixa que o Kassab tem, ele gasta bilhões naquela ponte ali da Berrini e deixa esse povo todo na miséria” e eu só de canto de olho nos jornais e de ouvido na conversa, pensando “eu bem que desconfiava da boininha che-guevárica que esse chaveiro sempre usa”.

Eu não tava sabendo de nada, só do fechamento das portas porque minha ex me falou, mas ela também não sabia o porquê daquilo. Parece que a TV tem passado reportagens sobre a cracolândia, que a tiazinha disse “que tem a 1 e a 2, eu vi no Datena”, e que por isso a prefeitura fica mandando a polícia empurrar os moradores de rua pra lá e pra cá.

O chaveiro dischavou (hehehe) a tiazinha até não poder mais, só no “é por isso que o Brasil é assim, ninguém sabe viver em sociedade, tem que se ajudar, essa gente tem problemas, eles também tem os sonhos deles assim como eu e a senhora”, e a tiazinha na lenga-lenga do “eu trabalhei pra ser o que sou e eu vou é mudar daqui, quem tem que fazer alguma coisa é o pessoal que vive aqui desde que nasceu, eu tô aqui só há um ano”.

Acabei voltando pra casa com a cabeça da tiazinha numa bandeja um recorte de jornal e um flyer da manifestação que rolou, e no ponto de ônibus que fica na praça da São João ali entre a Aurora e a Vitória que eu sempre esqueço o nome estavam aqueles agentes da prefeitura que limpam as ruas com aquelas mangueiras de jato ultra-forte, de cara amarrada, pouco se fodendo e molhando todo mundo no ponto, meio que numa vibe “tenho que limpar essa merda dessa praça nesse frio porque essa porra desses mendigos ficam sujando”. O recorte de jornal tinha uma foto com uma faixa onde podia-se ler “DESTINO DIGNO JÁ À POPULAÇÃO DE RUA – CADÊ O CONSELHO TUTELAR???”.

Segue abaixo a transcrição ipsis literis do chamado pra manifestação que rolou, com as partes que me chamaram a atenção em negrito:

“COMUNICADO

MORADORES – PROPRIETÁRIOS – FUNCIONÁRIOS

Você que mora na Rua dos Gusmões – Av. Rio Branco – R. Timbiras – Av. São João e adjacências, convidamos para uma manifestação, nesse quadrilátero, dia 28/07/2009 às 16:00 horas – terça-feira.

Nessa manifestação, o qual deverá durar 1 (uma) hora, em caráter pacífico e sem envolvimento político partidário, NÓS, cidadãos que conhecemos os problemas sociais existentes aqui, devemos dedicar um pouco de nosso tempo, enriquecendo-o com idéias, sugestões e atuar como um canal de negociação entre a comunidade e o poder público, para cobrar soluções e tornar a região mais agradável, valorizando assim, sua história e ocupantes.

Vamos fechar as portas de nossos comércios, apartamentos e sair às ruas ou permanecer em frente aos nossos estabelecimentos com faixas, apitos ou cartazes de cartolinas com reivindicações, em busca de melhor qualidade de vida em NOSSA REGIÃO!!!

VENHAM!!!

“ARREGACEM AS MANHAS E VENHAM TAMBÉM FAZER A DIFERENÇA!!!!!!”

Informações/ sugestões comunidadesantaefigenia@yahoo.com.br ou (11) 85128198 Rita”

Melhor que o Viva o Centro, com certeza.

E, aproveitando o post anterior sobre os af(r)etados neo-Cansei da Marginal Pinheiros esquina com a Berrini, uma iniciativa muito melhor e mais profunda no sentido de pensar o problema como um todo e não só quando a água bate na bunda.

É só comparar:

“A gente não quer empurrar eles pros vizinhos, não. Três anos atrás o pessoal ali do fundo se manifestou e a prefeitura tirou eles de lá e mandou pra cá. A gente não quer fazer a mesma coisa, a gente quer solução pra eles, eles estão na maioria doentes, vivendo na rua, não queremos que sumam com eles, queremos que eles tenham dignidade”.

(Chaveiro indignado, Santa Efigênia)

“A gente não é favelado nem estudante da USP. A maioria aqui votou no Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

(Robson Estevão Baptista, adminitrador de website(?), Movimento dos Sem-Fretado da Berrini)

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Colocando a classe média no lugar

Julho 29, 2009 · 10 Comentários

Classe média: gente que pensa e age como rico, mas recebe como pobre, se auto-negando, assim, duas vezes.

Geralmente culpada por todos, inclusive eles mesmos, pelos males do mundo.

Gente que não sabe educar suas crianças e que gosta de dar risada do povão que tem que pegar ônibus.

E que, quando tiram seus privilegiozinhos, fica atacada.

Agora, com essa lei dos fretados, colocaram os almofadinhas na mesma situação do povão, tendo que se foder pra pegar transporte coletivo.

Não que eu ache isso bom, melhor seria transporte decente e gratuito pra todo mundo, claro, mas não deixa de ter uma certa justiça poética.

Aí, essa gente, que não tem a mínima noção do que é um protesto coletivo ou do que é se organizar pra conseguir algum direito, mostra a sua cara sem pudor algum.

Vejam as pérolas que a situação provoca, em negrito:

Passageiros de fretados fecham marginal

No 1º dia da restrição, usuários com dificuldade para embarcar bloquearam também as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet

PM e CET tiveram de intervir para liberar as vias no horário de pico do trânsito, mas não houve confrontos; uma pessoa foi detida

Usuários de ônibus fretados protestam na marginal Pinheiros

DA REPORTAGEM LOCAL
DO “AGORA”
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O primeiro dia de restrição aos ônibus fretados terminou ontem com protestos e algumas das principais vias de São Paulo fechadas em pleno horário de pico do trânsito.

A marginal Pinheiros e as avenidas dos Bandeirantes e Ricardo Jafet foram interditadas no final da tarde por passageiros dos fretados que enfrentavam dificuldades para embarcar. Não houve confrontos, mas uma pessoa, que estava no protesto na av. dos Bandeirantes, chegou a ser detida -foi liberada por volta das 20h.

De acordo com dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), ontem à tarde, apesar dos fechamentos de vias, o congestionamento médio foi menor do que em outras segundas.

Na Ricardo Jafet, por exemplo, o mapa da CET, órgão da Prefeitura de São Paulo, não apontava congestionamentos.

Em nota, a prefeitura e a Secretaria de Transportes atribuíram os protestos a “uma postura intransigente de setores que se recusam a cooperar”.

A previsão para hoje é de novas manifestações. Ontem, passageiros de diferentes linhas combinavam um “apitaço” na marginal Pinheiros.
O veto ao tráfego de fretados decretado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) vale de segunda a sexta, das 5h às 21h, em uma área de 70 km2.
A restrição inclui os centros financeiros das avenidas Paulista, Brigadeiro Faria Lima e Luiz Carlos Berrini.

Pistas fechadas

A PM e fiscais da CET tiveram de intervir nos três locais de protestos, mas encontraram resistência maior na manifestação da marginal Pinheiros, que durou quase duas horas.

As nove pistas, no sentido centro, chegaram a ser interditadas por 25 minutos. Depois, os passageiros concentraram-se nas faixas locais.

A reportagem presenciou o momento em que os próprios passageiros, irritados com a demora e a desorganização para embarcar, entraram na pista e pararam o trânsito, formando uma longa fila de fretados, ônibus municipais e carros.

Na Ricardo Jafet, em frente à estação de metrô Santos-Imigrantes, os manifestantes fecharam a pista sentido centro a partir das 18h10. O trânsito só foi liberado às 18h45.

Um homem que se identificou como Renato e se disse motorista desempregado pela medida da prefeitura chegou a simular um atropelamento para fechar a única faixa que a polícia e a CET conseguiram manter liberada.

Ele ficou cerca de cinco minutos no chão, mas saiu correndo quando percebeu que o motorista do ônibus que supostamente o teria atropelado iria ser interrogado pela polícia.

A invasão da pista, incentivada pelo mesmo Renato, começou após um grupo de cerca de mil pessoas se juntar na frente da estação para aguardar a chegada dos ônibus. Na avenida, uma fila de fretados aguardava a vez de encostar para pegar os passageiros -ao menos 200 passariam pelo local.

Aos gritos de “fretado, fretado”, um grupo invadiu a pista da avenida.

Kassab chegou a ser xingado, em coro.

No meio da confusão, a auxiliar administrativa Cinthia Mochida, 32, perdeu dois ônibus com destino a Santo André (Grande São Paulo), onde mora. “O Kassab prometeu não aumentar a passagem de ônibus e agora quer dinheiro dos passageiros dos fretados”, disse ela, que ontem teve que pegar metrô e ônibus para chegar ao escritório, em Perdizes.

***

Protesto na marginal une gerentes, secretárias e analistas

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Foi o protesto dos gerentes de marketing, das secretárias executivas, dos analistas financeiros e de RH. O que se viu ontem por volta das 18h, interrompendo o trânsito na via de acesso para a marginal Pinheiros, altura do Brooklin (zona sul), tinha aparência bem diferente do típico militante de passeata. Em vez de barbas por fazer, eram homens bem escanhoados, vestindo ternos. As mulheres, em cima de saltos 5, usavam tailleurs. A polícia, chamada para restabelecer o fluxo do trânsito, ficou de olho, perfilada, mas não encostou um dedo no pessoal corporativo.

“A gente não é favelado nem estudante da USP”, disse o administrador de website Robson Estevão Baptista, para explicar a inação da PM. “A maioria aqui votou no [Gilberto] Kassab. Não dá para entender por que ele está nessa.”

Ruth Silva, analista de recursos humanos, trabalha há mais de dez anos na avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, um dos polos financeiros e de serviços de São Paulo, vizinha dali de onde ocorreu o protesto. Moradora em Santana, na zona norte da cidade, ela demora em média uma hora para fazer o percurso casa-trabalho. Ontem, demorou duas horas.

“É uma palhaçada. Os usuários dos fretados são aqueles que sempre chegam na hora, faça chuva, faça sol, tenha greve de ônibus ou de metrô. E é essa confiabilidade que o prefeito Kassab quer que a gente perca.”

Empregos

Segundo a profissional de RH, muitas empresas da região da Berrini preferem candidatos ao emprego que declaram pretender usar ônibus fretados. “Agora, com a confusão que eles criaram, o que era um fator a favor, está se tornando contra. Quero ver qual a empresa que se disporá a contratar alguém de Guarulhos ou de São Bernardo, sabendo que esse profissional ficará à mercê do transporte coletivo comum e do trânsito de São Paulo. Até na empregabilidade essa lei ridícula vai influir.”

“Fretado! Fretado!”, chegou, gritando, Isilda Scabacino, profissional de marketing. Moradora em Santo André, ela paga R$ 250 mensais para ir e voltar ao trabalho todos os dias. Antes da restrição ao tráfego dos fretados, a viagem de ida demorava duas horas. A de volta, outras duas. Ontem, foram 3,5 horas para ir. Ela chegou atrasada.

À tarde, a profissional de marketing esquadrinhava a fila de ônibus fretados no meio da via de acesso à marginal. Procurava o dela, mas nem sinal -e ele estava atrasado duas horas.

O protesto começou porque todos os ônibus que servem o pessoal da Berrini, em vez de recolherem seus passageiros em vários pontos, como ocorria antes, foram concentrados em um único local, na rua Guilherme Barbosa de Mello.

Só que o tal “bolsão” -pequeno para a demanda- logo ficou lotado. Os fretados, que chegavam para recolher seus passageiros, não conseguiam estacionar. Os que, já tendo feito o embarque, tentavam sair do bolsão, não o conseguiam. Ficavam presos no trânsito intenso da marginal.
“Você acha que está ruim agora? Espera o fim das férias escolares. Aí sim, ninguém conseguirá embarcar”, desafiava Regina Cassia Agustini, do setor financeiro de uma empresa da região da Berrini.

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